domingo, 31 de agosto de 2008

  • INDEMNIZAÇÃO PELO COLONIALISMO ITALIANO. O INICIO DA JUSTIÇA?

O acordo entre a Líbia e a Itália para este país compensar a nação líbia pelo período de colonização foi alcançado e assinado um tratado sobre a questão.

A antiga nação colonizadora irá compensar o povo líbio pelas décadas e colonização com um investimento de cinco biliões de dólares a serem aplicados em projectos de desenvolvimento.

Muammar Al Qathafi reclama, há anos, a responsabilização das antigas potências colonizadoras e a consequente indemnização dos povos africanos vítimas dos crimes e dos abusos da colonização. Este acordo é, para ele em particular, uma grande vitória, não somente pessoal mas também para o seu discurso aplicado à toda a África e cimenta uma posição de autoridade discursiva no concerto dos líderes africanos que podem e devem ver nisto um exemplo.

Muammar Al Qathafi acaba de demonstrar que é possível alcançar o que é devido sem conflito. Agora, não se pode dizer – quer as vitimas quer as antigas potencias coloniais europeias – que não é possível conseguir-se as indemnizações devidas. Podemos, com este acordo, ter assistido a um novo paradigma de plano de desenvolvimento em África; o que, a acontecer, será mais do que justo. A seu tempo – que não se deve esperar mas criar – veremos.

A Itália, num simbólico gesto de boa vontade, entregou a Vénus de Cyrene – obra de arte roubada pelos soldados italianos do tempo colonial – à Líbia. Bem, o que sei é que não verei retornar à África a imensidão de tesouros roubados, nomeadamente o obelisco retirado pelos romanos ao tempo de Karnak em Luxor, Egipto, e hoje na praça de S. Pedro em Roma, nem mesmo a imensidão de objectos que enriquecem os museus ocidentais; mas estamos perante um princípio.

Pedir desculpas pelo mal causado e fazer o possível para compensar a vítima revela muito mais do que aparente. Confesso que – mesmo considerando os interesses laterais inerentes ao acordo – não esperava isso de um Governo liderado por Berlusconi.

É uma grande vitória diplomática de Muammar Al Qathafi, do povo líbio e dos africanos em geral. É um momento para a História. Ah, e não é que estes países sempre tiveram relações particulares; pois nasceu na Líbia o primeiro Imperador africano do Império romano: Lucius Septimius Severus. E, sendo advogado do Diabo, é bom que se saiba que também a Itália e a Península Ibérica (Hispânia – Portugal e Espanha) estiveram sobre o jugo africano; bastará lembrar as guerras púnicas e as suas origens. Mutatis mutandis para as situações, claro!

  • Imagens: Vénus de Cyrene e Vénus de Cyrene a ser entregue por Belusconi a Qathafi.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

  • Margaritas ad porcos

«O manjar mais delicado e selecto, se o comer um porco (que assim se chama, sem licença), sai do imundo animal convertido em excremento repugnante, ou converte-se, quando muito, em carne de porco! Sejamos anjos, para dignificar as ideias, ao assimilá-las. Ao menos sejamos homens: para converter os alimentos, pelo menos, em músculos nobres e belos ou talvez cérebro potente… capaz de entender e adorar a Deus. Mas… não sejamos bestas, como tantos e tantos!
Andrés Vázquez de Prada, José María Escrivá, Vol.I, Verbo, Lisboa, 1997, p.518

  • Imagem: Salvador Dalí, Diseño para el ballet Los sacos del molinero, 1949

  • A ESPERA COMPROMETIDA

    Te exaspera a minha luz,
    eu sei. É tudo o que esperas
    da metáfora e do sonho.

    O duplo gume que esquadrinha a tua alma
    verteu também o corpo das acácias
    e o negrume de Rudyard Kipling
    – que pena!

    Te exaspera, eu sei,
    a minha exígua luz
    proclamando o teu nome
    no subterrâneo do ser e do feto que geraremos
    sem cor.

    Te exaspera, eu sei,
    a espera.

  • Esther Baxter in honey

  • BARACK – FILHO DE AFRICA

Espero para ouvir o discurso de Barack Obama e penso que pode estar a lançar a primeira grande pedra para o despertar de uma esperança desesperada e na construção de uma sociedade melhor. Sonho? Não creio que seja somente isso; é mais, muito mais.

E lembro-me, então, de Seti I, o Faraó construtor, e do seu magnífico filho, Ramsés II que colocou o Egipto num plano maior da história com a edificação de Luxor – nomeadamente de Karnak - Abu Simbel e um espírito de ambição de uma sociedade grandiosa nas obras e no espírito.

A moderna tradição da primeira pedra – como testemunham as inscrições em Luxor – foi iniciada por Ramsés II que, muitas vezes, é esquecido e só lembrado com vitupério por causa da narração do Velho Testamento do êxodo israelita. Será esse o destino dos africanos e dos seus filhos: só ser lembrado pelo mal e não pelo bem? Não creio que seja!

Barack Obama, além da ser – na minha opinião – a melhor escolha e o melhor homem para tirar os Estados Unidos da letargia em que está submersa constitui, para todos os africanos e descendentes um capital de esperança de esperança inestimável.

Espero que venha a ser uma alavanca para os africanos, os afro-europeus e seus descendentes de africanos reverem a sua memória e descobrirem que algumas das pessoas mais extraordinárias que o Mundo já conheceu eram filhos de África. Só por isso, na sequência da coragem do poeta afro-americano Frederick Douglass (que recebeu um voto na Convenção Republicana em que se apresentou como candidato à presidência), a sua aclamada nomeação e candidatura é um exemplo e um grito de que «sim, podemos!»

  • Luxor, Egipto

  • Hoje – dia em que se comemora o celebre discurso I Have a Dream de Martin Luther King junior e em que Barack Obama é aclamado candidato à presidência dos Estados Unidos da América -, é dever de todos os afro-americanos lembrarem o primeiro sonhador: Frederick Douglass.
  • Imagem: Frederick Douglass

  • NAVE OF THE TEMPLE AT KARNAK

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

  • PREVENÇÃO DA CRIMINALIDADE OU ATAQUE À CIDADANIA?
Estou seguindo a Convenção do Partido Democrata na CNN e, num momento de pausa da transmissão, mudo para a SIC Noticias e o que vejo? Uma operação policial nocturna. A esta hora, já passam das 02:00 da manhã e a policia procede à uma «operação de prevenção da criminalidade» na Quinta do Mocho e na Quinta da Fonte. Se a ideia é mostrar ao cidadão que a polícia trabalha, a forma de a demonstrar é a menos adequada.

Ao que parece, somente nas zonas onde vivem os mais pobres é que acontecem crimes… Admira-me (muito...) que não tenham passado pela Cova da Moura ou pelo Bairro da Mira. Esta operação, a estas horas da noite – com helicóptero de vigilância com luzes sobrevoando as habitações dos bairros – é um atentado aos direitos fundamentais dos cidadãos que não vivem no e do crime e não dá nenhum sentimento de segurança aos mesmos, pelo contrário.

Que dirão os pais às suas crianças que, certamente, acordaram com tanto barulho e aparato policial nas ruas dos bairros? Que sentirão os cidadãos que vêm o seu descanso perturbado? É necessário tal aparato, à estas horas da noite? Tal previne o crime? Não creio, de todo. Na verdade, como se verifica, o incidente que causou a morte violenta do assaltante ao Banco em Campolide, Lisboa, não serviu como meio dissuasor aos assaltantes, pelo contrário – os assaltos multiplicaram-se.

Existem outras formas de prevenir a criminalidade (com um maior policiamento e acções à oras inesperadas que não de noite – parece que a policia não conhece a realidade dos bairros em causa…) que não estas medidas draconianas que, parecendo ser em defesa dos direitos dos cidadãos, constituem um assalto à cidadania e aos direitos fundamentais.

Aliás, grande culpa desta vaga de crimes tem a ver com a reforma do Código Penal e do Código de Processo Penal (que até foi levado a cabo com base do labor do Dr. Rui Pereira, actual Ministro da Administração Interna) que criou nos delinquentes um sentimento de impunidade – aparente, diga-se – e que a crise social que sucessivos erros de governação lançaram o país.

A um erro segue-se outro – que a mesma legislação permitiu com a diminuição de algumas garantias fundamentais dos cidadãos e que deveriam ter carácter excepcional mas que se, a que se verifica na prática, tem vindo a torna-se regra – e assim, não sei onde vamos parar.

Violência gera violência, injustiça com injustiçados gera rebelião e não se pense que pessoas desesperadas se intimidam com exibições de força como a que se verificou e que é, de todo, estéril nos seus fins; causa mais mal social do que bem. Problemas estruturais devem ser resolvidos não de acordo com a agenda dos media mas em consonância com as necessidades sociais. Como acaba de dizer o Senador John Kerry dizer na CNN, a política de «fear and spear» não é o caminho; não.

E o Natal ainda não chegou… Agora é preciso dinheiro para férias e devaneios de verão, quando chegar a orgia consumista de Dezembro é que teremos uma ideia real da dimensão da criminalidade forçada pelo mal social que o país sofre. O que se fez hoje, não previne nada; pelo contrário, é adrenalina para dada categoria de criminosos que «nada têm a perder».

Mas, como diz o povo, eles é que têm os livros. Podem tê-los, todos, mas é manifesto que não conhecem a realidade, a verdadeira, a dos dias desesperados de pessoas estranguladas por uma crise que venceu todos os horizontes. Estas demonstrações de força são vistas como são - a outra face ou uma outra forma de opressão social. Sem visão o povo perece, bem dizia o Salomão.

Existem, parece-me, outras formas de fazer política. Imitar por imitar, não serve; não.
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  • Imagem: Siberian tiger, Russia

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

  • "Once in a lifetime, the poet said, once in a lifetime, hope and history meet in one extraordinary man. I thank the good Lord that I have lived long enough to meet and help such a man twice in my lifetime: John Kennedy and Barack Obama."
    Theodore Sorensen, former John F. Kennedy adviser

  • Imagem: Amadeo Modigliani, Portrait of the polish poet and art dealer Leopold Zborovski (1889-1932)

  • DEMOCRATIC VOICES

"Two wars, a warming planet, an energy policy that says, 'Let's borrow money from China to buy oil from countries that don't like us.' How many people look at these things and wonder what the future holds for them? Their children? Their country? How many?"

[...]

"I know we're at the Democratic Convention, but if an idea works, it really doesn't matter if it has an 'R' or 'D' next to it. Because this election is not about liberal versus conservative. It's not about left versus right. It's about the future versus the past."
Mark Warner, former Governor of Virginia at Democratic National Convention in Denver

"Barack Obama is my candidate. And he must be our President." Hillary Clinton at Democratic National Convention in Denver

  • A FILOXERA DO COLONIALISMO
Falava com um amigo e colega que me contava sobre a situação insólita de um cidadão guineense a quem foi recusado, pelo Consulado da Embaixada de Portugal em Bissau, o visto de entrada em Portugal para tratamento médico.

É normal, dir-me-á. Sim, seria «normal» se esse cidadão não tivesse sido fuzileiro das forças armadas portugueses durante o conflito armado que levou à independência da Guiné-Bissau e um militar com louvores e distinções honrosas na sua caderneta militar portuguesa.

O desgraçado – pois a situação doença é uma desgraça – do homem serviu para ser carne para canhão, matar os conterrâneos em nome da pátria lusitana e sofrer os horrores da guerra, mas hoje nem o direito tem de colocar os pés na terra por cuja integridade e indivisibilidade nacional lutou.

Não se trata de uma questão legal, não; é a revelação da forma ingrata e desumana como o Estado português, através dos seus agentes, trata os antigos combatentes de origem africana que lutaram por um Portugal imposto na alma – Deus, Pátria e Familiar – e que agora, depois de sugados da vida, são pouco menos que parias.

A filoxera do colonialismo continua; vê-se, nesta como em muitas outras coisas que teimam em escapar à percepção da sociedade outrora oprimida de forma patente e hoje profundamente anestesiada. Um dia
, quem sabe, acorde e seja a tempo.
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  • Imagem: Sostenedores de cigarrillo.

Voy a fumar um cigarrillo. Ah, no me hables en dejar de fumar; me gusta e pronto. E yo, lo deberás saber, prefiero cigarrillos negros (cohiba, davidoff, ducados) y puros habanos, dominicanos y hondureños.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

  • Abu Simbel, Egipto

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

  • COISAS DE MENINO

    Lembro–me – sem nunca o ter visto
    – de ter escutado
    Nhô Pâde Fernand dizer:
    «Aflora a tua alma
    ao bem: só o desejo
    aplaca o desejo
    e o teu olhar na sebe da Lua
    amanhã.»

  • Joan Miro, Vegetable garden with donkey

domingo, 24 de agosto de 2008

  • O CONTROLO BIG BROTHER DOS ESTRANGEIROS EM PORTUGAL
Portugal tem uma relação extraordinária com os estrangeiros imigrados no país; não haja dúvidas sobre isso! Mas eu preferia que fosse uma relação sem o extra, sim - uma relação de verdade, de verdadeira integração, sem show off e eufemismos adjectivantes a ilustrar a realidade.

Dou um exemplo simples disso mesmo.

A lei de estrangeiros obriga o cidadão estrangeiro a viver em Portugal a comunicar ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) a sua mudança de residência, de estado civil… ora, atentemos na residência.

Neste caso o estrangeiro deve comunicar a alteração do seu domicílio no prazo de 60 dias a contar da data da mudança. É uma imposição legal. Mas e se o cidadão estrangeiro não comunicar ao SEF que mudou da casa x para a casa y, o que acontece? Bem, não deveria acontecer nada, pois esse serviço do Estado não deveria ter nada a ver com a mudança de domicílio das pessoas, pois ta é uma liberdade fundamental, e não existe nenhuma razão objectiva e racional de ordem social para tal acontecer.

Na verdade, em termos práticos, o que acontece é que os estrangeiros estão sujeitos, permanentemente, a um Termo de Identidade e Residência – pois a lógica e os efeitos são os mesmos desta medida de coacção do direito processual penal. E um cidadão só pode estar sujeito à esta medida quando é suspeito da prática de um crime. Porque aplicar-se esta lógica – são situações análogas – ao estrangeiro? É um absurdo, uma aberração jurídica e social que não tem nenhuma justificação lógica senão a discriminação injusta e uma clara forma de enriquecimento sem causa do Estado.

Mas, dizia, o que acontece se não avisar o SEF que mudou de domicílio?

Bem, quando o cidadão estrangeiro for renovar o seu título de residência ou se entretanto tal for detectado por qualquer razão, o que acontecerá é ser coimado por não o ter feito – por ter infringido a lei é punido com uma coima que vai de 48 a 96 euros nos termos dos Artºs. 86º. e 202º., nº.1 da Lei 23/07 de 04./07 (valor actualizado anualmente) e processada nos termos do Regime Geral das Contra Ordenações (DL 433/82 de 27.10). Isto é, além da consequência, a gravidade desta situação é que se está perante matéria de direito penal, ainda que contraordenacional. Mudar de domicílio e não dizer ao SEF é, na terminologia legal, um «facto ilícito e censurável».

Porque os cidadãos portugueses não estão sujeitos desta obrigação? Porque esta imposição legal impende somente sobre a categoria de cidadãos estrangeiros? Estamos, objectivamente, perante uma desigualdade não justificada ou justificável, perante uma discriminação em razão da origem e da nacionalidade que é inadmissível num Estado de Direito.

E as razões vão muito além do financiamento que os estrangeiros – através de uma infinidade de taxas injustas e injustificadas – fazem dos serviços prestados (em clara e ostensiva desigualdade com os portugueses) pelo SEF. Sim, existem outras razões bem mais sombrias e preocupantes do ponto de vista da cidadania.

Note-se que os valores vão – grosso modo – de 10% a 20% do ordenado mínimo nacional português; o que, ainda que se admitisse alguma bondade deste mecanismo, é de todo desproporcional para as capacidades económicas dos imigrados. É uma forma, também, de cimentar a pobreza quase estrutural existente entre as comunidades de estrangeiros no país.

E depois propagandeia-se os esforços de integração… Ah, saberão as pessoas qual é a origem do «investimento» do Governo no CNAI e nos CLAI – e a razão maior e objectiva de terem contratado (para lugares menores, para lugares menores…) cidadãos estrangeiros para esses serviços? Se as associações e os defensores dos direitos dos estrangeiros não estivessem anestesiados pelo sistema, tal seria claro, evidente e publicamente conhecido.

Bem, se houver alguma bondade na norma em causa, ela tem, claramente, um efeito boomerang quer do ponto de vista objectivo quer subjectivo da integração social dos estrangeiros; basta usar um pouco a massa cinzenta!, mástique não serve, não; é aquela que fica dentro da cabeça. Abrir um pouco (já não peço para estarem abertos e atentos) os olhos para a realidade é preciso!

Bem, o leitor imigrante em Portugal que fique alerta: se mudar de casa, avise o SEF – senão leva com uma coima em cima! E nunca esqueça: sempre que ficar num hotel ou numa residencial fique sabendo que o SEF sabe no dia seguinte, no máximo em três dias (acontece em toda a União Europeia). É…, se é estrangeiro em Portugal é bom que tenha consciência que vive no futuro orwelliano – o SEF é o seu big brother! E coima-o, se não colaborar, se o obrigar a ter de trabalhar para saber o que você faz e o que não faz.

Ah, casou e não avisou o SEF? Prepara-se, pois tem uma coima à sua espera! É uma boa oportunidade para, se ainda não o fez, ler «1984» e «Animal Farm» de George Orwell; serão, creia-me, bem úteis.

  • Indios, Johann Moritz Rugendas

  • Amanda Beard - USA olympic swimmer

sábado, 23 de agosto de 2008

Agora que se fala tanto na China, há que lembrar que os direitos não são exclusivos dos homens mas de toda a humanidade, inclusive dos animais.

Na China, para se conseguir uns quantos bocados de pele para satisfazer o mercado, criam-se e esfolam-se animais vivos. Assim mesmo, num exercício de maldade pura e sem qualificação possível.

  • DA FORÇA DA ESTRATÉGIA À ESTRATÉGIA DA FORÇA
O Mundo está, mais uma vez, sob o espectro da guerra e a Europa é, outra vez, o palco da sua origem. No passado a arte da guerra, como diria Sun Tzu, dependia em grande parte da capacidade e do génio militar do homem, hoje não; depende sobretudo da capacidade e desenvolvimento tecnológico e militar das nações.

Olhando o passado, é fácil dizermos que Napoleão Bonaparte é, conjuntamente com Alexandre da Macedónia, Aníbal – o africano, Cipião, Júlio César e Rommel, os maiores senhores da guerra e estrategas militares da história veiculada no ocidente.

Certamente que os ingleses, lembrando-se da Batalha de Trafalgar, dirão: – E o Almirante Nelson? Grandes vitórias teve Lord Nelson, sim; mas não se compara em génio à esses estrategas. Do mesmo modo que os islâmicos poderão invocar Saladino e os euro-asiáticos Átila – o Huno. Acontece que estes, ainda que com lugar de referência na história militar, venciam não por ser grandes estrategas mas sim pelo número e pela força esmagadora dos seus efectivos.

Hoje, com o nuclear e as novas tecnologias, esses grandes estrategas seriam não mais que Saladinos ou Átilas de secretaria com olhos nos satélites, lançando bombas de fragmentação (como as usadas pelos Estados Unidos no Afeganistão e pelos aliados na ex-Jugoslávia) e prontos a usar bombas nucleares, se necessário.

A humanidade evolui, dizemos, mas a verdade é que não estou tão certo disso quando penso no espectro de destruição bélica que circunda todos os dias e nesta realidade objectiva que já não é a estratégia do mais capaz que dá vantagem nos campos de batalha – mesmo nas ditas «guerras justas» tão bem defendidas por Grocius (Do Direito da Guerra e da Paz, III) – mas sim a capacidade tecnológica e de meios.

Será por essa razão que o Presidente da Geórgia coloca uma bandeira da União Europeia ao lado da bandeira da Geórgia? Espera, com isso, arrastar a Nato para o conflito? Espero bem que não! Ou espera, com a ajuda da União Europeia, gerar um efeito dissuasor? Talvez…, mas é preocupante o facto da União Europeia se silenciar sobre este facto, sendo certo que não tem capacidade militar real para enfrentar a Rússia.

Mas os Estados Unidos sim. E se a União Europeia entrar no conflito, seja de que forma for, os Estados Unidos da América serão forçados – pelas obrigações emergentes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO/OTAN) – a entrar nela. É, sem dúvida, a estratégia subliminar da força que pode levar-nos à uma guerra mundial ou a paz. É um jogo de guerra muito perigoso – e nós estamos no meio, com os nossos dias a rodar na inocência e na ignorância.

Lembremos que a I Guerra Mundial (1914-1918) teve inicio com um acontecimento nefasto mas que não fazia adivinhar a tragédia que se passaria a seguir: o homicídio do Arquiduque Frederico Ferdinando da Áustria e da Hungria, na cidade de Sarajevo. Assim como a II Guerra Mundial (1939-1945) teria inicio com a invasão da Polónia pelo ambicioso Adolf Hitler e que arrastaria o resto da Europa para uma guerra medonha.

A história deve servir para alguma coisa; nomeadamente para nos ensinar a não cometer os mesmo erros. Mas os europeus são tão teimosos! A guerra parece estar na sua natureza e não consegue extirpá-la de vez. Espero que não seja ela a extirpar-nos a todos desta terra, pois a próxima guerra na Europa não deixará muita coisa viva no planeta.
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  • Imagem: Napoleão Bonaparte

  • Jessica «miss rabbit»

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

«Ele fez nascer o sol sobre os bons e sobre os maus e chover sobre os justos e os injustos» (Mateus, V.45).

Mas, e se Ele fizesse chover umas pedras somente sobre os maus e os injustos? Não seria isso, sim, verdadeira justiça? Ademais, a vida seria mais tranquila, com menos violência, mentirosos e más almas a destruir o bem que se almeja.

  • Imagem: Luis Royo

  • CIVITATE DEI
Mascararam o meu Deus
na planície,
sitiaram-no na cidade
e em hasta pública venderam-no
às verdades
e aos inocentes peregrinos
de negros mantos presos à arcana
gavota que nas noites de Agosto
Jefferson enchia de sonhos para o reverendo
que nunca viu a roça de Água e Zé.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

  • Almond blossom, Van Gogh

  • COMO A DROGA E OS TELEMÓVEIS ENTRAM NAS PRISÕES?

Muita gente pergunta: como é que a droga entra nas prisões? Como é possível que os traficantes continuem, mesmo presos, a negociar e, não raras vezes, a gerir o seu negócio de dentro das prisões?

Bem, a resposta é simples – mas é tão simples que ninguém a quer ver: são introduzidas pelas visitas; nalguns casos com a conivência culposa dos guardas, nomeadamente ao nível da diligência nas revistas pós visitas.

A prática mais comum é as mulheres, namoradas ou amigas (casos tem havido de pessoas contratadas para o fim específico) introduzirem produtos estupefacientes ou telemóveis na vagina e, durante a visita, entregar a encomenda ao preso.

O método mais comum é o seguinte: acondiciona-se a droga, devidamente embalada, e coloca-se dentro de um preservativo que é depois introduzido na vagina. Depois, durante a visita, retira-se o material – como alguma facilidade, como se vê no vídeo – e entrega-se ao preso. Este, dependendo da quantidade, coloca-o na boca ou na meio das pernas, preso às cuecas.

Os telemóveis necessitam de cuidados maiores, mas o sistema é substancialmente o mesmo: envolve-se o aparelho em prata (para evitar ser detectado pelo detector de metais – a mesma técnica usada pelos furtadores de lojas) e depois colocado dentro de um preservativo e inserido na vagina. A entrega é fácil de ser feita.

O problema é que é muito difícil fazer este tipo de controlo, pois a revista das visitantes briga com alguns direitos fundamentais, nomeadamente com reserva da intimidade e a dignidade das pessoas (para além de que pode(ria) fomentar ou dar lugar a abusos).

Que fazer? Uma maior fiscalização pós visita é/seria susceptível de controlar, em parte, estas situações, mas haverá sempre outras formas de contornar os sistemas de segurança mas tais falhas só poderão ser imputadas às instituições e aos seus agentes.

  • Vídeo: Ilustrativo de como o transporte é feito. Se for pudoroso, não veja!

video

  • PERGUNTA EXISTENCIAL: Porque será que a última palavra de Os Lusíadas de Luiz Vaz de Vamões é enveja? Sim, inveja que pode levar do ódio à inspiração? Eu prefiro a dimensão da inspiração, muitas vezes confundida com o odioso plágio.
Salvador Dali, Leda and the Swan, 1961

Leonardo da Vinci, Leda and the swan

Cezanne, Leda and the swan

Matisse, Leda and the Swan

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

  • DÚVIDAS EXISTENCIAIS

1. Porquê e para quê o governo português distribui preservativos gratuitos nas prisões?

2. Porquê e para quê distribui seringas para o consumo de drogas e faz a sua troca no interior das prisões?

3. A distribuição de seringas não é a assunção da falência da segurança do sistema prisional e da existência de tráfico dentro do mesmo?
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4. É possível uma verdadeira reinserção social num espaço prisional com tráfico e consumo de drogas?

  • Foto: Esther Baxter (não, ela - tendo tudo - não tem nada a ver com a primeira pergunta).

terça-feira, 19 de agosto de 2008

  • Malcolm X & Mohammed Ali

  • MASSINISSA

Legatário. Acordo e teus filhos novados
vejo, Massinissa… ambição antiga.

Ó armeiro de dores planados...
não sabes que de ti nasceu barriga
que afundou em Zama o sonho anibálico
e a herança que jorraste em Jugurtha?

Sei, Massinissa, que vives agora,
sei a que afrontas o ventre núbio dedicas
escutando amici esse fortunae est
enquanto te arrastam as velas do mundo
das entranhas do sal interior, sim...

O mundo é herança tua, amici…
E poderia ser outra coisa senão negro?
Sim, Massinissa, poderia ser outro mundo?
Delenda est… memória… sim, ó Massinissa.

  • Aishwarya Rai

[...]
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Estou em período de férias. Aproveito para descansar a alma. Há muito que aguardava um momento de tranquilidade para ler Silja de Eemil Sillanpää – um livro extraordinário que esperava há anos para entrar na minha lista de grandes obras –, terminar a biografia de José María Escrivá, as Cartas de Napoleão a Maria-Luíza e atentar com calma em Leonardo da Vinci – Pintura, Desenhos e Esboços de Frank Zöllner.

Aproveito para começar a rabiscar um texto que há muito desejava colocar no papel: África, Europa e Democracia. Vamos ver se deste programado ócio de verão sai alguma coisa de jeito.

Ah, Raquel Ferro, para a semana segue para o Mindelo Silja de Eemil Sillanpää. Ficou tanto tempo perdido (imerecidamente) na multidão dos meus livros que deixou de me pertencer; deixei de o merecer e de o chamar meu. Mereço uma pena, mas deve ser leve. Mereces, como amante de livros, que seja teu! É a minha pena, com prazer.

«A paz que a cercava insinuava-se na sua alma.»
in Silja, Eemil Sillanpää, tradução de José Marinho, Inquérito, Lisboa, s/d, p.194
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Salvador Dali, woman undressing, 1959

sábado, 16 de agosto de 2008

O nigeriano Francis Obikwelu não se qualificou para a final dos 100 metros dos Jogos Olímpicos – anunciava hoje a RTP1 no jornal da tarde. Repetiu-se, o nigeriano…, como se o cidadão Obikwelu não fosse português, também.

É sempre a mesma coisa: quando os afro-portugueses ganham, são portugueses, quando perdem, são nigerianos, cabo-verdianos, santomenses… adiante verei, se Nelson Évora ou Neide Gomes ganharem alguma medalha se os chamarão cabo-verdiano ou santomense. Ah, de certeza que não!

Será que essa gente não percebe a natureza excludente desse tipo de discurso e do mal social que causa? O que sei é que Portugal quer glória, o resto – a pessoa e cidadão – pouco importam.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

  • ALONE IN HER BEAUTY
Who is lovelier than she?
Yet she lives alone in an empty valley.
She tells me she came from a good family
Which is humbled now into the dust. ...
When trouble arose in the Kuan district,
Her brothers and close kin were killed.
What use were their high offices,
Not even shielding their own lives?
The world has but scorn for adversity;
Hope goes out, like the light of a candle.
Her husband, with a vagrant heart,
Seeks a new face like a new piece of jade;
And when morning-glories furl at night
And mandarin-ducks lie side by side,
All he can see is the smile of the new love,
While the old love weeps unheard.
The brook was pure in its mountain source,
But away from the mountain its waters darken.
...Waiting for her maid to come from selling pearls
For straw to cover the roof again,
She picks a few flowers, no longer for her hair,
And lets pine-needles fall through her fingers,
And, forgetting her thin silk sleeve and the cold,
She leans in the sunset by a tall bamboo.
Du Fu
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  • Imagem: Edgar Degas, Woman at her toilette

  • FILHAS DOS PAIS DO CRISTIANISMO

Uma dessas raparigas na imagem é (será) Anksunamon, irmã e mulher do jovem e mítico faraó Tuthankamon, ambos filhos de Akhenaton e Nefertiri, o casal o solar egípcio que caiu em desgraça ao arrastar o Egipto politeísta para a grande aventura do Deus único.

O tempo de Amenófis IV (seu nome dinástico) foi, além de abertura à uma realidade religiosa estranha aos egípcios – de verdadeira ruptura epistemológica, comparável à revolução Coperniciana – de grande abertura à realidade e à criação artísticas. Uma época verdadeiramente extraordinária da história de África e, infelizmente, esquecida.

Sem a visão de Akhenaton e Nefertiri, hoje não poderíamos, de modo algum, dizer que somos cristãos, os hebreus invocarem YHWH ou os islâmicos Allah; pois não haveria ethos histórico para tal sustentação. Foi no seu pensamento – em síntese com a doutrina politeísta da trindade egípcia pré-Akhenatoniano: Isis, Osiris e Hórus – que Teófilo de Alexandria foi buscar a ideia de santíssima trindade que tinha entrado no ocidente através da versão de trindade capitolina.

É legítimo dizer que é no pensamento revolucionário deste africano que nasceu a esperança cristã. E ainda há africanos por aí que pensam não ter «referências» históricas…

  • Imagem: Duas filhas de Akhenaton, pintura em Tell-al-Almarna, Egipto.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

  • COMO AGIR NO AEROPORTO DE LISBOA SE FOR INTERCEPTADO PELOS SERVIÇOES DE ESTRANGEIROS E FRONTEIRAS (SEF)
Os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal recusa a entrada em território português a muitos cidadãos estrangeiros todos os anos – chega a ser da ordem dos milhares, nomeadamente muitos cabo-verdianos, brasileiros, angolanos, guineenses e de outras nacionalidades não pertencentes ao espaço Schengan. As pessoas são retidas nas fronteiras e reenviadas ao país de origem – mesmo que tenham um visto no passaporte ou estejam isentos de tal, como acontece com os brasileiros.

Segue a seguinte informação básica de como deve agir ao se apresentar nas fronteiras portuguesas. O mesmo se aplica às outras fronteiras europeias, nomeadamente as de Espanha, Itália, França...

1. Se o seu visto for de turismo (ou estiver isento de visto por via de convenção internacional) e for interceptado na fronteira pelo SEF e lhe perguntarem qual o objectivo da viagem, diga simplesmente: turismo ou conhecer o país.

2. Se lhe pedirem para sair da zona de controlo e ir para alguma zona privada de controlo e solicitarem quaisquer tipos de informações complementares além da finalidade da viagem, não responda a nada a mais além de que está de visita ao país.

3. Caso tenha qualquer tipo de problema – nomeadamente ao nível da comunicação com os agentes, isto se as autoridades insistirem na questão da razão da sua visita – peça para falar com a Embaixada do seu país, um familiar ou um amigo (com residência legal) no país de destino ou com um Advogado.

3.1. Um Advogado poderá ajudá-lo, mas nunca realizar nenhum milagre ou suprir os seus erros. Do mesmo modo, deverá estar financeiramente preparado para cumprir com os honorários do mesmo; senão, não solicite o trabalho de um profissional.

3.2. Viaje sempre com dinheiro do país de destino no bolso e/ou com um telefone móvel que funcione no país em causa e devidamente carregado para poder contactar com o exterior caso seja colocado da «zona de acolhimento» do Aeroporto. Nunca viaje sem ter na sua posse a morada e os contactos telefónicos actualizados da Embaixada do seu país de origem.

4.1. Evite, sempre que possível, viajar para um país que desconhece ao fim de semana. Em caso de dificuldades, será muito difícil conseguir ajuda adequada – diplomática e legal – e/ou em tempo útil.

5. Nunca viaje com documento alheio (de irmão, primo, amigo ou «emprestado»), falso ou falsificado. As possibilidades de ser interceptado na fronteira são mais que consideráveis – além de ser um crime punível no país de origem (por exemplo Cabo Verde, Angola, Brasil…) e no de destino (Portugal, Espanha, Itália...).

5.1. Além de ser reenviado ao seu país de origem poderá ter (na verdade deverá ser identificado pelas autoridades, que deverão comunicar o facto ao Ministério Público que tem o dever de iniciar um processo contra si) de enfrentar um processo crime no mesmo.

5.2. Mais, se a pessoa que lhe «emprestar» o documento em causa tiver algum
processo crime pendente no país de destino ou uma interdição de entrar no espaço Schengan, será preso.
5.3. Responderá pelos crimes do titular do documento (acabará por ser absolvido por não ser a pessoa, mas entretanto tem sérias possibilidades de passar uma boa temporada na prisão) e acusado pelo crime de falsificação (que tem uma moldura penal abstracta até 5 anos de prisão).

5.4. A boa notícia é que esta situação é passível de ser desmontada por uma defesa adequada, mas, inicialmente, passará por uma situação muito difícil.

5.5. Se pensa que vale a pena arriscar, fica sabendo do seguinte: se for condenado (por uso de documento alheio), ficará interdito de entrar no espaço da União Europeia por um período que pode ir até dez anos. Na Itália, seria condenado, ainda, pelo crime de imigração ilegal e sujeito, igualmente, a interdição de entrada no espaço Schengan.

5.6. A violação dessa proibição é crime de desobediência qualificada. Por isso, se tiver esse tipo de interdição é bom que pense bem antes de se aventurar em terras da Europa.

6. Se o seu documento de residência estiver «fora de prazo» de renovação e desejar entrar no país para o renovar, nunca cometa o erro de pedir um visto de entrada no país. Denuncia a sua ausência do país (existem prazos máximos para se estar fora do país antes do documento caducar – deixar de ter qualquer validade legal – e não poder ser renovado), além de que ao se apresentar na fronteira o SEF identifica de imediato – através do sistema informático – a sua situação de portador de título de residência.

6.1. Se a sua residência estiver «fora de prazo», paga uma multa ao se apresentar a fronteira aeroportuária portuguesa e entra no país sem problema. Não tente «ser mais esperto» que o sistema; não funciona! Faça as coisas como devem ser feitas, é mais fácil e evita problemas.

6.2. Se estiver fora do país com residência legal em Portugal, deverá – sempre que possível – entrar no país antes do prazo de renovação, que é antes da data de validade constante do título de residência.
7. Se viajar com
um visto Schengan, tenha em atenção que não pode sair do espaço da União Europeia e voltar a reentrar sem outro visto (por exemplo: entrar em Portugal ou França ir até passear a Suiça e depois reentrar na União Europeia). Ao entrar na Suiça (ou outro país não pertencente ao espaço Schengan) o seu visto deixa de ser válido.

7.1. Se o fizer, e tentar entrar em Portugal (ou qualquer outro país da União Europeia) será retido na fronteira por falta de visto. Ser-lhe-á negada a entrada no país de destino e enviada ao seu país de origem no primeiro voo.

7.2. No caso da Itália, poderá ser preso e enfrentar um processo criminal por imigração ilegal e sujeitar-se a passar uma temporada na prisão. Sempre que viajar para a Itália, nunca esqueça de ter um documento válido e com o visto adequado.

7.3. Nunca responda positivamente (na fronteira de qualquer país europeu) a perguntas do género: – Se encontrar trabalho aqui, ficará no país? A resposta deverá ser, sempre, aquela que consta do seu visto: «Não, vim em turismo»; «Não, vim em viagem de negócios»; «Não, vim em viagem de estudo» e assim por diante.

8. Se pretende(r) emigrar, informe-se no país de origem sobre como deverá fazer isso de forma legal – não sendo «o caminho mais fácil e mais rápido», é o adequado e que evita(rá) muitas dificuldades e problemas futuros. Em Cabo Verde o Instituto das Comunidade, a Comissão dos Direitos Humanos e Cidadania, a Ordem dos Advogado de Cabo Verde ou um Advogado que conheça a legislação do país para onde pretende emigrar poderão dar-lhe as informações necessárias.

8.1. Se for natural de outro país que não de Cabo Verde, deverá consultar instituições análogas no seu país de origem.

9. Se perder um voo no espaço Europeu tem direito a ser indemnizado de imediato (mínimo de +- 400 Euros), a instalação em unidade hoteleira, alimentação e transporte até chegar ao seu destino.

10. Em caso de dificuldades, não deverá exitar em contactar a Embaixada do seu país de origem no país de destino e saber com quem fala e expor a sua situação. Enquanto cidadão nacional tem o direito a apoio da Embaixada do seu país e esta tem o dever de o ajudar.

11. Nunca viaje sem ter na sua posse a morada e os contactos telefónicos actualizados do país de origem e meios para poder telefonar (telefone celular e ou dinheiro do país de destino) em caso de emergência.

12. Viaje sempre com dinheiro que garanta o tempo de estadia no país de destino. A sua falta indicia que não viaja em férias. Do mesmo modo deve ter uma ideia básica do país do destino, nomeadamente dos pontos turísticos que pretende visitar; para na fronteira não dizerem que «quer visitar o país em férias mas não sabe para onde vai e o que vai visitar» (argumento comum em Despachos de não admissão dos Inspectores no Aeroporto de Lisboa).

13. Passe esta informação aos seus amigos que pretendem viajar para a Europa ou que pretendem imigrar para o Velho Mundo. É que acontecem coisas «do arco da velha» nesse continente!

  • Coliseu de Roma, Roma, Itália

  • Oh Deus!, água, vento, gene… será que esta humanidade não consegue pensar em nada mais do que em guerras? Ah, porque chove em Agosto? Estás longe e o silêncio manca – porquê? A eternidade, gavota, guarda o meu lugar com fidelidade?

  • AVISOS DO PASSADO
Muitos pensam no nuclear como opção para a presente crise energética. Sim, como opção limite, é possível... mas não é necessário – de todo. Há que aprender com o passado, e Chernobyl é uma dolorosa lição.

A questão é: a necessidade vale o risco? A cidade (hoje abandonada) de Pripiat, junto à central nuclear de Chernobyl, Ucrânia, é uma resposta eloquente – um monumento para a história.
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  • Imagem: Cidade abandonada de Pripiat, junto a central nuclear de Chernobyl, Ucrânia

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

  • DISCRIMINAÇÃO LINGUÍSTICA

Na semana passada o Diário de Notícias trazia uma notícia com contornos, no mínimo, surrealistas; mas é só prima facies pois é a realidade nua e crua; e não é novidade, não. Não importa os contornos controvertidos da situação, o que importa é que uma cidadã com língua materna cabo-verdiana se sentiu discriminada por falar essa sua língua no local de trabalho – na Junta de Freguesia de Benfica, às portas da capital de Portugal.

Será possível conceber-se que alguém seja ou possa ser discriminado por falar francês, espanhol, inglês ou sueco no local de trabalho? Não? Então, porque é que o é ou possa sê-lo por falar cabo-verdiano, ou crioulo?

A resposta é simples: o cabo-verdiano é tido em Portugal não como uma língua civilizada mas sim como uma espécie de papiamento de trogloditas de tribos imaginárias dos confins de África, um conjunto de monossílabos guturalmente articulados e que se chama crioulo mas que não tem dignidade bastante para se chamar língua.

É assim, nem mais. O ser humano tem essa tendência de colocar as culpas dos seus males nos outros, nunca assume que tal pode advir das suas acções voluntárias, das suas acções por omissão ou meras omissões. É o que acontece nestas situações de discriminações dos cabo-verdianos diasporizados.

Nesta situação concreta da discriminação linguística (que acontece há anos nos estabelecimentos de ensino portugueses – sendo de conhecimento público e notório) só acontece por que o Estado de Cabo Verde continua – dia após dia, mês após, ano após ano – a procrastinar o estatuto de língua de trabalho oficial da nação cabo-verdiana à língua cabo-verdiana.

Se o cidadão pode se queixar, já o Estado de origem da sua linguagem já não poderá – pelo menos com razão e autoridade moral – melindrar-se publicamente de tal facto; e lá tenho de invocar o profeta, mais uma vez: «de que se queixa o homem? Queixa-se dos seus próprios pecados.»

As omissões do Estado acabam por constituir, sempre, opróbrios sociais aos seus cidadãos. Este é, infelizmente, um desses casos. Quando é que o Estado terá a coragem de dizer: «nunca mais!»? Quando fizer o que tem de fazer, aí saberemos (e não é um «o que tens a fazer, vai e faze-o depressa» que alguns pensam, não…).

  • Imagem: AFRICA, Giovanni Domenico Tiepolo

sábado, 9 de agosto de 2008

«Meu amigo: se tens desejos de ser grande; faz-te pequeno.
Para ser pequeno, é preciso crer como crêem as crianças, amar como amam as crianças, abandonar-se como se abandonam as crianças…, rezar como rezam as crianças.»
In Andrés Vázquez de Prada, José María Escrivá, volume I, Verbo,Lisboa, 2002, p.373.
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  • Mother and Child (Gwandusu), Mali

  • PERGUNTAS E RESPOSTAS DE MORTE
Os cidadãos brasileiros abatidos pela polícia de segurança pública portuguesa na noite de Sexta-Feira sê-lo-iam se fossem portugueses?
– Não, de certeza que não!

E se fossem negros?
A resposta é: seriam abatidos!

Mas, e se fossem ingleses?
– Bem, seriam tratados como foram os MacCann – cidadãos especiais, com privilégios que nunca vi os próprios portugueses terem… – e teriam direito a cafezinho, chá da India ou de malva e, quem sabe, bolachinhas até se encontrar uma solução negociada e adequada.

Mas o clima xenófobo que se vive no país – desde há alguns anos – existiria se um Ministro da Administração Interna do Governo de Cavaco Silva não tivesse disto, como todas as letras, que a culpa da criminalidade em Portugal era dos imigrantes (entenda-se os negros) e da prostituição no país das brasileiras?
– Ao nível actual, duvido.
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Esta afirmação estigmatizou os cidadãos brasileiros (quando tinham uma imagem substancialmente positiva no país, sendo, inclusive, vistos com admiração) e africanos em Portugal e isso é sentido no sistema judicial e na acção da polícia em geral.

Não vou tão longe como um amigo que me dizia que esta foi a oportunidade da Polícia de Segurança Pública vingar a morte de um dos seus agentes por um imigrante brasileiro. Não será assim, mas que parece, parece.

Será que sou eu que vejo mal (e não é preciso ser-se técnico de estratégia policial para se perceber o sentido das imagens entretanto divulgadas…), ou a posição dos cidadãos em causa era de pré-rendição e não de maior perigo para as vítimas?

Se assim é (for), porque dispararam os agentes? Mais, como é possível aplaudir a morte de um homem e caucionar este tipo de violência – quer da polícia quer dos agentes do crime? Vi, e não gostei! O que é de se lamentar, ainda mais, é a mensagem que se passa na comunicação social de que os cidadãos aplaudem a acção e «se sentem mais seguros» com uma «polícia assim».

Em situações análogas nunca aconteceu nada parecido. Inaugurou-se um novo paradigma de intervenção policial, ou pelo contrário, o meu amigo tem razão no seu desabafo?
Sem souber que diga. Eu cá tenho as minhas conclusões.

Ah, existe alguma ironia nesta situação: os agentes do grupo de operações especiais da PSP, ao que se sabe, foram treinados pela polícia militar brasileira. A vida tem destas coisas…

  • «I'm not a star, and I don't want to be a star. Stars fall. I am an ordinary guy with an extraordinary job.» Bernie Mac

  • Bernard Jeffery McCullough, mais conhecido como Bernie Mac, um dos grandes comediantes da presente geração morreu. Com ele desaparece um pouco mais de alegria do Mundo. É caso para dizer, o Mundo está menos alegre; logo, mais pobre.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

«Minha boa Luísa,
Não compreendo como passaste dois dias sem receber cartas minhas; foi talvez por não ter havido estafeta, porque escrevo-to todos os dias. Podias aumentar o número das pessoas, mulheres e homens, a quem fazes convites. Não os fazes em número bastante para que tenhas todos os dias alguns convidados. Convida La Valete, a mulher e uma dúzia mais. Não sou da tua opinião; as mulheres são mais levianas e comovem-se menos que nós. O bem que me dizes do meu filho dá-me prazer. Adeus, minha amiga; a minha saúde é boa. NAP. 11, às 11 horas de noite (11 de Agosto).»
In Cartas de Napoleão a Maria-Luísa – Comentadas por Carlos de La Roncière, Lello & Irmão Editores, Porto, s/d, p.82-83
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  • Esta carta, das muitas que Napoleão Bonaparte escrevia à sua amada mulher, a Arquiduquesa da Áustria, Maria-Luíza (esta é de 1812, durante a campanha da Rússia), é prova bastante de que mesmo os homens de guerra e de ambição também têm um lado sensível. Mas como não ser sensível perante o feminino; sim, como?

Imagem: Esther Baxter

Lembro, hoje, o maior atleta da história. I am the greatest, costumava dizer com a sua voz e atitude desconcertantes. E não é que tinha razão, o extraordinário Ali? Mas lembro-me dele, ainda e também, por ter sido dos primeiros cidadãos (na perspectiva mediática) a fazer os negros terem consciência e orgulho da sua identidade originária.

  • Muhammad Ali, Andy Warhol

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

  • Masturbating girl, Gustav Klint

  • KYANDA
Brilha, brilha na noite obscura
e só um desejo se canta…

É a morna de um buraco negro
– diz na sombra um filho da Kyanda.
– Não!, é a dor de um micróbio
a dormir só no pulmão de Amenófis IV
– torna o meu poeta.

Vê-de bem: é a cidade dormida
em excelente abandono;
sim, escutai os gemidos negros e pungentes
a rufar o despertar dos juízes indigentes…
– diz ainda a voz que me canta.

Eu, olho-os e digo de pena:
– na noite que me circunda
há um amordaçado à espera de ser vigia,
de bramir a espada, com ou sem venda.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

  • O CRISTÃO BUSH NA ÁSIA
O Presidente George Bush, ao chegar a Seoul, capital da Correia do Sul – país amigo e aliado dos Estados Unidos - não esperava ter que enfrentar uma manifestação monumental de protexto pela sua presença no país.

Terá ficado consolado com as boas vindas dos cristãos sul-coreanos que lhe deram uma calorosa recepção. A Coreia do Sul é o país daquela zona da Ásia com maior penetração do cristianismo; só a igreja fundada pelo Pastor Paul Yonggy Cho tem cerca de um milhão de membros de uma matriz evangélica originária da América do norte mas que evoluiu com o dedo inspirado do seu fundador e é, hoje, modelo de gestão, de desevolvimento e de visão espiritual.

Chegou tarde à Coreia do Sul, o Presidente Bush; tivesse chegado mais cedo e o Pastor Yonggi Cho (certamente) tê-lo-ia oferecido o seu livro «A Quarta Dimensão» e, talvez, assim pudesse ter uma outra visão do Mundo. De uma outra perspectiva, felizmente só chegou lá agora…

A democracia coreana, de qualquer forma, não gostou da manifestação contra Bush e não teve meias medidas: policia de choque e mangueira com água colorida – para facilitar a posterior identificação dos manifestantes… – e tranquilidade ordeira e divina para os demais da ordem do aplaudir.

Assim, o Presidente Bush levará da Correia do Sul – cedo ou tarde – o manual de Yonggy Cho e um sorriso nos lábios, o mesmo que levou; talvez um pouco maior, se resolver o problema das carnes. Depois de ler a A Quarta Dimensão (ou será que o leu antes de iniciar a guerra no Iraque?), pensará: «mas, porque andamos a perder tempo com o Billy Graham?»

  • OS 3 DO PRESIDENTE BUSH NA CORREIA DO SUL

  • Presidente George Bush ao chegar a Seoul, Coreia do Sul.

  • Manifestação de boas vindas ao Presidente George Bush em Seoul, Correia do Sul.

  • Manifestação contra a presença de George Bush em Seoul, Correia do Sul.

Vista aérea do centro desportivo de Yingdong, onde decorrerão as competições do pentatlo moderno, pólo aquático e andebol dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008.
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Ao fundo consegue-se ver os efeitos perversos do desenvolvimento galopante que a China apresenta ao Mundo: a poluição atmosférica. Custos necessários e inevitáveis do desenvolvimento e de uma sociedade da abundância?
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Não estou certo de que seja uma inevitabilidade, mas…

Com afecto
  • SON(H)O MIGRANTE
Para o Virgílo
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Inventa na palavra o sopro
De tudo o que em silêncio
Morre feito sonho ou canção;
Ensina-me o ler que antes de ler
Se aprende pelo vício da voz lendo,
Rouquidão mansa que molda
O barro informe da primeira letra;
Ensina-me o amor que se escreve
Com a boca sabendo a terra
E letras de mil aromas que só
Teus olhos de jasmim me lêem;
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É tarde, e tardas no veneno
Que a tua ausência destila;
Escuto o grito de gritar-te
Para reinventar a memória
De dizer-te antes de partir;
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Por soletrar estão ainda as letras
Desta caligrafia anónima, partitura
De um cântico em clave de mi(m).
Diz-me quando chegares,
Migrante vagabundo das estrelas
Para que lado do meu son(h)o
se abre a porta da minha alma?
José Eduardo Cunha
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Imagem: Fotografia de José Eduardo Cunha

  • HIROSHIMA E CRIMES DE GUERRA
Hiroshima foi há 63 anos…

Amanhecia..., a cidade estava meio adormecida, as crianças seguiam para a escola, os cidadãos comuns seguiam as suas vidas; uns tomavam o pequeno almoço, outros corriam para o trabalho e outros, ainda, amavam nos recantos secretos das suas casas... de repente, o bombardeiro Enola Gay cruza silenciosamnete os céus e lança sobre a cidade de Hiroshima e os seus cidadãos a bomba nuclear «litlle boy»... Decorria o dia 6 de Agosto de 1945 e a morte instantânea de mais de 130.000 pessoas inocentes anunciava o início do fim da guerra do pacífico e da segunda guerra mundial.

Para muitos os fins justificaram os meios. Hiroshima fica, com a bomba («fat man») lançada sobre Nagasaky, três dias depois, como uma das maiores monstruosidades da história da humanidade.

Se Hiroshima foi instrumental para forçar o Japão a render-se e assim evitar uma guerra em solo nipónico – com previsão de imensas baixas militares –, o ataque à Nagasaky não era «necessário»; foi, além de uma evidente experiência militar (como se verifica pela composição das bombas – uma a base de urânio e outra de plutónio), uma cruel exibição de força e de poder militar contra civis inocentes.

É um crime de guerra que ficou impune, pois já então existiam normas sobre o direito da guerra e do direito internacional humanitário que proibiam o ataque a civis e a alvos civis.

Paradoxalmente, os julgamentos de Nuremberga e de Tokyo – incidindo sobre crimes de guerra, contra a paz e contra a humanidade – somente atentou nos cometidos pelos vencidos. Hiroshima e Nagasaky não foram crimes – na perspectiva dos vencedores – mas instrumentos de vitória.

Será porque pensavam que os vencedores, porque vencedores, beneficiavam de uma causa de exclusão da ilicitude ou de justificação? Para quem pensa que os fins justificam os meios, sim; Hiroshima foi justificado. Mas tal não constituía uma atrocidade inominável que deveria ser vista à luz do direito da guerra e, sob a jurisdição adequada, se emitir ou não um juízo de justificação dessa acção? Parece-me que sim; mas esta possibilidade não foi, ao menos, considerada.

Mas, e Nagasaky, como justificar Nagasaky? Se Hiroshima é de difícil justificação, a segunda bomba nuclear, lançada sobre uma zona residencial de Nagasaky é insusceptível de qualquer justificação à luz das normas então vigentes e que dariam origem a codificação das Convenções de Genebra de 1949 e aos Protocolos adicionais de 1977.

A proliferação de tribunais especiais – do Tribunal Penal para a ex-Jugoslávia ao Tribunal Penal Internacional para o Rwanda e o Burundi – e a desconsideração do Tribunal Penal Internacional pelas grandes potencias militares é um indício evidente de que muitos ainda pensam que a força e o poder é um cheque em branco para a impunidade.

Mas não é assim, há muitas formas de se ser julgado. Os inocentes podem sofrer momentaneamente o odioso peso da força e do poder, mas a consciência pesada dos culpados nunca os larga. A verdade nunca fica escondida, nunca.
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  • Imagem: Explosão nuclear

terça-feira, 5 de agosto de 2008

  • AS DESGRAÇAS ENDÓGENAS DA TACV
A empresa TACV tem muitos problemas, mas alguns nascem no seio da sua estrutura, da sua gestão e da falta de «cultura de empresa» dos seus trabalhadores que não vêm a mesma como «sua», como algo de que fazem parte integrante e que os seus sucessos, insucessos e erros são partilhados por todos. A empresa é como um corpo e neste todos os membros devem colaborar uns com os outros; de outro modo o corpo entra em colapso (a não ser que se cure as partes que não funcionam bem) e morre.

A semana passada um casal amigo viajando de Holanda para passar as férias em Cabo Verde fez escala em Lisboa e passou o dia com a minha família. Na sua passagem aérea dizia que o avião partia às 20 horas, mas a verdade é que saiu as 19:00 horas. Se fosse eu, que gosto de fazer check in de última hora, teria ficado em terra.

No ano passado, uma amiga fez escala em Lisboa, proveniente de Milão para estar uma temporada em Cabo Verde. Mas o que lhe aconteceu em Lisboa deixou-lhe com os nervos em franja. Foi-lhe comunicada, no aeroporto de Lisboa, que não poderia viajar para Cabo Verde nessa noite porque não tinha lugar no avião! Ela e mais de, pelo menos, uma dezena de pessoas... Conclusão: o balcão dos TACV no aeroporto de Lisboa, cumprindo com as regras comunitárias, pagou-lhe de imediato pouco mais de 400 euros e envio-a num táxi para o hotel Radisson, no Campo Grande, onde jantou, dormiu e no dia seguinte seguiu viagem.

Perguntou-me como é que era possível, e lá tive de explicar-lhe as práticas de over booking de agências e companhias aéreas, as manobras comerciais de concorrência, etc... A administração dos TACV deve(rá) estar atenta à estas situações e à outras que minam a capacidade financeira da empresa como uma goteira um tanque de água. Uma dessas situações será a que me contou no outro dia uma amiga, indignada por não poder viajar na data desejada.

Mas não é só isso, há mais, muito mais. Disseram-me que os trabalhadores da TACV têm algumas regalias (justificáveis no âmbito dos acordos de empresa), nomeadamente o de viajarem pagando somente as taxas e que, ao que parece, é usado e abusado por alguns familiares de trabalhadores da companhia. Dizia-me uma amiga – que queria viajar para ir visitar familiares que não vê há cerca de uma década – desgostosa com o facto de um seu amigo, familiar de um trabalhador da empresa, ter lugar garantido para ir passear à terra pela n vezes já este ano.
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«Não entendo: borlista tem lugar, mas eu não...» – lamentava-se.

Há muito que aprendi que as coisas nunca são exactamente como nos contam; mas, a ser assim mesmo, é preocupante numa companhia com as fragilidades da TACV e na presente conjuntura. Ao que me disse, um dos antigos administradores da TACV teve alguns dissabores familiares neste aspecto, pois entendia que quando os familiares viajavam deveriam pagar as passagens como os demais cidadãos. Mas não afrontou os trabalhadores; sendo certo que o deveria ter feito, caso existissem ou existam regalias desproporcionadas à realidade económica da empresa.
Numa altura em que a empresa precisa, como todas as companhias aéreas do Mundo, de contenção de despesas e de gerar mais receitas, o uso abusivo de regalias da empresa é de censurar. Note-se, no entanto, que é justo que a empresa conceda algumas regalias aos seus trabalhadores e seus familiares directos – cônjuge, descendentes e ascendentes – mas tal deve ter um limite que não pode nem deve ultrapassar o razoável ou constituir um ónus para a companhia.

Faz sentido que os trabalhadores tenham uma viajem gratuita durante o período anual de férias, eventualmente extensível à sua família, e que esta tenha um desconto (substancial ou não) nas viagens. A empresa deve ter uma lógica de empresa mercantil e como tal deve pensar – além de proporcionar um serviço de qualidade –, em maximizar os seus proventos, principalmente agora que os custos operacionais têm aumentado substancialmente. Os trabalhadores têm um papel importante nisso e podem e devem ajudar a sustentar os objectivos da empresa, local donde vem o seu sustento.

A adesão às novas tecnologias, criando uma base de dados e de monitorização de reservas, com um código de reserva específico para os trabalhadores da empresa e seus familiares – com limitação de uso ao pré determinado – poderia ser útil à empresa. A existência de uma central única de reservas, também poderia ajudar. Certamente que pouparia e ganharia dinheiro; assim como o uso de linhas telefónicas via Internet (que são gratuitas ou de custos substancialmente baixos e que deveriam ser de uso corrente em toda a administração e empresas do Estado) e outras soluções de gestão corrente análogas poderiam ajudar na contenção dos custos da empresa. Isso para não dizer que a companhia, pelo relevante serviço público que presta ao país, deveria ter (se já não tem) acesso ao combustível a um valor inferior ao do mercado e que impediria o agravamento dos preços das passagens aéreas e das taxas. Situações excepcionais exigem medidas excepcionais.
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A galinha de ovos de ouro deu uma boa canja e soube bem a coxa frita...
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Imagem: F16 da NASA