quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

  • A BELEZA
A beleza é incómoda. Porquê? Porque nos coloca um espelho na alma e nos julgamos sem piedade. Beleza há que acaba, vingada pelo tempo; mas há a que nunca tem fim – a que abraça a eternidade dos dias e beija-a em silêncio. Uma maçã e uma flor, jazem no tempo.
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  • Imagem: Clique nela e verá o que o conseguir ver.

  • LINGUA E CULTURA A FERROS
Nós, cabo-verdianos, nesta história da língua e da cultura nacionais, deveríamos tentar aprender alguma coisa com o destino dos etruscos. Para isso serve a história – parece-me. Pater patriae – não faltam candidatos. Pai da sua Constituição… bem, já sabemos do pai. Agora, vamos ter um pai da língua – ainda que nascida a ferros de mãos descuidadas. É caso para perguntar:

– Mas, afinal, a pátria não tem mãe?

Pois é. Parece filho de mãe incógnita ou filho da… boa aventura.
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  • Imagem: Cidadão estrusco

  • PALAVRAS DE ATENTAR
«All the world’s a stage,
And all the men and women merely players.
They have their exits and their entrances.»
William Shakespeare
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  • Imagem: Pormenor da Coluna de Trajano, o Optimus Princeps (Princípe Perfeito)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Salvador Dali, Nude in a Landscape (1923)

Ignoti nulla cupido
Goethe

NATURE DES SACHE


Escutava,
a modos de negro Werther,
um menino que conheci em Mindelo:
«No dia em que Shidhartha se iluminou,
teve mil orgasmos
e esgotou-se de sonhos.
Eu, caminho à sombra da lua,
na epiderme do desejo,
na roça cunnus de mel
e nos silêncios ofegantes:
– quero sonhar,
tatear alma solar,
rasgar de mãos o horizonte
e depois, depois
continuar a existir depois de mim…»

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

BLOG NEWS
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Resolvi fazer um blog para tratar de questões jurídicas, armazenar artigos perdidos por aí e que continuam a ter interesse – senão para ninguém para mim mesmo: para revisitar o que tenho escrito nos últimos tempos. Deveria ser bloga, não blog...
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A
  • Imagem: Luis Royo

  • AS ORIGENS

Tenho à minha frente Metamorfoses, de Ovídio.
Lembra-me Gilgamesh, sempre – o Prometeu filho de cushita, nimrodiano. Minhas raízes mais longínquas. É onde chega a minha genealogia.

  • Imagem: Gilgamesh – o proto herói

domingo, 22 de fevereiro de 2009

  • A GUERRA NUCLEAR CABO-VERDIANA (1)

Deveria estar a trabalhar num texto, mas não. Apetece-me escrever alguma coisa, além da obrigação. Hay tantas otras cosas en el mundo... un instante cualquiera es más diverso y profundo que el mar – dizia Borges (Borges, 1964). Sim, tantas coisas no Mundo com que nos preocuparmos... mas, por vezes, elegemos mal as nossas preocupações ou descuramos outras – não por serem mais ou menos importantes, mas porque as elegemos movidos por razões necessárias ou que não descortinamos.

Assim, preocupamo-nos com o ambiente e a ecologia, mas não com o pão do desenvolvimento; com os peixes e os moluscos, mas não com quem alimentam; com a “justiça” criminal, mas não com a justiça social; com com a remuneração dos políticos e dos magistrados, mas não com o peso das suas responsabilidades nem com os salários de miséria dos cidadãos que constroem a terra com suor e mãos calejadas; com as consequências das leis, mas não com as razões e/ou causas da sua desadequação à realidade do país…

Sim, preocupamo-nos com o Ministério da Cultura, mas não com a cultura – em particular a nossa; com a igualdade, mas discriminamos jovens mulheres grávidas nas escolas, imigrantes de outras paragens (por serem mais negros do que nós… e/ou porque chegam como se fossem bárbaros para “roubar” o nosso pão), homossexuais e quem pensa “diferente” de nós, do nosso grupo, do nosso partido, do nosso “circulo social”…

Preocupamo-nos com a falta de luz da ELECTRA, mas não nos preocupamos com a falta de luz para os que não a têm ou para os nossos espíritos; com a cultura de representação buffa, mas não com a educação social e humana do servidor público e dos cidadãos; com a mudança nos Estados Unidos da América (até haja quem chore), mas não com a mudança real e efectiva de politicas e de modelo de sociedade na nossa terra…

Mas preocupamo-nos e reclamamos uma “mudança de mentalidade” da sociedade e dos outros, mas não da nossa mentalidade, de nossa inércia; com os erros e as omissões dos outros, mas não com as nossas falhas activas e omissivas; com a nossa memória esclavagista – esquecendo o nosso hediondo papel de braço direito do colono escravocrata – mas não com os explorados que se cruzam connosco todos os dias. Atentamos na forma como se negoceia ou não a resolução do problema do lixo que vai afogando o país, em particular a capital da não, mas não com o «como» resolver o problema. É a nossa sina, parece…

Sim, preocupamo-nos com tanta coisa e esquecemo-nos do horizonte e do sentido nuclear da luta de um Estado no estado e com as condições estruturais de Cabo Verde. Há que atentar no que é verdadeiramente importante e necessário. Agora, por exemplo, pergunto: Será que a Marina da Murdeira é fundamental para o desenvolvimento da ilha do Sal? Se sim, não pode ser em outro sítio que não na Murdeira? Existem alternativas? Foram consideradas ou não? Sim as alternativas, a existirem, foram consideradas e não são viáveis e o projecto é fundamental para a ilha, porque é que não se deve concretizar? É uma simples ponderação entre os interesses em causa.

Os males de Cabo Verde são estruturais e a acção governativa deve ser pautada por objectivos estruturais, desde a assunção de um desenvolvimento económico e social justos, a um sistema de administração da Justiça funcional, passando pela sustentabilidade ambiental e ecológica e por um sistema formativo – a todos os níveis – autónomo, sustentável e de qualidade. Seja qual for a força política que governe o país, não podemos nem devemos nos preocupar com a sua cor (também tenho a minha opção política, ideologicamente sustentada – assim como gosto Benfica, emocionalmente sustentado –, mas é minha e ninguém tem nada com isso ou de saber qual é ou não é), mas sim com a competência ou não de quem age. Assim como não nos devemos preocupar com a idade avançada do Magistrado x ou y – pois isso é um absurdo, uma forma de discriminação – mas sim se o mesmo é competente e/ou se se respeita ou não a legalidade constituída.

Todos nós, cabo-verdianos, achamos que a nossa terra é a última coca-cola do deserto; mas não é, objectivamente, assim. Como dizia Steinbeck, «Podemos gabar seja o que for, se nada mais tivermos. Quanto menos se tem, maior é a vontade de o gabar.» (John Steinbeck, A Leste do Paraíso, I). Deixemo-nos de bazofiarias, vamos ao trabalho: há um país sonhado por construir! Pode haver tantas outras coisas no Mundo mas o único mundo que importa é o nosso, onde começam todas as caminhadas – as belas e as dolorosas. Deixemo-nos da guerra civil de palavras tontas, de contra verdade e sabedoria, arvoremos a arma do verbo construir, a dialéctica do mais e do melhor. A nossa guerra não é contra o outro político; a nossa guerra é contra o nosso real subdesenvolvimento; aquele que teimámos em não ver.

Quem não entender isso, o melhor que faz é arrumar as malas e ir para casa, ou para onde quiser. Há tantas coisas no Mundo… inclusive outro lugar para brigar contra moinhos de vento; o nosso El dorado de alma só precisa de soldados para a guerra nuclear: garantir o pão de cada dia, para a estômago e para a alma.
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  • Imagem (google earth): Mindelo

William Blake - Dante e Virgilio a caminho do Inferno, escoltados...
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  • PROVÉRBIOS DO INFERNO
«As horas de insensatez, mede-as o relógio; as de sabedoria, porém, não há relógio que as meça», William Blake, «Provérbios do Inferno (12)», in O Casamento do Céu e do Inferno

Hayley Westenra
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  • O MEU POETA E RAZÕES
Hayley Westenra é uma das vozes mais belas da actualidade; digna de ser escutada atentamente e com alma. Não deve nada às grandes divas que o Mundo já escutou. O meu poeta, de repente, saindo não sei de onde, pergunta-me:

– VB, porque será que uma voz destas passa quase despercebida do público?

Olhei para o meu poeta e sorri no silêncio cortado por mel sonoro, pensando que o meu poeta é «humano, demasiado humano”.

  • À ESPERA DOS BÁRBAROS, Konstantinos Caváfis
O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no Senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
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  • ..Já tinha publicado este poema maravilhoso do Alexandrino, mas hoje (God knows why) resolvi respristiná-lo aqui.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

  • A NOVA CONSTITUIÇÃO DA VENEZUELA

Hugo Chavez tem a sua nova Constituição – ser Presidente para sempre da Venezuela é, será, a ideia. Uma via revolucionária do socialismo, seguindo as pisadas do seu mentor político: Fidel Castro. O povo referendou a sua ideia de terminar com os limites de mandatos presidenciais e esta passou, aprovada. Ditador! – grita o ocidente, escandalizado.

Mas, em verdade, a ideia de limitação de mandatos não será, em si mesma, uma subversão da ideia da democracia pura, verdadeira: aquela que assenta na vontade do povo? A história de Pericles parece dizer que sim… o bem não deve primar sobre a forma? É a questão. Mas é preciso limitar o poder… – ouvi-se-á. Pois... O poder à aristodemocracia! – reclama a Europa e as «nações civilizadas», suas filhas filhas morais.

Mas a sua ideia de nova constituição não é somente política e jurídica, ah, não! Os seus olhos caíram numa pretinha que faz estragos por Paris e por onde passa; em corações e não só. Não posso dizer que o homem não tem boas ideias, lá isso não posso, não… Uma tarda, por isso agarrou na outra com unhas e dentes – esperando que uma coisa o console de outra.

  • Imagem: Naomi Campbell

  • PROVÉRBIOS DO INFERNO
«A cisterna contém: a fonte transborda», William Blake, «Provérbios do Inferno (35)», in O Casamento do Céu e do Inferno

  • EL SUR, Jorge Luís Borges
Desde uno de tus patios haber mirado
las antiguas estrellas,
desde el banco dela sombra haber mirado
esas luces dispersas
que mi ignorancia no ha aprendido a nombrar
ni a ordenar en constelaciones,
haber sentido el círculo del agua
en el secreto aljibe,
el olor del jazmín y la madreselva,
el silencio del pájaro dormido,
el arco del zaguán, la humedad
– esas cosas, acaso, son el poema.

  • Imagem: Luis Royo

video

  • Pior, não sei o que será… Mas ouvi falar, sim.

Ictus. E quis ele iluminar as trevas e trazer-nos um mundo novo, de arco íris… – lembra-me o meu poeta.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

  • DISCRIMINAÇÃO MIGRANTE

O escândalo do dia (ou das próximas semanas?) é Alberto João Jardim e o trabalho dos estrangeiros na Madeira. Tristeza! As pessoas, de todo, não conhecem as leis deste país. Desde a publicação do Decreto-Lei 59/93 de 03.03 (sucessivamente alterado - até a actual: Lei 23/2007 de 04.07) que chamo a atenção para esta discriminação laboral ex lege que viola ostensivamente a Constituição portuguesa e a Convenção 111 da OIT sobre o trabalho e a igualdade no acesso ao trabalho. Orelhas moucas... fazem-se.

Vamos ver se a vontade da Administração Central do Estado de afrontar Alberto João Jardim é maior do que o seu autismo e esta situação tenha a virtualidade de chamar a atenção para o cerne da questão: a discriminação dos estrangeiros não comunitários no acesso ao trabalho em Portugal. Nos países africanos, nomeadamente em Cabo Verde, deveriam estar mais atentos a estas questões, nomeadamente quando fazem acordos neste âmbito…

Por chamar atenção para esta situação, aplaudo João Jardim. É triste, mas é assim; parece que o mal teima em triunfar com o silêncio dos bons ou que se dizem bons para poderem saciar a sua fome nos despojos das vítimas.

Que Mundo este: ter-se de aplaudir a injustiça…

  • Imagem: Arte pictórica de Adolf Hitler

  • POLITICA AMBIENTAL E COOPERAÇÃO

Facto: Portugal tem uma política ambiental desastrosa – isso para não dizer que não tem politica ambiental. Este Governo, de José Sócrates, tem feito algum esforço, mas insuficiente. A área ambiental – nomeadamente dos engenheiros do ambiente (que são aqueles que se encontram qualificados a fazer os estudos de impacto ambiental) – é aquela, ao nível dos licenciados, em que se verifica um dos maiores níveis de desemprego no país. A razão? A maioria dos trabalhos que estes deveriam fazer são entregues a um pequeno grupo que controla quase tudo – é um nicho de mercado para alguns que fazem o que o poder político –, desde o central ao local. Estes fazem o que o poder quer, não o que devem ou deveriam fazer, objectivamente. Uma «escola» a evitar.

Portugal é, por isso e muito mais, um monumental desastre em termos ambientais. Basta viver-se em Portugal – mesmo sendo um cidadão pouco informado – para se perceber isso. Não há muito que aprender – pois a «experiência» portuguesa é tudo menos um bom exemplo. Mas, como diz o povo, «a cavalo dado não se olha o dente». Mas há que ter consciência do cavalo que se recebe… e não será, de todo, um puro sangue lusitano mas sim um sofrido rocinante.

A ideia do Ministro do Ambiente português, Nunes Correia, é trazer a classe instituída e instalada em Portugal ou debelar o desemprego português nessa área. Quem se lembra(rá) das declarações de Manuela Ferreira Leite sobre o TGV e o emprego? Basta colocar a questão ao contrário...

"A administração do ambiente em Cabo Verde é ainda relativamente frágil e este sector dos estudos de impacto ambiental é muito importante por causa do desenvolvimento da economia, nomeadamente nos projectos turísticos, que obrigam a compatibilizar o desenvolvimento económico com o ambiente" – diz o Ministro do Ambiente luso. É verdade. Mas qual é o interesse luso nesta matéria? O interesse objectivo? «Não há almoços grátis…»
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A parte irónica desta história é que existem engenheiros ambientais cabo-verdianos desempregados… também. Mas o que dizer? A história é, por vezes, um velho gagá perseguido pelos pais e avôs. Os filhos, estes… ficam desertados. Haja paciência!

  • A CAUSA DOS NOMES
Atentai no nome desta donzela: Penelope Cruz!
Jesus was a sailor... – escuto de Leonard Cohen.
Oh, navegantes!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

  • PRIMA IUSTITIA
Pedro Pires, Presidente da República, nomeou a Magistrada judicial Zaida Lima para o Supremo Tribunal de Justiça. Tudo bem, tudo normal. Não fossem duas ou três coisinhas. A Constituição diz-nos que para o cargo devem ser nomeados juristas nacionais (não necessariamente magistrados) de «mérito»; critério enunciado que é concretizado no Estatuto dos Magistrados Judiciais que diz que devem ser juristas de «mérito reconhecido».

É que a Magistrada em causa, peso os seus méritos pessoais, não se encaixará naquilo que será a exigência legal e constitucional; ainda que se esteja – como muitos dirão – perante um conceito vago e indeterminado. Não é o caso, de todo; mas isso não vem à colação de momento. É que, salvo melhor opinião, ter 33 anos, ser-se Magistrado de 2ª. classe com 8 (oito) anos de actividade forense não é, nem de perto nem de longe, factos bastantes de serem integrados no conceito de «mérito» e muito menos de «mérito reconhecido». Mas, além desse facto, não conheço nenhum outro facto (existirão, certamente, mas eu não os conheço) para sustentar a decisão do Presidente Pedro Pires.

Note-se que esta nomeação não é, de todo, um acto discricionário (escolher quem quer, «sem dar cavaco a ninguém») do Presidente da República – é, pelo contrário, um acto vinculado aos critérios legais. Mas o que fazer? Estamos num país em que a sindicância de actos dos titulares de órgãos de soberania não é, de todo, uma tradição jurídica. Tem sido, de todo, a terra do «tchá bai».

Agora, dois factos ensombram esta nomeação: o facto da Dra. Zaida Lima ser prima do Comandante Pedro Pires e o irmão da Magistrada eleita ser assessor do Presidente da República (segundo informação que detenho). Estes factos, sem qualquer sombra de acinto, levantam sérias suspeições sobre a nomeação presidencial. As capacidades técnicas, pessoais e humanas (exigidas a um Magistrado judicial) da nomeada não estão – nem devem estar – em causa. O que deve estar em causa são os critérios objectivos da lei: saber se a decisão é feita nos termos da lei ou se a mesma não foi respeitada – isso para além do plano ético da questão. Saber se a questão do «mérito» foi respeitada, ou não; eis a questão. «A mulher de César…», já dizia Marco Aurélio…
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Não sou, já o disse, contra a nomeação política de Magistrados para os tribunais superiores; bem pelo contrário: entendo que tal facto legitima democraticamente a função jurisdicional (donde emerge a legitimidade democrática dos Tribunais?). Agora, a forma como é feita é que não me parece a mais correcta e – como se verificou – a mais transparente. Sou a favor de nomeação política, sim… mas sujeito a um estreito crivo parlamentar, a fim de se aferir (a) algumas qualidades dos magistrados e (b) a sua esfera de interesses; à imagem do que acontece nos Estados Unidos da América (sistema que tem os seus defeitos endógenos, mas tem este aspecto virtuoso).

A transparência não pode ser um discurso; tem de ser uma realidade. Se, mesmo agindo com a maior transparência e probidade estamos sujeitos à maldade, à maledicência e à injustiça… por maioria de razão, a menor das falhas coloca em causa o bem que transportamos. Mais: fere a imagem ou a honra externa de quem não é culpada de servir e desejar servir o bem comum.
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Uma coisa é certa: 8 anos de exercício da magistratura judicial não qualifica ninguém a ser Juiz Conselheiro no Supremo Tribunal de Justiça – a não ser que se seja um jurista de excepção. Mas a situação não é inédita no país. Prima Iustitia (a Justiça primeiro).

  • LIVROS QUE MERECEM SER LIDOS
John Dos Passos, U.S.A. (trilogia): The 42nd Parallel, Nineteen Nineteen e The Big Money

Geoff Eley, Forging Democracy. The History of the Left in Europe, 1850–2000
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  • Imagem: Malcolm X na India

  • SAPATO CABALISTICO?
O modelo 271, um sapato «feio que nem um raio de trovões», ganhou nova alma. Rebaptizado, «ByeBye Bush» é o seu novo nome. Deverá ter um enorme sucesso pelo mundo fora.

A parte interessante – destino? – é que o número do sapato, reparo agora, tem uma dimensão exotérica. Três números (o número atribuído à trindade divina – do Egipto a Roma, passando pela Grécia), com o número perfeito (sete – a representação de Deus) no centro, sendo que a soma dos números que o cercam (2+1) dão, também, três…

Note-se, ainda, que o primeiro [alfa] número (2) é a soma do último [ómega] número (1) do modelo; juntos dão a soma da unidade divina… curioso, no mínimo curioso… diria. Coisa para reflexão cabalística e/ou de neo-epicuristas. O que vale é que o Islão não atenta nestas coisas, de outro modo ver-se-ia a «mão de Deus» no sapato que Muntadar al-Zaidi atirou ao Presidente George Bush. Mas, estaria este sapato destinado ao fim que Muntadar al-Zaidi lhe deu? Pelos números de modelo, parece que sim; até que dá para ser profundamente panteísta e pensar que sapato, também, tem destino. Burning Bush. Sinai.

O que foi que «Eu Sou» pediu a Moisés?

Konstantinos Kaváfis

domingo, 15 de fevereiro de 2009

MOMENT(O) ZEN

Não se deixe perturbar pelo passado. Olhe para o futuro.
Do not regret the past. Look to the future.
in Regras de Soyen Shaku
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  • Salvador Dali, Explosion

Retomo, neste Domingo com sabor luterano no ar e emergindo do silêncio, as notas «humana conditio».
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  • HUMANA CONDITIO
    # 5. A CORRUPÇÃO
1. O nosso tempo histórico não é, de todo, o que vivemos. Vivemos num tempo convencional… Grenwich, calendário Juliano… o homem do futuro. A 31 de Dezembro, foi acrescentado (?) um segundo à minha existência – cronológica, espero. Todas as convenções do mundo não mudam a natureza das coisas; assim como todos os consensos políticos partidários e/ou parlamentares não tornam o ilegal em legal – disso, ao menos, podemos estar certos. Todo o povo pode achar que está «tudo legal», mas não – nem com o carnaval antecipado. A corrupção subversiva dos valores é o pior dos males.

Mas porque será que pensámos sempre em dinheiro quando a ideia de corrupção emerge? A degradação dos valores sociais, políticos, familiares, éticos, morais, pessoais… – em nome de ideias pragmáticas e conjunturais de bem –, não é, em si mesma, corrupção destes valores?

2. Não percebi, ainda, como e porquê juízes que já foram Conselheiros no Supremo Tribunal de Justiça (STJ) de Cabo Verde foram ultrapassados no concurso para aceder ao STJ por juízes de 2ª. classe (categoria profissional). Existe, certamente, uma razão para isso. Mas, de momento, não consigo descortinar qual terá sido. Mas isso sou eu, que tenho esta mania de tentar perceber a razão de ser das coisas.

3. O provincianismo intelectual, a ânsia de reconhecimento pelo burgo alastra-se como um vírus capital – diz-me o meu poeta. Onde estás, Calisto Elói…onde estás? Bem que podes gritar do Morgadio de Agra de Freires ou dos passos perdidos da capital:
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– «Olhai para mim!, apreendei de mim que sou manso e humilde de coração.»
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Ninguém te ouvirá, Morgado, pois todos somos tu. Não por querer, Calisto Elói, não por querer… mas porque, caro Morgado, parece ser a forma necessária de resistência.

4. A mentalidade não se reforma; nunca. A natureza humana não pode, também, ser mudada; mas, pode, sim, ser reparada, melhorada. Mas, por onde andará a oficina, a verdadeira? Quero, exijo um franchising! De Deus e dos homens. Conheci um draculino Frankenstein e se chamava amigo; amante da raiz de todos os males.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

  • OS GRANDES GRANDES POETAS DO OCIDENTE
Com toda a subjectividade que isso implica, aqui ficam os nomes dos grandes poetas do ocidente que conheço. Mas, como bem dizia Jorge Luís Borges, a verdade é que não existe poeta, por mais obscuro que seja, que não tenha escrito o «mais belo dos poemas».

Sob pena de ser interminável, ficam estes (a ordem é aleatória) – com uma dose de injustiça, necessária, para muitos:
Homero, Virgílio, Dante, Petrarca, Camões, Shakespeare, Racine, Goethe, William Blake, Puskin, Jorge Luís Borges.


  • Imagem: Luíz Vaz de Camões

O TESTAMENTO VITAL DO POETA BORGES

Na Praça do Giraldo, descanso. O Templo de Diana (oh, eternidade! Como virastes mulher depois de morto, ó Augustus!...), a Capela dos Ossos, a limpeza das ruas… tudo me transporta à uma pergunta: como nos esquecem, apagam-nos da memória e esquecem a nossa vontade. A morte não é coisa de e para todos – penso. Lembrei-me do que li no El País de ontem (Quinta-feira): «Aguardo la muerte com esperanza … tiengo miedo de ser imortal». Uma citação de Borges. Era, então, 1978. A morte – condição que chega com a eutanásia, o suicídio, o homicídio… partidas da natureza das coisas – é um mero começo.

Ressurge a polémica em torno do descanso do poeta: Borges, em declarações públicas agora desnudadas, queria que o seu corpo fosse sepultado em Buenos Aires; no local onde estão os corpos dos pais, dos avós…Mas Borges está enterrado em Genebra – a sua pátria de adopção (lembro-me de «Os Conjurados» – um do mais belos poema políticos de Borges).

A Argentina quer os restos mortais do poeta na sua terra natal. A viúva do poeta, Maria Kodama, acha que não, que esse desejo do poeta era coisa do passado; que é algo que deveria ser vista e entendida no tempo da afirmação. Ah!, como se os poetas fossem seres que mudassem de sentido de alma profunda… como se dissessem as coisa por dizer e sentissem por sentir. Diz Maria Kodama que ela é «a única que pode decidir sobre Borges. O poder simbólico é a obra, não o corpo.»

Mas a viúva (casou com Borges meses antes da sua morte, depois de ser sua secretária entre 1978 e 1986) do poeta de Fundação Mítica de Buenos Aires, El Aleph, O Golem… vai mais longe ao questionar: «Quem é o resto do Mundo para questionar o que fazer com o corpo de Borges?»

Sim, quem é o “resto” do Mundo? Ya no seré feliz… – bem gritava o poeta. Mas e ela? Quem é Maria Kodama para se arrogar «a única» a poder decidir sobre a última morada do poeta? – pergunto eu, aprendiz de poeta. «O último amor do poeta…» – responde-me o meu poeta. Silêncio...
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A morte. Expõe-nos, como o sono, à vontade alheia – amada ou não. Mas é legítimo – desejável até – que, além da sua vida (suicídio), alguém possa decidir (i) sobre a vida e a morte de outrem (eutanásia) ou (ii) sobre os despojos do invólucro da existência alheia?

A resposta a estas duas perguntas é, para mim: não! Sobre a eutanásia sou defensor do testamento vital (em termos análogos ao que acontece hoje em Portugal para ao caso dos transplantes dos órgãos das vítimas de acidentes mortais) sobre o local onde se deve enterrar (os até cremar e depositar) os restos mortais do de cujus. Na sua ausência sou defensor da aferição da vontade declarada pelo mesmo ou daquela que, presumível ou inferivelmente, o «proprietário» do corpo manifestaria se pudesse ter feito um testamento vital e/ou post mortem.

Maria Kodama pode ter todas as razões do mundo, mas esta questão deve ser vista no plano da vontade e da esperança do poeta: voltar ao seio ancestral junto do seu eterno genético – ao pé do seu efémero desejado. É, de todo, o único bem que se pode fazer a Borges; pois imortal já é e será – mesmo não o desejando (Não escolheu outra forma de eternidade, o poeta...).
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Ah, Estela Canto! Borges, desertado… mais uma vez. Agora não no seu coração mas na sua vontade. Não respeitar a vontade de uma pessoa depois de morta é sujeitá-la à uma segunda morte: a morte do respeito pela memória e pela palavra. Destino de poetas? Talvez… e pode acontecer a todos. Sim: «And ne forhtedon na» (e quem é que não teme).
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  • Imagem: Tumba de Jorge Luís Borges em Genebra, Suíça

VOCÊ LEITOR

Você, leitor, que pulsa
de vida e orgulho e amor,
assim como eu:
para você, por isso,
os cantos que aqui seguem!

A base de toda a metafísica.

E agora meus senhores,
dir-vos-ei algumas palavras que deverão permanecer
no vosso pensamento e na vossa memória,
como base e conclusão de toda a metafísica.

(Assim falou aos alunos o velho professor,
ao encerrar o animado curso.)

Após ter estudado o antigo e o novo, o sistema grego
e o germânico,
estudado e dissertado sobre Kant e Fichte, Schelling e Hegel,
exposto a sabedoria de Platão e a de Sócrates ainda maior
que a de Platão,
e maior que a de Sócrates a do divino Cristo à qual
longamente me dediquei.

Relembro hoje os sistemas grego e germânico,
observo todas as filosofias, as Igrejas e as doutrinas cristãs,
mas vejo claramente sob o nome de Sócrates, vejo claramente
sob o nome do divino Cristo,
o terno amor do homem pelo seu companheiro, a atracção
do amigo pelo amigo,
do esposo pela esposa amada, dos filhos e dos pais,
de cada cidade por cada cidade, de cada terra por cada terra.
Walt Whitman
  • Imagem: Mother Earth, Luis Royo

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

  • OS TROGLODITAS
«Na Arábia (i) havia uma pequena aldeia (ii) chamada Troglodita, a qual descendia dos antigos trogloditas, que, segundo dizem os historiadores, se assemelhavam mais a bestas que a seres humanos. Os modernos trogloditas não eram tão disformes; nem tinham tanto cabelo sobre o corpo e não uivavam. Tinham dois olhos, mas eram tão perversos e ferozes que não existia entre eles nenhum princípio de equidade e justiça.» Montesquieu, Cartas Persas, XI

(i) Um dia destes farei aqui uma nota sobre a Arábia e as suas origens comuns com a Etiópia.
(ii) Provavelmente no Egipto, tendo em consideração a fixação de Monstequieu com o período clássico.

  • Conseguiram chegar tão longe... – diz-me o meu poeta.

  • PROVÉRBIOS DO INFERNO
«A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia», William Blake, «Provérbios do Inferno (67)», in O Casamento do Céu e do Inferno

  • NO PAÍS DOS SACANAS – Jorge de Sena
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas
E todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
Para fazer funcionar fraternamente
A humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
Para além da rivalidade, invejas e mesquinharias
Em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
E ver se se convertem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
Ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
Porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
Que a nobreza, a dignidade, a independência,
a Justiça, a bondade, etc., etc., sejam
Outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
A um ponto que os mais não capazes de atingir.
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No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então neste país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
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  • Tigre Siberiano, Rússia (tinha este tigre guardado para um poema de Borges... pobre tigrinho, sacaneado pelas circunstâncias.)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

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  • A DEMOCRACIA CULTURAL E A NOVA FAMÍLIA

A cultura é um estádio de desenvolvimento do espírito, é quase democrática. A consciência do conhecimento considera o outro não como objecto abjecto do seu saber mas sim como um repositório da diversidade da percepção da existência. O outro não é uma coisa; o outro é o eu da sua perspectiva – nós também somos, necessariamente, um outro. É como diz William Blake: «Se outros não fossem tolos, seríamos nós.» (William Blake, «Provérbios do Inferno (51)», in O Casamento do Céu e do Inferno).

Mas há quem, perverso e segundo a condição e a natureza da sua pátria mental, não perceba o que é a equidade e a justiça. Esta deve ser, mesmo sofrendo a injustiça, a pátria de todos os homens; não de alguns somente – de todos.

A propósito disso, do todos…, lembro-me de que os projectos de revisão constitucional são omissos sobre o matrimónio dos homossexuais. Bem que poderiam – na verdade deveriam, do meu ponto de vista – prever uma forma de «sociedade conjugal» que não colidisse com a sacralidade do matrimónio, como entendida tradicionalmente na sociedade cabo-verdiana. O que, note-se, dev ser peservada, mas sem eliminar outras e novas formas de entender a família e a realização sexual das pessoas.

O princípio constitucional da igualdade demanda esta decisão de justiça elementar; pelo que não é um problema constitucional. Até porque, nesta matéria, a Constituição não tem a um limite material de revisão, pois é para alargar o espectro das normas fundamentais e não restringi-las. Mas se a Constituição encontra-se pejada de situações análogas, porque não tratar em sua sede um dos fundamentos da sociedade: as formas de constituição da família?

A democracia deve chegar a todos os sectores da vida nacional – não pode haver excluídos, de nenhuma ordem. É claro que existe o princípio da natural desigualdade entre os homens; mas se existe ao nível genético, biológico e cultural, não faz sentido que, no plano dos direitos sociais – que é igualizador –, assim seja. E a sociedade encontra-se enformada pelo direito natural: a lei directora do universo (Cícero, De Republica, II.17) que demanda a participação de todos na coisa comum.

Esta é uma das muitas matérias em que se revela o sentido conservador da sociedade cabo-verdiana. Não há que ter medo do futuro – pois há-de chegar, inexoravelmente. Uma leitura da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e da Liberdades Fundamentais é, de tudo, elucidativo de uma dimensão alargada de família, para além dos cânones tradicionais. A história não espera por ninguém.

  • Video: Querelle de Rainer Werner Fassbinder. Os mais sensíveis e possuidores de um pudor tradicional não deverão ver este vídeo.

Hugo Chavez e Naomi Campbell

  • Quem domará quem? – pergunta-me o meu poeta.
Fiquei parvo, pois não sabia que o meu poeta se ocupava destas coisas...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

  • O PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA DE CABO VERDE E O RULE OF LAW

Por que será que incomoda a muita gente que o Procurador Geral da República faça o seu trabalho? Se não o fizer, é acusado de nada fazer. Se o faz, é acusado de fazer mais do que devia ou que anda a «fazer fretes». Haja paciência!

Será que as pessoas não percebem que existem coisas que, pela sua gravidade, demandam que o defensor da coisa pública aja e aja de imediato? A comunidade jurídica nacional não entenderia uma omissão do PGR na questão da nomeação do Dr. Raúl Querido Varela e o malus fummus iuris da sua nomeação. Tinha o dever de o fazer, fez o seu dever – e bem, a meu ver.

Não por causa da idade subjectiva do Conselheiro Raúl Querido Varela, mas sim por causa da legalidade que deve ser preservada. Na verdade, se fosse eu que decidisse e não houvesse lei que tal impedisse, manteria o Juiz Conselheiro Varela no STJ. Isso por razões que não são chamadas à colação, agora. Mas a decisão do PGR não tem a ver, não pode ter a ver, com o que os cidadãos desejam, pensam ou não sobre a idade do Magistrado; a sua decisão é/era um imperativo legal.

A lei em causa é matéria a ser revista – clarificada nos termos da reforma judicial, mas com cuidados: juízes vitalícios – não! As razões? Fica para outra altura, o que importa agora é termos consciência do seguinte: a administração da Justiça não é um foro de democracia, mas sim de um Império: o Rule of Law – o Império de Lei. A ela todos, mas todos, se devem vergar. Dá para entender?

Para quem não entende, Júlio Martins, Procurador Geral da República, deu um claro sinal de que a Procuradoria Geral da RepúblicaGeral da República não irá – durante o seu mandato – compactuar com situações de violação da lei e da Constituição, lá isso deu. Que venha a ser consistente neste aspecto – ganha em credibilidade a instituição que representa e ganha a nação no seu todo, pois o que todos queremos é um vigia que vigie. A questão de saber se tem (e tem) ou não razões, é outra coisa – o que deve fazer, sempre que tenha dúvidas em matérias análogas, é colocar a questão a quem decide.

Os críticos do PGR imaginam as consequências de uma omissão sua neste caso? Parece-me que não; que não têm consciência dos efeitos nefastos que tal poderia causar à justiça cabo-verdiana. Mas, enfim… o Procurador não procura dores, cura de uma dor – isto é, de um desvio à legalidade – provocada pela Assembleia Nacional; isto é, por deputados obedientes à lógica partidária. E é uma dor pois coloca os interesses dos partidos e seus «acordos» acima das leis da nação. «Isso, não!» – diz a acção do Procurador Geral da República. E diz bem!

De escuridão, já bastam as noites prendadas da ELECTRA.

  • DOGs
Nos Estados Unidos da América as mulheres chamam os homens de coração generoso de… dogs. Lá sabem e/ou terão as suas razões para assim dizerem… mas com ou sem razão, há pessoas – homens e mulheres também – que serão uma ofensa à essa espécie animal. São seres tão solidários – estes, os cães. O meu – da família, o Zorba (uma mistura de pitbull terrier com pastor alemão), além de ser um brincalhão mimado, gosta de salmão, de bolo de aniversário, queijo e de beber café. E é fiel, tão fiel que ainda é virgem – o desgraçado (eu bem insisto que devemos arranjar uma namorada ao nosso amigo, ainda que sazonal ou de circunstância…).

O não unânime e uma multidão de razões a sustentá-lo faz-me perguntar a mim mesmo de onde veio este estranho pudor… sei a resposta; não me agrada.

Mas se os cães são fiéis – neste sentido e no que está a pensar, desde que não sujeitos à tentação –, porquê é que as mulheres chamam os homens de dog? Não é mistério; mas que é um paradoxo, lá isso é. A natureza é a única coisa que não podemos mudar, alterar, modificar – é um consenso universal. E se assim é, porque nos queixamos dos seus comandos, teimamos em pensar que se pode tapar a boca do boi que debulha?
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  • Imagem: Versão carnavalesca do oriente da Cláudia Ohana

Clique na imagem para poder ler melhor.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

  • PROVÉRBIOS DO INFERNO
«A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.», William Blake, «Provérbios do Inferno (10)», in O Casamento do Céu e do Inferno

  • CARTA DE JORGE LUIS BORGES A ESTELA CANTO (2)

Thursday, about five.

I am in Buenos Aires, I shall see you tonight, I shall see you tomorrow, I know we shall be happy together (happy and drifting an sometimes speechless and most gloriously silly), and already I feel the bodily pang of being separated from you, turn asunder from you, by rivers, by cities, by tufts of grass, by circumstances, by days and nights.


These are, I promise, the last lines I shall allow myself in this strain; I shall abound no longer in self-pity. Dear love, I love you; I wish you all happiness; a vast and complex and closewoven future of happiness lies ahead of us. I am writing like some horrible prose poet; I dont dare to reread this regrettable postcard. Estela, Estela Canto, when you read this I shall be finishing the story I promised you, the first of a long series. Yours,
Georgie.

[Estoy en Buenos Aires, te veré esta noche, te veré ma­ñana, sé que seremos felices juntos (felices, deslizándonos y a veces sin palabras y gloriosamente tontos), y ya siento el dolor corporal de estar separado de ti por ríos, por ciudades, por matas de hierba, por circunstancias, por los días y las noches.

Éstas son, lo prometo, las últimas líneas que me per­mitiré en este sentido; no volveré a entregarme a la pie­dad por mí mismo. Querido amor, te amo; te deseo toda la dicha; un vasto, complejo y entretejido futuro de felicidad yace ante nosotros. Escribo como algún horrible poeta prosista; no me atrevo a releer esta lamentable tar­jeta postal. Estela, Estela Canto, cuando leas esto estaré terminando el cuento que te prometí, el primero de una larga serie. Tuyo.]

Nota de Estela Canto à esta carta (originalmente escrito em inglês e com tradução castelhana dela):
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. Otra carta que no necesita comentarios. Jamás Borges se ha mostrado más afirmativo, pero al final duda, vuelve, por un instante, a sus «obsesiones».
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  • Imagen: Buenos Aires a Noite

sábado, 7 de fevereiro de 2009

  • SABER E CONSOLAÇÃO DE SABER

Por vezes, na nossa «sabedoria» esquecemo-nos de coisas simples. Lembro-me de, há alguns anos, estar no Enclave a beber um copo tranquilamente e a conversar com uns amigos quando um crioulo, bazofo, começou a arvorar que era irmão de uma eminência da terra e licenciado em ciência política. Como se ser irmão de político autorizasse alguém a falar de Política ou ser licenciado nessa ciência tornasse a pessoa, por passo de mágica canudal, num Platão, Aristóteles ou Carl Schmitt.

Foi então, farto das suas bazofiarias – na verdade das suas imprecisões – perguntei se sabia quem era Charles de Secondat. Não sabia, pois claro. Mas sabia… sim. Só que sabia de forma superficial, pois Charles de Secondat, Barão de Montesquieu é conhecido pelo seu título nobiliárquico e não pelo seu nome; e o licenciado em causa deveria saber isso – pois era/é matéria básica do objecto da sua ciência. Leu, com certeza, O Espírito das Leis de Montesquieu; mas ficou pela mera leitura sebentária. Conhece-se as coisas e a ciência, mas não se tem o saber das coisas e da ciência; uma é um conhecido acidental ou não, o outro é um amante de uma vida.

Porque digo isso? Porque, na verdade, passa-se a vida a citar juízos que não se conhece e a opinar sobre eles. Lembro-me de, ainda na Faculdade de Direito de Lisboa, ter aprendido no primeiro ano (em Direito Constitucional I) a citar o Artº.16ª. da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de Agosto de 1789. Citava-o, conhecia-o… mas não o conhecia verdadeiramente. Somente no 5º. Ano (Filosofia do Direito) – depois de ler o corpo do artigo em causa cerca de dois anos antes (Direito Constitucional II) e de o ter considerado no ano anterior (Direito Internacional Público II) é que li a declaração toda; isso graças ao rigor do Professor Soares Martinez e porque me sentia interiormente envergonhado por não conhecer toda a declaração e passar a vida a citá-la.

Foi, então, uma grande lição que aprendi: aprender é, acima de tudo, apreender e interiorizar as coisas; torná-las parte de nós. Mas, também – e estava no âmbito da filosofia do Direito – percebi uma coisa que nunca mais deixou de perturbar-me a alma: a sociedade “avança”, “progride”… mas vai sacrificando alguns valores, alguns fundamentais – como é o caso da solidariedade e do princípio do controlo da governação pelos cidadãos (coisa que, parece, será objecto de consideração na Revisão da Constituição em Cabo Verde).

Por vezes – como dizia S. Paulo em I Coríntios XIII – conhecemos em parte; mas importa conhecer bem a nossa ciência, os nossos prazeres, a nossa alma – se tivermos coragem bastante, o nosso amor. Assim, seja o que o for que nos reserve a existência, nunca, mas nunca estaremos sós: teremos a consolação do conhecimento, do saber – como bem dizia Boécio.

E fico a pensar nas palavras de Göethe… enquanto decido se leio um pouco da Bíblia ou da Metamorfose de Ovídio.
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  • Imagem: Luis Royo

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Declaración de los Derechos del Hombre y del Ciudadano (i)
26 de agosto de 1789

Los representantes del pueblo francés, constituidos en Asamblea Nacional, considerando que la ignorancia, el ol­vido o el desprecio de los derechos del hombre, son las únicas causas de los males públicos y de la corrupción de los gobiernos, han resuelto exponer, en una declaración solemne, los derechos naturales, inalienables y sagrados del hombre, a fin de que esta declaración, siempre presente a todos los miembros del cuerpo social, les recuerde sin cesar sus derechos y sus deberes; a fin de que los actos del poder legislativo y los del poder ejecutivo, pudiendo ser comparados en cada instante con el fin de toda institución política, sean más respetados; a fin de que las reclamaciones de los ciudadanos, fundadas des­de ahora sobre principios simples e indudables, se dirijan siempre al mantenimiento de la Constitución y al bienestar de todos.

En consecuencia, la Asamblea Nacional reconoce y declara, en presencia de todos y bajo los auspicios del Ser Supremo, los siguientes derechos del hombre y del ciudadano.

Artículo 1.° Los hombres nacen y permanecen libres e iguales en derechos. Las distinciones sociales sólo pueden fundarse en la utilidad común.

Art. 2° La finalidad de toda asociación política es la conservación de los derechos naturales e imprescriptibles del hombre. Estos derechos son la libertad, la propiedad, la seguridad y la resistencia a la opresión.

Art. 3.° El principio de toda soberanía reside esen­cialmente en la nación. Ninguna corporación ni individuo pueden ejercer autoridad que no emane de ella expresa­mente.

Art. 4.° La libertad consiste en poder hacer lo que no daña a otro; así el ejercicio de los derechos naturales de cada hombre no tiene otros límites que los que ase­guran a los demás miembros de la sociedad el goce de estos mismos derechos. Estos límites no pueden ser de­terminados más que por la ley.
Art. 5.° La ley no puede prohibir sino las acciones perjudiciales a la sociedad. Todo lo que no está prohibido por la ley no puede ser impedido, y nadie puede ser obli­gado a hacer lo que aquélla no ordene.

Art. 6.° La ley es la expresión de la voluntad gene­ral. Todos los ciudadanos tienen el derecho de participar personalmente, o a través de sus representantes, en su formación. Debe ser la misma para todos, tanto cuando protege como cuando castiga. Siendo todos los ciudadanos iguales a sus ojos, son igualmente admisibles a todas las dignidades, puestos y empleos públicos, según su capaci­dad, y sin otra distinción que la de sus méritos y capa­cidad.

Art. 7.° Ningún hombre puede ser acusado, arresta­do ni detenido más que en los casos determinados por la ley, y según las formas prescritas por ella. Los que solici­ten, expidan, ejecuten o hagan ejecutar órdenes arbitra­rias deberán ser castigados; pero todo ciudadano convo­cado o requerido en virtud de una ley debe obedecer al instante; de no hacerlo, resulta culpable por su resistencia.

Art. 8.° La ley no debe establecer otras penas que las estrictas y evidentemente necesarias, y nadie puede ser castigado más que en virtud de una ley establecida y promulgada anteriormente al delito y legalmente apli­cada.

Art. 9.° Se presume que todo hombre es inocente hasta que haya sido declarado culpable. Si se juzga que es indispensable arrestarlo, todo rigor que no sea nece­sario para asegurar su persona debe ser severamente re­primido por la ley.

Art. 10. Nadie debe ser inquietado por sus opiniones, incluso las religiosas, siempre que su manifestación no perturbe el orden público establecido por la ley.

Art. 11. La libre comunicación de los pensamientos y de opiniones es uno de los derechos más preciosos del hombre. Todo ciudadano puede hablar, escribir, imprimir libremente, con la salvedad de responder del abuso de esta libertad en los casos determinados por la ley.

Art. 12. La garantía de los derechos del hombre y del ciudadano necesita una fuerza pública; esta fuerza es ins­tituida para el beneficio de todos y no para la utilidad particular de aquellos a quienes está confiada.

Art. 13. Para el mantenimiento de la fuerza pública y para los gastos de la administración es indispensable una contribución común, que debe ser repartida por igual entre todos los ciudadanos en razón de sus posibili­dades.

Art. 14. Todos los ciudadanos tienen el derecho de comprobar, por sí mismos o por sus representantes, la necesidad de la contribución pública, de consentirla li­bremente, de vigilar su empleo y de determinar la cuota, la base, la recaudación y la duración.

Art. 15. La sociedad tiene el derecho de pedir cuen­tas de su administración a todo agente público.

Art. 16. Toda sociedad en la cual la garantía de es­tos derechos no está asegurada ni determinada la separa­ción de poderes, no tiene constitución.

Art. 17. Siendo la propiedad un derecho inviolable y sagrado, nadie puede ser privado de ella a no ser cuando la necesidad pública, legalmente constatada, lo exija de modo manifiesto, y bajo la condición de una justa y previa indemnización.
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(i) Texto como publicado em: Miguel Artola (ed.), Los derechos del hombre, Alianza Editorial, Madrid, 1987, pp. 103-106.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

  • CARTA DE JORGE LUIS BORGES A ESTELA CANTO (i)
«Hoy, viernes 18.
Querida Estela:
No sé cuándo leerás estas líneas, no sé si estás aquí o en el Uruguay. Creo que este año prescindiré de otras va­caciones que las que me tocaron en Adrogué. (Ahí están derribando los eucaliptos para edificar un colegio.) Me abruman las tareas: un prólogo para las Novelas Ejem­plares, otro para el Paradise Lost, otro para un libro de Emerson, un cuento para un libro mío, antológico, que ilustrará Elizabeth Wrede, la lectura (nominal) de cuatro volúmenes para el Premio Nacional de Filosofía, la de otras tantas piezas de teatro para un certamen, la innu­merable redacción de solapas, noticias y contratapas.

Nunca, Estela, me he sentido más cerca de ti; te ima­gino y te pienso continuamente, pero siempre de espal­das o de perfil. Fuera de los Bioy no veo a nadie. Te de­seo mucha felicidad,
Georgie.

Tengo un décimo de lotería para nosotros dos, curiosa multiplicación de la incertidumbre.»

. Nota de Estela Canto à esta carta:

Desde los primeros momentos, esta carta debe ser de di­ciembre 1944, Borges tiende a hacerme participar de su vi­da, de sus preocupaciones, de sus tareas. Pero: ¿por qué siempre me ve «de espaldas o de perfil»? in Estela Canto, Borges a Contraluz

(i) Quem sabe se, oportunamente, não publicarei outras cartas da JL Borges à esta sua Laura (todos os grandes poetas têm uma Laura, ainda que inconfessadas). Se não me esquecer, como – lembrei-me agora – das Cartas de Maria Luiza a Napoleão...

  • Imagem: Dali, Portrait of My Dead Brother, 1963

DITA–DURA DE CHUVA

Chove em Lisboa. O Mundo anda demasiado sério – desbelado mesmo… o espaço para compartilhar o bem escapa, pouco a pouco, pouco a poço, como a chuva que cai e faz o que faz e deve fazer: chora, molha e traz vida. Será por isso que procuro o belo não aí mas dentro de mim, inundado de um olhar ausente, perto-longe como a minha terra-longe?

Chove em Lisboa. Quero silêncio em toda a terra inundada e seca de amor enquanto me escuto. E o meu poeta reclama, e reclama.

Chove em Lisboa. Uma chuva fria, dolorosa até. O sol, decerto, despontará – pode tardar mas virá; de mansinho, baterá à janela e, entrando pelo meu vale quadrado, dar-me-á a sua mão. E sentar-nos-emos no planalto da hora a escutar-me.

Chove em Lisboa. Ah, e mil coisas há por fazer… agora.
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  • Imagem: Luis Royo

  • 1964
II

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha, la muerte,
ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna
y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al sur, a cierta puerta, a cierta esquina.
Jorge Luís Borges

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  • Imagem: Rembrandt, Moses smashing the tables of the Law

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

  • O MEU POETA
«Deveria o Mundo ser assim: pendendo de cores, com Deus esvoaçando nas horas pardas» – disse-me o meu poeta.

O MEU POETA E EU

Este cidadão egípcio faz-me lembrar o pântano de António Guterres – não sei porquê. O meu poeta, que me faz companhia, diz-me que o rei vai nu. Não sei, não… não sei mesmo. É que nem sei se o rei vai...

O importante é a nudez ou por e para onde vai? – pergunto ao meu poeta.

  • Imagem: Egipto (para evitar confusões)

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  • COISAS DE ATENTAR (i)

Toda a tragédia não natural é previsível – lembra-me o meu poeta.

(i) Se é impressionável, assusta-se com facilidade ou tem problemas cardíacos, por favor, não veja este vídeo: não quero ser acusado – pelos Locke Bell desde mundo – de homicídio qualificado “pelo susto”.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

  • LEI DE PERRUSEL
Não existe tarefa tão simples que não possa ser mal executada.

  • A MURDEIRA E O INTERESSE PÚBLICO
A informação sobre a substância do «Caso Murdeira» é escassa, pouco precisa e muito do plano do «diz-se» (para tomar emprestado uma expressão do Magistrado do Ministério Público, Vital Moeda). Mas alguma coisa não é dessa natureza, é mais concreta; como é o caso do documento que se seguirá. Sim, sobre o «Caso da Murdeira», fica aqui a carta enviada pelo Magistrado do Ministério Público, Vital Moeda Filho, à Ministra da Economia e Competitividade.

Surpreendeu-me, a carta… confesso. É publicada como a recebi – com itálico, bold e a cores. Não é nem devia ser documento a circular na internet, mas circula; infelizmente. Mas como é relevante, de interesse público e não atenta contra nenhum interesse público ou a dignidade pessoal de ninguém, cá fica a sua publicação. Fiquei tentado a anotar esta carta, mas resisti à tentação – coisas do Diabo, pois claro (diria o meu poeta).

Mas anoto, tão somente, que o discurso do Senhor Procurador Vital Moeda Filho ultrapassa a cortesia e é de uma subserviência tal que me espanta. O Governo e todos os seus membros têm o dever de fornecer todas as informações solicitadas pelo Ministério Público e este não tem (a) nem de pedir nenhum favor nem de (b) justificar as razões porque solicita tais informações e documentos. É nesse plano de relação que as coisas devem ser tratadas – a questão substancial do problema é outra.
Sendo certo que não existem direitos absolutos, a questão em si deve ser analisada de forma cuidada, de modo a que haja uma concordância prática entre a ecologia e outros interesses públicos. Tratar-se-á de um problema de colisão de direitos fundamentais (de natureza e gerações diferentes, anote-se...) e que tem sede própria e momento adequado para ser tratada.

Agora, uma coisa é certa: se o Governo avançar com a obra e ela tiver a dimensão que se anuncia, o Ministério Público pode (e se calhar até deve, por uma questão de defesa da legalidade objectiva e caso a mesma venha a ser violada) embargar a obra; mas tal, parece-me, não servirá de muito – pois o interesse público…
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  • Imagem: Pequena marina na Noruega