sexta-feira, 29 de maio de 2009

  • AL PSU, Ó ESTEVES
Tenho dito, não raras vezes, que que isso de não ler os Lusíadas faz mal à muita gente – começam a delirar, e até usam o nome de Deus, resgatado de uma terra de cabras, com visões colhidas de uma caverna. Mas não devem saber isso, pois não leram os Lusíadas – e não sabem as dores que sofreu Joaquim às mãos de Nabucodonozor, nem conhecem a forma das lágrimas de Tito diante do fogo ou o sonho de Neemias, Esther, Daniel e Jeremias nas noites cativas dando nome às estrelas.
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Bem digo, quase que grito e sou gráfico!, mas não sou escutado. O melhor será dizer: procurai as bacantes! Bem, para ser bem entendido: bebei vinho meu amigo, vinho. Vou fumar! Mas para ti, o melhor será dizer – ainda: come chocolates, come chocolates

Donald Rumsfeld e Shadam Hussein em Bagadad (1983)
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  • MUDAM-SE OS TEMPOS…
Tão amigos que eles eram… Donald Rumsfeld, O Bush man e Shadam Hussein – o então ditador necessário. Um morreu: enforcado por ordem de tribunal preparado pelo outro, depois de promover a invasão do seu país, e ficar ainda mais rico com o petróleo iraquiano e as obras de reconstrução do país. Agora que a galinha de ovos de ouro está a acabar (irá acabar com a Administração Obama – como foi publicamente anunciado e terá de ser: djana já cabá), tivemos a gripe das aves e, agora, a gripe suína.

E, adivinhe só quem está a ganhar milhões com estas crises gripais? Sim, isso mesmo: Donald Rumsfeld! A Empresa a que preside é dona das patentes das vacinas, para a gripe das aves, da gripe suína… e sabe lá Deus o que por aí virá a seguir. O homem, decididamente, sabe que a desgraça dos outros é a sua Fortuna. Por vezes, como agora, penso em Malthus… de certeza que adoraria conhecer Donald Rumsfeld! Seria, como se dizia no Mindelo quando eu era menino, o encontro da fome com a vontade de comer. Da ilha de Patmos: quem tem ouvidos…

Les femmes, Milo Manara
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  • PROVÉRBIOS DO INFERNO
«Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos», William Blake, «Provérbios do Inferno (2)», in O Casamento do Céu e do Inferno

Darfur, Sudão…

quarta-feira, 27 de maio de 2009

The Wheel of Fortune, Edward Coley Burne-Jones

  • EU E O MEU POETA
– Há uma diferença substancial entre mentir e dizer uma mentira – lembrei ao meu poeta.

– VB, e quando se diz uma mentira e ela se torna a verdade, a realidade? – volveu o meu poeta.

– Bem, meu poeta – respondi –, aí não se pode fazer nada, pois estamos então perante a
vontade dos deuses criadores da verdade.
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– Ah, sim! Agora entendo, ó VB, porque dizes para se ter cuidado, cuidado com o poder…

segunda-feira, 25 de maio de 2009

  • DESPOJOS DE DOMINGO CANIBAL

É Domingo. O perdão da divida externa dos países pobres, a pena de morte, a Nova Ordem, o corporativismo judicial, o mal como situação não necessária, a pobreza estrutural e a miséria humana – as suas causas são tanto ou mais dolorosas do que elas mesmas – azucrinam-me a alma enquanto escuto Albinoni, Corelli e Bellini no meu momento de reflexão. Melhor é não pensar – diz o poeta. Fumo um ducados (que saudades tenho de um cigarillo negro cohiba ou de um popular sem filtro!), e resolvo ler um pouco: reli um texto, enviado por um amigo, sobre Ugolino e passo os olhos por Emanuel Swedenborg – tem prioridade não técnica nestes dias.

O universo cai aos bocados, podre pelo norte, de ausência de pão a sul, de afectos dementes, com a dor esmolando pelas ruas, a lua e a amante da rosa desertas. Estaciono na poesia – leio The Ship of Death and Other Poems de D.H. Lawrence, e paro em «Snake»:

A snake came to my water-trough
On a hot, hot day, and I in pyijamas for the heat,
To drink there.

[…]
The voice of my education said to me
He must be killed,
For in Siciky, the black, black snack are innocent, the gold are venomous.

[…]
And a voice in me said, If you were a man
You would take a stick and break him now, and finish him off.

Terrível… Espreito a alma de T. S. Eliot (Little Gidding):

[…]
Quick now, here, now, always –
A condition of complete simplicity
(Costing not less than everything.)
And all shall be well
When tonges of flame are in-folded
Into the crowned knot of fire
And the fire and the rose are one.


Não, as rosas ardem, queimam demais na primavera. Como diz Camilo (Shakeaspeare, The Winter´s Tale, IV.3):


I should leave geazing, were I of your flock,
And only live by gazing.


Nada disso, não. Talvez seja de seguir o conselho de Hamlet (Shakeaspeare, Hamlet, II.1): “By indirections find directions out” e, como me diz Wordsworth, haja “A virtue which erradicates and exalts / Objects through widest intercurse of sense”. Mas a verdade, assume a voz de José Gomes Ferreira (Poesia I, XXXIII):

Nasceste por engano nestes céus
lua de sangue
– pintada dos corações de todos os mortos.

O que quero, é o Domingo – a alma do sagrado. Não há vozes sobre os céus, hoje. Miguel brigou, e perdeu o meu poema de figos maduros para as potestades do ar. Estaciono a alma em Ezra Pound (Ezra Pound, De Aegyito) consolado:

Eu, até mesmo eu, que conheço as estradas
Através do céu, e o seu vento no meu corpo.


Eu vi a Senhora da Vida,
Eu, até eu, que voarei com a andorinha
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Sim, com as andorinhas felizes. Essas que banharam Rosália de Castro de sonhos (Rosália de Castro, Dos Palomas):

¡Felices esas aves que volando
libres en paz por el espacio corren
de purísima atmósfera gozando
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E o Domingo foi-se com a noite. Lembro-me de Helvius Pertinax – esta memória é o maior dos conselhos. Ugolino não matou a fome: a natureza suplanta todos os afectos – aqui reside a razão maior do mal. Por isso é inextirpável – como diz-nos Emmanuel Kant em A Religião nos Limites da Simples Razão. Estas coisas também matam um Domingo, e muitos outros dias. Deveria ter trocado isto pelos Lusíadas, dar uma braçadas… como diz um peixinho que sabe teclar mas lê pouco. Ai Voltaire! A tua velha… era feliz. Não acrescentava dores às dores, lá isso não fazia ó Coélet.

Imagem: Veneziana de costas virada para o mar…

Stasys Eidrigevicius, Pray
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  • VOZES DE ATENTAR…
" In fact, I'll bet that within the next hundred years (I'm giving the world time for setbacks and myself time to be out of the betting game, just in case I lose this one), nationhood as we know it will be obsolete; all states will recognize a single, global authority. A phrase briefly fashionable in the mid-20th century -- "citizen of the world" -- will have assumed real meaning by the end of the 21st.. [...] Perhaps National sovereignty wasn't such a great idea after all", Strobe Talbot, President Clinton's Deputy Secretary of State, as quoted in Time, July 20th, 1992

O CONDE UGOLINO E A NATUREZA HUMANA

O connatus essendi, diria Espinosa...
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clique na imagem para poder ler melhor o texto

domingo, 24 de maio de 2009

  • A CRISE SELECTIVA E A ARISTODEMOCRACIA
Quem foi que disse que Cabo Verde passa a vida a imitar Portugal? Pois disse bem – e no pior que o país tem. Se fosse nas coisas boas, mas não. Pois bem, desta vez foi ao contrário. Depois da Assembleia Nacional ter renovado a sua frota automóvel, a Assembleia da República Portuguesa resolveu fazer o mesmo: BMW´s novos para todos os líderes parlamentares e para a Mesa da AR. O povo que aperte o cinto, pois é necessário comprar carros novos para os líderes do Parlamento (esqueceram estes que se o povo sofre, eles também deveriam sofrer, pois são a representação do povo; são somente o boca do povo – mas não para comer em seu nome, mas sim para falar em seu nome). E dar aumentos de 5% ao Governador do Banco de Portugal (cerca de mais mil euros de aumento por mês, a acrecentar aos cerca de 20 mil que recebe mensalmente), mas que este prescindiu – mas porque se tornou um escândalo público.

Assim vai Portugal – uns a viver de forma escandalosamente opulenta e outros a sobreviver nas ruas, debaixo das pontes e em casas onde não há ar condicionado, sedas, marfim, presunto pata negra e de pato, Barca Velha e Albariño, caviar beluga e champanhe a rodos... mas sim ratos, piolhos e, com sorte, uma côdea de pão com manteiga para comer com leite com prazo a expirar do Banco Alimentar. A crise existe, sim. Mas é selectiva, muito selectiva. «Os pobres que paguem a crise» – é o lema da aristodemocarcia política, os nobres da moderdinade, esses que emergiram da Revolução e das independências para livrar os povos oprimidos do jugo opressor. O povo, assim como a instauração da República em 1910, trocou um jugo por outro.
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Mas pode ser que um dia o povo acorde, e faça uma revolução silenciosa nas urnas – pois Abril, nunca mais se verá; os militares estão adormecidos e domesticados pelas delicias de Cápua e pela «ordem democrática». E lembro-me, agora, do poema Os Conjurados de Jorge Luis Borges – sim, oxalá este meu desejo de despertar do povo seja profético.

Imagem: BMW série 7

  • VOZES DE ATENTAR
«Vamos ler Voltaire, todos! Candido, é o conselho» – exortou o meu poeta.
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Imagem: Voltaire

sábado, 23 de maio de 2009

  • PAI UNIVERSALIS

Para os que se interessam por questões políticas, cá fica este comunicado do Sector do PAICV em França (editado como recebido, na forma e conteúdo). Interessante… Ah, um passarinho, aliás vários, me disseram que o Presidente do JPAI, de passagem da viagem à França, iria inaugurar o sistema de emissão de Certidões de Registo Criminal on line da Embaixada de Cabo em Lisboa (o sistema que já tinha sido inaugurado – e que é uma mais valia para a comunidade, diga-se an passant), aproveitando para ter reuniões análogas aos que teve em Paris. Tudo na normalidade – pensar-se-á na terra. O que a oposição tem a dizer disso? Vou ficar à espera, mas a reacção será um tanto ou quanto extemporrânea.

Imagens: A reunião comemorativa do 10 Anos das mulheres PAICV de Paris
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Comemorações do X Aniversário do Sector de França encerradas em grande!

As comemorações do X Aniversário da criação do Sector do PAICV de França foram encerradas com chave de ouro, numa sessão que decorreu do início da tarde de Domingo, 17, até por volta das 21h00 no Centro “Robert Lavargne” de Asnieres. O Salão transbordava de gente provinda dos quatro cantos de Paris e de outras cidades, os assentos não chegaram pela enchente e muitos assistiram de pé. Um clima de muita amizade e de convívio fraternal perdurou até o fim. O programa não poderia ter sido melhor: um mix de comunicações de interesse para a comunidade, asseguradas pelo Ministro de Estado e da Saúde, Basílio Ramos, sobre “Os Desafios de Cabo Verde” e pelo Embaixador,. José Duarte, sobre o Acordo de Mobilidade com França, no quadro da Parceria Especial Cabo Verde/União Europeia, com um breve historial da criação e evolução do Sector do PAICV em França, apresentada pela dinâmica 1ª Secretária do Sector, Etelvina Teque e um programa cultural riquíssimo com intérpretes de qualidade invejável.
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Cantoras e cantores, conjunto musical, que presentearam o público com interpretações abarcando quase todos os géneros musicais cabo-verdianos e com alto nível de desempenho. Na dança, o batuku e uma coreografia dos géneros tradicionais estilizados fizeram o gozo dos espectadores. Claro, com todos esses ingredientes, muitos deram gosto ao pé num baile animado que, em festa de kriolu é impossível faltar.

Mas todo o conteúdo do programa das comemorações primou pela qualidade. A componente política contou com um encontro entre a delegação da Direcção Nacional do PAICV, chefiada pelo seu Secretário-Geral Dr. Basílio Ramos e o Conselho do Sector de França e militantes de base, bem como as delegações dos Sectores de Itália, Holanda e Portugal, chefiadas pelos respectivos primeiros secretários; Um encontro de jovens com o Presidente da JPAI, Nuías Silva; um encontro de mulheres, onde se empossou a Secretária do Sector para as Mulheres, Fernanda Semedo, presidida pela Secretária Nacional das Mulheres do PAICV, Joanilda Alves.
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A componente política contou, ainda, com duas reuniões da delegação cabo-verdiana, desta feita chefiada pelo Coordenador do PAICV na Europa, Mário Matos, realizadas com um delegação do Partido Socialista Francês, presidida pelo Chefe de Departamento de África, Thomas Melonions e com representantes da Direcção da reputada Fundação “Jean Jaurès”, Anne-Chatarine Franc do Secretariado Nacional do PSF e Alexandre Minet do Departamento de África da FJJ, onde foram passados em revista os laços de amizade, solidariedade e cooperação entre o PAICV e o PSF, ambos partidos da Internacional Socialista, e se assentaram medidas para o reforço dessas relações que serão formalizadas aquando da próxima visita de uma delegação do PSF a Cabo Verde a convite do PAICV.

É de se realçar que, como habitualmente e fazendo jus às excelentes relações entre o PAICV e o PSF, o Sector de França contou com apoio do PSF nestas comemorações. Os encontros políticos decorreram, todos, nas sedes do PSF e da Fundação “Jean Jaurès”.

O Deputado da Nação, eleito pelo Círculo Eleitoral da Europa e Resto Mundo, Manuel Monteiro, tomou parte activa nas comemorações, tendo sido lembrado, também, como um dos fundadores do Sector do PAICV em França, juntamente com Orlando Livramento, Sérgio Sanches, Francisco Santos, Annie Lacerda, e muitos outros.
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Para além da sessão pública de encerramento do Programa, realizou-se, ainda, um encontro com a comunidade em Creil, na manhã de 17 de Maio, presidido pelo Ministro de Estado e da Saúde, Dr. Basílio Ramos, onde foram levantadas várias questões respeitantes à actual realidade em Cabo Verde e na diáspora.

Sem dúvida que o Sector de França, a sua Direcção e os militantes e amigos do PAICV, estão de parabéns. Foi esse o sentimento de todos os que participaram nesses eventos.
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  • MY DREAM OF YOU
Hoje, escutava o meu poeta
a dizer-te em penitência de querer-te:

«O meu sonho de ti
é pomba imolada no eros-altar,
é cordeiro em incensário florido,
é canto de louvor feito sacrifício,
é amor gerado de dor branca,
é ramo de palma emoldurando-me a alma,
é navio sem porto-descanso,
é desejo sem paragem,
é sentimento sem forma-destino nem imagem,
é encanto sem forma de desencanto,
é vago temor de te amar,
é vontade de tocar-te profundamente…
é nódoa que não mancha,
é negritude perdida em cristalino,
é opacidade de redenção denunciada,
é emancipação da redenção expiada,
é cópula silenciada de silêncios,
é bem e é mal libertário,
é divino e é profano,
é absoluto e é miragem,
é Alfa plenilúnio de Agosto em Mindelo,
é proto-Ómega que se reduz
às formas tremendas da tua alma
quebrada em corpo-raízes-sim».

Imagem: KD Aubert

  • RAÍZES/ROOTS
Este é Nhô Pedro Nhana (Pedro Alexandrino Brandão), meu bisavô. Pai de Sabino Teixeira Brandão (meu avô) e avô de Virgílio Teixeira Brandão – meu pai. Estranho prazer este: ver a fotografia de uma pessoa que seguiu para a maior aventura ainda antes de eu ser gerado e entregue ao Mundo. A isso se chama genealogia, das margens do Vulcão. Obrigado, Tio Agostinho.

Fica aqui, para a multidão dos meus familiares que, como eu, nunca o conheceram.

Imagem: Nhô Pedro Nhana (Pedro Alexandrino Brandão) – meu bisavô.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

  • NOTA DE UM POETA A BEIRA-MAR
Alteia a bruma das rosas
– os ribeiros-beijos, confessados pelos serafins,
trouxeram a aurora dos argonautas.

Muitos universos chegam
à esta praia sedenta de amanhã
mas o oceano atlante em espuma és tu.

Porque te admiras, norma mortal,
proto-sombra de tudo?

Estou sedento, vou beber o mar; todo.

Imagem: Binette, Nana Sousa Dias

  • MOMENT(O) ZEN
O Papa João Paulo II foi até a prisão visitar o homem que o tentou matar. Estando lá, cumprimentou-o, e disse-lhe que o perdoava. Um lição a não esquecer! O homem, hoje diz-se arrependido, que é um novo homem e que, imagine-se, quer adquirir a nacionalidade portuguesa. O Ministro da Justiça, antes do homem fazer o pedido já respondeu: não! Uns perdoem, outros não. É, entre outras coisas, o que diferencia os homens.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

  • O COMUNICADO DO PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA E A PRESCRIÇÃO DO CRIME ELEITORAL
Acabo de ler o Comunicado do Procurador Geral da República (PGR) em Nota de Imprensa sobre o caso das declaraçãos do Primeiro Ministo no dia das eleições em 22.01.2006 (últimas eleições legislativas) e, ainda na sequência da decisão do Supremo Tribunal de Justiça/Tribunal Constitucional, fica claro o que já sabia: vivemos num Estado em que impera o corporativismo. Mas isso, será objecto de escrito posterior.

Alguém não fez o seu trabalho – e, como ficou claro, esse alguém não foi a PGR mas sim a Assembleia Nacional. Lembro que aquando de uma quaestio com o M.I. Casimiro de Pina e o destemido Nuno Ferro Marques, a propósito da Petição/Acção Popular subscrita pelo ex-Primeiro Ministro Carlos Veiga e agora candidato a liderança do MPD, ficou claro que tinham apresentado uma Petição no Parlamento no sentido de haver acção penal contra o Primeiro Ministro José Maria Neves (o que, na altura, estava já prescrito – como defendi então).
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Como vem esclarecer o PGR – o que deveria ter sido feito já nessa altura, diga-se em abono da verdade –, a Acção Penal não foi iniciada pela Assembleia Nacional, como manda a Constituição. Na altura alertei para os manifestos intentos políticos da Acção Popular/Petição… mas nunca pensei que pudesse haver entraves políticos em matérias desta natureza, até porque existe uma Oposição. Aliás, quem tem acompanhado os meus escritos no Liberal sabe que reclamo há muito a revisão desta norma da Constituição, uma vez que cria uma desigualdade material injustificável entre os cidadãos (vai além de qualquer ideia de imunidade, cria situações de inpunidade).

Mas porquê não se iniciou o procedimento penal para, de seguida, o mesmo seguir para a PGR? – perguntar-me-ão. Isso é para se perguntar aos parlamentares, aos deputados da nação. O PGR, assim, não é responsável pela prescrição, pois – como fica claro na Nota de Imprensa – «o Procurador-Geral da República não recebeu da Assembleia Nacional nenhum requerimento solicitando procedimento criminalmente contra qualquer pessoa que seja membro do Governo, razão por que não existe, contra o actual Primeiro Ministro de Cabo Verde, Dr. José Maria Pereira Neves, qualquer processo-crime cujo procedimento pudesse prescrever nas instâncias do Ministério Público».
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Isto é, se a Assembleia Nacional tem cumprido com o seu dever, poder-se-ia sacar responsabilidades ao PGR, pela omissão que refiro no texto «O CRIME ELEITORAL, O PRIMEIRO MINISTRO E A PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA». O que a Assembleia Nacional tem a dizer sobre isso? Os cidadãos merecem uma explicação. A do PGR (deste em exercício de funções) é, nos termos da lei, bastante clara e oportuna.

Imagem: The Theotokos, Dionisios

  • O CRIME ELEITORAL, O PRIMEIRO MINISTRO E A PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA[1]
As declarações do Primeiro Ministro José Maria Neves no dia 22.01.2006 (dia das eleições) terá sido (foi) objecto de um Inquérito crime sobre as mesmas. Como se sabe, sou da opinião de que os factos em causa poderiam consubstanciar um ilícito criminal, mas que prescreveu há muito. É um facto do foro judicial, mas é, também e em razão da pessoa, um facto político.

A Procuradoria Geral da República teve tempo mais do que suficiente, passados mais de dois anos, para propalar uma decisão sobre esses factos. A verdade é que, em opinião clara e liminar, o Primeiro Ministro José Maria Neves violou objectivamente – com consciência ou não da ilicitude da sua acção – a norma penal em causa. Agora, que houve lugar à prescrição do crime, lá isso não resta, também, nenhuma dúvida.

O problema é que se no plano judicial a questão parece e é simples, no plano político resulta(rá) penoso para o Primeiro Ministro a manutenção deste espectro judicial, e que poderá vir a prejudicá-lo nas próximas eleições (sejam elas no quadro do fim da legislatura ou antecipada – esta situação é sempre possível… em particular no quadro da Revisão da Constituição; que a negociação do calendário eleitoral poderá fazer abortar), além de que a oposição e os cidadãos cabo-verdianos merecem ser esclarecidos pelas entidades competentes se ouve ou não lugar a um ilícito criminal praticado pelo Primeiro Ministro e se este prescreveu ou não.

E é um dever da Procuradoria Geral da República fazer isso – até porque o actual Procurador Geral não tem responsabilidades na prescrição do crime, mas começa a ter responsabilidades se não for emanado o competente Despacho a decidir esta questão. Todos os cidadãos são iguais perante a lei – e houve, parece-me, uma protecção desmedida do Primeiro Ministro neste processo, pois a PGR deveria ter avançado como o processo em tempo útil, e isso, que se saiba, não foi feito. Agora, o que acontece neste momento – a cada dia que passa – prejudica politicamente o Primeiro Ministro, e mina o capital de confiança que o Procurador Geral da República (digo o PRG porque é ele quem, em última análise, responde pelas acções e omissões do Ministério Público) merece como guardião e defensor da legalidade.

O timing político desta questão, da perspectiva do PAICV, esgotou-se há muito (direi que se esgotou com as Eleições Autárquicas…) e sua manutenção é que é inusitada. Até perceberei – de um eventual ponto de vista do actual Procurador Geral da República – a questão da inoportunidade de propalar-se uma decisão próximo de umas eleições Autárquicas para não projudicar um partido ou beneficiar outro; mas não agora. Começam a faltar-me argumentos de bondade para perceber esta omissão. Dura lex sed lex – a nação agradece que assim seja.
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[1] Pela utilidade da mesma, repristino este texto publicado no Liberal
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Imagem: Fyodor Dostoevsky, por Vasily Petrov (1872)



COMUNICADO


Tendo tomado conhecimento de notícias, escritas em jeito de artigos de opinião por dois eminentes cidadãos e Ilustres Juristas cabo-verdianos residentes no estrangeiro, veiculadas por um dos jornais electrónicos do país, acusando o Ministério Público e a Procuradoria-Geral da República de, por omissão, ter deixado prescrever o procedimento criminal relativo a factos susceptíveis de integrar crimes praticados no dia 22 de Janeiro de 2006 pelo actual Primeiro Ministro de Cabo Verde, Dr. José Maria Pereira Neves, a Procuradoria-Geral da República vem esclarecer o seguinte:

1. No ordenamento jurídico cabo-verdiano, como no de quase todos os Estados de Direito Democrático, o exercício da acção penal está constitucionalmente atribuído, quase em exclusivo, ao Ministério Público, o qual, no exercício das suas funções, se sujeita, entre outros, aos princípios da competência, da legalidade, oficiosidade e estrita objectividade.

2. Em virtude do regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo estabelecido na Constituição da República de Cabo Verde, nos seus artigos 180º, nº 2, alínea d) e 198º, cabe à Assembleia Nacional promover acção penal contra membros do Governo, incluindo o Primeiro Ministro.

3. A supremacia do Estado de Direito constitucional comporta, inexoravelmente, a estrita observância das imunidades estabelecidas e do regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo definido na Constituição da República de Cabo Verde de 1992.

4. Desde de que tal regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo entrou em vigor, o Procurador-Geral da República não recebeu da Assembleia Nacional nenhum requerimento solicitando procedimento criminalmente contra qualquer pessoa que seja membro do Governo, razão por que não existe, contra o actual Primeiro Ministro de Cabo Verde, Dr. José Maria Pereira Neves, qualquer processo-crime cujo procedimento pudesse prescrever nas instâncias do Ministério Público.

Procuradoria-Geral da República, Cidade da Praia, aos 18 de Maio de 2009.


Júlio César Martins Tavares
Procurador-Geral da República e Presidente do Conselho Superior do Ministério Público

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS
Enciclopedia of Ancient Egipt, de Margareth Bunson – vou na letra "N", e fiquei desiludido com a informação sobre Neferekare; mas tem outras mais valias.

Imagem: (Selva, de noite), Tarzan, Burne Hogart

quarta-feira, 20 de maio de 2009

  • O LIXO DOS CABO-VERDIANOS
Falou-se muito em Cabo Verde sobre o tratamento dos residuos sólidos, o seu tratamento e a possibilidade (irreal) de se importar lixo tóxico. Deu lugar a escândalo nacional, com suspeições de corrupção, de favorecimento e ilegalidades várias. Mas depois, como já é hábito, a questão ficou esquecida – até parece que o problema do lixo deixou de existir, que foi resolvida. Foi para as calendas gregas do "Estudo", é o mais certo. Entretanto, quem não esqueceu o seu problema real foi Marrocos que, no âmbito de um Programa Nacional de Gestão de Resíduos Sólidos, fez um empréstimo de 132,7 milhões de dólares ao Banco Mundial para tratamento dos seus resíduos, e resolver o problema que afecta a vida dos cidadãos.

Será que temos consciência que a capacidade de Cabo Verde armazenar lixo é muito limitada? Parece que não. Mas é bom sabermos que a única coisa que temos de ilimitada na terra é a garganta, e os super homens, os que fazem e sabem tudo. Mas até isso, até isso irá para o caixote do lixo da história depois de chegarmos ao 1888 ou, para alguns, no julgamento eleitoral.

  • VOZES DE ATENTAR
Concordo…
É a ideologia transvestida, mas faz sentido. A vergonha, não!

Imagem: Trabalhadores belgas em greve pela crise que ameça os seus postos de trabalho

  • BENEDICTUS XVI, BARACK OBAMA E A PALESTINA
Benedictus XVI, ao visitar a terra Santa e a cidade de Jerusalém, deixou uma mensagem subliminar de que Israel deveria permitia a existência de um Estado palestiano. Barack Obama, ao se encontrar com Benjamin Netanyanu, defende expressamente esta ideia: a coabitação do Estado de Israel com o Estado da Palestina. Imaginemos que Israel aceite esta ideia, que plasma a boa vontade e a ideia de que todos povos merecem ter a mater da sua pátria; sim, imaginemos que tal seja aceite pelo poder político (que é quase um suícidio político, note-se).

Uma questão emerge: será que os palestinianos estarão na disponibilidade de, verdadeiramente, viver em paz com os israelitas? Será que a ideia de «lançar Israel ao Mar» – como Nasser anunciou, e se pensou fazer com a Guerra dos Seis Dias – é coisa do passado, que a ideia não pode, a todo o momento, ser repristinada? Não creio, de tudo. É uma possibilidade latente, à espera de revelação.

Ademais, há que considerar que Israel dificilmente admitirá um Estado Palestiniano nas fronteira de Jerusalém, pois tal seria hipotecar o sonho profundo de de Moshe Dayan e dos israelitas de ver o Templo de Salomão erigido no seu local natural – na Mesquita de Omar, a Cupula do Rochedo. Para o cidadão comum, e até mesmo para um estratega político, o problema maior talvez seja a água (sim, isso mesmo!), mas não para Israel como povo – nem para políticos como, v.g., George W. Bush e Donal Rumsfeld. Não creio que Barack Obama e Benedictus XVI ignorem o problema maior da questão palestiana, mas mexer nela, na sua verdadeira essência (o plano religioso), é abrir uma guerra com efeitos imprevisíveis. E ninguém quer isso, mas também ninguém quer ficar calado e ver o conflito eternizar-se. São boas vontades, mas de circunstância, e para o Mundo ver – mas que, de forma alguma, irá resolver o problema palestinano.
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Este é um problema de natureza das coisas, não uma mera questão política. Tenho para mim que somente quando Jerusalém se tornar, de facto, Património Comum da Humanidade – cidade inapropriável – é que o problema da Palestin terá solução. Permaneria o espetro da questão escatológica para o Mundo cristão, mas isso é de outra ordem, e sem as consequências dos conflitos armados permanentes.
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Imagem: Benedictus XVI beijando o chão do Santo Sepulcro em Jerusalém

terça-feira, 19 de maio de 2009

A Mario Benedetti
  • LA MUERTE DEL CUERPO
Debería escucharte ayer, Benedetti.
Así, ojo picado de soledad desnuda,
Estoy en la tierra: no hay sueños y eternidad.

Pero no, no es verdad – lo ser poeta y la certeza.
---- Virgílio Brandão

Imagem: Mario Benedetti

  • O PÓ DAS ESTRELAS
Lembra-te, ó homem! Tu que és amante.
Quando escutares d´Ela: “Tenho saudades tuas…”
não temas, não te espantes na hora-fenda.
O que te penetra os tímpanos e alma
é o rugir do útero-sonho,
o ressoar da tua genealogia, o adubo da eternidade.

Lembra-te, ó homem. Quando chegar a hora…
Abre a boca, e sorve a seiva do pó das estrelas.

Imagem: Amor, Gustav Klimt (1895)

  • A RIQUEZA DE PEDRO PIRES E OS LADRÕES DA REPÚBLICA
Há coisas que, por vezes, nos fazem orgulhosos de pertenceter à uma nação. Coisas pequenas, aparentemente sem importância – mas que fazem todas a diferença. No outro dia lia no Le Figaro que um Magistrado francês resolveu fazer uma investigação às contas bancárias e aos bens de três Presidentes africanos – magestosamente ricos. Disse para mim mesmo: «bom seria que se fizesse isso em todo o Mundo!». E foi então que me senti orgulhoso de ser cabo-verdiano.

Toda a gente sabe, e não o escondo: nas últimas eleições votei em Carlos Veiga para Presidente da República, e em José Maria Neves para Primeiro Ministro. Por uma questão de sistema político e a bem da nação me pareceram as escolhas óbvias e adequadas – até porque o Presidente Pedro Pires fizera um mandato que não deixava saudades: inócuo como Presidente da República. E não raras vezes o tenho criticado – e, perdoem-me a imodéstia, sempre com razão de situação (fosse a decisão criticada viciada ou não) –, mas nunca coloquei em causa a sua honorabilidade e honestidade.

Pedro Pires, quando se fizer a história de Cabo Verde sem paixões exacerbadas, será considerado muito melhor Primeiro Ministro do que Presidente da República – tenho para mim, e tenho-o dito repetidas vezes, que tem desperdiçado este mandato para deixar uma marca profunda sobre o sentido do exercício do poder presidencial. Mas são circunstância da história, e não só – é claro. Poderia ter enriquecido com o dinheiro do povo, com o erário público; mas não o fez, como fizeram a maioria dos lideres africanos dos sistemas autoritários e pró-socialistas e socialiantes emergentes das lutas de libertação e da Revolução de Abril. Os casos de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola, de alguns ex-governantes da terra da morabeza, e até de Portugal, são paradigmáticos.

Pedro Pires, não! Depois de 15 anos como Primeiro Ministro, nem uma casa própria tinha quando deixou o Governo na sequência da emergência da democracia pluripartidária e da II República. Somente neste segundo mandato (depois de mais de vinte anos como Chefe de Governo e de Estado) é que fez a sua casa, tendo recorrido, como qualquer outro cidadão, a um empréstimo bancário para o efeito (estas coisas deveriam ser levados ao conhecimento do povo, pois há coisas boas a serem noticiadas). Que eu saiba, não tem contas bancárias de muitos dígitos, mansões e casas sumptuosas em Cabo Verde ou no exterior – extorquidos ilegitimamente ao povo. Também não andou a comprar fatos de 300 contos no Rosa & Teixeira, em Lisboa, mas num modesto – e nem por isso menos digno – Pronto-a-vestir do Largo do Rato (e, se calhar deveria fazer compras no Rosa & Teixeira, por uma questão estética e de dignificação da imagem presidencial; o que eu acharia mais do que normal, necessário até). Mas há quem o tenha feito (e mais, muito mais), com o erário público – isto é, como dinheiro de cidadãos que chegam a ganhar míseros 10 contos por mês.

Ter um Presidente da República – ou qualquer governante – que não enriqueceu à custa do povo é uma coisa extraordinária! E não somente em África, não. Em Portugal, os ex-Ministros passam de Ministros a Banqueiros (sim, não é bancários, mas banqueiros) ou a gestores das maiores empresas da nação – ser Ministro é "tese de doutoramento" e tirocínio que habilita quem por lá passa a ser gestor pago a peso de ouro. Pedro Pires não seguiu essa senda, manteve as suas mãos limpas, e isso dignifica não somente a sua pessoa mas também o seu povo. Posso até ter razões para criticá-lo por desmandos e inomináveis abusos feitos durante o sistema político autoritário da I República (critícas que se estenderiam a outros políticos de ambas as barricadas partidárias), mas não posso acusá-lo de ter-se locupletado com os bens do povo, da República. Isso, não.

Merece ser louvado? Na verdade, não merecia – pois quem cunpre com o seu dever não merece nenhum louvor. Acontece que, no contexto em que vivemos, o que fez, neste plano, é extraordinário – e tudo o que é extraordinário (no sentido que se dá hoje à palavra) merece ser salientado. «Mas mesmo assim, não votou nele nas últimas eleições. Porquê?» – perguntar-me-á. Em causa não estava a honestidade das pessoas, mas sim o bem da nação e o seu equilíbrio político – o meu voto seguiu aquilo que achei que era o melhor para o país. Aliás, haverá hoje em Cabo Verde quem – tendo consciência política (e não estando politicamente engajado em nenhum partido político) – que não defenda que o melhor para o país é ter um Presidente da República da esfera de influência diferente da maioria parlamentar que sustenta o Governo? Sim, haverá quem não defenda este tipo de equilíbrio para as próximas eleições?

Mas falava da riqueza, e de Pedro Pires. A riqueza de Pedro Pires, é o exemplo que deixa como um líder que não enriqueceu à custa do erário público cabo-verdiano. Um bom exemplo, que merecia ser recompensado – ser ressaltado como exemplo. Quem sabe se, assim, alguns clepocratas deste Mundo não venham a se sentir envergonhados. Mas os Senhores dos Relatórios, dos Observatórios, esses… andam a dormir. Tenho de dizer: obrigado! Obrigado, Presidente Pedro Pires, porque em 23 anos de execício do poder não roubaste o teu povo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Negrito

Na noite longa
minha alma
chora sua fome de séculos.
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Meus olhos crescem
e choram famintos de eternidade
até serem duas estrelas
brilhantes
no céu imenso.
.
E o infinito se detém em mim.
.
Na noite longa
uma remotíssima nostalgia
afunda minha alma
e eu choro marítimas lágrimas
enquanto meu desejo heróico
de engolir os céus
se alarga
e é já céu.
.
Tenho então
a sensação esparsamente longa
de vogar no absoluto.
--- Mário Fonseca (poeta cabo-verdiano)

domingo, 17 de maio de 2009

A toda a hora o mal cresce no Mundo... e assitimos, de bancada.

  • REMEXENDO NA HISTÓRIA
Lula Inácio da Silva quer acabar com os segredos da ditatura, e quer saber o destino dos presos políticos desaparecidos antes de sair da Presidência do Brasil. Será que conseguirá fazer uma passar uma lei nesse sentido? A ver vamos, pois muitos pensarão que há coisas que o melhor é não mexer – deixar no mofo da história os momentos mais doloridos do país. Lula, pelos vistos, não pensa assim. E faz bem! A verdade é um direito do povo brasileiro, toda a verdade.

A África do Sul e o Rwanda tiverem soluções dolorosas, Cabo Verde uma lei de reconciliação inócua; Portugal baniu o fascismo. Mas acabaram, a sua maneira, de servir os interesses dos povos em causa. Lula, pelos vistos, não pensa assim. E faz bem! A verdade é um direito do povo brasileiro, toda a verdade.
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Imagem: Lula Inácio da Silva, Presidente do Brasil

sábado, 16 de maio de 2009

  • OS LUSÍADAS
Esta é uma das primeiras edições de Os Lusíadas de Luis Vaz de Camões. Fica aqui, dedicado aos poetas cabo-verdianos José Luis Hopffer Almada e José Luiz Tavares – ludi reinventores da forma dos Lusíadas.

Nuda veritas, Gustav Klimt (1899)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

  • LA NOCHE OSCURA
Yo quiero intervenir de nuevo
– dicer-te a la hora del abismo arcano
que la lluvia es lágrima-corazón que planto,
que yo planto en el rincón del mundo que ajustas
en el jardín y me hace demente de amor.

Sí, yo soy el devorador de tus sueños,
el regulador de las horas nocturnas y tudo
– Dios no puede calcular este dolor
ao mirarnos de su castillo de oro y sangre
que migra al Tormes frío y cerrado.
---- in Notas del Tormes, Virgílio Brandão

video

  • A (IN)SEGURANÇA DA NOITE

Atente-se na barbárie e na violência destas imagens. Se for sensível, não veja este vídeo. Por onde andarão esses homicidas? O que aconteceu com a vítima? Aconteceu a porta do Bar-Discoteca no Centro Comercial Stop na Rua de Heroísmo, Porto. Pode acontecer em qualquer lugar da noite (inclusive no interior dos estabelecimentos), pois a selvajaria e a (in)segurança é o que se vê. Bárbaros, esses jovens desmiolados e maus! Mas há que atentar na omissão de auxílio dos seguranças, das pessoas presentes...

“Ver um crime com calma é comete-lo” – José Marti.

  • INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
---- in Clepsidra, Camilo Pessanha

Imagem: Mulher sentada de pernas abertas, Gustav Klimt

quinta-feira, 14 de maio de 2009

  • BERLUSCONI E O PERIGO EUROPEU
«Não vamos abrir a porta a todos, como fez a esquerda, que tem a ideia de uma sociedade multiétnica. Nós, não. Só queremos acolher acolher aqueles que reúnem as condições para obter o asilo político” – disse Silivo Berlusconi, Primeiro Ministro italiano. Fiquei estupefacto com esta afirmação de Berlusconi, sabia-o um fascista de pacotilha, um inculto, mas nunca um inculto primário, que cede as memórias da sua nação à propaganda populista e trucida babaramente a história da sua nação... e da Europa.

O que é triste é que o que Berlusconi diz não é fruto do novo fascismo italiano que ele encarna, não: é o pensamento de grande parte dos líderes europeus e parlamentares no Parlamento Europeu. A Directiva de Retorno (que foi aprovado na ausência de alguns parlamentares que se dizem defensores dos direitos dos imigrantes – como é o caso da socialista Ana Gomes) é a prova acabada deste pensamento excludente, desta aparofobia militante de grande parte dos políticos europeus e que a «crise» ajuda a sustentar e a justificar.

Berlusconi pode ser uma nulidade (só pode ser!, para dizer o que disse) na história do seu país – aquele que mais frutos deu no plano da multiculturalidade e que não tem nada a ver com a “esquerda” – mas não é um político inocente. E porque é um político inocente que recordo as palavras do Reichsmarschal Hermann Goering, Comandante da Luftwaffe (Força Aérea da Alemanha Nazi), durante os Julgamentos de Nuremberga: «Com voz ou sem ela, o povo pode sempre ser levado a submeter-se à vontade dos dirigentes. É fácil. Tudo o que se tem de fazer é dizer-lhe que está a ser atacado, e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e por exporem o país ao perigo». É esta a escola política de Silvio Berlusconi, Jean- Marie Le Pen e outros que seguem os seus passos, ainda que digam o contrário – a verdade é que fazem o mesmo. A vergonha de Lampedusa pode ser vista em Ceuta, Mellila, Dover...

Um dia destes vamos ver este campos de contenção de imigrantes invasores a serem instalados, além de Marrocos, em Cabo Verde e outros países africanos da costa do Mediterrâneo. O que digo não é um exercício de prognosticação; não. É mais simples e previsível das situações e que o mais comum dos mortais deve(rá) esperar. Não me admiraria nada que esse ponto viesse a ser uma das bases do Acordo Especial entre Cabo Verde e a União Europeia – um dos aspectos é segurança, logo, subsumível ao PESC: Política Europeia de Segurança Comum que justificam Schengan, Lampedusa, Mellila, a Directiva de Retorno.

A lógica de sociedade fortaleza versus sociedade de mão-de-obra fast food trará a Europa muitos mais dissabores do que se mostra capaz de prever. É um sono da razão? Talvez seja, pois como bem diz Goya: «o sono da razão engendra monstros»; digo mais: alimentámo-los. E temos alguns a caminhar entre nós. Agora, de repente, lembrei-me, de uma carta que li no outro dia: de PIO XII a Adolfo Hitler – silenciarmo-nos perante os monstros ou ignorá-los, é uma forma de os alimentar, sem dúvida. Uma Europa que quer ser campeã dos Direitos Humanos não pode tolerar fascistas e ditadores disfarsados de democratas como Silvio Berlusconi & co., nem ter as políticas de imigração que tem, pois perde toda a sua autoridade moral para apontar o dedo a Hugo Chavez, ao Castrismo, ao embargo norte-americano a Cuba (cuja indignidade os europeus fingem não existir) e outras maldades que grassam no Mundo.

Imagem: Foto da capa de uma das primeiras edições do livro A Minha Luta, de Adolfo Hitler (livro editado em tempo de grande crise...).

Que valores?… say it again!

  • ECLIPSE EM LISBOA
Lura apresenta amanhã, Sexta-feira, 15 de Maio, o seu novo trabalho: Eclipse. No Teatro Tivoli em Lisboa – 22:00.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

  • FINISTERRA
Todos os grandes poetas tiveram uma musa
e um espartilho de alma e verbo.
Eu, como não sou grande nem quero,
tenho-te a ti – tecedora das horas-sonho.

Onde tu estás, seiva, tudo começa – termino.
.
Imagem: Milo Manara (inspirado em Danae de Gustav Klimt?)

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
---- Luíz Vaz de Camões

terça-feira, 12 de maio de 2009

  • A SOCIEDADE MATRIARCAL E A DISCRIMINAÇÃO

Tem sido longa a luta das mulheres contra um jugo antinatural que – segundo a tradição judaica e cristã – tem explicação (de ordem psicológica) no facto da mulher ter sido criada da «costela» de Adão. De espantar o nível de conhecimento de psicologia que o scriptore (Moisés) do Genesis tinha... Guardiãs dos arcanos segredos dos nefelins, foram expurgadas de uma posição activa na sociedade durante séculos, colocadas nas margens do saber pela inquisição, acusadas de bruxas e, durante muito, impedidas de aceder ao conhecimento pelo barbarismo social que é a desigualdade.

A razão mais evidente é simples: o homem sempre temeu o poder no feminino. Sempre que as mulheres alcançaram o poder foram tidas como bruxas – a causa era ou sua beleza de origem satánica, as pretensas práticas mágicas ou devassidão sexual ou moral. Exemplos acabados disso foram Ester na corte de Assuero, Ana Bolena com Enrique VIII, Cleópatra – a última raínha do Egipto, herdeira plotomaica e grande guardiã da Biblioteca de Alexandria – que é vista como a amante de Júlio César e de Marco Aurélio e não como uma grande estadista e intelectual (que é o que era, na verdade). Isso para não falar de Hatchepsut, Nefertiti, Júlia Maesa, Júlia Domna, Júlia Mammea ou até mesmo Faustina, Lucrécia Borgia ou Isabel I com quem a história não foi, não é, muita simpática; na verdade é injusta, muito injusta.

A mulher sempre teve e tem armas armas que os homens não têm – é um juízo (re)corrente entre os homens. Sim, é verdade! Mas não o dizem no sentido de elogio, mas com acinto. As capacidades inerentes à sua condição humana e de natural igualdade é desconsiderada amiúdas vezes – mesmo hoje, pois ainda restam resquícios do tempo em que a mulher era pouco mais do que uma incapaz ou um mero objecto sexual. Há 35 anos, v.g., ainda havia em Portugal (Metrópole e Ultramar) leis que permitiam ao homem tutelar a mulher e exercer o «poder de moderada correção» sobre ela – isto é: dar-lhe uma sova não escandalosa.

O próprio casamento, enquanto contrato, aparece como uma instituição para proteger a mulher da ganância dos homens; assim como aparecem as normas para as proteger do vitúperio. Não é por acaso que estas leis aparecem quando, na sombra, eram mulheres que tutelavam os jovens imperadores romanos. Mas esta opressão histórica, paradoxalmente, não diminuiu as capacidades das mulheres, pelo contrário: acicatou-as e hoje, cada vez mais, as mulheres tomam conciênca das suas capacidades e, por via do da democratização do conhecimento como forma de sustentar a ganância humana, a sociedade caminha, inexoralvelmente, para uma sociedade matriarcal.

O único perigo de uma sociedade matriarcal baseada no império do conhecimento é que ela, fatalmente, será destruída pela barbárie – o homem nunca cederá o poder que seja o seu espelho. É que, infelizmente, o poder tem o mesmo efeito corrompedor sobre as mulheres como tem sobre os homens, e a natureza sensível das mulheres não é bastante para vencer a do poder. De Lucrécia Borgia a Benazir Bhutto, passando por Julia Maesa (que sacrificou o próprio neto para se manter na sombra do poder) e Maria Spiridonova que sujeitaram ao imperativo do poder – by any means necessary, como diria Malcolm X.

Neste aspecto, Darwin e António Vieira têm toda a razão possível: os fracos perecem, os mais fortes sobrevivem; os grandes comem os pequenos. A força da razão acabará, infelizmente, cedendo à razão da força. Lamento este meu cepticismo, mas a realidade impele-me a tê-lo como certo. Espero estar sinceramente errado. Bom seria que fosse possível uma sociedade de conhecimento real, profundo e alicerçado na raiz da nossa humanidade mais primária e em que a diferença entre os géneros fosse vista não como diferenças de grau ou de qualidade, mas sim como manifestações do espírito humano. Ainda que, confesso, tenha para mim que não foi Adão que foi criado em primeiro lugar… mas Eva. Mas isso, é outra história.

***

O homem sente-se ameaçado pelo feminino, e socialmente discriminado em determinados sectores da vida social. Conversas ocasionais, e até recorrentes com pessoas tidas como esclarecidas, levaram-me a esta conclusão. Mas é discurso em circuito fechado, raramente proposto ao feminino. Existem algumas excepções, como o fórum de discussão Equality for Men que defende publicamente que, no actual estado das coisas, o homem está a ser discriminado e demandar proteção e um nivelamento igualitário da acção social. Interessante, e de atentar. Até porque não é um discurso estéril; longe disso.

Imagem: Gustav Klimt, Die Musik

Zena Holloway
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PROVÉRBIOS DO INFERNO

«Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias alas», William Blake, «Provérbios do Inferno (15)», in O Casamento do Céu e do Inferno

segunda-feira, 11 de maio de 2009

  • MOMENTOS DA HISTÓRIA
A família Romanov, assassinada por Lenine e os seus perseguidores da sociedade sem classes

  • EL VESTIR
Y un tejedor dijo: Háblanos del vestir.
Y él respondió, diciendo:
Vuestra ropa esconde mucho de vuestra belleza y, sin embargo, no cubre lo que no es bello.
Y aunque buscáis en el vestir el sentiros libres en vuestra intimidad, podéis hallar en él un arnés y una cadena.
¡Cómo pudiérais enfrentar al sol y al viento con más de vuestra piel y menos de vuestro ropaje!
Porque el aliento de la vida está en la luz del sol y 'la mano de la vida en el viento.
Algunos de vosotros decís: "Es el viento del norte el que ha tejido las ropas que usamos."
Y yo digo: ¡Ay! Fue el viento del norte.
Pero fue la vergüenza su telar y la debilidad de carácter dio sus hilos.
Y, cuando terminó su trabajo, rió en el bosque.
No os olvidéis que el pudor no es protección contra los ojos del impuro.
Y, cuando el impuro no exista más ¿qué será el pudor sino los grillos y la impureza de la mente?
Y no olvidéis que la tierra goza al sentir vuestros pies desnudos y los vientos anhelan jugar con vuestros callellos.
---- Khalil Gibrain, El Profeta
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Imagem: Diva russa (Penthouse - Agosto/2008)

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CONFERENCIA
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Conferência de Ana Cristina Costa Gomes: “A controvérsia pela via do diálogo. Tópicos para uma abordagem comparativa do Diálogo Evangélico de João de Barros, e da Inquisição e Segredos da Fé de Diogo de Sá‏”

14 de Maio de 2009, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Sala 5.2 (Sala de Mestrados) pelas 18.30h.
Organização:
Cátedra Alberto Benveniste

Imagem: Lucrécia Borgia (a única mulher da história a exercer as funções político-temporais atribuídas ao Papa), de Bartolomeo Veneto.
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  • O PRIMEIRO LIVRO QUE LI EM INGLÉS E ALVARO CUNHAL

O primeiro livro que li em inglês, não foi de cabalistas, não. O primeiro livro que li em inglês chamava-se Rivers of Living Water, de John Osteen. O problema é que não sabia inglês. Assim, comprei um curso de inglês do Readers Digest e, além dos dicionários e o vocabulário do curso, comprei um dicionário Inglés/Português-Português/Inglés e comecei a ler o livro. Cada palavra era uma dificuldade, cada frase uma odisseia. Levei meses a ler e a entender o livro; mas li-o. E relio-o, várias vezes… até não precisar do dicionário. Assim, quando voltei a estudar (depois de desertar a escola em menino), conhecia os rudimentos da língua – e fiquei surpreendido com o quanto sabia. Anos depois, chegaram os grandes livros em inglês: The Great Gatsby, Scott Fitzgerald; U.S.A, John dos Passos; As I lay Dying, William Faulkner; One Day in the Life of Ivan Denisovich, Alexander Solzhenitsyn; Paradise Lost, John Milton… Era, necessariamente, um novo rumo estético.

Lembro-me, agora, do primeiro livro que li em espanhol. Foi um livro propriedade de Álvaro Cunhal (por razões que agora não vem ao caso, tive acesso à sua biblioteca pessoal na casa da irmã, D. Eugénia, na Rua Sousa Martins em Lisboa e que fora, entre outros, um dos seus refugios) e, além de umas obras que me foram muito úteis em termos formativos – como, v.g., o An Enquiry Concerning Human Understanding, de David Hume, An outline of the Universe de J.G. Crowther –, li o meu primeiro livro técnico em espanhol: Prolegomenos a Toda Metafisica Del Futuro, de Kant. Livros cujas cópias com nota autógrafa de Álvaro Cunhal (uma ou outra com testemunho da sua passagem pelo Forte de Peniche) se encontram por aí, descansando numa multidão de outros livros então reproduzidos.

E o que estranho é que a admiração intelectual que nutro por Alvaro Cunhal – para mim o maior português do século XX (e não há neste juízo nada de ideológico) – não é extensível, em dimensão, a John Osteen que, hoje, considero de um pensamento teológico muito frágil. Mas Rivers of Living Water foi, a data, importante para mim – no plano espiritual e prático. No outro dia relia um texto de Álvaro Cunhal: As Seis Características Fundamentais de Um Partido Comunista (2001), e dei por mim a pensar que ele era menos ortodoxo do que se pensa, nomeadamente dos actuais líderes do Partido Comunista Português e que, se calhar, o que o país precisava, hoje, era de um Álvaro Cunhal vivo e na plenitude das suas capacidades para pensar-se uma sociedade mais justa, objectivamente justa e sem o mofo dogmático das teses que, como a realidade demonstra, falharam.

Álvaro Cunhal tinha consciência disso; mas o tempo não lhe deu tempo para reinventar o pensamento.

Imagem: Álvaro Cunhal, Henrique Matos