quarta-feira, 30 de setembro de 2009

  • LUPUS DOMINUS
Lupus homini — de voz
fazes Deus mortal, eu por momentos.

Dizem-me os nefilins
que são das tranças dos teus cabelos,
dos teus olhos-lírios,
da Gileade que fundas nas sete colinas
e dos teus passos longe, longe do poeta que é só teu
que nascem os ribeiros que sustentam o Mundo.

Ai!, se tivesses olhos, se visses o poeta
a mover a aurora… seria, diz, presa tua
mel que alimenta o teu riso.

E eu, eu sou o pastor quando não sou Deus.


Imagem: Mariama — Jean-Louis Grig

  • CONTRA ALUPEC FACTUM OU CICERO CONTRA CATILINA [1]
A propósito da instituição do ALUPEC como Alfabeto Cabo-verdiano escrevi um artigo a ser publicado no Liberal. Se alguém sentir azia ao lê-lo, aconselho um grogue d’Sintantom, sais de frutos ou um pedido de demissão! Este último teria a graça de curar o povo da (in)cultura que vai grassando na terra, e que a empobrece não somente pela perda de homens de verdadeira cultura uns porque morrem para a vida, outros porque se suicidam para continuar mortos-vivos no seu silêncio — mas porque o Ministério da Cultura enterra aos poucos a Cultura da nação cabo-verdiana. Virgílio, Horácio e Shakespeare venderam a sua cultura (Virgílio, até engoliu o facto de Octávio Augusto — que, com Caio mecenas se tornaria o seu patrono e lhe permitiria escrever a magistral Eneida — ter expropriado os seus bens para sustentar as legiões), Galileu renunciou às suas convicções… para poderem demonstrar o seu génio; Camões morreu a fome. Outros, outros têm outras opções; que não são de génio ou de salvação do génio, do engenho, da arte ou da ciência...

Humana conditio. Connatus essendi, diria Espinosa. Tudo, quase tudo se resume a isso. O ALUPEC, que tem na sua base boas, desejadas e desejáveis intenções acabou por medrar na senda da conspiração e do desrespeito pela pátria, pelos cidadãos cabo-verdianos e pelos valores do Estado de Direito Democrático. Lembro ao Ministro da Cultura, o M.I. Manuel Veiga (já que ninguém — nomeadamente aqueles que eu, como cidadão eleitor, mandatei para fazer estas coisas — se digna a fazê-lo), a conspiração de Catilina e a reacção de Cícero em defesa da República Romana.

A 21 de Outubro de 63 a.C, Cicero que nesse ano era um dos dois cônsules eleitos — discursa no Senado da República romana acusando o Senador Catilina, de Conspiração contra o povo romano. Mas Catilina era teimoso, muito teimoso… o MC do ALUPEC, Manuel Veiga, será assim tão teimoso? Aos senhores deputados da República Cabo-verdiana aconselho a análise do quadro Cicero contra Catilina de Cesare Maccari e uma leitura atenta, mutatis mutandis, do discurso de Cícero. Perguntem-se: — Porque será que não se vêm senadores da República sentados ao lado de Catilina? Sou contra ALUPEC factum, à moda de Manuel Veiga. Depois, quem desejar poderá, depois, ler o artigo no Liberal on line.

Fica aqui o discurso de Cícero. E pergunto, como o homem togado fez, ao Minsitro da Cultura da República de Cabo Verde:
Quo usque tandem abutere, Manuel Veiga, patientia nostra?
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Imagem: Cicero contra Catilina, Cesare Maccari (1888) - fresco do Palacio Madama, Roma.

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[1] Para se perceber o contexto deste discurso aconselho a leitura do discurso de Cícero Contra Catilina (que edito aqui para comodidade dos leitores de Terra-Longe), da História de Roma de Tito Lívio e a Conjura de Catilina, de Salústio.

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CICERO CONTRA CATILINA

I. Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? Quanto zombarás de nós ainda esse teu atrevimento? Onde vai dar tua desenfreada insolência? É possível que nenhum abalo te façam nem as sentinelas noturnas de Paladino, nem as vigias da cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bens, nem este seguríssimo lugar no Senado, nem a presença e semblante dos que aqui estão? Não pressentes manifestos teus conselhos? Não vês a todos inteirados da tua já reprimida conjuração? Julgas que algum de nós ignora o que obraste na noite próxima e na antecedente, onde estiveste, a quem convocaste, que resolução tomaste?
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Oh tempos! Oh costumes! Percebe estas coisas o Senado, o cônsul as vê e ainda assim vive semelhante homem! Que digo, vive? Antes vem ao Senado, é participante do conselho público, assinala e designa com os olhos, para a morte, a cada um de nós. E nós, homens de valor, nos parece ter satisfeito a República, evitando as suas armas e a sua insolência. Muito tempo há, Catilina, que tu devias ser morto por ordem do cônsul, e cair sobre ti a ruína que há tanto maquinas contra nós.
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Porventura o insigne P. Cipião, Pontífice Máximo, não matou a Tibério Graco, por deteriorar um pouco o estado da República? E nós devemos sofrer a Catilina, que com mortes e incêndios quer assolar o mundo? Passo em silêncio aqueles antiquíssimos exemplos, de quando C. Servílio Ahala matou com sua própria mão a Spúrio Melo, que procurava introduzir novidade. Houve antigamente na República esta fortaleza de reprimirem homens de valor com os mais severos castigos seja ao cidadão pernicioso que ao crudelíssimo inimigo. Temos contra ti, Catilina, decreto do Senado veemente e severo; não falta conselho a República; nos, abertamente o digo, nós somos os que faltamos.

II. Decidiu um dia o Senado que o cônsul Lúcio Opímio velasse para que a República não sofresse dano algum. Pois nem uma noite passou. Gaio Graco, apesar da sua tão nobre ascendência, de pai, de avô e de seus maiores, foi morto por causa de certas suspeitas de revolta; juntamente com os filhos foi executado Marco Fúlvio, um consular. Com um mesmo decreto do Senado, foi a República confiada aos cônsules Gaio Mário e Lúcio Valério. Acaso adiaram eles mais um dia sequer a pena de morte, por crime de lesa-república, a Lúcio Saturnino, um tribuno da plebe, e a Gaio Servílio, um pretor? Nós, porém, há já vinte dias que consentimos no enfraquecimento do vigor de decisão destes homens.

Temos um destes decretos do Senado, mas está fechado nos arquivos como espada metida em bainha; e, segundo esse decreto senatorial, tu, Catilina, deverias ter sido imediatamente condenado à morte. E eis que continuas vivo, e vivo, não para abdicares da tua audácia, mas para nela te manteres com inteira firmeza. É meu desejo, venerandos senadores, ser clemente; é meu desejo, no meio de tamanhos perigos da República, não parecer indolente; mas já eu próprio de inacção e moleza me acuso. Há acampamentos em Itália contra o povo romano. Estabelecidos nos desfiladeiros da Etrúria, aumenta em cada dia o número dos inimigos; e, no entanto, o general desses acampamentos e o comandante desses inimigos, eis que o vemos no interior das nossas muralhas e dentro do próprio Senado, urdindo a cada instante algum atentado contra a República.

Se neste momento eu te mandar prender, Catilina, se eu decretar a tua morte, o que sobretudo terei de temer, tenho a certeza, é que todos os bons cidadãos me censurem por ter actuado tarde, e não que haja alguém a dizer que usei de crueldade excessiva. A mim, porém, aquilo que já há muito deveria ter sido feito, fortes razões me levam a não o fazer ainda. Hás-de ser morto, sim, mas só no momento em que já não for possível encontrar-se ninguém tão perverso, tão depravado, tão igual a ti, que não reconheça a inteira justiça desse acto. Enquanto houver alguém que ouse defender-te, continuarás a viver, e a viver como agora vives, cercado pelas minhas muitas e fiéis guardas, para não poderes sublevar-te contra o Estado. È até os olhos e os ouvidos de muita gente, sem disso te aperceberes, te hão-de espiar e trazer vigiado como até hoje o têm feito.

III. Portanto, Catilina, que podes mais esperar, se nem a noite com as suas trevas pode encobrir teus iníquos congressos, nem a casa mais retirada conter com suas paredes a voz da tua conjuração? Se tudo se faz manifesto, se tudo sai a público? Crê-me o que te digo: muda de projecto, esquece-te de mortandades e incêndios; por qualquer parte te haveremos às moas. Todos teus desígnios são para nós mais claros que a luz, o que bem é reconheças comigo.

Não te lembras do que eu disse no Senado em 21 de Outubro, que Mânlio, ministro e sócio das tuas maldades, havia de estar armado em certo dia, o qual dia havia de ser o 26 de Outubro? Escapou-me, pois, Catilina, uma coisa só tão horrível, mas nem ainda o dia? Eu mesmo disse que tu deputaras o dia 28 de Outubro para mortandade dos nobres; e então foi quando muitas das pessoas principais da cidade fugiram de Roma, não tanto por se salvarem, como por atalharem teus intentos. Poderás porventura negar-me que naquele próprio dia, por estares rodeado de minhas guardas e das minhas diligências, te não pudeste mover contra a República, quando, retirando-se os mais disseste que te contentavas com a minha morte? E quando esperavas tomar Preneste por assalto de noite ao primeiro de Novembro, não achaste aquela colónia municionada por minha ordem, e com meus presídios, guardas e sentinelas? Nada obras, nada maquinas, nada cogitas que eu não só não ouça, mas veja e penetre claramente.

IV. Recorda comigo, por fim, aquela noite famigerada de anteontem e logo verás que eu velo com mais ardor pela segurança do Estado que tu pela sua ruína. Afirmo que tu, na noite anterior a esta, vieste aos Cuteleiros (não vou falar por meias palavras), a casa de Marco Leca, e que no mesmo local se reuniu grande parte dos cúmplices da mesma criminosa loucura. Ousas, porventura, nega-lo? Porque te calas? Se o negas, eu to provarei, pois que vejo aqui presentes no Senado alguns dos que lá estiveram juntamente contigo.

Oh deuses imortais! Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso? Em que cidade vivemos nós? Estão aqui, aqui dentro do nosso número, venerandos senadores, neste Conselho mais sagrado e mais respeitável da face da terra, aqueles que meditam a morte de todos nós, aqueles que trazem no pensamento a destruição desta cidade e até a do mundo inteiro. É a estes que eu, como cônsul, tenho na minha frente e lhes peço conselho acerca dos interesses do Estado, a eles, que deveriam ser passados a fio de espada e que eu nem com a palavra atinjo ainda.

Estiveste, pois, Catilina, em casa de Leca nessa noite; procedeste à partilha das regiões da Itália; determinaste para onde gostarias que cada um partisse; escolheste quem deixarias em Roma, quem levarias contigo; designaste os bairros da cidade destinados a incêndio; afirmaste que, por ti, já estavas disposto a partir; disseste que ainda te demorarias, contudo, um pouco, porque eu continuava vivo. Encontraste dois cavaleiros romanos, para te aliviarem” desta preocupação e se comprometerem a assassinar-me no meu próprio leito nessa mesma noite, pouco antes da alvorada. Tudo isto eu vim a saber mal tinha ainda sido dissolvida a vossa reunião; guarneci e reforcei a minha casa com mais guardas; e àqueles que tu me enviaras pela manhã para me saudarem, tranquei-lhes a porta quando eles chegaram, a esses mesmos cuja intenção de me visitarem àquela hora eu já havia previamente comunicado a muitas e das mais altas personalidades.

V. Sendo assim, prossegue, Catilina, o caminho encetado; sai da cidade de uma vez para sempre; as portas estão abertas; põe-te a caminho. Há muito que te reclamam como general supremo esses teus acampamentos manlianos. Leva também contigo todos os teus; se não todos, pelo menos o maior número possível. Limpa a cidade. Libertar-me-ás de um grande receio quando entre ti e mim um muro se levantar. Já não podes conviver por mais tempo connosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. Grande deverá ser o nosso reconhecimento para com os deuses imortais, particularmente para com o próprio Júpiter Estátor aqui presente, o mais antigo protector desta cidade, por tantas vezes termos escapado a esta peste tão abominável, tão horrorosa e tão hostil à República.

Nunca mais a suprema segurança do Estado deve ser posta em perigo por causa de um homem apenas. De tantas vezes que tu, Catilina, me armaste ciladas quando eu era cônsul designado, não foi com a guarda pública, mas com os meus próprios meios, que eu procurei defender-me. Quando, por ocasião dos últimos comícios consulares, tu pretendeste matar-me no Campo de Marte, a mim que era cônsul e aos teus competidores, reprimi os teus criminosos intentos com a ajuda e recursos dos amigos, sem proclamar oficialmente o estado de sítio; numa palavra, todas as vezes que me atacaste, foi por mim mesmo que te resisti, muito embora eu visse que a minha morte ficaria ligada a uma grande desgraça do Estado.

Mas agora é a toda a República que tu diriges abertamente o teu ataque; são os templos dos deuses imortais, são as casas da cidade, é a vida de todos os cidadãos, é a Itália inteira, é tudo isto que tu arrastas para a ruína e a devastação. E, uma vez que não ouso ainda pôr em prática o que se imporia em primeiro lugar e que é próprio destes poderes” e da tradição dos nossos maiores, tomarei uma posição mais moderada quanto ao rigor, porém mais útil no que toca à salvação comum. É que, se eu te matar, continuará na República o restante bando dos teus conjurados; mas, se tu saíres, como já há muito te estou convidando, a cidade ficará vazia dos teus sectários, dessa profunda sentina que empesta o Estado. Então, Catilina, que se passa? Hesitas em fazer por minha ordem o que tu já te dispunhas a realizar por tua livre vontade? É a um inimigo público que o cônsul manda sair da cidade. Perguntas-me se para o exílio? Não to ordeno, mas, se pedes o meu parecer, aconselho-to.

VI. Que há, ó Catilina, que ainda te possa causar prazer nesta cidade, em que não há ninguém, fora desta conjuração de homens depravados, que te não tema, ninguém que te não deteste? Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? Que sensualidade esteve longe de teus olhos? Que acção infamante deixaram de perpetrar as tuas mãos algum dia? Que torpeza esteve ausente de todo o teu corpo? Que jovem haverá a quem não tenhas ilaqueado nas seduções da tua imoralidade, guiado o ferro na rebeldia ou o archote. na libertinagem? Pois quê?

Há pouco, quando, com a morte da tua primeira mulher, esvaziaste a tua casa com vista a um novo casamento, não acumulaste ainda sobre este delito um outro atentado inacreditável, que eu não refiro e acho melhor deixar passar em silêncio, para que não conste que nesta cidade se verificou a barbaridade de um crime tamanho, ou que este ficou sem castigo? Nem menciono a perda dos teus haveres, que tu verás todos confiscados nos próximos Idos; refiro-me a factos que dizem respeito não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas, sim, aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós.
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Podes tu, Catilina, sentir prazer na luz deste dia ou no ar deste céu que respiras, ao saberes que ninguém dos presentes desconhece que, na véspera das Calendas de Janeiro”, durante o consulado de Lépido e Tulo, te apresentaste armado no local dos comícios do povo; que tinhas um grupo de homens preparado para dar a morte aos cônsules e aos principais da cidade e que não foi nenhuma reconsideração da tua parte nem o teu medo, mas, sim, a deusa Fortuna do povo romano que impediu o crime da tua loucura?

E já nem conto pois que não são nem desconhecidos nem poucos os delitos cometidos depois quantas vezes, sendo eu cônsul designado, quantas vezes mesmo durante o meu consulado, me tentaste matar! Quantos golpes, vibrados de tal maneira, que parecia impossível escapar-lhes, eu não evitei com um pequeno desvio ou, como costuma dizer-se, só com o corpo! Nada adiantas, nada consegues, e, contudo, não desistes de tentar e de querer. Quantas vezes já esse punhal de assassino te foi arrancada das mãos! Quantas vezes, por um mero acaso, ele te escapou e caiu aos pés, esse punhal que, sinceramente, não sei em que iniciações mistéricas e a que deus o terás tu consagrado, para julgares necessário cravá-lo no corpo do cônsul.

VII. E agora, que vida é esta que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces. Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembleia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isto, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras, quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?

E que dizes ao facto de, à tua chegada, esse lugar ter ficado ao abandono, e ao facto de todos os consulares, que tantas vezes figuraram nos teus planos de assassínio, mal te havias sentado a seu lado, terem deixado deserta e vazia essa zona da bancada? Com que coragem, afinal, julgas tu que hás-de suportar tal afronta? Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam, eu, por Hércules!, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la?
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E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração? Se teus pais te temessem e odiassem e tu não os pudesses apaziguar de modo nenhum, retirar-te-ias, penso eu, do seu olhar para outra qualquer parte.

Pois agora é a Pátria, mãe comum de todos nós, que te odeia e teme, e sabe que desde há muito não pensas noutra coisa que não seja o seu parricídio; e tu, nem respeitarás a sua autoridade, nem acatarás as suas decisões, nem te assustarás com o seu poder? Eis que ela a ti se dirige, ó Catilina, e, no seu silêncio, como que fala:
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«Há vários anos já que nenhum crime se viu cometido senão por ti; nenhum escândalo, sem ti; só tu cometeste, sem castigo e com toda a liberdade, o assassínio de muitos cidadãos, a opressão e saque dos nossos aliados; só tu te atreveste não só a desprezar, mas até a subverter e a infringir as leis e os tribunais. Esses crimes de outrora, posto que não devessem ter sido suportados, eu os suportei como pude; mas agora, estar eu toda em sobressalto somente por causa de ti, ser Catilina objecto de medo ao mínimo ruído que surja, não se poder descobrir conjura alguma tramada contra mim em que não esteja implicada a tua intenção criminosa, não, isso é que não devo suportar. Por isso, vai-te daqui e afasta de mim este receio; se ele tem fundamento, para eu não andar oprimida; se é ilusório, para eu, enfim, deixar de uma vez esta vida de medo.»

VIII. Se tais palavras, como disse, a Pátria te pudesse dirigir, não deveria ela conseguir o seu intento, muito embora não pudesse fazer uso da força? E que dizer do facto de tu próprio te haveres entregado sob guarda provisória e teres dito, a fim de evitares suspeitas, que desejavas ficar em casa de Mânio Lépido? Como este não te recebeu, até a mim tiveste cara de te dirigir e de me pedir que te guardasse em minha casa. E, como também de mim levaste a resposta de que eu não podia de modo nenhum sentir-me seguro contigo dentro das mesmas paredes, porquanto já eu corria grande perigo pelo facto de estarmos metidos dentro das mesmas muralhas, foste a casa do pretor Quinto Metelo.

E, repudiado por ele, imigraste para casa do teu comparsa Marco Metelo, esse grande homem de quem pensaste, claro está, que havia de ser o mais cuidadoso em te guardar, o mais esperto para te vigiar e o mais enérgico para te defender. Mas em que medida parece justo estar afastado da prisão e das cadeias quem se julgou, por si mesmo, digno de detenção? Uma vez que assim é, Catilina, se não és capaz de esperar pela morte de coração resignado ainda hesitas em partir daqui para outras terras e em entregar ao exílio e à solidão essa vida, subtraindo-a a muitos castigos justos e merecidos? «Propõe-no ao Senado» — dizes tu. É isto, com efeito, o que reclamas, e dizes que, se esta Ordem de senadores vier a decidir que é sua vontade a tua partida para o exílio, estás na disposição de obedecer.

Não, não vou propor uma coisa que é contra os meus princípios, mas, sim, farei com que vejas o que estes pensam acerca de ti. Sai de Roma, Catilina; liberta o Estado destas apreensões; parte para o exílio, se é esta a palavra de ordem que esperas. Então? Não vês? Não dás conta do silêncio dos presentes? Se estão calados, é porque consentem. Porque esperas pela autoridade das palavras, quando percebes muito bem pelo seu silêncio o que têm na vontade? Ora, se eu tivesse dito estas mesmas palavras a um jovem tão cheio de qualidades como Públio Séstio aqui presente, se as tivesse dirigido a Marco Marcelo, varão da mais alta virtude, já o Senado, apesar de eu ser cônsul, teria, com plena justiça, lançado contra mim, neste mesmo templo, a sua força e o seu poder.

A teu respeito, porém, Catilina, a sua imobilidade é uma aprovação; o seu consentimento, um decreto; o seu silêncio, um clamor. E não apenas estes aqui presentes, cuja autoridade tens, pelos vistos, em grande estima, mas a vida em vil apreço; também aqueles cavaleiros romanos, homens da maior honestidade e excelência, e os restantes cidadãos tão valorosos que de pé circundam este Senado, e de quem tiveste ensejo, há momentos, de ver não só a afluência, mas até de reconhecer claramente as disposições e ouvir distintamente os clamores. É com dificuldade que desde há muito detenho suas mãos e suas armas aparelhadas contra ti; mas, se abandonares estes sítios que há largo tempo pretendes devastar, é com facilidade que os poderei levar a escoltarem-te até às portas da cidade.

IX. Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te? Tu, como tentarás planear alguma fuga? Tu, como podes pensar nalgum exílio? Oxalá os deuses imortais te inspirassem tal propósito, muito embora eu veja que, se tu, apavorado com as minhas palavras, te decidires a partir para o exílio, uma enorme tempestade de ódios ameaça desabar sobre nós, se não no tempo presente, por causa da fresca lembrança dos teus crimes, pelo menos para o futuro.

Vale, porém, a pena, desde que essa desgraça seja particular e se não misture com os perigos do Estado. Mas a ti, o que não se deverá exigir é que te afastes dos teus vícios, que alimentes profundo receio dos castigos da lei, que recues perante as conjunturas críticas da República. Nem tu, Caulina, és de molde que a vergonha te afaste da infâmia; ou o medo, do perigo; ou a razão, da loucura. Por isso mesmo, parte, como já tantas vezes te disse, e, se pretendes, conforme apregoas, atear o ódio público contra mim, teu inimigo, avança já direito ao exílio; se o fizeres, muito me custará suportar a censura dos homens; se partires para o exílio por ordem do cônsul, muito me custará sentir o fardo dessa impopularidade.

Se, porém, preferes servir o meu prestígio e a minha glória, sai juntamente com o indesejável bando dos celerados, refugia-te junto de Mânlio, convoca os cidadãos perversos, separa-te dos homens de bem, move guerra contra a Pátria, exulta com uma sacrílega revolta de bandidos, para que se veja que não foste expulso por mim para o meio de estranhos, mas, sim, convidado a partir para junto dos teus. De resto, para quê convidar-te a isso, uma vez que tenho conhecimento de que tu enviaste homens à frente para te esperarem armados junto do Fórum de Aurélio, e sei que tu combinaste e fixaste a data com Mânlio, e sei que até enviaste à frente aquela famosa águia de prata”, uma águia que, assim o espero, há-de tornar-se ruinosa e fatal para ti e para todos os teus, uma águia à qual esteve levantado em tua casa um criminoso santuário? Como é que tu poderás passar mais tempo sem aquela que costumavas adorar ao partir para a carnificina, tu que tantas vezes fizeste passar essa dextra sacrílega, do seu altar para a chacina de cidadãos?

X. Irás, enfim, de uma vez para sempre, para onde há muito tempo te arrastava essa tua paixão desenfreada e louca, pois não é pesar o que esta partida te causa, mas um estranho e inacreditável prazer. Foi para semelhante loucura que a natureza te gerou, te preparou a vontade, e o destino te guardou. Tu, não só nunca desejaste o tempo de paz, mas nem sequer uma guerra que não fosse criminosa. Topaste uma corja de bandidos formada de gente perversa, enjeitada não só de toda a sorte, mas até de toda a esperança. Ah! que alegria não experimentarás, com que júbilo não hás-de exultar, com que prazer tamanho andarás em orgiástico delírio, quando, entre o número tão avultado dos teus, não conheceres nem vires um só homem de bem!

Foi por afeição a tal género de vida que se praticaram aquelas tuas proezas de que se fala: permanecer prostrado no chão, ou para espreitar o momento azado para algum atentado contra o pudor, ou mesmo para cometer algum crime; passar as noites em claro lançando armadilhas não só ao sono dos maridos, mas também aos haveres da gente pacífica? Tens aí onde possas ostentar essa tua famosa capacidade em suportar a fome, o frio, a carência de tudo; e em breve perceberás que foi isso que deu cabo de ti. Quando te rejeitei do consulado, uma coisa consegui pelo menos: que tu antes pudesses atacar a República como exilado do que maltratá-la como cônsul, e que a tua criminosa empresa mais se pudesse chamar uma arruaça de bandidos que uma guerra civil.

XI. E agora, venerandos senadores, a fim de eu poder arredar e esconjurar de mim uma censura, de certo modo justa, da Pátria, escutai, por favor, com atenção, o que vou dizer, e gravai-o bem fundo no vosso coração e na vossa memória. Porquanto, se a Pátria, que é para mim mais cara que a própria vida, se a Itália inteira, se toda a República me dissesse:

— «Que estás tu a fazer, Marco Túlio? Então tu vais consentir que aquele que provaste ser um inimigo público, que tu vês como o futuro comandante de uma revolta, que tu sabes ser esperado como general no acampamento dos inimigos, ser o instigador de um acto criminoso, o cabecilha de uma conspiração, um agitador de escravos e de cidadãos perversos, a esse vais tu deixá-lo partir de tal maneira, que nem parece ter sido por ti expelido para fora da cidade, mas, sim, impelido contra ela? Então, não vais mandar que o ponham a ferros, que o arrastem para a morte, que o imolem no derradeiro suplício?

O que te impede, afinal? Será a tradição dos antigos? Mas nesta República até simples particulares puniram muitíssimas vezes com a morte cidadãos perniciosos. Serão, porventura, as leis que foram propostas acerca do suplício dos cidadãos romanos? Mas nunca., nesta cidade, os que atraiçoaram a Pátria continuaram na posse dos direitos de cidadania. Ou é a impopularidade do futuro que tu receias? Bela maneira essa de agradeceres ao povo romano, ele que te elevou tão cedo ao supremo poder através de todos os graus da magistratura, sendo tu um homem conhecido apenas pela tua pessoa sem nenhuma recomendação de antepassados – se, por causa da impopularidade ou do receio de algum perigo, desprezas a salvação dos teus concidadãos!

Mas, se há algum medo de cair em desagrado, dever-se-á, porventura, ter mais receio da antipatia motivada pelo rigor e pela fortaleza que pela preguiça e pelo desleixo? Ou, quando a Itália for devastada pela guerra, quando as cidades forem arrasadas, quando as casas estiverem a arder, acaso pensas tu que nessa altura não hás-de ser inteiramente devorado pelo fogo do ódio popular?»

XII. A estes tão augustos clamores da República e ao pensamento daqueles homens que sentem desse mesmo modo responderei em poucas palavras. Se eu, venerandos senadores, considerasse que a melhor atitude era castigar Catilina com a morte, não concederia a esse gladiador nem mais uma hora de vida. É que, se homens da mais alta categoria e cidadãos dos mais ilustres não só se não mancharam, mas até colheram honra no sangue de Saturnino, e dos Gracos, e de Flaco, e de muitos ainda mais antigos, certamente eu não teria que recear que, com a morte deste parricida dos seus concidadãos, sobre mim se derramasse qualquer ódio da posteridade. E, mesmo que este me estivesse particularmente iminente, sempre tive, apesar disso, a convicção de que o ódio alcançado pelo mérito não é ódio, é glória.

Há, todavia, nesta Ordem de senadores, alguns que, ou não vêem aquilo que nos ameaça, ou fingem ignorar aquilo que vêem; estes, pela moleza das suas decisões, alimentaram a esperança de Catilina e deram força à conjuração nascente, não acreditando nela; e, por sua influência, muitos; não apenas os perversos, mas ainda os mal informados, diriam, se eu tivesse punido Catilina, que o tinha feito com crueldade e tirania.
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Ora eu penso que, se este der entrada nos acampamentos de Mânlio, que são o seu objectivo, não haverá ninguém tão ingénuo que não veja ter-se armado uma conjuração, ninguém tão descarado que o não confesse. Por outro lado, penso que, se for condenado à morte apenas Catilina aqui presente, este flagelo que afecta o Estado pode reprimir-se por um pouco, não suprimir sem para sempre. Mas, se ele se desterrar a si mesmo e levar os seus partidários consigo, e se recolher, de toda a parte, os demais naufragados da vida e os congregar no mesmo lugar, ficará extinta e debelada não apenas esta já tão adiantada doença do Estado, mas até a raiz e o germe de todos os males.

XIII. É que nós, venerandos senadores, vivemos desde há muito envolvidos nestes perigos e nas ciladas de uma conspiração, mas, não sei como, a maturação de todos os crimes e da antiga loucura e audácia veio a rebentar no tempo do nosso consulado. E se, de tamanho bando de salteadores, se suprimir apenas este, poderá parecer talvez que ficamos, por um pequeno espaço de tempo, aliviados da apreensão e do medo; o perigo, porém, há-de permanecer e ficará profundamente inculcado nas veias e nas entranhas da República.

Tal como, muitas vezes, as pessoas atingidas por uma doença grave, se, no tumultuar do ardor da febre, beberam água gelada, parecem aliviadas nos primeiros momentos e logo depois o mal as oprime mais forte e violento, do mesmo modo esta doença que existe no seio do Estado, aliviada embora pelo suplício daquele que ali vedes, agravar-se-á com mais violência ainda se sobreviverem os restantes conjurados. Por tudo isto, que os perversos se retirem, se separem dos homens de bem, se juntem num só lugar e que uma muralha, enfim, como já o proclamei tantas vezes, os mantenha separados de nós; que deixem de armar traições ao cônsul na sua própria casa, de bloquear o tribunal do pretor urbano, de assediar com armas a Cúria, de preparar dardos incendiários e archotes para deitar fogo à cidade; numa palavra, que na fronte de cada um se mostrem gravados os seus sentimentos políticos.

Garanto-vos, senadores egrégios, que a nossa vigilância de cônsules há-de ser bastante, e espero que haja em vós tal autoridade, nos cavaleiros romanos tamanha coragem, em todos os homens de bem a conformidade de sentimentos necessária para poderdes ver que, com a retirada de Catilina, tudo fica descoberto, esclarecido, subjugado, punido. Com estes presságios, Catilina, e para suprema salvação do Estado, para tua desgraça e ruína e para perdição daqueles que a ti se ligaram por toda a espécie de crimes e parricídios, parte para essa guerra ímpia e nefanda.

E tu, Júpiter, cujo culto foi estatuído por Rómulo sob os mesmos auspícios, desta cidade, tu a quem com justiça chamamos o Sustentáculo desta urbe e deste império, hás-de relegar este assassino e os seus comparsas para longe do teu templo e dos restantes, das casas de Roma e das suas muralhas, da vida e dos haveres de toda a população; e àqueles que odeiam os homens de bem, aos inimigos da Pátria, aos salteadores da Itália, unidos entre si por um pacto criminoso e uma aliança nefanda, a esses, vivos e mortos, hás-de puni-los com suplícios eternos.
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

  • MANUEL DE NOVAS: O TRIUNFO FINAL

    Se a Pipa é a alma da China tradicional, o Enka representa o espírito do Japão que emergiu das raias do feudalismo para a modernidade, o Fado o espírito do Portugal migrante ou Leonard Cohen o paradigma dos trovadores do século XX, Manuel de Novas é, para Cabo Verde, um dos cultores maiores da nossa alma migrante, a que jaz na expressão da nossa natureza diasporizada e imposta pelo confinamento ilhéu e que se revela na dimensão poética do nosso povo, em particular na Morna. E neste aspecto, Manuel de Novas é, sem favor, um dos cimentadores da nossa nacionalidade, da nossa identidade cultural e uma das expressões maiores do wit Mindelense. O Mundo, é assim: vai parindo e tragando todos. Petrarca, no seu belíssimo poema Triunfo da Morte, adverte da evidência esquecida:

    Ó cegos que aproveita o afadigar?
    Que logo vos tornais à madre antiga,
    E muito pouco o vosso nome há-de durar.


    O nome de Manuel de Novas, durará. Pois emprestou ao Mundo, em particular ao universo crioulo, um legado de beleza que perdurará para lá da memória dos meros mortais. Viu-nos, e a nossa condição, com olhos de beleza da arte. Esta é a condição do poeta, a que o desiguala de forma mais evidente dos demais homens: ao se tornaram iguais pelo nivelamento final da natureza, concede a alguns a felicidade ausente de viverem para sempre. Por essa razão o passamento dos poetas para a maior aventura não se chora, pois celebra-se um novo nascimento. In divus relatus est, Manuel de Novas.
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Imagem: Jean Louis Grig — Fécondités

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Por vezes, pergunto-me como será estar a beber vinho novo com Horácio, Seferis e Alexander Pope; estar sentado à sombra de mil luas com Dulce Maria Loynaz del Castillo com um puro ainda virgem e um rum selvagem… como será levar um pouco de humanidade a Shamayim. Neste aspecto, Kierkegaard está errado, hoje.

  • MENINO(s) DE OIRO…
As ideias são, por vezes, tão brilhantes e pesadas que nos cegam e esmagam…

domingo, 27 de setembro de 2009

Ao poeta Mário Fonseca
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  • PECADOR SEM MÉTRICA
Sou pecador; α marca pecador
porque nasci, cresci e adoço-me pecando
um coração plano e rotundo de dor
que sobrevive amando.

Sou pecador; sim, pecador!
Porque isso de Ser é ser pecador,
é viver de amor e dor
sem nada nem ninguém a opor.

Sou pecador abissal, sim; e sinto… Amor.
Não recuso nem nego o prazer de Ser
— não, só depois de o ter sangrando dor.

Sou pecador, fruto crescido do pecado
de quem me gerou tarde — em lazer —
para ser Ser acabado: viver, ser, morrer amado.

  • A MORTE DO POETA
Acabo de saber que morreu o poeta Mário Fonseca, um homem com voz, que nunca se remeteu ao silêncio comprometedor. Da sua obra, há um poema que gosto em particular (publiquei-o aqui em Terra-Longe a 18 de Maio de 2009): Na Noite Longa, e que foi a primeira coisa de que me lembrei quando soube da sua morte, assim como das suas crónicas no Expresso das Ilhas e sou seguidor há muito. Mas não fiquei triste por ele, não. O poeta não gostaria, certamente.

Quando o poeta se encontra consigo mesmo, dizem os mortais que morre… Ah, ilusão! Os poetas não morrem, viajam para a maior aventura; a beleza necessária e fundadora de todas as coisas. Quando o poeta morre, deixa de ter fome do absoluto; volta ao ventre, ao ventre fecundador, e já é céu. Que o poeta não se cruze com Rimbaud, Whitman, Oscar Wilde, Byron… mas que agarre nos braços Virgílio e Dante e beba vinho Creta se não encontrar Nho Balta para beberem um grogue e falaram d’tempo de diazà. E que engula Shamayim, enfim.

Imagem: Mito Elias

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Francisco Suarez
  • EL HOGAR DE SUAREZ
Aquí estás tú — fundador de los pueblos
— y te miro de sueños sangrados allí
en el hogar asombro de verbos antoninos.

Estás en todos los pensamientos verdes,
en todas las piedras carmín y cánticos
de la hermosa universidad de nieblas.

Aún guardamos nuestra ilusión de amor y gloria,
nosotros, niños eternos y lunas blancas y sal
— ¿Soy infiel en el recuerdo de ti, pater ens sociabilis?

El espesor de brumas grita el dolor de la fe,
las nubes cargadas de mí y de ti llenas.
Es rubro y dulce el jinete de miel y luna
— devora al desierto, sueño.

Así que, en lucidez de sueño, no te digo adiós a
Suarez — hay que luchar contra el oro
y las blasfemias de humanidad hoy
es nuestra lucha: vino y la última noche
del verbo borracho.
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Imagem: Jean Louis Grig - Dans les nuages
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Francisco Suarez, cujos ossos estão próximos de mim, não será ingrato...

  • VOZES DE ATENTAR...
— Não somos capazes de fazer grandes coisas. Mas podemos fazer pequenas coisas com grande amor, Robert Fulghum, no proémio do seu livro All I Really Need to Know I Leamed in Kindergarten

Imagem: Ambrogio Lorenzetti, Alegoria do Bom Governo (a Magnanimidade, a Temperança e a Justiça)

PROTECTING PROGRESS: THE CHALLENGE FACING LOW-INCOME COUNTRIES IN THE GLOBAL RECESSION 1

Imagem: Alegoria do Bom Governo (c. 1337-1340), Ambrogio Lorenzetti

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1 Background paper prepared by World Bank Group staff for the G-20 Leaders’ Meeting,
Pittsburgh, USA, September 24-25, 2009.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

  • NOVO MUNDO?
Benjamin Netanyahu, cumprimenta o Presidente palestiniano, Mahmud Abbas sob o olhar severo de Barack Obama que criticou o aumento dos colonatos judaicos na Palestina, pressiona os palestinianos a negociar uma paz duradoira com Israel. A Assembleia Geral da OUN serve, essencialmente, para estas coisas — oportunidades raras não devem ser desperdiçadas.
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Os resultados, infelizmente, não estarão à altura da boa vontade do Presidente norte-americano nem da cortesia, ainda que gélida, de um cumprimento. O ódio é a coisa mais difícil de explicar nesta vida, e ainda mais difícil de vencer.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

  • LOS HERALDOS NEGROS

    Hay golpes en la vida, tan fuertes Yo no sé!
    Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
    la resaca de todo lo sufrido
    se empozara en el alma Yo no sé!
    Son pocos; pero son Abren zanjas oscuras
    en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
    Serán talvez los potros de bárbaros atilas;
    o los heraldos negros que nos manda la Muerte.
    Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
    de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
    Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
    de algún pan que en la puerta del horno se nos quema
    Y el hombre Pobre pobre! Vuelve los ojos, como
    cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;
    vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
    se empoza, como charco de culpa, en la mirada.
    Hay golpes en la vida, tan fuertes Yo no sé!
    ---- Cesar Vallejo

Imagem: Besic Arbolishvili

  • EROTIC MOMENT...

  • VOZES DE ATENTAR...
A história da humanidade é um imenso mar de erros no qual, de vez em quando, se pude encontrar algumas verdades. Cesare de Beccaria

domingo, 20 de setembro de 2009

  • SEM ABRIGO
Brambram — comina-se.
Se o pobre tivesse asas de oiro,
onde viveria a pureza?


Imagem: O Cardeal, Rafael

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS
Ratos e Homens de John Steinbeck

Diálogo entre George e Lennie:

— […] Você só arranja confusão. Faz coisas ruins e eu tenho que te salvar. — Quase gritava agora. — Seu filho da puta maluco! Você me mete em encrenca o tempo todo! — Assumiu o ar afetado de uma menina imitando outra.
— Eu só queria passar a mão no vestido daquela moça... Só queria alisar ele como se fosse um rato...
— Que diabo, como é que ela ia saber que você só queria alisar o vestido dela? Ela deu um pulo para trás e você segurou o vestido dela como se fosse um rato. Ela gritou e a gente teve que se esconder numa vala de irrigação o dia todo enquanto os caras procuravam a gente; e aí a gente teve que escapulir no escuro e dar o fora da região. O tempo todo é isso. O tempo todo. Gostaria de te botar numa jaula com um milhão de ratos para você se divertir.

~~~ Poema visual de beleza usurpada em seis tempos e dedicado à minha amiga Anita Delgado Faria em Roterdão. ~~~

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  • Imagens: Rarinda Prakarsa

sábado, 19 de setembro de 2009

Soneto de Camões, escrito depois de perder Dona Catarina de Ataíde.

Já não sinto, senhora, os desenganos
Com que minha afeição sempre tratastes,
Nem ver o galardão, que me negastes,
Merecido por fé há tantos anos.

A mágoa choro só, só choro os danos
De ver por quem, senhora, me trocastes!
Mas em tal caso vós só me vingastes
De vossa ingratidão, vossos enganos.

Dobrada glória dá qualquer vingança,
Que o ofendido toma do culpado,
Quando se satisfaz com causa justa;

Mas eu de vossos males a esquivança
De que agora me vejo bem vingado,
Não a quisera tanto à vossa custa.

  • DESPOJOS DE FESTIM – VIAGEM SENTIMENTAL

Há uns anos, fazia o Curso Geral dos Liceus em Lisboa, mais concretamente: na Póvoa de Santo Adrião, quando me chegou às mãos o livro Palavras Cínicas, do professor Albino Forjaz de Sampaio. Vinha de uma colega, mais velha do que eu (confesso que atentava mais nas suas formas opulentas do que no que dizia) e fiquei, confesso, espantado com a obra e, hoje, estive a ler um pouco do livro. Foi a Primeira Carta que, paradoxalmente, me apresentou Ivan Turgueniev… ainda me lembro das primeiras palavras amadas de Turgueniev e que me assaltaram a alma, presas e a voar para mim de O Sonho: «A minha mãe depositara em mim todos os seus pensamentos e cuidados, enlaçando a sua vida com a minha».

Tornei-me devedor, de Albino Forjaz de Sampaio (apoucadíssimo por Almada Negreiros no poema «Manifesto Anti Dantas» pelos seus escritos no jornal A Luta) – por me ter apresentado Turgueniev, e, a modo dessa apresentação, devo a Machado de Assis o achamento de Shelley, quando, lendo Helena, encontrei grafado este excerto de poema: I can´t give what men call love e apaixonei-me pela poeta. A Borges, por exemplo, depois de ter lido El Golem (um dos melhores poemas que já li) e Los Conjurados devo a introdução a Adolfo Bioy Casares, Gustav Meyrink e Amiel, numa perseguição que faço ao pensamento interior do poeta e meio vislumbrada na sua poética. «Serei capaz de escrever poemas de amor depois dos oitenta anos?» — pergunto-me.

Mormente estes benefícios mediatos de busca de beleza num mundo pejado de darwinismo social — visto por Hobbes, Turgueniev e decantado por Forjaz de Sampaio —, as Palavras Cínicas ainda hoje me incomodam e me impelem, sempre, a procurar a beleza, a consolação da filosofia, como diria Boeccio, e da arte, trazendo-me esta desejos e sensações, coisas meio vislumbradas… como voz de Kavafys. E hoje, nem o ter tido o prazer de acrescentar mais duas interpretações à colecção do meu Adágio preferido (Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo) me salva de alguma putrefacção de alma que a verdade por vezes transporta. Mas há que, como Cândido, continuar a cultivar o nosso jardim, a cuidar da rosa silenciosa, a sentir o seu aroma ausente pois o bem não exige recompensa, é a recompensa.

E decidi (pondero nisso há muito), que deveria compartilhar as cartas de Palavras Cínicas de Albino Forjaz de Sampaio, e não sei se faço um favor de partilha; não sei não... mais uma incerteza para a minha colecção de dúvidas. Seja como for, que estejas num festim, sempre! Diz o autor no proémio das mesmas: «Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar.» Mas vida não é má, só é cruel para os bons e corrompedor da beleza. O que faz toda diferença, parece-me.

A Viagem Sentimental - Konstantin Kalynovychend

Muzorama
Todo homem tem em si a sua tragédia.
...devo mostrar com sinceridade a minha tragédia.
Sienkiewicz

  • EROTIC MOMENT
Imagem: Gennady Shlykov

  • ESPERANDO A LOS BARBAROS
— ¿Qué esperamos munidos en el ágora?

Es que los bárbaros van a llegar hoy día.

— ¿Por qué en el Senado tal inactividad?
¿Por qué los Senadores están sin legislar?

Porque los bárbaros llegarán hoy día.
¿Qué leyes van a hacer ya los Senadores?
Los bárbaros cuando lleguen legislarán.

— ¿Por qué nuestro emperador se levantó tan de mañana, y está
sentado en la puerta mayor de la ciudad sobre el trono, solemne,
portando la corona?

Porque los bárbaros llegarán hoy día.
Y el emperador esperar recibir
a su jefe. Y más aún ha preparado
un pergamino para dárselo. Allí
le escribió muchos títulos y nombres.

— ¿Por qué nuestros dos cónsules y los pretores salieron
hoy con sus togas púrpuras, bordadas;
por qué se pusieron brazaletes con tantos amatistas,
y anillos con magnificas, brillantes esmeraldas;
por qué toman hoy día valiosísimos bastones
en plata y oro espléndidamente labrados?

Porque los bárbaros llegarán hoy día
y tales cosas deslumbran a los bárbaros.

— ¿Por qué tampoco los valiosos oradores no acuden como siempre
a pronunciar sus discursos, a decir sus cosas?

Porque los bárbaros llegarán hoy día;
y los aburren las elocuencias y las arengas.

— ¿Por qué comenzó de improviso esta inquietud
y confusión? (Los rostros qué serios que se han puesto.)
¿Por qué rápidamente se vacían las calles y las plazas
y todos regresan a sus casas pensativos?

Porque anocheció y los bárbaros no llegaron.
Y unos vinieron desde las fronteras
y dijeron que bárbaros ya no existen.

Y ahora qué será de nosotros sin bárbaros.
Los hombres esos eran una cierta solución.
---- Konstantinos Kavafis

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

  • ORAÇÃO
Ah, Deus! como adoraria ver a minha terra sempre assim… — ouvi o meu poeta murmurar.

Imagens: Santo Antão depois da Chuva

  • O BELO
«Por delicadeza, pedi a minha vida», Rimbaud

Imagem: The descent of Ganga - Om Prakash Saini

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

  • ICTUS IONAM
Ictus esse fortunae est — dizia menino
n’Pelourim d’pexe d’Soncent, nas raias da vida
e com tempo e escudos contados.
Liberdade era longe.
Não distinguia
a da mãe,
a do partido que silenciava até as moscas,
a do pescador da galileia e, pior:
a que tens, ó fidge d’terra
— ser peixe, e não ter grande para te comer
nas novas de águas novas
ou ventre abrupto.

Ah, como são profundos os rios espúrios,
os mares de sal e as alegrias de doce e neve...
— balidos descarnados de argo-internautas
sem vinho doce,
o que gosto em ébano e oiro,
abacate fêmea; a natureza das coisas és.
E escuto-me, de avental: hueles muy bien desde mañana

Ictus, ó ictus, tem sempre este destino.
Antes de ti já o era: Deus também aprendeu
que uns são pão e vinho, e outros
sabor de cachupa
e arte, digo eu:
arte-nós.

  • CONTRADIÇÃO
A chuva deveria ser, sempre, uma mais-valia e um prazer para o país, não é?… No Mindelo, por exemplo, as culpas das inundações são todas do Governo de José Maria Neves, segundo dizia António Monteiro (líder da UCID) ontem a noite na RCV. Pois é: o actual Primeiro Ministro é quem governa o país desde a Independência.
.
É culpado, sim, de não resolver novos problemas — como as consequências das alterações climáticas na nossa estrutura geográfica, e não é somente uma questão de se respeitar a natureza e as linhas de água naturais ou de se fazer mais e melhores esgotos. É muito mais do que isso, e não é tarefa exclusiva do Governo e das autarquias locais mas de todos. Até a melhor das coisas pode se tornar num pesadelo, como a chuva numa terra seca e que ora a Deus por ela. E não vale a pena procurar culpados, pois isso levar-nos-ia longe.
..
Imagem: Angelina Jolie

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Este poema é dedicado a mim mesmo
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  • O INVISÍVEL SONHO
A roseira, a Laura de Deus que viste nascer
em ti, ficou tão afamada, mas tão afamada de beleza
que saiu do Mundo.

Pensei o mesmo dos pomares das nuvens
quando, como se diz no berço do umbigo,
nha alma estortegá na pluma do cristal de breu
das kapital — voz dos inocentes do verbo…

E as águas de Setembro lavam teus olhos,
sonhos reinventam o tempo: os deuses recriam-se,
babam-se de sonhos, de avalanches de ti…
Ah! puderas ser tu a azágua,
o outro pão…

E eu, eu sou aquele que canta na festa.

O serafinado que embala os teus sonhos,
o tango de la media noche que ouves suspirar nos sussurros
— quando todos se vão e és tu, tu e tu…
como o Mundo de verdade não vê e és.

O que ouves sou eu, sim: o que canta na festa,
o invisível sonho.
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Imagem: Angel Lola Luv

fabula sem palavras

  • SONNET TO THE VIRGIN MARY
Mother of God! who knowest the dire pangs
Of childbirth, and has suffered, and dost know
How utter sweet the full fruit of thy woe,
And how His heel hath crushed the serpent's fangs,

Be with me in the birth of this my book,
These songs of mine, poor children, like to die;
Yet, if they may not perish utterly,
It is to thee for sustenance I look.

Mother of God! be with me in success,
Abide with me if peradventure fail
These faint songs, murmurs of a summer gale

That my heart clothes within a mortal dress;
And with thy sympathy, their bliss or bale
Shall be too light to shake my happiness.
----- Aleister Crowley

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Imagem: Petra Nemcova

  • MOMENTO ERÓTICO...

  • OS INCENDIÁRIOS SUBTERRANEOS

O mundo está cheio de incendiários; nascem de todo o lado – como dizia Aristóteles. E parece ter razão, assim como o Juízo do judeu português que todos dizem de Amesterdão. Coisa análoga — além da falta de jeito político de Manuela Ferreira Leite — voa por aí, assim como a ASAE que mandou fechar a «Sopa dos Pobres» de Faro, a modos de dizer: «tudo fecha neste mundo»; e é verdade, menos a falta de tino (há coisas que não são de moda nem de modismos). Ai!, os universos são o que são. Suum cuique tribuere — gritaria Ulpiano. A vida não tem pressa, não tem não.

Acho que, hoje, antes de dormir, vou ler um pouco de Water Margin de Shi Naian; tem belas lições. Os incendiários estão no underground do verbo de confraria. Li há pouco — antes escrever o meu poema diário — numa das minhas bíblias pagãs e atentei neste espanto: «Que feliz seria o género humano se o amor que governa os céus governasse também os corações!» (Boechio, De Consolatione Philosophiae, II, metro oitavo, Buenos Aires, 1995, p.54). Pois é, mas ignoti nulla cupido.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

  • AD NATURALIS
Tu que trazes as glândulas das rosas no olhar
e as pétalas da hora no beijo,
diz-me, sem fender as fundações do universo:
— posso tocar o teu aroma,
guardá-lo dentro de mim, no meu segredo?

Imagem: Charlize Theron

  • O(s) MENINO(s) DE OIRO 1
Vem aí a crise dos quatros candidatos? O menino de oiro de Santa Catarina ainda não disse a sua última palavra, não. Não acredito que Carlos Veiga quisesse condicionar somente a sua candidatura às presidenciais, com o anúncio da sua renúncia às presidenciais, não… nem que Mário Matos, antes do mesmo de Carlos Veiga fazer esse anúncio (possibilidade essa que andava correr por aqui, aí e acolá), se tivesse apressado — pois foi extemporraneo, a não ser que estivesse a tentar condicionar essa ideia do líder e favorecer um outro candidato — a dizer que o que o Carlos Veiga queria era candidar-se à liderança do MPD para depois se apresentar às legislativas.

A decisão do Primeiro Ministro José Maria Neves será de quem pesa mais ou de quem pensa mais? De Pilatos ou de sacrifício, em nome do partido e/ou dos interesses da Nação? A ver vamos; e se a razão e a lógica imperarem, os puzzles não valerão de nada. É que a crise pode ser não dos quartro candidatos, mas sim dos cinco, com o Delfim na sombra e o adversário, candidato putativo, no recato e sábio silêncio. É que, bem vistas as coisas, o Jorge Santos bem que poderá vir a ser o candidato do MPD às Presidenciais (a Isaura Gomes fica nas sobras, à espera que o candidato putativo possa, em dadas cirscuntancias, dizer não e deixar-lhe espaço para um embate com Jorge Santos pela nomeação às presidenciais).

O menino de oiro de Santa Catarina, o homem novo, do tudo novo, até do Mundo… tem a palavra. Por agora, segue as pisadas do Carlos Veiga e a sua candidatura à liderança do PAICV terá uma lista única (porquê é que se insiste nessa lógica de falsa união, de não existência de rupturas necessárias, de travar caminho ao futuro?). Ninguém quer se queimar e tentar ser líder — esquecem-se do percurso político do líder, pois claro! — pois os barões querem a presidência, os mais capazes estão condicionados pela sua capacidade e o homem da pombas assadas ainda lambes as feridas ulissianas.

E se, depois das eleições para a liderança do partido, o líder vier a dizer que sim Senhor, se candidata, ou que devem ser os militantes (num assomo de democracia interna) a decidiram quem deve ser o seu candidato? Possibilidades, interesantes e calculáveis, de todo. A natureza humana, ao contrário do que pensamos, é previsivel e quando mete um pouco de probabilidades as coisas tornam-se uma espécie de matemática social. Não é uma questão de adivinhar, de se fazer de Oráculo de Delfos, nein!
________
1 O(s) Menino(s) de Oiro passa a ser uma rubrica sem dia, hora e data marcada aqui no Terra-Longe.

  • PROVÉRBIOS DO INFERNO
«Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço», William Blake, «Provérbios do Inferno», (80), in O Casamento do Céu e do Inferno

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

  • POETA NEGRO
Poeta negro, un seno de doncella
te obsesiona
poeta amargo, la vida bulle
y la ciudad arde,
y el cielo se resuelve en lluvia,
y tu pluma araña el corazón de la vida.

Selva, selva, hormiguean ojos
en los pináculos multiplicados;
cabellera de tormenta, los poetas
montan sobre caballos, perros.

Los ojos se enfurecen, las lenguas giran
el cielo afluye a las narices
como azul leche nutricia;
estoy pendiente de vuestras bocas
mujeres, duros corazones de vinagre.
------ Antonin Artaud

  • ESPARGUETE E PEIXE FRITO
A propósito de um atentado à cultura gastronómica cabo-verdiana escrevia há pouco um texto de (des)agravo, e lembrei-me de um episódio que aconteceu comigo e com o meu tio Joaquim Teixeira Brandão (irmão do meu pai), há alguns anos na localidade de Povoa de Santa Iria, Portugal. Fomos convidados (como já estava meio t’môd, lembro-me de poucos pormenores), eu, o meu Querido tio Vitorino Brandão e outros primos para jantar na sua casa (acho que, se não me falha a memória, tinhámos ido ver o filme «Bruce Lee e Eu»). Chegados lá, a mulher deu-nos esparguete com peixe frito. Isso mesmo: esparguete com peixe frito!

O Tio Joaquim ficou tão indignado que perguntou à mulher se aquilo era comida para se dar a um homem, se aquilo era comida para se apresentar na mesa… morria de vergonha, com razão! Se fosse ele, sentiria o mesmo; e fomos solidários. O Mundo morreu!

Mais: o tio Joaquim Teixeira Brandão mudou de mulher. A família achou por bem, as mulheres inclusive. Esparguete com peixe frito? Definitivamente, não! O Tio Joaquim, também definitivamente, gostava de comer bem, e de temperos. A minha cunhada é que, sendo avisada e má cozinheira, lá teve o bom senso de ir fazer um estágio com a sogra e a cunhada! E o «machista» do meu irmão lá teve, também ele, de ensinar a mulher a cozinhar. Gerações!
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Imagem: Night Vision - Sidney Goodman

domingo, 13 de setembro de 2009

  • EL ALBATROS
A menudo, por divertirse, los hombres de la tripulación
cogen albatros, grandes pájaros de los mares,
que siguen, como indolentes compañeros de viaje,
al navío que se desliza por los abismos amargos.

Apenas les han colocado en las planchas de cubierta,
estos reyes del cielo torpes y vergonzosos,
dejan lastimosamente sus grandes alas blancas
colgando como remos en sus costados.

¡Que torpe y débil es este alado viajero!
Hace poco tan bello, ¡que cómico y que feo!
Uno le provoca dándole con una pipa en el pico,
otro imita, cojeando, al abatido que volaba.

El poeta es semejante al príncipe de las nubes
que frecuenta la tempestad y se ríe del arquero;
desterrado en el suelo en medio de los abucheos,
sus alas de gigante le impiden caminar.
~~~~ Charles Baudelaire

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  • Imagem: Lola Luv

  • ATRÁS DO MITO….

    Ramon Benitez… uma das identidades (não é pseudónimo, não!) de Ernesto «Che» Guevara.

Imagem: Um dos passaporte Che Guevara, com a sua impressão digital

sábado, 12 de setembro de 2009

  • CARTAS DE AMOR DE EÇA DE QUEIRÓS
Segunda Carta a Clara

Meu amor.
Ainda há poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei num desolador desde a nossa Torre de Marfim), eu sentia o rumor do teu coração junto ao meu, sem que nada os separasse senão uma pouca de argila mortal, em ti tão bela, em mim tão rude – e já estou tentando reconfigura ansiosamente, por meio deste papel inerte, esse inefável estar contigo que é hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e única vida. É que , longe da tua presença, cesso de viver, as coisas para mim cessam de ser – e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto, Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome – recomeço a aspirar desesperadamente para ti, como uma ressurreição!

Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu deus a minha Eva – que era eu, na verdade? Uma sombra flutuando entre sombras. Mas tu vieste, doce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permitir que eu bradasse também triunfalmente o meu – “Amo, logo existo!” E não foi só a minha realidade que me desvendaste – mas ainda a realidade de todo este universo, que me envolvia como um ininteligível e cinzento montão de aparências. Quando há dias, no terraço de Savran, ao anoitecer, te queixavas que eu contemplasse as estrelas estando tão perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer das colinas junto ao calor dos teus ombros – não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando, nas coisas, a beleza inesperada que tu sobre elas derramas por uma emanação que te é própria, e que antes de viver ao teu lado, nunca eu lhes percebera, como se não percebe a vermelhidão das rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o Sol! Foste tu, minha bem-amada, que alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo iniciado, posso afirmar: “Também fui a Elêusis; pela larga estrada pendurei muita flor que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a Elêusis cheguei, em Elêusis penetrei – e vi e senti a verdade!...”

E acresce ainda, para meu martírio e glória, que tu és tão suntuosamente bela e tão etereamente bela, de uma beleza feita de Céu e de Terra, beleza completa e só tua, que eu já concebera – que nunca julgara realizável. Quantas vezes, ante aquela sempre admirada e toda perfeita Vênus de Milo, pensei que, se debaixo da sua testa de Deusa, pudessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lágrimas; se os seus lábios, só talhados para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmúrio de uma prece submissa; se sob esses seios, que foram o apetite sublime dos Deuses e Heróis, um dia palpitasse o amor e com ele a Bondade; se o seu mármore sofresse, e pelo sofrimento se espiritualizasse, juntando ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade; se ela fosse do nosso tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dor – então não estaria colocada num museu, mas consagrada num santuário, porque os homens, ao reconhecer nela a aliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto a teriam aclamado in aeternum, como a definitiva Divindade. Mas quê! A pobre Vênus só oferecia a serena magnificência da carne. De todo lhe faltava a chama que arde na lama e a consome. E a criatura incomparável do meu cismar, a Vênus Espiritual, Citeréia e Dolorosa, não existia, nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu te compreendo! Eras a encarnação do meu sonho, ou antes de um sonho que deve ser universal – mas só eu te descobri, ou, tão feliz fui, que só por mim quiseste ser descoberta!

Vê, pois, se jamais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo és a minha Divindade – para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração. Os sacerdotes de Cartago acorrentavam às lajes dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens de seus Baals. Assim te quero também, acorrentada dentro do templo Avaro que te construí, só Divindade minha, sempre no eu altar – e eu sempre diante dele rojado, recebendo constantemente na alma a tua visitação, abismando-me sem cessar na tua essência, de modo que nem por um momento se descontinue essa fusão inefável, que é para ti um ato de Misericórdia e para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que fosses invisível para todos e como não existente – que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rígida mudez ocultasse a tua inteligência. Assim passarias no mundo como uma aparência incompreendida. E só para mim, de dentro do invólucro escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo – que e queria entrouxada num rude, vago vestido de merino, com um ar quedo, inanimado... Perderia assim o triunfal contentamento de ver resplandecer entre a multidão maravilhada aquela que em segredo nos ama. Todos murmurariam compassivamente: “Pobre criatura!” E só eu saberia, da “pobre criatura”, o corpo e a alma adoráveis!

Quanto adoráveis! Nem compreendo que, tendo consciência do teu encanto, não estejas de ti namorada como aquele Narciso que reme de frio, coberto de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo, e por mim e por ti! A tua beleza, na verdade, atinge a altura de uma virtude – e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. Por isso há em mim um incessante desespero de não e saber amar condignamente – ou antes (pois desceste de um Céu superior) de não saber tratar, como ela merece, a hóspede divina do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda numa felicidade imaterial, seráfica, calma infinitamente como deve ser a Bem-Aventurança – e assim deslizarmos enlaçados através do silêncio e da luz, muito brandamente, num sonho cheio de certeza, saindo da vida à mesma hora e indo continuar no Além o mesmo sonho extático. E outras vezes desejaria arrebatar-te numa felicidade veemente, tumultuosa, fulgurante, toda de chama, de tal sorte que nela nos destruíssemos sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memória e sem nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanás, ainda em toda a refulgência da beleza arcangélica, arrastando nos braços para o Abismo uma freira, uma Santa, cujos derradeiros véus de penitência se vão esgaçando pelas pontas das rochas negras. E na face da santa, através do horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e paixão, tão intensas – que eu as apeteceria para ti, oh minha santa roubada! Mas de nenhum destes modos te sei amar, tão fraco ou inábil é o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno.
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Tu sorris tristemente desta Eternidade. Ainda ontem me perguntavas: “No calendário do seu coração, quantos dias dura a Eternidade? “ Mas considera que eu era um morto – e que tu me ressuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espírito novo que em mim sente e compreende, são o meu amor por ti – e se ele me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu sepulcro. Só posso deixar de te amar – quando deixar de ser. E a vida contigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bela! É a vida de um deus. Melhor talvez: - se eu fosse esse pagão que tu afirmas que sou, mas um pagão do Lácio, pastor de gados, crente ainda em Júpiter e Apolo, a cada instante temeria que um desses deuses invejosos te raptasse, te elevasse ao Olimpo para completar a sua ventura divina. Assim não receio – toda minha te sei para todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um paraíso para nós criado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da glória, oh minha três vezes bendita, Rainha da minha graça.

Não penses que estou compondo cânticos em teu louvor. É em plena simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao contrário! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua majestade, seria impotente para exprimir o meu êxtase. Balbucio, como posso, a minha infinita oração. E nesta desoladora insuficiência do verbo humano, é como o mais inculto e o mais iletrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a única verdade, melhor que todas as verdades – que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!...
Fradique

in Eça de Queirós, Cartas D'Amor - O Efêmero Feminino, Garamond, Rio de Janeiro, 2001

Imagem: Vitamine, Jean-Louis Grig