quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

  • O MEU POETA

VB, os deputados são da nação ou da omissão? — pergunta-me o meu poeta.

quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

| WORDS OF WISDOM

Not only the thirsty seek the water,
the water as well seeks the thirsty — Rûmî.

  • AMERICA AND GLOBAL DEVELOPMENT
«[…] development is an integral part of America’s national security policy and it is part of an integrated approach that includes development, diplomacy, and defense. And I think that what we’ve tried to do with this global policy is to make very clear that we’re not only a core pillar of our national security mission – and by the way, this is the first time since Kennedy that any president has articulated a global development policy – but that we truly are elevating development to the highest levels of the United States Government» — Secretary Hillary Clinton. Read and see more... 

terça-feira, 28 de Setembro de 2010

  • THE PARADOXES OF LOVE

The storming of love is what is sweetest within her,
Her deepest abyss is her most beautiful form,
To lose our way in her is to arrive,
To hunger for her is to feed and to taste,
Her despairing is sureness of faith,
Her worst wounding is to become whole again,
To waste away for her is to endure,
Her hiding is to find her at all times,
To be tormented for her is to be in good health,
In her concealment she is revealed,
What she withholds, she gives,
Her finest speech is without words,
Her imprisonment is freedom,
Her most painful blow is her sweetest consolation,
Her giving is her taking away,
Her going away is her coming near,
Her deepest silence is her highest song,
Her greatest wrath is her warmest thanks,
Her greatest threatening is remaining true,
Her sadness is the healing of all sorrow.
------ Hadewijch of Brabant, a 13th Century Beguine

  • A POBREZA DE CABO VERDE E A LIBERTAÇÃO DA CULTURA
A cultura é tão importante como o saneamento básico, a água ou o pão: pois a cultura ajuda a sanear a alma do mal e alimenta a alma (intelecto, vontade e emoções) como o pão e a água sustêm o corpo. Mas a cultura é um perigo para o poder, e o poder lida com ela de forma pragmática e consciência direccionada: comprando consciências, promovendo um dado sentido de cultura ou facilitando a emergência de formas ou manifestações de cultura que, como a Lei de Gresham, afastam a boa cultura: se preciso for destrói-se (haja poder ou sageza bastante para tanto) pontos nevralgicos da alma da sociedade; inclusive a memória.

Assim se empobrece um povo e uma nação. E uma nação pobre é mais fácil de ser controlada, de ser cordeiro sob a vara do líder e dos sequazes da República, inclusive de uma democracia formal e delegativa. E havendo um mínimo de desenvolvimento económico e social, a lógica autoritária reconstrói a história — pensa-a e reescreve-a segundo os seus interesses (o que é tão fácil de ser feito que espenta até as almas mais atentas). Assim fez Octávio Augusto ao destruir a República e sobre as suas cinzas fundar o império romano: Publio Virgilio Maron escreveu a Eneida, a história de um povo grandioso antes de o ser, usurpando a história e apropriando-se do mito.

Em Cabo Verde a tentativa de reescrever a história antes da Independência e da emergência da II República é patente, quer nos propósitos e princípios estruturantes do Estado quer nas realizações. Resultará, no mínimo, desonestidade intelectual comparar o que não é comparável. Concordarão todos comigo. Então, no que concerne ao combate a pobreza não é possível comparar os Governos constitucionais presididos por Carlos Veiga e os presididos por José Maria Neves. Porquê – perguntar-me-á. A razão é simples: as condições estruturais e conjunturais adversas do MPD, se comparados com as particularmente favoráveis do PAICV, não foi impedimento a que os Governos da II República criassem condições objectivas e estruturais para o desenvolvimento do país e tivesse uma performance relativa substancialmente superior na diminuição da pobreza. Do outro lado, as condições que o PAICV teve durante a sua governação — acesso aos mercados financeiros internacionais para financiamento do Estado e programas como o Millenium Challenge Account — não foi o bastante para lograr um resultado melhor ou mais consolidado.

São realidades distintas: o MPD liderado por Carlos Veiga herdou uma economia centralizada e fechada que vivia do peixe que lhe era doado e deixou ao país um legado de economia de mercado, aberto e com a «cana para pescar». Isto é, ainda que não pareça, um dado de cultura… com sentido transformador: algo a que demanda adesão de todo e cada um dos cidadãos.

Tenho como certo que a cultura de um povo é toda a sua memória; e não penso estar enganado, e muito menos sinceramente errado nesta asserção. E apagada a memória do povo, os escribas oficiais da história encarregar-se-ão de a reconstruir segundo o beneplácito do líder ou do sistema ético e social reconstruído. E por mais imaginação que se tenha, a realidade é muito mais rica do que a imaginação; e a realidade, como sempre, não se engana pois é o único que não precisa de Deus para existir aos nossos olhos.

Cabo Verde é materialmente pobre, por imposição da natureza; e isso é uma quase uma fatalidade que não tem, necessariamente, de condicionar a nossa existência imediata nem deve determinar o nosso destino colectivo: onde um chega como pessoa podemos nós chegar com povo. E assim é porque somos um povo rico de alma e em resiliência: um povo desenvolvido em consciência e na arcana arte de sobreviver (o que nos torna, segundo Darwin, um portentado humano); ainda que haja quem pense que não e nos deseje manter numa situação de guetizados do saber, alheios à libertação da consciência que é a cultura que nos poderá levar a ser o que podemos ser.

E resulta um paradoxo de situação: é quando se fala da ausência de "modelos" de referência para a juventude é que se destrói a memória de algumas das maiores referências humanas do país (por juízo ou não da História, no mesmo fim-de-semana da destruição a Casa Adriana Aristides Pereira, o Presidente do Estado do Cabo Verde autoritário era homenageado em Portugal). É dificil não pensar que é por aqueles serem contrários a determinado modelo e ideia de cultura.  Dizem-me que que tenho demasiada gente em demasiada conta; e se calhar até que gostaria de que assim fosse; é que a imparcialiodade de juízo coloca-me perante dois diabos: a ignorância e a monocultura transvestida de liberdade democrática.

«Nem só de pão vive o homem» — diz o meu mestre. Eu digo: a cultura liberta o homem do instinto de pão, e dá-lhe consciência do que é a liberdade de ser independente para seguir o caminho do que pode ser. E falta ao homem cabo-verdiano a liberdade de saber ser independente: depois do país, é preciso libertar o homem ( e a mulher) cabo-verdiano para o saber e a cultura do saber, para a consciência de si mesmo e do seu valor intrínseco como pessoa humana e agente transformador da sociedade e repositório da sua memória. E sempre que se destrói parte da memória colectiva de um povo, como é, insofismavelmente, o caso da Casa Adriana, perece uma parte do futuro. Pena é que a intelligentsia cultural nacional — a oficial e a aparente, pois «há mais tudo sobre o céu e a terra…» — não perceba ou não queria perceber isso… e se remeta ao silêncio dos cúmplices. O que não me surpreende, de todo; é que existem demasiadas formas de pobreza.

Imagem: Jovem — Bouguereau

  • A REALIDADE

O que é real?
O que nos diz o poeta,
o que sonhamos e criámos
ou o que passa ao nosso lado em silêncio
com a dor gritando?
------ Lisboa, 26-09-1010
Virgílio Brandão

Imagem: Big Birdcatcher — Konstantin Kalynovych

  • EU E O MEU POETA
A cultura de um povo é toda a sua memória — relembro ao meu poeta.

Imagem: Her eyes are with Her thoughts — Lawrence Alma-Tadema

segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

domingo, 26 de Setembro de 2010

  • O ALFA E O OMEGA DAS COISAS

A aurora chega insaciável,
prima de oiro: sai da fornalha, fere-me
e assenta arrabalde na minha alma.
Cerca-me, como se eu fosse nova Hatra,
desditada Sagunto e Africa Vetus
antes do mundo novo se afogar de paz.

O Sol beija as folhas verdes
das oliveiras e das vinhas virgens,
os zéfiros cantam rosas que amo
e chove torrencialmente no universo
dentro de mim: nem uma gota de água
apaga a minha sede,  
a minha fogueira e incrustada sede de ti.

A aurora chega, e dói.
Só tu sabes como dói a aurora sem ti.
Só tu sabes como é a minha dor;
só tu, minha dor…
------ Lisboa, 25-09-1010
Virgílio Brandão

  • I AND MY POET
      — An ancient Tao assertion says that «Wise men ride with the time…» — my poet told me.
      — Does that mean that wise men don’t have principles? — I asked him.
     My poet left for a drink, to think… he says.

Image: Miguel Servet

sábado, 25 de Setembro de 2010

  • WORDS OF WISDOM
In every moment this love is more endless,
in every time people are more bewildered in it — ‘Attâr.

Image: Jean-Auguste Dominique Ingres

  • A ERA DO DESEMVOLVIMENTO 
Ut quasi transactis saepe omnibus rebus profundant, fluminis ingentes fluctus, vestemque cruentent — Lucrécio.

Imagem: Mulher Mijando, Pablo Picasso.

sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

  • A SINDROME ECONÓMICA DOS CINCO ANOS
Cabo Verde Investimentos (CI) organizou um workshop sobre oportunidades do AGOA (African Growth and Opportunity Act) para os agentes económicos nacionais. Este instrumento de política económica da Administração americana existe desde meados de 2000, e parece ter passado despercebido ao Governo e à Cabo Verde Investimentos…

Foi preciso a Embaixadora cessante dos Estados Unidos em Cabo Verde ter falado — a modo de fino alerta e ainda mais fina crítica, quase subliminar — na última entrevista que deu antes de sair de Cabo Verde para o Governo e a Cabo Verde Investimentos despertarem e, às pressas que o tempo urge, virem apresentar ao empresariado nacional um programa de liberalização económica que existe há uma década! Mas parece que passou a existir, de repente e como se se estivesse perante uma epifania económica.

O workshop intitulado "Como Abrir as Portas do Mercado dos E.U.A - no Âmbito do AGOA" acompanhou a abertura do Centro de Recursos AGOA (CRA) no Mindelo. O Governo, e a instituição que tem a obrigação de informar os empresários nacionais de oportunidades de negócios no exterior só agora é que acordou para as suas falhas neste aspecto em particular… depois de, segundo a Ministra Fátima Fialho, ter tirado alguns proveitos do programa em 2005. Isto é: de cinco em cinco anos o Governo se lembra do programa… e só agora resolveu promovê-lo.

O que me lembra das declarações do Primeiro Ministro sobre a incineradora da Praia e da Empresa que criou com o Câmara Municipal da Praia, então presidida por Felisberto Vieira, em 2005. Nomearam administradores da Empresa, e têm pago as remunerações dos mesmos desde então (presumo… e seria conveniente verificar este facto: perguntando ao Primeiro Ministro, pois então!) para a dissolver cinco anos depois! O nome dos administradores da Empresa não interessa a ninguém? Parece que não, parece não…

Uma pergunta emerge: Sendo gestor de formação, o Primeiro Ministro não sabe que primeiro se faz o estudo do mercado e se avalia o produto antes de se constituir a empresa para o colocar à disposição dos cidadãos? A resposta é dolorosa: (i) se sim, como pode governar o país se não sabe algo de tão básico? (ii) se não, quais foram as razões e motivações que levaram a criação de tal empresa? Quanto é que isto custou ao erário público? Eu gostaria de saber, os cidadãos cabo-verdianos gostariam de saber. Por onde andam o Tribunal de Contas e o Ministério Público? Tudo leva crer que, neste particular, existe uma gestão danosa de fundos públicos; até porque o Governo — e parece ser lógica matricial da sua praxis — faz sempre estudos e mais estudos para adiar decisões sobre questões incómodas ou que subjazem a valores a que não adere.

A questão da Globallee é outra conversa… e o contrato assinado entre os representantes do Governo e a Empresa deve ser tornado público. Mas pode e deve ficar para depois. Agora, a síndrome do despertar dos cinco anos terá alguma coisa a ver com a proximidade das eleições? Se não parece, é. E lá bem dizia Marco Aurélio a Annia Fustinna e a Annia Lucilla que «a mulher de César não basta ser séria…»

Imagem: The path of time — Jean Paul Avisse

«De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados. Esquadrinhemos os nossos caminhos…» — Lamentações de Jeremias, III.39.
  • A RAZÃO DE SER DAS COISAS E A CASA ADRIANA
 «Odeio ter razão! O meu mundo de razões para estar errado» — digo a mim mesmo. Sinceros companheiros e ex-companheiros de caminhada em algumas lutas cívicas, estarão, a esta hora, a por as mãos na cabeça e a dizer: “Bem que o Virgílio nos avisou!” E avisei de muitas coisas, porventura demasiadas e extemporâneas ao tempo às gentes. O meu maior receio — que emergia da experiência, da compreensão das mentes autoritárias e da lógica que move as suas acções — concretizou-se: avançou-se com a demolição da Casa Adriana no fim-de-semana, quando seria impossível recorrer-se às instituições democráticas para travar a demolição e o povo mindelense ser confrontado com o facto consumado, com o “leite derramado” que o povo sereníssimo não tem o hábito de ter como pano de choro e nem sabe bem o que é em substância.

Nada de novo. Assim se faz, como o ladrão na noite: de forma inesperada, com todos adormecidos. A luta pela preservação da Casa Adriana, como é hoje patente, enformava uma realidade que vai para além da mera preservação do património histórico e arquitectónico: é uma luta pela memória colectiva da cidade do Mindelo e dos mindelenses, assim como pelos direitos políticos e sociais de cidadania e de um determinado dado sentido de cultura que os novos tempos tentam expurgar do Cabo Verde novo. Mas que fique claro, a quem quiser escutar: As maiores responsabilidades na destruição da casa do Dr. Adriano não são do Governo e da Câmara Municipal de S. Vicente, não! São do Movimento de defesa da casa do Dr. Adriano e da sua inépcia e falta de sentido estratégico; das pessoas pensarem em si mesmas, no que outros poderiam pensar disto ou daquilo, etc: os egos desfocaram o objectivo e turvaram a razão das coisas. “Onde falta o conhecimento o povo perece…” lá dizia o profeta Oseias. Mas não deixa de ser evidente que existe uma agenda política subjacente a esta questão; e que merece cuidados redobrados, no futuro imediato, por parte de uma cidadania activa.

A padronização ética e cultural do homem cabo-verdiano — que se tentou no passado e que se repristina hoje — é, além de desumano, um perigo demasiado grande para ser corrido; e Aldous Huxley dá-nos uma pequena ideia desta realidade em Admirável Mundo Novo. E o Mundo novo cabo-verdiano é, hoje por hoje, o do homem bruto, o homem sem cultura e sem memória que não seja a memória oficial dos sequazes do ideário político do PAIGC/CV que tenta — aparentemente a todo o custo — destruir a memória do país: o que não é apropriável pelo partido é destruído; quem pensa out of the box é um verme. Delenda est o ke no ê di nos! parece ser a lógica.

O mundo em si mesmo tem uma linguagem subterrânea; a modo do universo espiritual de Huxley e a teoria das cordas. A confiança do voto merece a tutela devida; e por vezes é auto tutela. Como é agora, neste momento: Com a demolição da Casa Adriana o Governo do PAICV presidido por José Maria Neves — se mais razões não houvesse — perdeu meu voto e qualquer confiança possível; e mais: ganhou em mim um opositor. Esta decisão não é inocente, infelizmente; e se o fosse, na hipótese de o poder ser, demonstraria uma extrema inabilidade funcional deste Governo. Mas não nos enganemos, pois a culpa não é somente do Governo de José Maria Neves e da sua falta de visão e de políticas da e para a cultura, não… pois um país prospera quando todos fazem o seu papel de forma devida, inclusive os cidadãos. É que, como digo, moscas apanham-se com mel…ou com mata moscas! Mas não é que existe um Mundo novo, um Cabo Verde paralelo que se revela de vez em quando e em que as moscas apanham os homens com mel?...

Virgilio Maronis dizia nas Bucólicas: omnia vincit amor et nos cedamus amori. Que “amor à terra”, a Mindelo e a todo o São Vicente venceu? A que amor cedeu o Governo de José Maria Neves neste sacrifício da cultura mindelense? (E já nem falo, v.g., (1) da insegurança nacional, (2) do desemprego galopante; (3) do escasso acesso a bens fundamentais como (4) habitação, (5) cuidados de saúde, (6) luz, (7) água [e nem me refiro à água de e com qualidade] e (8) justiça célere, (9) da massificação da corrupção e do nepotismo, (10) da ausência de uma sistema de transportes entre ilhas que liberte os cidadãos que se sentem sequestrados na sua própria terra/ilha, (12) da não qualificação do país para a competitividade económica e social no mundo global...

Estes são exemplos de algumas áreas em que o Governo presidido por de José Maria Neves falhou de forma clamorosa, e sem razão: teve condições estruturais e materiais que nenhum outro Governo de Cabo Verde teve até hoje. No entanto parece governar por reacção e não por acção, de acordo com um programa estrutural e estruturante para o desenvolvimento do país a curto, médio e longo prazo. As pessoas decepcionam-me, em regra, no plano emocional; o Primeiro Ministro José Maria Neves conseguiu a proeza de me decepcionar no plano emocional e racional.

A praxis do Governo em tantas e diversas matérias — revelando uma afrontosa insensibilidade e incapacidade funcional (a entrevista do Artur Correia, Director do Hospital Agostinho Neto, a RTC é testemunho eloquente da falta de uma visão integrada e estrutural da saúde em Cabo Verde, na Capital em particular que precisa, há muito – e epidemia de dengue foi um aviso que, ao que parece, não foi tida em devida consideração –, de um grande hospital e de recursos humanos adequados às necessidades da comunidade) — determinou por si mesmo a minha opinião de cidadão eleitor e dita o meu veredicto: este Governo não merece governar mais o meu país, a minha pátria!

E digo-o com a mesma convicção com que disse há cinco anos atrás que o Governo de José Maria Neves merecia então um segundo mandato, e que votaria no PAICV para Governo e em Carlos Veiga para Presidente para haver um equilíbrio na estrutura institucional do Estado (a fraca prestação de Pedro Pires como Presidente da República, nomeadamente no controlo político, afirma um colapso prático do modelo político cabo-verdiano). Mas hoje vejo as minhas expectativas cidadãs defraudadas; e isso é mais do que bastante para se ansiar, se desejar e se vote num projecto alternativo de governação que não esta que tem sido protagonizada pelo Governo presidido por José Maria Neves. Isto é para, ex ante, calar todos os fantasmas, anónimos e quejandos que se aprestarão a vir dizer cobras e lagartos e a etiquetar-me como militante do MPD, da UCID, do PTS ou de Djack Esquequereque ou de raios que os parta! Confiança dada, confiança retirada. Assim faz o povo, assim faço eu: não é uma questão de política partidária mas sim cidadã.

Os cidadãos precedem os partidos políticos.

Não é que não tenha havido e não haja coisas boas na governação em curso; não!, houve coisa boas sim. Mas não as suficientes para levar-me — de forma objectiva e em boa consciência — a aprovar os últimos dez anos de governação do PAICV que não conseguiu levar ao país ao nível de desenvolvimento real, económico, social e humano (neste último aspecto, avulta uma ideia errática da Cultural e uma ausência de uma política democrática da Cultura e para a cultura). Além do mais não logrou conseguir algo que era mais do que possível e estava ao seu alcance, algo que não dependia do exterior: a consolidação da Democracia no país. Aliás, este Governo falhou em tudo o que podia e deveria fazer no país sem recurso à ajuda externa.

Digam as sondagens o que disserem uma coisa é certa: o PAICV não ganhará as próximas eleições legislativas (mesmo com a inércia a seu favor e com os condicionamentos que se antevêem ao nível do universo eleitoral que determinará a composição da Assembleia Nacional e o futuro Governo); quanto muito o MPD, a UCID e o PTS poderão perder essas mesmas eleições. E uma ou outra coisa poderá ter começado aqui, na gestão desta questão Adriana…

Imagem: Moça Correndo Numa Varanda — Giacomo Balla (1912)

  • WORDS OF WISDOM
We are experiencing hard times; you cannot speak or be silent without danger — Juan Louis Vives to Erasmus. (1534).

Image: Giordano Bruno at the stake Andre Durand (2000)

quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

  • BULDOZERS

Encontrei-te na serra
imagem desdobrada de querubim;
não eras fácil de não amar.
Eu, a antecâmara do santo dos santos,
sangrei o medo
e toda a tarde foi sonho de horas.

Agora sangro,
sangro e registo a realidade
por não haver mais luta:
mãos invisíveis e bulldozers arrasam-me
em Mindelo e grito:
«O deserto não deve crescer!
Quando se alimenta o deserto e os corvos,
a luz deve nascer dentro de nós.»
---- Sertã, 19-09-2010 (06:35 a.m)
Virgílio Brandão

Imagem: Judith Slaying Holofernes — Artemisia Gentileschi

CONFERÊNCIA DE IMPRENSA EM 21/09/2010
Maurino Delgado

O objectivo desta conferência é reagir contra a demolição da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, lançar o grito de revolta face à destruição do património histórico de São Vicente e pedir a todos os cabo-verdianos dentro e fora do país para promoverem manifestações de protesto contra a destruição do património histórico e em defesa da democracia.

O Movimento para a Salvaguarda da Casa do Dr. Adriano como património Cultural, começa por manifestar a sua profunda indignação pela demolição desta Casa na fatídica manhã de 18/09/2010 por decisão do Governo e da Câmara Municipal de São Vicente.

Lamentavelmente, a prepotência e a irresponsabilidade do Poder sobrepuseram à opinião pública esclarecida.

Quando o Governo ignora a vontade expressa do Senhor Presidente da República e da Assembleia Municipal de São Vicente que a nosso lado se posicionaram em defesa desse património, estamos perante uma situação política grave e preocupante que interpela todas as pessoas que desejam viver em paz e em democracia em Cabo Verde.

Por esta razão, com a experiência da vida e dos anos por factos vividos, queremos pedir a todos os cabo-verdianos, dentro e fora do País para connosco reflectirem sobre esta decisão que foi fortemente contestada pela sociedade civil num processo que se arrastou por mais de um ano.

Fazemos esse apelo porque há momentos especiais que decidem positiva ou negativamente o destino das pessoas ou dos povos.

Vivemos um desses momentos. Infelizmente, nem sempre temos a consciência exacta da natureza dos factos ou a coragem suficiente para agir no momento certo. Estamos num desses momentos em que temos que agir para dar resposta firme a esse acto de tamanha afronta para defender a nossa democracia.

Em 1980, eu, Maurino Delgado, com o meu voto, na qualidade de deputado do PAICV, foi aprovado o tão falado artº4º da Constituição da República que consagrava o PAICV em partido único.

Com este acto político atrofiamos o desenvolvimento intelectual e político do povo de Cabo Verde, o desenvolvimento económico e social destas Ilhas e criamos as condições para que em determinados momentos fossem cometidos os maiores abusos e atrocidades por parte do Poder. ( Deixando uma pequena nota para dizer que o padre Fidalgo também deputado foi o único que pôs em causa a proposta do artº4º, porque nessa altura ele já era uma pessoa politicamente mais avançada).

Os acontecimentos trágicos da reforma agrária em Santo Antão, em que várias pessoas foram barbaramente torturadas, conforme relata o livro de Onésimo da Silveira, a “Tortura em nome do partido Único” é um exemplo disso. Foi um acto propositado do Poder para reprimir e servir de exemplo aos que ousassem exprimir as suas ideias contrárias.

Poderão perguntar por que trazer aqui esse facto? É que temos que conhecer os factos históricos para em cada momento orientarmos a nossa vida.

Estamos a viver um momento desses. As pessoas que de facto dominam o poder não aceitam ser questionadas nas suas decisões e estão a agir autoritariamente.

A nivel do Governo e da Câmara Municipal alguém decidiu que a Casa do Dr. Adriano devia ser demolida para dar lugar a construção da Sede da Delegacia de Saúde de São Vicente. Pretensiosamente, querem apagar parte da nossa história para fazerem a sua numa atitude de arrogância sem precedentes.

Esta decisão foi fortemente contestada pela opinião pública esclarecida através de documentação histórica e depoimentos de pessoas abalizadas. O Senhor Presidente da República também se posicionou a favor da preservação desse espaço. A Assembleia Municipal de São Vicente deliberou a sua preservação. Qual foi a resposta das pessoas que dominam o poder? Demolir esse património sem dar cavaco a ninguém. Este acto é um exemplo acabado da cultura anti-democrática daqueles que dominam o poder.

Trata-se de um acto grave que ultrapassa os limites da boa convivência democrática e do respeito das instituições. Trata-se de um acto repressivo exercido conscientemente, tal como na altura da reforma agrária, que tem por objectivo amedrontar e desencorajar a sociedade civil de exercer a sua cidadania. A democracia foi posta seriamente em causa. Isso envergonha o povo de Cabo Verde. Isso é um mau exemplo para a nossa juventude que precisa de referências e de conhecer os nossos homens ilustres.

Recorrentemente, diz o Senhor Primeiro - Ministro, que em democracia as instituições têm que funcionar.

Contrariamente, as nossas instituições não funcionam na normalidade. Num Estado de Direito de facto e num País de desenvolvimento Médio a sério, seria inimaginável a demolição da Casa do Dr. Adriano.

Aceitamos que muitos não estejam de acordo com o que acabamos de afirmar porque, infelizmente, em Cabo Verde tudo é partidarizado, o que tem prejudicado a discussão das ideias, a democratização e o desenvolvimento do País.

No entanto, admitimos que haja pessoas que ainda não tiveram oportunidade de interiorizar a importância do património histórico na vida dos povos, sendo-lhes portanto indiferente que esse espaço seja utilizado para a construção da Sede da Delegacia de Saúde. Porém, outras há, que sabendo perfeitamente o valor do património histórico, este país não lhes diz nada, não têm orgulho nacional, estão apenas preocupadas com o poder e é por isso que a Casa do Dr. Adriano começou a ser demolida.

É inaceitável que os Governos, tanto a nível do poder Central como do Poder local, estejam a destruir ou a deixar destruir, gratuitamente, o património histórico desta Ilha.

Voltando à questão da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, não vamos entrar em detalhes do processo da salvaguarda da referida Casa porque muito já se falou sobre o assunto e sem margem para dúvidas ficou demonstrado que ela era um património histórico, dos mais emblemáticos desta Ilha e deste País.

Mas, se outros argumentos não houvessem, bastava o facto do Senhor Presidente da República se ter pronunciado a favor da salvaguarda desse património e de ter, no dia 2 do passado mês de Agosto, no acto da condecoração de cidadãos residentes nesta ilha que se distinguiram no domínio da cultura, ter lançado o apelo aos artistas e a todos os cabo-verdianos para não deixarem destruir o património histórico, bastava esse apelo e essa vontade do Senhor Presidente da República, que é o garante da unidade da Nação e do Estado, que vigia e garante o cumprimento da Constituição, para que o Governo e a Câmara Municipal repensassem a sua propositada intenção de destruir esse valioso património cultural.

É muito preocupante o facto do Governo ter ignorado uma deliberação da Assembleia Municipal que recomendou a salvaguarda desse património e a construção da Delegacia de Saúde num outro espaço, através de uma deliberação com votos favoráveis das bancadas da UCID e do MPD e a abstenção da bancada do PAICV, abstenção que nessas circunstâncias equivale a um voto favorável, pois em nenhum momento defendeu o projecto do Governo.

È preocupante o facto do Governo ter ignorado as recomendações de destacadas personalidades da Sociedade Civil e de especialistas que vêm recomendando a necessidade de dar maior atenção às questões de defesa, conservação e reanimação dos nossos testemunhos histórico-culturais.

É preocupante o facto do Governo ter ignorado as disposições da carta de Washington sobre cidades históricas promovida pela Unesco.

É preocupante o facto do Governo fazer tábua raza do seu próprio Programa de Governação aprovado pela Assembleia Nacional.

É preocupante o Governo agir contra os pareceres dos seus próprios serviços.

Lembramos que na reunião no Centro Cultural do Mindelo para a apresentação pública do projecto da Delegacia de Saúde de São Vicente, com a presença do Senhor Ministro da Saúde, Drº Basílio Ramos, perante os argumentos daqueles que diziam que a Casa do Dr. Adriano não era património histórico porque não estava classificado, o Presidente do Instituto de Investigação e do Património Cultural, Dr. Carlos de Carvalho, na presença de mais de duzentas pessoas, foi peremptório: - Levantou-se da cadeira e disse em alto e bom som para toda a gente ouvir, inclusive o Senhor Ministro da Saúde que se encontrava presente: – “Aquele espaço, para todos os efeitos é património histórico”. Uma nota curiosa nesse encontro- o Senhor Ministro não disse uma única palavra e agora se percebe que a decisão de destruir a casa já estava tomada.

O próprio Ministro da Cultura, ao tempo, Dr. Manuel Veiga telefonou para o Movimento e disse: “eu, como Ministro da Cultura só tenho que felicitar-vos por esta iniciativa e vou fazer aquilo que estiver dentro das minhas possibilidades para defender esse património”.

É preocupante que o Governo e a Câmara Municipal de São Vicente ignorem a Constituição da República que no artº 79 da Constituição: “ diz que incumbe especialmente ao Estado - promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, histórico e arquitectónico. O Estatuto dos Municípios, Lei nº 134/IV/ 95, no seu artigo 36º, diz que uma das atribuições do Município é proteger e conservar o património histórico, cultural e artístico de interesse municipal”.

No entanto o Miradouro Craveiro Lopes já foi destruído, o Fortim d’Del Rei, está em perigo, o Clube de Golfe de São Vicente está em perigo, o cinema Éden Park está em perigo, a construção do Ponte de Agua não teve em conta os aspectos históricos daquela praia. Tudo isso vem acontecendo porque a Constituição e demais leis do país não estão a ser respeitadas, o Governo e a Câmara Municipal de São Vicente não têm uma política conjunta de protecção e salvaguardar do património cultural desta Cidade.

No entanto, o Sr. Primeiro-Ministro farta-se de fazer discursos a favor do património histórico, e diz a toda a hora “Vamos desenvolver a indústria da cultura;” “Elegemos o turismo como motor de desenvolvimento do país” e, no entanto, o nosso património cultural que é um elemento importante para a concretização desta política está a ser destruído.

Há uma falta de coerência entre o discurso e a acção governativa.

Continuando: - Desde o mês de Abril deste ano tudo fizemos para que o Senhor Primeiro-Ministro nos concedesse uma audiência. Esteve quatro vezes em São Vicente, nunca teve tempo para receber o Movimento para a Salvaguarda do Património histórico, porque trazia sempre a agenda sobrecarregada, era desculpa, quando o Senhor Primeiro-Ministro teve tempo para se deslocar a São Vicente para assuntos muito menos importantes. Disponibilizamo-nos para deslocar à Cidade da Praia, não recebemos nenhuma resposta. Fomos desrespeitados e enganados. Isso é ofensivo e não fica bem a um Primeiro-Ministro.

Por isso, protestamos e denunciamos a atitude discriminatória do Sr. Primeiro-Ministro porque governar um país é uma grande responsabilidade que começa em saber ouvir toda a gente sem descriminação.

No tocante a Assembleia Nacional: Em princípios do mês de Janeiro deste ano, um grupo de cidadãos deu entrada na Assembleia Nacional de uma petição a favor da salvaguarda da antiga residência da Família Duarte Silva, ameaçada de ser destruída por decisão do Governo com a cumplicidade da Câmara Municipal de São Vicente, pedindo que a questão fosse discutida.

Nunca recebemos qualquer resposta. A petição foi feita nos termos Constitucionais, nomeadamente na parte que diz que todos os cidadãos, individual ou colectivamente, têm o direito de apresentar, por escrito, aos órgãos de soberania ou do poder local e a quaisquer autoridades, petições, queixas, reclamações ou representações para defesa dos seus direitos, da Constituição, das leis ou do interesse geral e bem assim o direito de serem informados em prazo razoável sobre os resultados da respectiva apreciação.

Insistimos junto do Senhor Presidente da Assembleia que o Governo não podia avançar com o projecto enquanto a Assembleia não se pronunciasse sobre a petição. Nunca recebemos qualquer resposta. É sabido que a Assembleia Nacional não dá atenção às petições dos cidadãos. São metidos na gaveta.

Quando quisemos exercer o direito de acção popular junto dos tribunais nos termos constitucionais que diz que é garantido, nos termos da lei o direito de acção popular, designadamente para a defesa do cumprimento do estatuto dos titulares de cargos públicos e para a defesa do património do Estado e demais entidades públicas, no caso concreto da Casa do Dr. Adriano, os juristas nos dizem que existe a norma constitucional, mas não há lei a regulamentar a norma e consequente a norma não tem eficácia.

Falemos dos Deputados nacionais: Num universo de setenta e dois deputados apenas quatro levantaram a sua voz para defender a Casa do Dr. Adriano como património histórico. Destaca-se o Dr. Lídio Silva que tem sido incansável na sua luta. O Engenheiro António Monteiro, o Dr. António Pascoal Santos e o Dr João Medina. É lamentável o desinteresse da nossa Assembleia numa questão tão importante. A Assembleia faz muito barulho mas produz muito pouco. Os deputados na sua generalidade tratam dos assuntos dos partidos políticos na sua luta pelo poder mas omitem os interesses dos cidadãos que os elegeram.

Falemos dos nossos Vereadores: Não se nota a existência deles.

Referindo de novo ao Senhor Presidente da República: Depois de nos ter dado o seu apoio e toda a força nesta luta, muito recentemente veio a S: Vicente e atráves dos Órgãos da Comunicação Social lançou o apelo aos artistas para não deixarem destruir o património cultural de São Vicente mas, infelizmente, estes até então não reagiram.

A Assembleia Municipal, sob a presidência do Dr. João Gomes, deliberou pela preservação desse património. Comunicou a sua deliberação ao Senhor Primeiro Ministro, ao Senhor Ministro de Estado das infra-estruturas, ao Senhor Ministro de Estado da Saúde e nenhum deles se dignou reagir, o que é uma atitude de grosseria e que evidência que a decisão para demolir a Casa já estava tomada e não havia satisfações a dar a ninguém. Demonstra a falta de respeito pela instituição eleita democraticamente pelos munícipes de São Vicente para defender os seus interesses. Isso é um acto de violência contra as regras da democracia e contra os interesses de são Vicente. É urgente tomarmos consciência do rumo errado que as coisas estão a tomar.

Concluíndo: - É mais do que evidente que o nosso sistema democrático está com muitas fraquezas, não se auto-controla, favorece os abusos do Poder. É a democracia que está seriamente em perigo.

Nestas condições é mais do que evidente que o país não pode estar bem governado. E a Sociedade Civil deve agir para evitar males maiores.

A destruição da Casa do Dr. Adriano, ocorre na sequência dessa fragilidade.

As forças políticas bem como a sociedade civil saberão extrair as devidas ilações desse acto e agir em conformidade para corrigir os erros.

E finalmente e em particular, ficam como os maiores responsáveis pela destruição desse património, filhos de São Vicente: a Drª Isaura Gomes que como Presidente da Câmara, para além de ter posto esse espaço à disposição do Governo para a construção da Sede da Delegacia de Saúde, também, no acto oficial de inauguração das jornadas de enfermagem luso-caboverdianas promovidas pelo IESIG (Instituto de Ensino Superior Isidoro da Graça), espicaçava o Governo da seguinte forma: “ Ou o Governo avançava com o projecto ou dava esse espaço ao IESIG para construir o seu centro de enfermagem”. Infelizmente! Faltou-lhe a idoneidade e o orgulho nacional para ter a consciência de que o património cultural da sua Cidade não deve ser destruído para além do dever institucional que ela tem de respeitar a Constituição e o Estatuto dos Municípios sobre esta matéria, na sua qualidade de Presidente da Câmara Municipal de São Vicente.

Quanto ao Ministro das Infra-estruturas e Transportes, engº Manuel Inocêncio - é estranho e incompreensivel que um filho de São Vicente e deputado por esta Ilha com pretensões a outros voos, não tenha o orgulho de preservar a identidade da sua Ilha. |

  • A SAÚDE… E A REALIDADE
         O povo em Santiago reclama cuidados de saúde para os filhos no «inferno» das filas de espera do HAN e mais: invoca falta de condições no atendimento e favorecimento pessoal no acesso a cuidados de saúde por parte funcionários do Hospital Agostinho Neto na Praia. A administração do Hospital responde, reconhecendo a impotência da estrutura de saúde da capital : «Não temos, não há mais médicos no país.» […] «Não há enfermeiros no mercado» — Artur Correia, Director do Hospital Agostinho Neto na Praia.
         A culpa disto? Há que olhar para quem gere o país: o Governo e o seu discurso de desenvolvimento que nada tem a ver com o país real. A realidade é esta! Ou será que a realidade se engana, Senhor Ministro da Saúde? |


Imagem: Estados de Espírito I (Those who leave) — Umberto Boccioni

terça-feira, 21 de Setembro de 2010

  • ANJOS DA SERRA
O meu destino, se parar,
que seja no teu céu;
nos campos revoltos de sonhos
que do íntimo brotam em silêncio
como este rio brando que fende a serra
e beija as sombras de ouro e os olhares campestres.

O meu olhar é geométrico, sim;
é redondo como o sorriso da alvéola-amarela:
a minha casa, o meu mundo todo antes de ti.

O meu destino, se parar,
que seja no teu céu, murmúrio dos anjos
da Serra que cai sobre mim
com a aurora em mirra perguntando-me:
“Que haverá de mais belo, além mim mesma,
do que despertar o planalto do coração
e o povo em bruto?”
---- Sertã, 19-09-2010 (07:02 a.m)
Virgílio Brandão

Imagem: Fotografia de exposição múltipla de Marcel Duchamp (1912)

  • ESCOLHAS...
«[…] Tudo considerado, a Utopia parece estar muito mais perto de nós do que qualquer pessoa, apenas quinze anos atrás, poderia imaginar. Nessa época, eu a projectei para daqui a seiscentos anos. Hoje parece perfeitamente possível que o horror esteja entre nós dentro de um único século. Isto é, se nos abstivermos de nos fazer saltar pelos ares em pedaços antes disso.

Na verdade, a menos que prefiramos a descentralização e o emprego da ciência aplicada, não como o fim a que os seres humanos deverão servir de meios, mas como o meio de produzir uma raça de indivíduos livres, teremos apenas duas alternativas: ou diversos totalitarismos nacionais militarizados, tendo como raiz o terror da bomba atómica e como consequência a destruição da civilização (ou, no caso de guerras limitadas, a perpetuação do militarismo); ou então um totalitarismo supranacional suscitado pelo caos social resultante do progresso tecnológico, e em particular da energia atómica, totalitarismo esse que se transformará, ante a necessidade de eficiência e estabilidade, na tirania assistencial da Utopia. É escolher.» in Aldous Huxley, [prefácio de] Admirável Mundo Novo (1946)

Imagem: Os Barulhos da Cidade Invadem a Casa — Umberto Boccioni (1911)

segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

  • O MAL E A INCONSCIÊNCIA EM ESTADO PURO

Quosque tandem, José Maria Neves, abutere patientia nostra? 

sábado, 18 de Setembro de 2010

  • AS CONSEQUÊNCIAS DOS PRAZERES E A NUDEZ
Era para ler, esta noite, um discurso. À janela, nu como nasci! fumo e oiço Pachebel, Bach, Chopin e Ravel. O antes de nascer deve ter sido assim: a alma em orgasmo, reclamando a beleza como pão. Mas a beleza, e o prazer, têm o seu custo! E num momento de distracção meu secreto cachimbo Peterson queimou

Há uns anos, quando pregava o Evangelho e tinha alguns prazeres como pecados (ler Os Lusíadas ou fumar), diria que foi por nutrir por momentos um pensamento análogo à verborreia entusiástica de Herodes que causou esta perda intempestiva. Mas não, foi somente juntar demasiados prazeres ao mesmo tempo; e não atentar num conselho de doce (Mas não é que o conselho de colocar mel ou açúcar pilé no cachimbo fazia sentido? Tudo o que é virgem dá trabalho.).

E penso, à guisa da pena teclar: “E se tivesse, agora, Nossa Senhora d’boca v’rôd pa tchom à espera, o que aconteceria?” Provavelmente não teria deixado o meu cachimbo queimar… Ah, o entusiasmo! O entusiasmo é irracional, desejo sem rédeas. Aquecê-lo demais, não ter curado devidamente da sua virgindade deu nisso; nisto: morte queimada de cachimbo.

“Cachimbo queimado é como ejaculação precoce diante do ser amado!” — diz-me o meu poeta. Só posso sorrir, como dizia Epicteto. Volto à janela, nu. Nu como a minha mãe me trouxe ao Mundo. Fumo um ducados, neste momento um inesperado sucedáneo de prazer: un cigarillo negro como Yo.

E escuto Liu Fang… deixando o discurso Mamadou Dia sobre a democracia segundo a via africana para logo. A nudez é libertadora, uma espécie de doce e necessária verduga: mostra o que somos de verdade; principalmente para nós mesmos.

Imagem: A Arte e a Literatura, Bouguereau

sexta-feira, 17 de Setembro de 2010


| PROSLOGION

Vou dar de beber ao mar,
o mar da saudade que me afronta de ti.
Está sedento, coberto de sal e dor
da Noite de afrontas: o mundo está pejado
de excrementos humanos.
E o mar; é o Mar sedento…

Vou dar de beber à praia,
a praia testemunha dos gemidos do mar,
do que me afronta de ti: mundo sujo,
omnimundo pardo, venal…
Ó praia de excrementos inconscientes!,
só podes ser o que és.

Vou dar de mamar à Via Láctea
depois de parir a luz do teu beijo de tarde
e emoldurar o sonho de π
e do teu suor de chocolate de avenida curva,
ossatura prima, raiz da espera.

Na estrada, na chegada
escuto o povo que sou eu a gritar:
«Quero mais água!
Quero mais luz no meu céu…
o pão-nosso de cada dia não dado,
e o leite e o mel prometidos;
tudo o que têm os teus amores negros…»

Nunca chegarei, ó amada minha.
Se proslogionares-me à chegada, que farei
eu que só posso dar-te a água pura da tua fonte,
o leite dos teus forçados esforços,
e o mel gerado por ti nos meus olhos?

O esgoto aéreo já não tem latas…
a água que bebo mata-me em silêncio
e tenho o inferno no estômago a gritar: civilização!
----- Lisboa, 16.09.2010
Virgílio Brandão

  • PROSOPON DOS DIAS
          «Todas as coisas humanas têm dois aspectos, à maneira dos Silenos de Alcibíades, que tinham duas caras(i) completamente opostas . Por isso é que, muitas vezes, o que à primeira vista parece ser a morte, na realidade, observado com atenção, é a vida. E assim, muitas vezes, o que parece ser a vida é a morte; o que parece belo é disforme; o que parece rico é pobre; o que parece infame é glorioso; o que parece douto é ignorante; o que parece robusto é fraco; o que parece nobre é ignóbil; o que parece alegre é triste; o que parece favorável é contrário; o que parece amigo é inimigo; o que parece salutar é nocivo; em suma, virado o Sileno, logo muda a cena. Estarei falando muito filosoficamente? Pois vou explicar-me com maior clareza.
          Todos vós estais convencidos, por exemplo, de que um rei, além de muito rico, é o senhor dos seus súbditos. Mas, se ele tiver no peito um coração brutal, se for insaciável na sua cobiça, se nunca se mostrar satisfeito com o que possui, não concordareis comigo que é miserabilíssimo?
          […]
          Que é, afinal, a vida humana? Uma comédia. Cada qual aparece diferente de si mesmo; cada qual representa o seu papel sempre mascarado, pelo menos enquanto o chefe dos comediantes não o faz descer do palco. O mesmo actor aparece sob várias figuras, e o que estava sentado no trono, soberbamente vestido, surge, em seguida, disfarçado em escravo, coberto por miseráveis andrajos. Para dizer a verdade, tudo neste mundo não passa de uma sombra e de uma aparência, mas o facto é que esta grande e longa comédia não pode ser representada de outra forma.»
---- in Elogio da Loucura — Erasmo de Roterdão
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         (i) Assim como Janus Bifrons: este olhava o passado e o futuro.

Imagem: Os Amantes, Milo Manara

  • PROSTITUIÇÃO INTELECTUAL OU INTELECTUAIS PROSTITUTOS?
Via, no outro dia, o programa «Conversa em Dia» de 02 Set 2010 na RTC e, a dada altura, fiquei de boca aberta… quando se falava de prostituição, de “prostituição intelectual”. Não quis acreditar no que via e ouvia: estavam quatro pessoas em volta de uma mesa, três debatedores e uma moderadora, com o país inteiro a ouvir, e não sabiam do que falavam!
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Primeiro porque demonstraram não saber o que é ser-se um “intelectual”. Segundo, porque confundiram prostituição intelectual com prostituição de intelectuais; sendo esta última, em rigor, uma quase impossibilidade no nosso tempo. E pergunto: Como é possível que, estando quarto pessoas numa mesa a falar de juventude, de valores e outros assuntos sociais conexos, dentre os quais a prostituição (que era temática agendada e que não emergiu de forma acidental), se confunda prostituição intelectual com prostituição de intelectuais? Mais: que se confunda a escolaridade ou formação académica com a dura condição humana de intelectual… E, o que é mais grave!, em consequência disso, grande parte do país ficou com uma ideia pioneira sobre o que é a “prostituição intelectual”.
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Que a nossa gente tem problemas a lidar com conceitos, isso já é consabido; vivemos e sobrevivemos com isso. Mas será pedir demais que se fale somente sobre o que sabe e se domina, ao menos ao de leve? As pessoas vão às escolas, institutos e universidades para aprenderem a aprender e a pensar, mas tais instituições parecem resultar em espaços pouco úteis para os mesmos. «Porquê? Mas porquê é que as pessoas não apreendem?» — perguntar-me-á. As razões são muitas, mas, no plano estritamente subjectivo da questão, esta lembra-me uma referência de Horácio, nas suas Odes, sobre Sócrates e o que podemos chamar de aprimoramento humano:
— Certo homem não melhorou com as suas viagens — disseram a Sócrates.
— Tenho a certeza de que não. Ele foi consigo mesmo — respondeu Sócrates.
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Por não percebermos o que é ser-se “intelectual”, porque pensamos que somos todos intelectuais a partir do momento em que aprendemos algumas coisas na Escola ou na Universidade, é que viajamos sozinhos na soberba e não chegamos a melhorar o que somos e a ansiar, cada vez mais, a melhorar e saber mais e, em última análise: “aprender alguma coisa antes de morrer”, como dizia Sócrates.
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Mas uma coisa é certa, e insofismável: a prostituição do corpo é um exercício de liberdade — em circunstâncias de excepção — ou da livre necessidade, consoante as circunstâncias causais, e deve ser compreendida no quadro social existente e não com considerandos subjectivos sem sustentabilidade em dados sociais objectivos sobre a comunidade onde emerge. Por vezes a prostituição revela-se um valor como acto em si mesmo e que só absolutismos éticos obtusos não compreendem.
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Agora, a prostituição intelectual é, pela sua natureza e em razão de quem a pratica, uma actividade perniciosa, profundamente danosa para a sociedade no seu todo: tem por base o egoísmo e por fim a subversão da realidade e não a sobrevivência pessoal ou de outrem que se encontra na raiz da prostituição (a existência “sempre” de alternativas é da ordem da fantasia de quem discursa de barriga cheia e prenhe de fantasias). E ela, prostituição intelectual, ao contrário da prostituição tout court, tem, também, uma dimensão omissiva…
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Não foi por acaso que o Imperador Alexandre Severo — a conselho de Ulpiano — punia severamente os homens de conhecimento que eram dados ao que hoje se chama “prostituição intelectual”: constituíam um perigo social, para o Estado e para a cidadania. Falamos de pessoas que sabem, mas sabem para o mal; e sabem para o mal porque usam o saber de forma amoral e instrumental; desde que sejam pagos em numerário, espécie material ou honrarias… o seu saber está disponível ao poder ou a grupos com poder ou com propensão ao poder ou a ter poder. Nestas circunstâncias o saber não consubstancia um valor mas sim um desvalor social. O que não falta no mundo são prostitutos intelectuais; assim como não faltam pobres sonhando serem abastados morgados.
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Os jovens falam em valores e em ausência de valores, mas fico sempre com a percepção de que não têm consciência do sentido poliédrico do conceito de valor. Acusam os mais velhos de não transmitirem “valores” ou “modelos” aos jovens, mas parecem não ter interiorizado os valores que reclamam para os “outros” concidadãos. Um dos convidados da RTC (Ladislaz Santos; espero que ter grafado devidamente nome) falava em “nível” — no mesmo sentido de ”classe baixa”, segundo expressão de uma Ministra do presente Governo… —, sem consciência de que tal epíteto é uma forma de estigmatização da sociedade por via da estratificação qualitativa dos cidadãos em razão da sua situação social. E, pelo seu discurso, assume isso como um valor social com alguma bondade… mas se pensar bem, o que encontrará é um discurso discriminatório em razão da origem ou situação social que colide com os valores constantes dos fundamentos da nação cabo-verdiana. Isto, sim! é um paradoxo… pois a discriminação, neste sentido, seria um valor.
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O debate foi, de todo, confrangedor.
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Os valores não são dados, são imanentes à dada sociedade e transmitidos e apreendidos pelos cidadãos e pela comunidade globalmente considerada. Álcool, droga, prostituição e violência sempre existiram; hoje haverá mais… mas importado em virtude e termos uma sociedade mais aberta e consumista; pois também importamos valores e “modelos”, a todos os níveis! Até o modelo de Estado — e os valores que propugna — foi importado, de um prêt-à-porter de segunda linha experimental da Europa democrática. Ademais, bom seria que tivéssemos em consideração que Valor é um produto da relação do sujeito com os fundamentos da sociedade em que vive, seja ela segmentada ou universal. Não é por acaso que encontramos em Nicolai Hartmann e Max Scheler a ideia de um direito natural de “conteúdo variável”.
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Todas as sociedades têm um conjunto de valores que emanam da livre necessidade da comunidade, não é dada, é apreendida de acordo com a ética que essa sociedade retira da natureza e adere ao longo do tempo e os agentes políticos têm o dever de sustentar com normas jurídicas adequadas e acções políticas necessárias e no plano da escolha certa (pelo que dever-se-á estar consciente de que nem todos os valores formais são, per si, universalizáveis). No plano substancial, é assertiva a afirmação de Montesquieu de que “Não tirei meus princípios de meus preconceitos, e sim da natureza das coisas”.
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Os valores não se dão, assim como as “mentalidades” não se mudam de forma voluntária — o tempo e dado sentido ético adquire-se naturalmente; e neste sentido o sistema educativo tem um papel primordial (e é por isso que o sistema educativo não pode ser gerido de forma casuística e conjuntural: deve ter preocupações geracionais) na formação e formatação da pessoa humana. Bastará olharmos para o sistema de multiplicação de certos extractos familiares na sociedade cabo-verdiana (com uma substituição da classe média colonial por uma “classe dirigente” no pós independência, e que geraria a intelectualidade balofa que hoje temos) para percebermos que a predominância de determinados valores positivos está conexa com a educação familiar e formal, em particular da educação religiosa ou conexa com ela, e outros, de natureza negativa, conexos com o darwinismo.
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E é este darwinismo social que engendra quer a prostituição somática quer a prostituição intelectual, esta ao nível da ambição e não da sobrevivência. E elas, reitero, agora de forma desnecessária, não são a mesma coisa! Messalinas ouve-as e haverá em todas as eras e sociedades — assim como a pobreza e as formas de pobreza —, Aspásia de Mileto foi só do seu tempo e lugar… mesmo quando ouvimos vozes como a da deputada italiana Angela Napoli dizer que, como citada no El País, "No excluyo que haya senadoras o diputadas que hayan sido elegidas después de haberse prostituído."
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Agora o que me preocupa é, ainda, ver a nossa juventude a não apreender os conceitos e a não perceber que não precisa de “modelos” para forjar a sua estrutura mental, emocional e moral, que o “modelo” de pessoa humana não pode nem deve ser dado pelas instituições — fazer apologia tal modelo e/ou aceitá-lo é estender e predispor a mente às cadeias da opressão; aceitando a ideia de sub-homem e/ou de super-homem — mas construída na liberdade de pensamento e de agir no quadro do que a humanidade em cada um de nós determina (e a humanidade inerente à pessoa humana não concede títulos nem classes ou níveis sociais…) no quadro de uma sociedade fundamentada na natural dignidade e na liberdade da pessoa humana. Um dia, quem sabe, talvez possamos todos dizer — e fazer! — como Propércio: Unusquisque sua noverit ire via (Deixemos que cada homem escolha o caminho que deve seguir).
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Agora, uma questão emerge e inquieta-me: deve um intelectual prostituir a sua alma, o seu saber e seu pensamento por amor à humanidade? Num Mundo cada vez mais feito de barricadas ser-se intelectual é uma actividade perigosa… para os que não se silenciam.
---- Prima forma: Liberal on line.
Imagem: Donna seduta — Joan Miró