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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

  • A AMIZADE IDEOLÓGICA NA WEB SOCIAL
Cresce por aí uma coisa nova, sim, nova. A culpa é do amor, de uma das formas de amor. Falo da Philos – da amizade; uma das quatro formas maiores de dizer Amor no grego: Eros (sexual), Philos (amizade), Storge (familiar), e Ágape (amor incondicional ou do tipo de Deus – como dizia S. João [João III.16]: "Deus amou o mundo de tal maneira que sacrificou o seu filho…"). Este tipo de amor também se encontra no plano político: há quem ame a ideologia do seu partido de tal forma que o coloque acima do país e de todas as outras formas de amor, em particular da phileos, da amizade. E mais: há quem chegue a matar por ele, pelo Partido. Não é, como se pensa, tão incomum.

Comum é a phileos, a amizade. Esta, a amizade ou a fraternidade, vê os defeitos do outro, percebe as suas fraquezas e as suas limitações; mas, no entanto, respeita-o. Entende que a diferença é da essência da humanidade; que ser igual no sentido naturalístico não existe, que é uma ficção justificadora da opressão da maioria e que degrada a força motriz da humanidade: a diferença.

Ser diferente do outro, discordar dele pelo seu pensamento ou acções divergentes, tem uma acção transformadora, no outro e em nós. Por vezes não somos capazes de perceber esta realidade; mas um dia, cedo ou tarde, todos acabam por perceber isso. René Cassin e Carl Schmidt eram grandes amigos, foram-no até a morte. E que diferença os separava na forma como viam o mundo… A diferença – um pouco como encontramos na macro física – deveria atrair as pessoas, para serem capazes de confrontar as suas certezas com as certezas do outro; e delas emergir a diferença da síntese que os humildes – só os sábios sabem ser humildes a saber – são capazes de percepcionar e entender.

Por essa razão, ao longo de anos, envio um abraço fraterno às pessoas que vou conhecendo à distância e trocamos opiniões e perspectivas de e sobre o mundo e tudo o que o conforma. (As circunstâncias da vida permitem uma maior ou menor aproximação mas nunca uma maior ou menor qualificação.) Mas, pela liberdade de pensamento que detenho e não abdico – assim como dos princípios de que não transijo – lá vou criando (i) inimigos ideológicos, (ii) de Síndroma de A Velha e (iii) por tendência de razão, além de, numa nova categoria, (iv) «não» amigos.

Quem são estes? – perguntar-me-á. São aqueles que, (i) na social web, deixam de ser «amigos» porque eles – ou os seus familiares, amigos, gatos ou papagaios – foram objectos de crítica justa e fundamentada; (ii) assim como os que, mesmo sendo figuras públicas e do Estado, para evitarem serem objectos de escrutínio e, logo, de crítica, são «não» amigos. (alguns excluem dos «amigos» até colegas de infância, de "banquim d’Escola", por, tão-somente, apoiarem um adversário politico nas eleições.) A final e entre estes, existe uma última categoria – e at last is last at all – que (iii), para não poder ser "fiscalizado" no que diz (e poder dizer as aberrações que quiser sem poder ser vista – torna-se invisível como a mulher de Reed Richards) bloqueia o cidadão que não é soldado ou militante digital do seu partido político de eleição e demais extensões.

Existem outros, piores ainda. Seres hediondos mas que se perdoa a maldade. (Que seres pequenos… odiar quem nunca viram – e que não pertence a sua cadeia alimentar –, por razões políticas. Tenho, por elas, profunda misericórdia pois não são capazes de saber o que fazem.) São aqueles (iv) que dizem: "deixa-o pôr os pés na terra que tratamos dele, e deixará de falar demais." E só por não aplaudir o seu messias no erro, e não me calar perante a injustiça e ao mal.

A phileos, a amizade ou fraternidade, é, assim, ideológica e condicional. É gente que mata a democracia e o amor; a fraternidade. Porquê? Porque não penso como eles; porque nunca pensei – nem penso – que bota é caviar, leite condensado ou pau de bater bolo natalício. Até familiares, e não poucos, colocam os interesses pessoais e políticos acima da phileos ("somos família, não podes escrever essas coisas sem antes falares comigo" – anotei, como se a razão, o erro ou o tort deixassem de o ser só por ser praticado por familiares…).

E o que escrevo não são nada mais do que isso: opiniões e perspectivas que que emergem dos valores que partilho e me identifico. Não são baluartes e bombas H de verbo, não. São um mero e simples exercício de liberdade. Não pretendo, com as minhas opiniões, fazer inimigos; pelo contrário, pretendo tão-somente ser cidadão e levar as pessoas a entender que o mundo da cidadania está fundado na liberdade, na igualdade e na fraternidade. E mais: que não devemos ficar calados perante o mal que se causa a um povo, à uma sociedade. Não importam as consequências, a boca do cidadão não deve ser a boca de Judas. Será isso algo tão difícil de entender?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

| UM GOVERNO DE MULHERES E A VIOLENCIA

Trabalho, e oiço «Palavras Cruzadas» na RCV. Ao voltar a ouvir falar de mais situações de violência doméstica – nomeadamente de uma jovem chamada Sueli que se queixa de tortura e de uma outra, agente policial que, por ter sido baleada pelo ex-companheiro, não acredita na Justiça – cimento a minha convicção de que é necessário uma acção enérgica e dura nesta matéria da violação dos direitos, liberdades e garantias fundamentais da mulher. Não resisto a lavrar esta nota, e lembrei-me de Óscar Romero e da sua apologia de uma outra violência – a violência do Amor .

«Jamás hemos predicado violencia.
Solamente la violencia del amor,
la que dejó a Cristo clavado en una cruz,
la que se hace cada uno para vencer sus egoísmos
y para que no haya desigualdades
tan crueles entre nosotros.
Esa violencia no es la de la espada,
la del odio.
Es la violencia del amor,
la de la fraternidad,
la que quiere convertir las armas
en hoces para el trabajo.»

Mas também fiquei a reflectir num aspecto curioso: o presente Governo de Cabo Verde é um Governo de mulheres – com oito ministras, uma das quais dirigindo a pasta da Justiça – e alguns problemas estruturais e endémicos continuam a ser as mesmas. Algumas destas mulheres políticas são particularmente esclarecidas, mas parece-me que a sensibilidade social para algumas questões – nomeadamente uma solução musculada para a violência doméstica e um ataque às causas profundas que levam a que a maioria das causas da pobreza que alimentam em grande parte a situação de sujeição social e moral da mulher sejam resolvidas – não acompanham as qualidades que revejo em algumas e, confesso, admiro.

Um Governo de mulheres sem a dimensão do proclamado «poder no feminino», sem a sensibilidade feminina? As mulheres políticas, provando as razões da asserção de Lord Acton, masculinizam-se no poder ou, de um modo mais simples, perdem a sensibilidade social e a consciência ética das mulheres cabo-verdianas em geral? Estas são, por natureza, violentamente amorosas. A realidade fala por si, e merece reflexão. Um connatus essendi político não explica tudo, seria demasiado óbvio. Mas se calhar até é… pois o mundo é feito, também, de perplexidades.

Imagem: Zoya Kosmodemyanskaya, morta, foto de Sergey Strunnikov do jornal Pravda