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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

  • JOSÉ SARAMAGO E O ASSALTO AO CRISTIANISMO

    Raramente me aborreço com alguém (até porque aprendi a perdoar, em todas as circunstâncias), em particular se não conheço a pessoa em causa, mas não consigo e nem posso deixar de exteriorizar o meu desagrado para com José Saramago, pois, desta vez, passou dos limites do admissível e, para «o perverso deve-se ser indomável». A liberdade, verdade seja dita, tem limites, não é um absoluto. E, seja também dita, uma coisa é liberdade artística e outra, substancialmente diferente, a liberdade de expressão e os seus limites imanentes.

    Sou, como se sabe, defensor do direito à asneira, mas há asneira e asneira monumental, acintosa e degradadora da humanidade e da sua liberdade, que, como já dizia o homem de Konisnerg, tem o limite na liberdade do outro
    nomeadamente a de conhecer, de saber e de escolher ou não uma dimensão espiritual da vida. E não era Jesus Cristo quem dizia que «não devemos fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós»? Saramago, pelos vistos, faz leitura selectiva — tipo pregador de terceira categoria.

    E se Saramago tinha toda a razão deste Mundo e dos possíveis para se sentir afrontado perante a tentativa de coarctarem a sua liberdade (e eu também, na altura, me senti afrontado — ainda que não subscrevesse alguns aspectos da sua obra — quando censuram O Evangelho Segundo Jesus Cristo), como é possível vir, hoje, defender a censura da Bíblia? O homem precisa de saber que ninguém sabe tudo, que o Princípio de Peter também se aplica aos nobelados. Se a Igreja Católica Apostólica Romana sofre, ainda hoje, as dores causadas pela culpa de ter queimado Giordano Bruno, João Huss e outros, eu não.

    E daqui da obscuridade da minha pena terá de ouvir o que lhe é devido, escutar o meu manifesto. Deus não entenderia o meu silêncio, e eu também não, pois há muito que não via nem ouvia tanta incontinência verbal, como a que José Saramago resolveu brindar o país e o mundo. Não, não farei como Pilatos. Essa tentativa de recrucificação moderna de Jesus Cristo não é nova, nomeadamente pelos marxistas; e o mundo cristão é frouxo na reacção, demasiado frouxo, intimidado pelos títulos e pela notoriedade dos seus assaltantes.
Imagem: Arte religiosa etíope

sábado, 20 de junho de 2009

Antoninus Bassianus, Caracalla. O primeiro Barack Obama da história
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  • MEMÓRIAS DA HISTÓRIA
Compartilho com os leitores de Terra-Longe este discurso de Antoninus Bassianus no Senado Romano, depois de, no dia 26 de Dezembro do ano de 211 a.D., ter morto o irmão, Antoninus Geta, nos braços da mãe, Júlia Domna (mulher do segundo Imperador africano do Império romano) e de, perante a recusa de Papianiano de fazer a sua defesa perante os Pais de Roma, ter mandado matar um dos maiores juristas da história: Aemelius Papinianus.

***

Antoninus Bassianus sentou-se no trono imperial e, perante um Senado silencioso e aterrorizado[1] – com verdadeiro temor e tremor –, disse-lhes:[2]

«Tenho consciência do ódio que imediatamente se sujeita alguém de quem se tem notícia de ter assassinado um familiar. A palavra em si causa uma grave recriminação logo que é escutada, causando simpatia pelas vítimas e animosidade pelos agentes vitoriosos. A vítima, em tais circunstâncias, aparece como estando do lado do bem e os vitoriosos do lado do mal.

Mas se alguém analizar o facto com uma mente aberta, sem preconceitos de favor, pelo homem morto, e investigar as causas fundamentais da acção, logo descobrirá que é uma lógica necessária que uma pessoa que esteja prestes a ser ferido se defenda e não se remeta à passividade; pois neste caso o desastre da vítima só pode ser atribuído à cobardia, enquanto que ao vitorioso, além da sua segurança, obtem a reputação de bravo.

No geral, podeis descobrir, usando a tortura, as várias ocasiões em que o meu irmão conspirou contra mim, usando todo o tipo de venenos letais e toda a espécie de traições. Por isso dei ordens para os seus serviçais serem trazidos aqui perante Vós para descobrides a verdade. Alguns já foram inquiridos e podereis ter as provas dos seus depoimentos. Mas o facto decisivo foi que, enquanto estava com a minha mãe, atacou-me com uma espada – estando acompanhado por vários homens armados e preparados para a peleja.

Mas, com grande acuidade e presença de espírito, percebi o que estava acontecendo e defendi-me tratando-o como a um fora da lei, uma vez que não se apresentava nem demonstrava a atitude e o intuito de um irmão. A legítima defesa contra a conspiração não é somente justificada como é natural. Afinal, até Rómulo, fundador desta cidade, não deixou de defender-se do seu irmão simplesmente por este gozar com a sua administração; para não cita Germânico, irmão de Tibério; Britânico, irmão de Nero ou Tito, irmão de Domitiano. O próprio Marco, enquanto apregoava a sua filosofia e humanidade, não tolerou a arrrogância de Lucius,
[3] seu genro, e livrou-se dele através de uma conjura.

Assim, também eu me defendi contra o meu inimigo que estava se preparando para me matar e ergueu a sua espada contra mim. Inimigo é o nome que ele merece em razão das suas acções. É vosso dever, primeiro, louvar os deuses por pelo menos um dos Vossos imperadores ter sido salvo por eles; depois devereis por um fim aos sentimentos sectários e às opiniões partidárias e viver uma vida tranquila perante um único Imperador. Júpiter criou o poder imperial para um único governante, a imagem da sua própria posição entre os deuses.»
Antoninus Bassinanus dixit
__________
NOTAS:
[1] Desde a entrada de Severus em Roma em 193 a.D e da sangrenta apresentação do mesmo em 197 a.D, depois de voltar da guerra com Clodio Albino, que o Senado não enfrentava uma situação idêntica.

[2] Herodiano, IV.5.2-7 (a tradução portuguesa é minha, para o meu livro «Os Imperadores Africanos do Império Romanos – A Multiculturalidade no Berço da Europa»). Todo o discurso de Antoninus Bassianus é enformado por uma lógica de justificação que repredistina a tradição romana de auto-defesa da vida, sentido de honra e dignidade que vinha desde o tempo da Monarquia até ao Imperium dos Antoninos, cujo testemunho de situação invocou em Marco Aurélio.
Percebe-se, pelo discurso, as razões de Papiniano, «Princípe dos jurisconsultos», ao recusar-se a redigir a fundamentação jurídica deste discurso do jovem Imperador e defender a causa do mesmo em público. É célebre a resposta de Papiniano ao Imperador Antoninus Bassianus: «É mais fácil cometer um fraticídio do que justificá-lo». Facto que seria causa mediata da sua morte. De todo o modo o discurso justificador resulta bastante convicente. Este discurso terá sido, possivelmente, redigido por Menandro ou Saturnino; mas o Imperador teve de defender a sua tese de emergência de causa de justificação do fraticídio do irmão Antoninus Geta. Mas os factos, na verdade, eram substancialmente diferentes – mas não importa agora, para este aontamento.

[3] Era voz corrente no Império que Marco Aurélio teria se livrado de Lucius Verus, seu genro e co-Imperador, envenenando-o («The Life of Marcus Aurelius», XV.5, in SHA).

sábado, 23 de maio de 2009

  • RAÍZES/ROOTS
Este é Nhô Pedro Nhana (Pedro Alexandrino Brandão), meu bisavô. Pai de Sabino Teixeira Brandão (meu avô) e avô de Virgílio Teixeira Brandão – meu pai. Estranho prazer este: ver a fotografia de uma pessoa que seguiu para a maior aventura ainda antes de eu ser gerado e entregue ao Mundo. A isso se chama genealogia, das margens do Vulcão. Obrigado, Tio Agostinho.

Fica aqui, para a multidão dos meus familiares que, como eu, nunca o conheceram.

Imagem: Nhô Pedro Nhana (Pedro Alexandrino Brandão) – meu bisavô.