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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

  • O TEMPO E A VIDA
Há tempo para nascer, tempo para morrer… (Eclesiastes, III)

Este poema é dedicado ao João Branco que, segundo a arcana e eterna lei do ser, perdeu o umbigo da vida (Ah!, porque não existe uma pílula do esquecimento da dor, sem termos de esquecer as alegrias dos que nos construíram?):

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são...
--- Mário Quintana

terça-feira, 2 de junho de 2009

A Luis Cabral
  • O NIVELAMENTO
Dizia Aristóteles, quando ensinava o menino
a vencer o Mundo e a ser verdadeiramente grande
que tudo segue para o seu lugar natural
– eu tenho uma pétala de rosa presa no meu livro
e espreito o cemitério pejado de génios e beleza.


Imagem: La Grande famille, René Magritte

sexta-feira, 29 de maio de 2009

  • AL PSU, Ó ESTEVES
Tenho dito, não raras vezes, que que isso de não ler os Lusíadas faz mal à muita gente – começam a delirar, e até usam o nome de Deus, resgatado de uma terra de cabras, com visões colhidas de uma caverna. Mas não devem saber isso, pois não leram os Lusíadas – e não sabem as dores que sofreu Joaquim às mãos de Nabucodonozor, nem conhecem a forma das lágrimas de Tito diante do fogo ou o sonho de Neemias, Esther, Daniel e Jeremias nas noites cativas dando nome às estrelas.
.
Bem digo, quase que grito e sou gráfico!, mas não sou escutado. O melhor será dizer: procurai as bacantes! Bem, para ser bem entendido: bebei vinho meu amigo, vinho. Vou fumar! Mas para ti, o melhor será dizer – ainda: come chocolates, come chocolates…

sábado, 27 de dezembro de 2008

À Marisa Fernandes


  • ALMA D´UM CRÊBO TCHEU
Sete mil pés de ti
arvoram os porões de alma espúria
da Argos às margens do Tarrafal
e teu olhar silente.

Procura, como seiva raiz parideira,
teu ventre de alma-verbo-penitente
– ruas de nova Jerusalém aqui.

– É a Norte! – gritam sete mil pés convictos.
– É a Sul, no berço do barco-beijo do Atlântico,
a oeste da terra firme – insiste a Argos.

Norte »« Sul. Su l«» Norte. Lutam
o tempo de um sonho.
Acumina.

A Argos e sete mil pés de ti navegam
«Norte. Sul «» Norte. O lugar.

E eu (de orelha furada escravo,
argonauta de ti, das tuas horas sim)
– tenho todos os pés do Mundo
para te encontrar – menos tu,
pétala, ardósia viva, mar sendento, Om,
santa d´Um crêbo tcheu e mais:
como a mãe de todas as línguas
és YHWH e não sei dizer-te
alma de Um crêbo tcheu só num dia.