quinta-feira, 21 de maio de 2009



COMUNICADO


Tendo tomado conhecimento de notícias, escritas em jeito de artigos de opinião por dois eminentes cidadãos e Ilustres Juristas cabo-verdianos residentes no estrangeiro, veiculadas por um dos jornais electrónicos do país, acusando o Ministério Público e a Procuradoria-Geral da República de, por omissão, ter deixado prescrever o procedimento criminal relativo a factos susceptíveis de integrar crimes praticados no dia 22 de Janeiro de 2006 pelo actual Primeiro Ministro de Cabo Verde, Dr. José Maria Pereira Neves, a Procuradoria-Geral da República vem esclarecer o seguinte:

1. No ordenamento jurídico cabo-verdiano, como no de quase todos os Estados de Direito Democrático, o exercício da acção penal está constitucionalmente atribuído, quase em exclusivo, ao Ministério Público, o qual, no exercício das suas funções, se sujeita, entre outros, aos princípios da competência, da legalidade, oficiosidade e estrita objectividade.

2. Em virtude do regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo estabelecido na Constituição da República de Cabo Verde, nos seus artigos 180º, nº 2, alínea d) e 198º, cabe à Assembleia Nacional promover acção penal contra membros do Governo, incluindo o Primeiro Ministro.

3. A supremacia do Estado de Direito constitucional comporta, inexoravelmente, a estrita observância das imunidades estabelecidas e do regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo definido na Constituição da República de Cabo Verde de 1992.

4. Desde de que tal regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo entrou em vigor, o Procurador-Geral da República não recebeu da Assembleia Nacional nenhum requerimento solicitando procedimento criminalmente contra qualquer pessoa que seja membro do Governo, razão por que não existe, contra o actual Primeiro Ministro de Cabo Verde, Dr. José Maria Pereira Neves, qualquer processo-crime cujo procedimento pudesse prescrever nas instâncias do Ministério Público.

Procuradoria-Geral da República, Cidade da Praia, aos 18 de Maio de 2009.


Júlio César Martins Tavares
Procurador-Geral da República e Presidente do Conselho Superior do Ministério Público

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS
Enciclopedia of Ancient Egipt, de Margareth Bunson – vou na letra "N", e fiquei desiludido com a informação sobre Neferekare; mas tem outras mais valias.

Imagem: (Selva, de noite), Tarzan, Burne Hogart

quarta-feira, 20 de maio de 2009

  • O LIXO DOS CABO-VERDIANOS
Falou-se muito em Cabo Verde sobre o tratamento dos residuos sólidos, o seu tratamento e a possibilidade (irreal) de se importar lixo tóxico. Deu lugar a escândalo nacional, com suspeições de corrupção, de favorecimento e ilegalidades várias. Mas depois, como já é hábito, a questão ficou esquecida – até parece que o problema do lixo deixou de existir, que foi resolvida. Foi para as calendas gregas do "Estudo", é o mais certo. Entretanto, quem não esqueceu o seu problema real foi Marrocos que, no âmbito de um Programa Nacional de Gestão de Resíduos Sólidos, fez um empréstimo de 132,7 milhões de dólares ao Banco Mundial para tratamento dos seus resíduos, e resolver o problema que afecta a vida dos cidadãos.

Será que temos consciência que a capacidade de Cabo Verde armazenar lixo é muito limitada? Parece que não. Mas é bom sabermos que a única coisa que temos de ilimitada na terra é a garganta, e os super homens, os que fazem e sabem tudo. Mas até isso, até isso irá para o caixote do lixo da história depois de chegarmos ao 1888 ou, para alguns, no julgamento eleitoral.

  • VOZES DE ATENTAR
Concordo…
É a ideologia transvestida, mas faz sentido. A vergonha, não!

Imagem: Trabalhadores belgas em greve pela crise que ameça os seus postos de trabalho

  • BENEDICTUS XVI, BARACK OBAMA E A PALESTINA
Benedictus XVI, ao visitar a terra Santa e a cidade de Jerusalém, deixou uma mensagem subliminar de que Israel deveria permitia a existência de um Estado palestiano. Barack Obama, ao se encontrar com Benjamin Netanyanu, defende expressamente esta ideia: a coabitação do Estado de Israel com o Estado da Palestina. Imaginemos que Israel aceite esta ideia, que plasma a boa vontade e a ideia de que todos povos merecem ter a mater da sua pátria; sim, imaginemos que tal seja aceite pelo poder político (que é quase um suícidio político, note-se).

Uma questão emerge: será que os palestinianos estarão na disponibilidade de, verdadeiramente, viver em paz com os israelitas? Será que a ideia de «lançar Israel ao Mar» – como Nasser anunciou, e se pensou fazer com a Guerra dos Seis Dias – é coisa do passado, que a ideia não pode, a todo o momento, ser repristinada? Não creio, de tudo. É uma possibilidade latente, à espera de revelação.

Ademais, há que considerar que Israel dificilmente admitirá um Estado Palestiniano nas fronteira de Jerusalém, pois tal seria hipotecar o sonho profundo de de Moshe Dayan e dos israelitas de ver o Templo de Salomão erigido no seu local natural – na Mesquita de Omar, a Cupula do Rochedo. Para o cidadão comum, e até mesmo para um estratega político, o problema maior talvez seja a água (sim, isso mesmo!), mas não para Israel como povo – nem para políticos como, v.g., George W. Bush e Donal Rumsfeld. Não creio que Barack Obama e Benedictus XVI ignorem o problema maior da questão palestiana, mas mexer nela, na sua verdadeira essência (o plano religioso), é abrir uma guerra com efeitos imprevisíveis. E ninguém quer isso, mas também ninguém quer ficar calado e ver o conflito eternizar-se. São boas vontades, mas de circunstância, e para o Mundo ver – mas que, de forma alguma, irá resolver o problema palestinano.
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Este é um problema de natureza das coisas, não uma mera questão política. Tenho para mim que somente quando Jerusalém se tornar, de facto, Património Comum da Humanidade – cidade inapropriável – é que o problema da Palestin terá solução. Permaneria o espetro da questão escatológica para o Mundo cristão, mas isso é de outra ordem, e sem as consequências dos conflitos armados permanentes.
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Imagem: Benedictus XVI beijando o chão do Santo Sepulcro em Jerusalém

terça-feira, 19 de maio de 2009

A Mario Benedetti
  • LA MUERTE DEL CUERPO
Debería escucharte ayer, Benedetti.
Así, ojo picado de soledad desnuda,
Estoy en la tierra: no hay sueños y eternidad.

Pero no, no es verdad – lo ser poeta y la certeza.
---- Virgílio Brandão

Imagem: Mario Benedetti

  • O PÓ DAS ESTRELAS
Lembra-te, ó homem! Tu que és amante.
Quando escutares d´Ela: “Tenho saudades tuas…”
não temas, não te espantes na hora-fenda.
O que te penetra os tímpanos e alma
é o rugir do útero-sonho,
o ressoar da tua genealogia, o adubo da eternidade.

Lembra-te, ó homem. Quando chegar a hora…
Abre a boca, e sorve a seiva do pó das estrelas.

Imagem: Amor, Gustav Klimt (1895)

  • A RIQUEZA DE PEDRO PIRES E OS LADRÕES DA REPÚBLICA
Há coisas que, por vezes, nos fazem orgulhosos de pertenceter à uma nação. Coisas pequenas, aparentemente sem importância – mas que fazem todas a diferença. No outro dia lia no Le Figaro que um Magistrado francês resolveu fazer uma investigação às contas bancárias e aos bens de três Presidentes africanos – magestosamente ricos. Disse para mim mesmo: «bom seria que se fizesse isso em todo o Mundo!». E foi então que me senti orgulhoso de ser cabo-verdiano.

Toda a gente sabe, e não o escondo: nas últimas eleições votei em Carlos Veiga para Presidente da República, e em José Maria Neves para Primeiro Ministro. Por uma questão de sistema político e a bem da nação me pareceram as escolhas óbvias e adequadas – até porque o Presidente Pedro Pires fizera um mandato que não deixava saudades: inócuo como Presidente da República. E não raras vezes o tenho criticado – e, perdoem-me a imodéstia, sempre com razão de situação (fosse a decisão criticada viciada ou não) –, mas nunca coloquei em causa a sua honorabilidade e honestidade.

Pedro Pires, quando se fizer a história de Cabo Verde sem paixões exacerbadas, será considerado muito melhor Primeiro Ministro do que Presidente da República – tenho para mim, e tenho-o dito repetidas vezes, que tem desperdiçado este mandato para deixar uma marca profunda sobre o sentido do exercício do poder presidencial. Mas são circunstância da história, e não só – é claro. Poderia ter enriquecido com o dinheiro do povo, com o erário público; mas não o fez, como fizeram a maioria dos lideres africanos dos sistemas autoritários e pró-socialistas e socialiantes emergentes das lutas de libertação e da Revolução de Abril. Os casos de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola, de alguns ex-governantes da terra da morabeza, e até de Portugal, são paradigmáticos.

Pedro Pires, não! Depois de 15 anos como Primeiro Ministro, nem uma casa própria tinha quando deixou o Governo na sequência da emergência da democracia pluripartidária e da II República. Somente neste segundo mandato (depois de mais de vinte anos como Chefe de Governo e de Estado) é que fez a sua casa, tendo recorrido, como qualquer outro cidadão, a um empréstimo bancário para o efeito (estas coisas deveriam ser levados ao conhecimento do povo, pois há coisas boas a serem noticiadas). Que eu saiba, não tem contas bancárias de muitos dígitos, mansões e casas sumptuosas em Cabo Verde ou no exterior – extorquidos ilegitimamente ao povo. Também não andou a comprar fatos de 300 contos no Rosa & Teixeira, em Lisboa, mas num modesto – e nem por isso menos digno – Pronto-a-vestir do Largo do Rato (e, se calhar deveria fazer compras no Rosa & Teixeira, por uma questão estética e de dignificação da imagem presidencial; o que eu acharia mais do que normal, necessário até). Mas há quem o tenha feito (e mais, muito mais), com o erário público – isto é, como dinheiro de cidadãos que chegam a ganhar míseros 10 contos por mês.

Ter um Presidente da República – ou qualquer governante – que não enriqueceu à custa do povo é uma coisa extraordinária! E não somente em África, não. Em Portugal, os ex-Ministros passam de Ministros a Banqueiros (sim, não é bancários, mas banqueiros) ou a gestores das maiores empresas da nação – ser Ministro é "tese de doutoramento" e tirocínio que habilita quem por lá passa a ser gestor pago a peso de ouro. Pedro Pires não seguiu essa senda, manteve as suas mãos limpas, e isso dignifica não somente a sua pessoa mas também o seu povo. Posso até ter razões para criticá-lo por desmandos e inomináveis abusos feitos durante o sistema político autoritário da I República (critícas que se estenderiam a outros políticos de ambas as barricadas partidárias), mas não posso acusá-lo de ter-se locupletado com os bens do povo, da República. Isso, não.

Merece ser louvado? Na verdade, não merecia – pois quem cunpre com o seu dever não merece nenhum louvor. Acontece que, no contexto em que vivemos, o que fez, neste plano, é extraordinário – e tudo o que é extraordinário (no sentido que se dá hoje à palavra) merece ser salientado. «Mas mesmo assim, não votou nele nas últimas eleições. Porquê?» – perguntar-me-á. Em causa não estava a honestidade das pessoas, mas sim o bem da nação e o seu equilíbrio político – o meu voto seguiu aquilo que achei que era o melhor para o país. Aliás, haverá hoje em Cabo Verde quem – tendo consciência política (e não estando politicamente engajado em nenhum partido político) – que não defenda que o melhor para o país é ter um Presidente da República da esfera de influência diferente da maioria parlamentar que sustenta o Governo? Sim, haverá quem não defenda este tipo de equilíbrio para as próximas eleições?

Mas falava da riqueza, e de Pedro Pires. A riqueza de Pedro Pires, é o exemplo que deixa como um líder que não enriqueceu à custa do erário público cabo-verdiano. Um bom exemplo, que merecia ser recompensado – ser ressaltado como exemplo. Quem sabe se, assim, alguns clepocratas deste Mundo não venham a se sentir envergonhados. Mas os Senhores dos Relatórios, dos Observatórios, esses… andam a dormir. Tenho de dizer: obrigado! Obrigado, Presidente Pedro Pires, porque em 23 anos de execício do poder não roubaste o teu povo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Negrito

Na noite longa
minha alma
chora sua fome de séculos.
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Meus olhos crescem
e choram famintos de eternidade
até serem duas estrelas
brilhantes
no céu imenso.
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E o infinito se detém em mim.
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Na noite longa
uma remotíssima nostalgia
afunda minha alma
e eu choro marítimas lágrimas
enquanto meu desejo heróico
de engolir os céus
se alarga
e é já céu.
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Tenho então
a sensação esparsamente longa
de vogar no absoluto.
--- Mário Fonseca (poeta cabo-verdiano)

domingo, 17 de maio de 2009

A toda a hora o mal cresce no Mundo... e assitimos, de bancada.

  • REMEXENDO NA HISTÓRIA
Lula Inácio da Silva quer acabar com os segredos da ditatura, e quer saber o destino dos presos políticos desaparecidos antes de sair da Presidência do Brasil. Será que conseguirá fazer uma passar uma lei nesse sentido? A ver vamos, pois muitos pensarão que há coisas que o melhor é não mexer – deixar no mofo da história os momentos mais doloridos do país. Lula, pelos vistos, não pensa assim. E faz bem! A verdade é um direito do povo brasileiro, toda a verdade.

A África do Sul e o Rwanda tiverem soluções dolorosas, Cabo Verde uma lei de reconciliação inócua; Portugal baniu o fascismo. Mas acabaram, a sua maneira, de servir os interesses dos povos em causa. Lula, pelos vistos, não pensa assim. E faz bem! A verdade é um direito do povo brasileiro, toda a verdade.
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Imagem: Lula Inácio da Silva, Presidente do Brasil

sábado, 16 de maio de 2009

  • OS LUSÍADAS
Esta é uma das primeiras edições de Os Lusíadas de Luis Vaz de Camões. Fica aqui, dedicado aos poetas cabo-verdianos José Luis Hopffer Almada e José Luiz Tavares – ludi reinventores da forma dos Lusíadas.

Nuda veritas, Gustav Klimt (1899)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

  • LA NOCHE OSCURA
Yo quiero intervenir de nuevo
– dicer-te a la hora del abismo arcano
que la lluvia es lágrima-corazón que planto,
que yo planto en el rincón del mundo que ajustas
en el jardín y me hace demente de amor.

Sí, yo soy el devorador de tus sueños,
el regulador de las horas nocturnas y tudo
– Dios no puede calcular este dolor
ao mirarnos de su castillo de oro y sangre
que migra al Tormes frío y cerrado.
---- in Notas del Tormes, Virgílio Brandão

  • A (IN)SEGURANÇA DA NOITE

Atente-se na barbárie e na violência destas imagens. Se for sensível, não veja este vídeo. Por onde andarão esses homicidas? O que aconteceu com a vítima? Aconteceu a porta do Bar-Discoteca no Centro Comercial Stop na Rua de Heroísmo, Porto. Pode acontecer em qualquer lugar da noite (inclusive no interior dos estabelecimentos), pois a selvajaria e a (in)segurança é o que se vê. Bárbaros, esses jovens desmiolados e maus! Mas há que atentar na omissão de auxílio dos seguranças, das pessoas presentes...

“Ver um crime com calma é comete-lo” – José Marti.

  • INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
---- in Clepsidra, Camilo Pessanha

Imagem: Mulher sentada de pernas abertas, Gustav Klimt

quinta-feira, 14 de maio de 2009

  • BERLUSCONI E O PERIGO EUROPEU
«Não vamos abrir a porta a todos, como fez a esquerda, que tem a ideia de uma sociedade multiétnica. Nós, não. Só queremos acolher acolher aqueles que reúnem as condições para obter o asilo político” – disse Silivo Berlusconi, Primeiro Ministro italiano. Fiquei estupefacto com esta afirmação de Berlusconi, sabia-o um fascista de pacotilha, um inculto, mas nunca um inculto primário, que cede as memórias da sua nação à propaganda populista e trucida babaramente a história da sua nação... e da Europa.

O que é triste é que o que Berlusconi diz não é fruto do novo fascismo italiano que ele encarna, não: é o pensamento de grande parte dos líderes europeus e parlamentares no Parlamento Europeu. A Directiva de Retorno (que foi aprovado na ausência de alguns parlamentares que se dizem defensores dos direitos dos imigrantes – como é o caso da socialista Ana Gomes) é a prova acabada deste pensamento excludente, desta aparofobia militante de grande parte dos políticos europeus e que a «crise» ajuda a sustentar e a justificar.

Berlusconi pode ser uma nulidade (só pode ser!, para dizer o que disse) na história do seu país – aquele que mais frutos deu no plano da multiculturalidade e que não tem nada a ver com a “esquerda” – mas não é um político inocente. E porque é um político inocente que recordo as palavras do Reichsmarschal Hermann Goering, Comandante da Luftwaffe (Força Aérea da Alemanha Nazi), durante os Julgamentos de Nuremberga: «Com voz ou sem ela, o povo pode sempre ser levado a submeter-se à vontade dos dirigentes. É fácil. Tudo o que se tem de fazer é dizer-lhe que está a ser atacado, e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e por exporem o país ao perigo». É esta a escola política de Silvio Berlusconi, Jean- Marie Le Pen e outros que seguem os seus passos, ainda que digam o contrário – a verdade é que fazem o mesmo. A vergonha de Lampedusa pode ser vista em Ceuta, Mellila, Dover...

Um dia destes vamos ver este campos de contenção de imigrantes invasores a serem instalados, além de Marrocos, em Cabo Verde e outros países africanos da costa do Mediterrâneo. O que digo não é um exercício de prognosticação; não. É mais simples e previsível das situações e que o mais comum dos mortais deve(rá) esperar. Não me admiraria nada que esse ponto viesse a ser uma das bases do Acordo Especial entre Cabo Verde e a União Europeia – um dos aspectos é segurança, logo, subsumível ao PESC: Política Europeia de Segurança Comum que justificam Schengan, Lampedusa, Mellila, a Directiva de Retorno.

A lógica de sociedade fortaleza versus sociedade de mão-de-obra fast food trará a Europa muitos mais dissabores do que se mostra capaz de prever. É um sono da razão? Talvez seja, pois como bem diz Goya: «o sono da razão engendra monstros»; digo mais: alimentámo-los. E temos alguns a caminhar entre nós. Agora, de repente, lembrei-me, de uma carta que li no outro dia: de PIO XII a Adolfo Hitler – silenciarmo-nos perante os monstros ou ignorá-los, é uma forma de os alimentar, sem dúvida. Uma Europa que quer ser campeã dos Direitos Humanos não pode tolerar fascistas e ditadores disfarsados de democratas como Silvio Berlusconi & co., nem ter as políticas de imigração que tem, pois perde toda a sua autoridade moral para apontar o dedo a Hugo Chavez, ao Castrismo, ao embargo norte-americano a Cuba (cuja indignidade os europeus fingem não existir) e outras maldades que grassam no Mundo.

Imagem: Foto da capa de uma das primeiras edições do livro A Minha Luta, de Adolfo Hitler (livro editado em tempo de grande crise...).

Que valores?… say it again!

  • ECLIPSE EM LISBOA
Lura apresenta amanhã, Sexta-feira, 15 de Maio, o seu novo trabalho: Eclipse. No Teatro Tivoli em Lisboa – 22:00.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

  • FINISTERRA
Todos os grandes poetas tiveram uma musa
e um espartilho de alma e verbo.
Eu, como não sou grande nem quero,
tenho-te a ti – tecedora das horas-sonho.

Onde tu estás, seiva, tudo começa – termino.
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Imagem: Milo Manara (inspirado em Danae de Gustav Klimt?)

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
---- Luíz Vaz de Camões

terça-feira, 12 de maio de 2009

  • A SOCIEDADE MATRIARCAL E A DISCRIMINAÇÃO

Tem sido longa a luta das mulheres contra um jugo antinatural que – segundo a tradição judaica e cristã – tem explicação (de ordem psicológica) no facto da mulher ter sido criada da «costela» de Adão. De espantar o nível de conhecimento de psicologia que o scriptore (Moisés) do Genesis tinha... Guardiãs dos arcanos segredos dos nefelins, foram expurgadas de uma posição activa na sociedade durante séculos, colocadas nas margens do saber pela inquisição, acusadas de bruxas e, durante muito, impedidas de aceder ao conhecimento pelo barbarismo social que é a desigualdade.

A razão mais evidente é simples: o homem sempre temeu o poder no feminino. Sempre que as mulheres alcançaram o poder foram tidas como bruxas – a causa era ou sua beleza de origem satánica, as pretensas práticas mágicas ou devassidão sexual ou moral. Exemplos acabados disso foram Ester na corte de Assuero, Ana Bolena com Enrique VIII, Cleópatra – a última raínha do Egipto, herdeira plotomaica e grande guardiã da Biblioteca de Alexandria – que é vista como a amante de Júlio César e de Marco Aurélio e não como uma grande estadista e intelectual (que é o que era, na verdade). Isso para não falar de Hatchepsut, Nefertiti, Júlia Maesa, Júlia Domna, Júlia Mammea ou até mesmo Faustina, Lucrécia Borgia ou Isabel I com quem a história não foi, não é, muita simpática; na verdade é injusta, muito injusta.

A mulher sempre teve e tem armas armas que os homens não têm – é um juízo (re)corrente entre os homens. Sim, é verdade! Mas não o dizem no sentido de elogio, mas com acinto. As capacidades inerentes à sua condição humana e de natural igualdade é desconsiderada amiúdas vezes – mesmo hoje, pois ainda restam resquícios do tempo em que a mulher era pouco mais do que uma incapaz ou um mero objecto sexual. Há 35 anos, v.g., ainda havia em Portugal (Metrópole e Ultramar) leis que permitiam ao homem tutelar a mulher e exercer o «poder de moderada correção» sobre ela – isto é: dar-lhe uma sova não escandalosa.

O próprio casamento, enquanto contrato, aparece como uma instituição para proteger a mulher da ganância dos homens; assim como aparecem as normas para as proteger do vitúperio. Não é por acaso que estas leis aparecem quando, na sombra, eram mulheres que tutelavam os jovens imperadores romanos. Mas esta opressão histórica, paradoxalmente, não diminuiu as capacidades das mulheres, pelo contrário: acicatou-as e hoje, cada vez mais, as mulheres tomam conciênca das suas capacidades e, por via do da democratização do conhecimento como forma de sustentar a ganância humana, a sociedade caminha, inexoralvelmente, para uma sociedade matriarcal.

O único perigo de uma sociedade matriarcal baseada no império do conhecimento é que ela, fatalmente, será destruída pela barbárie – o homem nunca cederá o poder que seja o seu espelho. É que, infelizmente, o poder tem o mesmo efeito corrompedor sobre as mulheres como tem sobre os homens, e a natureza sensível das mulheres não é bastante para vencer a do poder. De Lucrécia Borgia a Benazir Bhutto, passando por Julia Maesa (que sacrificou o próprio neto para se manter na sombra do poder) e Maria Spiridonova que sujeitaram ao imperativo do poder – by any means necessary, como diria Malcolm X.

Neste aspecto, Darwin e António Vieira têm toda a razão possível: os fracos perecem, os mais fortes sobrevivem; os grandes comem os pequenos. A força da razão acabará, infelizmente, cedendo à razão da força. Lamento este meu cepticismo, mas a realidade impele-me a tê-lo como certo. Espero estar sinceramente errado. Bom seria que fosse possível uma sociedade de conhecimento real, profundo e alicerçado na raiz da nossa humanidade mais primária e em que a diferença entre os géneros fosse vista não como diferenças de grau ou de qualidade, mas sim como manifestações do espírito humano. Ainda que, confesso, tenha para mim que não foi Adão que foi criado em primeiro lugar… mas Eva. Mas isso, é outra história.

***

O homem sente-se ameaçado pelo feminino, e socialmente discriminado em determinados sectores da vida social. Conversas ocasionais, e até recorrentes com pessoas tidas como esclarecidas, levaram-me a esta conclusão. Mas é discurso em circuito fechado, raramente proposto ao feminino. Existem algumas excepções, como o fórum de discussão Equality for Men que defende publicamente que, no actual estado das coisas, o homem está a ser discriminado e demandar proteção e um nivelamento igualitário da acção social. Interessante, e de atentar. Até porque não é um discurso estéril; longe disso.

Imagem: Gustav Klimt, Die Musik

Zena Holloway
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PROVÉRBIOS DO INFERNO

«Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias alas», William Blake, «Provérbios do Inferno (15)», in O Casamento do Céu e do Inferno

segunda-feira, 11 de maio de 2009

  • MOMENTOS DA HISTÓRIA
A família Romanov, assassinada por Lenine e os seus perseguidores da sociedade sem classes…

  • EL VESTIR
Y un tejedor dijo: Háblanos del vestir.
Y él respondió, diciendo:
Vuestra ropa esconde mucho de vuestra belleza y, sin embargo, no cubre lo que no es bello.
Y aunque buscáis en el vestir el sentiros libres en vuestra intimidad, podéis hallar en él un arnés y una cadena.
¡Cómo pudiérais enfrentar al sol y al viento con más de vuestra piel y menos de vuestro ropaje!
Porque el aliento de la vida está en la luz del sol y 'la mano de la vida en el viento.
Algunos de vosotros decís: "Es el viento del norte el que ha tejido las ropas que usamos."
Y yo digo: ¡Ay! Fue el viento del norte.
Pero fue la vergüenza su telar y la debilidad de carácter dio sus hilos.
Y, cuando terminó su trabajo, rió en el bosque.
No os olvidéis que el pudor no es protección contra los ojos del impuro.
Y, cuando el impuro no exista más ¿qué será el pudor sino los grillos y la impureza de la mente?
Y no olvidéis que la tierra goza al sentir vuestros pies desnudos y los vientos anhelan jugar con vuestros callellos.
---- Khalil Gibrain, El Profeta
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Imagem: Diva russa (Penthouse - Agosto/2008)

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CONFERENCIA
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Conferência de Ana Cristina Costa Gomes: “A controvérsia pela via do diálogo. Tópicos para uma abordagem comparativa do Diálogo Evangélico de João de Barros, e da Inquisição e Segredos da Fé de Diogo de Sá‏”

14 de Maio de 2009, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Sala 5.2 (Sala de Mestrados) pelas 18.30h.
Organização:
Cátedra Alberto Benveniste

Imagem: Lucrécia Borgia (a única mulher da história a exercer as funções político-temporais atribuídas ao Papa), de Bartolomeo Veneto.
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  • O PRIMEIRO LIVRO QUE LI EM INGLÉS E ALVARO CUNHAL

O primeiro livro que li em inglês, não foi de cabalistas, não. O primeiro livro que li em inglês chamava-se Rivers of Living Water, de John Osteen. O problema é que não sabia inglês. Assim, comprei um curso de inglês do Readers Digest e, além dos dicionários e o vocabulário do curso, comprei um dicionário Inglés/Português-Português/Inglés e comecei a ler o livro. Cada palavra era uma dificuldade, cada frase uma odisseia. Levei meses a ler e a entender o livro; mas li-o. E relio-o, várias vezes… até não precisar do dicionário. Assim, quando voltei a estudar (depois de desertar a escola em menino), conhecia os rudimentos da língua – e fiquei surpreendido com o quanto sabia. Anos depois, chegaram os grandes livros em inglês: The Great Gatsby, Scott Fitzgerald; U.S.A, John dos Passos; As I lay Dying, William Faulkner; One Day in the Life of Ivan Denisovich, Alexander Solzhenitsyn; Paradise Lost, John Milton… Era, necessariamente, um novo rumo estético.

Lembro-me, agora, do primeiro livro que li em espanhol. Foi um livro propriedade de Álvaro Cunhal (por razões que agora não vem ao caso, tive acesso à sua biblioteca pessoal na casa da irmã, D. Eugénia, na Rua Sousa Martins em Lisboa e que fora, entre outros, um dos seus refugios) e, além de umas obras que me foram muito úteis em termos formativos – como, v.g., o An Enquiry Concerning Human Understanding, de David Hume, An outline of the Universe de J.G. Crowther –, li o meu primeiro livro técnico em espanhol: Prolegomenos a Toda Metafisica Del Futuro, de Kant. Livros cujas cópias com nota autógrafa de Álvaro Cunhal (uma ou outra com testemunho da sua passagem pelo Forte de Peniche) se encontram por aí, descansando numa multidão de outros livros então reproduzidos.

E o que estranho é que a admiração intelectual que nutro por Alvaro Cunhal – para mim o maior português do século XX (e não há neste juízo nada de ideológico) – não é extensível, em dimensão, a John Osteen que, hoje, considero de um pensamento teológico muito frágil. Mas Rivers of Living Water foi, a data, importante para mim – no plano espiritual e prático. No outro dia relia um texto de Álvaro Cunhal: As Seis Características Fundamentais de Um Partido Comunista (2001), e dei por mim a pensar que ele era menos ortodoxo do que se pensa, nomeadamente dos actuais líderes do Partido Comunista Português e que, se calhar, o que o país precisava, hoje, era de um Álvaro Cunhal vivo e na plenitude das suas capacidades para pensar-se uma sociedade mais justa, objectivamente justa e sem o mofo dogmático das teses que, como a realidade demonstra, falharam.

Álvaro Cunhal tinha consciência disso; mas o tempo não lhe deu tempo para reinventar o pensamento.

Imagem: Álvaro Cunhal, Henrique Matos

domingo, 10 de maio de 2009

  • VOZES DE ATENTAR…
«Today, America would be outraged if U.N. troops entered Los Angeles to restore order [referring to the 1991 LA Riot]. Tomorrow they will be grateful! This is especially true if they were told that there were an outside threat from beyond, whether real or promulgated, that threatened our very existence. It is then that all peoples of the World will plead to deliver them from this evil. The one thing every man fears is the unknown. When presented with this scenario, individual rights will be willingly relinquished for the guarantee of their well-being granted to them by the World Government», Henry Kissinger, Bilderberg Conference, Evians, France, 1991.
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Imagem: Napoleão Bonaparte



















  • COUSIN NANCY

Miss Nancy Ellicott Strode across the hills and broke them,
Rode across the hills and broke them—
The barren New England hills—
Riding to hounds
Over the cow-pasture.

Miss Nancy Ellicott smoked
And danced all the modern dances;
And her aunts were not quite sure how they felt about it,
But they knew that it was modern.

Upon the glazen shelves kept watch
Matthew and Waldo, guardians of the faith,
The army of unalterable law.
----- T.S. Eliot

sábado, 9 de maio de 2009

Biblis, Bouguereau

X

Hemos perdido aun este crepúsculo.
Nadie nos vio esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.

A veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol entre mis manos.

Yo te recordaba con el alma apretada
de esa tristeza que tú me conoces.

Entonces, dónde estabas?
Entre qué gentes?
Diciendo qué palabras?
Por qué se me vendrá todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?

Cayó el libro que siempre se toma en el crepúsculo,
y como un perro herido rodó a mis pies mi capa.

Siempre, siempre te alejas en las tardes
hacia donde el crepúsculo corre borrando estatuas.
---- Pablo Neruda

sexta-feira, 8 de maio de 2009

  • APROXIMA-TE…


Só tu, prisioneiro voluntário,
ouviste a canção ferenda,
as vozes de todos os sonhos-medos
para, em hora esparta, elevares urbe
– corvo de rio de gaivotas idas
e dares corpo ao opressor quinhentista.

Meio milénio de vozes, agora.
Eu: foste afortunado na infernal calmaria.
Para o meu povo ancestral, o dos grilhões,
deverias ter sido livre.

A NOVA LEI DAS ARMAS E MUNIÇÕES

Lei n.º 17/2009 de 6 de Maio
Procede à segunda alteração à Lei n.º 5/2006, de 23 de Fevereiro, que aprova o novo regime jurídico das armas e suas munições.

Imagem: Dark labyrinth (82), Luiz Royo

  • SER ATEU É UM DIREITO…

Está na moda, desde há alguns anos ser-se ateu (graças a Deus… – dizem alguns). Mas, por vezes, ouço argumentos que me espantam. Resolvi, eu que sou cristão mas que acho que as pessoas têm todo o direito a ser ateu, aconselhar uns livros sobre ateísmo – pensar faz bem às pessoas, se pensarem – para quem se diz ateu. Sim, ser ateu é um direito, conquistado pelos crentes. Se é ou deseja ser ateu, que o seja com razão; não porque é chique ou por causa do mal alheio projectado em Deus. Assim, aconselho quatro livros (acho que chegam, como iniciação ao ateísmo esclarecido) sobre ateísmo, pois eu sei no que creio.

1. Porque Não Sou Cristão – Bertrand Russell
2. Deus e o Estado – Mikhail Bakunin
3. Assim Falava Zaratustra – Frederico Nietzsche
4. Tratado de Ateología – Física de la Metafísica – Michel Onfray

Deste último transcrevo esta passagem:

«¿Dios ha muerto? Está por verse... Tan buena noticia habría producido efectos solares de los que esperamos siempre, aunque en vano, la menor prueba. En lugar de que dicha desaparición haya dejado al descubierto un campo fecundo, más bien percibimos el nihilismo, el culto a lo fútil, la pasión por la nada, el gusto malsano por lo sombrío propio del fin de las civilizaciones, la fascinación por los abismos y los agujeros sin fondo donde perdemos el alma, el cuerpo, la identidad, el ser y el interés por todo. Cuadro siniestro, apocalipsis depr imente...

La muerte de Dios fue un dispositivo ontológico, la falsa grandilocuencia propia del siglo XX que veía la muerte por todas partes: muerte del arte, muerte de la filosofía, muerte de la metafísica, muerte de la novela, muerte de la tonalidad, muerte de la política... ¡Decretemos hoy la muerte de esas muertes ficticias! Esas falsas noticias servían en otras épocas para montar la escenografía de las paradojas antes del cambio de chaqueta metafísica. La muerte de la filosofía autorizaba libros de filosofía; la muerte de la novela generaba novelas; la muerte del arte, obras de arte, etc. La muerte de Dios produjo lo sagrado, lo divino, lo religioso a cual mejor. Hoy en día, nadamos en esa agua lustral», Michel Onfray, Tratado de Ateología – Física de la Metafísica, Editorial Anagrama, Barcelona, 2006, p.31.

A fé e a razão não são incompatíveis. Como dizia no outro dia a um amigo, a nossa imaginação vai para além dos nossos sentidos, mas o espiríto segue para além da nossa imaginação. Mas a natureza revela-nos grande parte do que podemos conhecer de Deus – os que queiram e/ou são capazes disso. Deus é o que é, nós devemos tentar perceber a razão de Deus e o nosso sentido existencial, sem medo ou medos de perceber ou não todas as perspectivas da questão. Por isso leio livros escritos por ateístas convictos – de Lenine (que morreu, louco, agarrado a uma cadeira, pedindo perdão a Deus), a Voltaire, passando por Bakunin e Karl Marx.

Sobre estes ateístas muito haveria a dizer, mas tomemos o exemplo de Karl Marx. Sendo cristão enquanto jovem, descreu de Deus por causa do mal que grassa no Mundo (o seu poema dramático Oulanen
[1] é uma prova bastante disso – não de que seria discípulo de Satanás, como defende Richard Wurmbrand), imputando a responsabilidade a Deus. Abraçou o pensamento socialista que é, na verdade, o que existe de mais próximo do cristianismo mas que, do ponto de vista do materialismo, procura infirmar. Seja como for, Marx não é nem deve ser ser tido como a grande luz nesta questão, pois também condenava a aristocracia, mas casou-se com uma mulher rica, defendia o proletariado, mas achava que a escravidão dos negros (nomeadamente a dos negros levados escravos para o Brasil) era coisa natural e necessária ao desenvolvimento social e económico. O homem é forte, poderoso, perante o seu próximo – por ter poder, dinheiro, notoriedade social, pensar saber mais, ter um título académico (todas elas formas de alimentar a opressão social), mas quando chega o momento da grande aventura…

Não é preciso ser-se cartesiano ou ontológico como Santo Anselmo ou Kant… nem têm os ateus, hoje, de provar que crêm ou não, como Atenagora de Atenas teve de provar a Marco Aurélio e Aurélio Cómodo que os cristãos "não eram ateus", que acreditavam em Deus. Não crer é um direito - uma conquista civilizacional; assim como crer é da natureza do homem. O paradoxo é que os que acusam os crentes de irracionalidade, por crerem em algo para além das evidências da matéria, acabam por agir irracionalmente ao atacarem a fé como se ela fosse uma doença, algo contra natura. Tornam-se, na verdade, inquisidores laicos, ou inquisidores do ateísmo militante e/ou não esclarecido. Um exercício de racionalidade sobre Deus é/será a última coisa que um cristão ou outro deísta evita(rá). Na verdade, pensar Deus com a razão esclarecida é aproximar-se dEle. Ou será que não? [2]

Imagem: Capa da Revista Y-Jesus

Notas:
[1] Texto que pode ser encontrado na colectânea de textos de Karl Marx em http://www.marxists.org/

[2] Para quem tem paciência, fica esta sujestão de leitura: JESUS COMPLEX – WAS HE CRAZY, A PATHOLOGICAL LIAR, OR THE SON OF GOD?

quinta-feira, 7 de maio de 2009

  • MULHER(ES)

Alexandra Kollontai, primeira mulher Embaixadora no Mundo moderno (Embaixadora da URSS na Suécia, durante cerca de uma década). Uma diplomata de excepção. Quer saber mais? Pois então: leia Provérbios VI.6.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

  • A ORELHA DE VAN GOGH E OS CRIOLOS TOY E TiLIS

Que Van Gogh, assim como William Blake, era um louco, poucos duvidarão – da sua genialidade, talvez… em razão de critérios estéticos. Nunca da sua loucura. A razão maior não foi o seu suicídio, ou ter estado internado num estabelicimento para dementes, não. A razão – que as pessoas se lembrarão como marco da sua vida – foi o ter cortado o lobo da sua própria orelha. Mas a verdade pode ter sido substancialmente diferente da que se conhece, dizem Hans Kaufmann e Rita Wildegans, dois especialistas alemãs em história da arte.

Segundo estes, a orelha de Van Gogh foi cortada por Paul Gauguin numa rixa entre os dois artistas, de forma dolosa ou negligente, em 1888. A verdade é que a orelha de Van Gogh foi cortada, e ele omitiu a verdade sobre a situação em que tal ocorreu – Gauguin fez o mesmo. Terão chegado a um acordo para que a verdade não viesse a público, pois eram, acima de tudo, amigos… e Gauguin terá se defendido de um ataque de fúria do atormentado holandês e não desejado o seu mal. É uma tese bem mais plausível e menos macabramente romântica que a da auto-mutilação de Van Gogh que em muito contribuiu para a dimensão mítica do artista.

A história de Van Gogh e Gauguin, lembra-me, mutatis mutandis (por razão de interesse para a maioria dos mortais), a de Toy e TiLis – dois criolos cabo-verdianos a trabalharem e a viverem numa obra em Lisboa, na Avenida Alvares Cabral (ao lado do antigo Jardim Cinema). Num dia de verão de 1984, sabe lá Deus porquê, desentenderam-se durante a noite. A briga foi feia, muito feia – meteu faca e tudo. O TiLis acabou por cortar o lobo e parte da cartilagem da orelha do Toy e, no dia seguinte, exibiu-o na obra, dentro de uma caixa de fósforos, envolto em sal. A custo consegui convencer o TiLis a terminar com a macabra exibição, sem grandes consequências no universo laboral; a não ser a ideia que ficou em alguns que havia um preto canibal na obra. Um triste e célebre incidente em Odivelas (e que teve lugar a poucos metros de onde eu vivia) não ajudou em nada a que se afastasse esta ideia, silenciada mas pensada.

Muitos ficaram convencidos de que o TiLis comeu o bocadinho de orelha do Toy, como anunciara que faria; como um Mindelense antigo diria, para se sentir grande como o Monte Cara. Mas, não! Eu e o pequeno Rogério, o encarregado da obra que olhava para os seus pretos como uma espécie de mentecaptos que precisavam da sua tutela paternal (o que não fazia por mal, sendo verdade que alguns bem que precisavam), resolvemos o problema, e desfizemo-nos do bocado de orelha do Toy. O Sr. Avelino (um homem enorme, bonacheirão, duro... massa bruta que me faz lembrar o Undertaker e que viria a encontrar a morte na estrada) e o Engº. Brito Costa, os Patrões e donos da obra, nunca ficaram a saber a verdade. Para eles, coitados, o Toy teve um acidente de trabalho.

Na altura, o lobo da orelha do Toy era, para mim, bem mais importante que a do Van Gogh. Hoje, continua a ser. E por ondem andarão o Toy e o TiLis – pengunto-me. Por onde andarão os seus passos? Será que cumpriram com o seu destino migrante? Destino que, numa noite namorada de cerveja e com os sonhos descarnados, levou-os a encarnar, sem consciência do facto, Van Gogh e Gauguin?

Imagem: Van Gogh: Autoretrato com a orelha tapada (1889)

terça-feira, 5 de maio de 2009

  • MOMENT(O) ZEN
Watch what you say, and whatever you say, practice it.
Atente ao que diz e, o que quer que diga, pratique-o.
Soyen Shaku

Imagem: Alexander Solzhenitsyn, dando a sua primeira conferência de imprensa depois de ser expulso da URSS em 1974.

  • LIMITES
No que pensariam estes homens, nesse exacto momento? Mistérios. É, além da segunda coisa bela e necessária, o que diferencia Deus dos homens.

Imagem: Martin Marher King Jr. e Lyndon Johnson na Casa Branca (1966)

  • DEUS EM 123 MILHÕES
123 milhões de euros, fazem os pobres europeus sonharem que o amanhã pode ser melhor – mesmo que não seja um amanhã que cante. É a síndrome da falência do Estado Social? A ideia de reedição do Bloco Central em Portugal parece dizer que sim. Mas isso não é admisível, tem de haver soluções para além da Fortuna. Para isso existem os políticos – exige-se arte, e não sorte. Bem, até este – como demonstra Jean-Louis Boursin em As Estruturas do Acaso – é mais do que pensamos que é. Mas isso é uma outra conversa. E se todos pedirem a Deus para ganhar esses milhões, o que fará o bom Deus? Será que jogará aos dados ou ao um-dó.li-tá? Enstein deve ter razão… afinal. E se Deus reside no pormenor, um cheque de 123 milhões de euros não é um pormenor. Logo... As máximas são, não raras vezes, meras falácias

Imagem: Van Gogh - Loteria estatal (1882)

  • Tolstoi, a trabalhar na sua casa em Yasnaya Polyana (1908)

  • A PENA DE MORTE NO FEMININO
Delara Darabi, cidadã iraniana, 22 anos. Mais uma vítima da pena de morte – executada quase na clandestinidade por um crime que lhe foi imputado a prática tinha ela 17 anos. «Vamos executar a vossa filha, e não há nada que possam fazer acerca disso» – anunciou por telefone um funcionário da Prisão Central de Rasth aos pais de Delara Darabi, momentos antes de a enforcarem. Ainda pôde telefonar aos pais, e dizer:

– Oh, mãe! Vejo o nariz carrasco à minha frente. Vão executar-me. Por favor, salva-me!

A barbárie ainda resta no sistema judicial iraniano – mas não só, não só… a história de Delara Darabi parece-se com o espelho de histórias consabidas: as mulheres se sacrificam para salvar os namorados, os amantes, os maridos… Mas a natureza das coisas – para não falar da justiça real e verdadeira – não demanda o contrário? Não é suposto ser o homem a sacrificar-se pela mulher que ama ou diz amar? É. Mas aqui, ao que parece, Delara teve o destino de Eva: enganada pelo mal – com uma meia verdade, uma mentira branca. Os homens não prestam – dizia Vinicius de Moraes. A verdade é que somos uma espécie condenada a auto-extinguir-se; e, sinceramente, não sei se não é mesmo merecido o destino que vamos construindo.

Imagem: Delara Darabi, executada por enforcamento, às 07:00 de Sexta-Feira.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

  • ET NUNC ET SEMPER

«O dia parece que ferve, queima até a alma…» – diz-me o meu poeta. Eu, pensando estar sentado no jardim do meu Jardim, paro a hora e represtino este poema-manjerico. Há que seguir, contra a natureza, o sentido dos dias; pois os deveres, os deveres não esperam. Nem pelo meu poeta, nem por Deus – o maior dos poetas, o Logos. Sim, até criou uma rosa, amou-a, e mandou o poeta atentar nela.

Até Deus
se esqueceria dos seus deveres,
se te visse
com os meus olhos...

Até o terrível Satã
seria adorado como santo,
se te visse
com os meus olhos...

E tu,
Se me visses
com os meus olhos
desejarias ter de Deus os olhos
e de mim o Amor.

domingo, 3 de maio de 2009

  • MOMENTOS DA HISTÓRIA…
Mikhael Gorbachev, depois de ter aberto a caixa de Pandora com a Perestroika, teve a notícia, durante reunião do PC da URSS, de que Chevardnaze tencionava abandonar o Governo. A ideia de sociedade sem classes começava a sua ruína patente e irreversível – tentar fazer bem a uma sociedade oprimida tem sempre o mesmo resultado: a deposição do dono que afrouxa a coleira. Ainda hoje me espanta como é que ele não sabia (ou não percebeu) isso – pois é/era do cânone da ciência política saber isso. Lembras-te, Rahil, de ter dito que isso iria acontecer quando me emprestaste a Perestroika para ler? Pois é...

Só os ingénuos é que pensam que a história não se repete.
.
Imagem: Gorbachev, em reunião do Partido Comunista da então URSS (20.12.1990) – tinha acabado de receber a notícia de que Chevardnaze queria seguir outro caminho...

  • A ORIGEM DAS COISAS…
Domingo... Que contradição! É quando o pecador se sente mais livre.
.
Quererá isso dizer algo mais do que a evidência? Talvez, mas o melhor é tentar descobrir. Comei e bebei, que amanhã poderás estar morto – é um santo conselho, se o se de não ter havido um dado Domingo fosse verdade. Noé bebeu vinho tinto. Deveria ser inverno quando eu, negro, nas minhas raízes, nasci. Não falo a língua dos anjos, não – o Pentecostes não passa por mim nestes dias.

sábado, 2 de maio de 2009

  • ESSE EST PERCIPIT

Ó prata sibilina, dá-me um ribeiro de flores,
tira-me o teu manto diáfano
estaciona-me na sombra da alegria de não ter razão.

.
Imagem: Daniel interpretando o sonho de Nabucodonozor

  • DESPOJOS DE LIBERDADE E ABORTAMENTO POÉTICO
Nos despojos de reflexão de dias festivos da liberdade (ou será «livre necessidade», como diz Espinoza?), escuto Nabucco de Verdi e fico extasiado. Deveria ser Adão, mas sou Joaquin – levado por Nabucodonozor, cativo, para a Babilónia, deixando atrás os murros e o Templo de Jerusálem derribados. Va pensiero, sim. Estaciono em Telleman, Corelli e Albinoni (a minha alma amanhece meio barroca, hoje) enquanto leio Tao Te Ching (Tratado do Caminho da Verdade e da Vida) de Lao Tzu, com uma apresentação extraordinária de Carl Jung, seguida de uma introdução de Herman Hesse. Como se isso não bastasse, leio de A. W. Hummel um prefácio breve mas profundo, e de onde emergem e assaltam-me estas palavras:

«O Tao Te King é o primeiro protesto articulado contra a mecanização e a organização excessiva do homem, e, se abriga incorrectas noções acerca da noção do progresso inevitável, não deixa de relembrar que todas as coisas regressam à sua origem; que "ir longe significa voltar para trás”. O Taoísmo refere que vulgarmente o pronunciamento exacerbado da palavra falha onde somente o toque da luz pode ser bem sucedido. O mundo possui lugar à expressão da humildade, da cedência, da gentileza e da serenidade, porém para se poder tirar proveito do seu benefício devemos: Aprender a desaprender aquilo que aprendemos.»

Que belo conceito esse! Que extraordinário conselho! Mas obra sobrevive ao crivo de apreciações de tanta valia; e sobrevive porque é um manto de sabedoria em forma de verbo, uma expressão desta como o belo que deve habitar em todos nós – mesmo quando o mal nos afronta com o ferro da injustiça, quando a nossa serenidade sobre atentados.

Não resisto a citar duas passagens de Lao Tzu ( Tao Te Ching, I [A Origem dos Contrastes]):

«Quando a beleza é ostentada,
Torna-se origem de fealdade.
Quando se reconhece o bem
Como aquilo que é subjacente ao agradável,
Isso torna-se causa de padecimento dum mal.
Ser e "não-ser" condicionam-se mutuamente,
E alternam-se entre si;
O fácil e o difícil definem-se um ao outro;
Alto e baixo acompanham o oposto;
A existência dá lugar à não-existência ;
Acima e abaixo formam consciência relativa;
"Cumprido" e "curto" são relativos;
Tom e ressonância criam a harmonia;
Estar adiante ou atrás dá a ideia de serem posições distintas.
Por isso o sábio atém-se à não-afirmação,
E trata as questões sem interferir no seu curso.
Não conduz nem prescreve orientações,
Mas ensina por meio da acção e do silêncio.
Aceita o fluxo natural das coisas, bem como o seu declínio
E nutre-as sem delas se apossar,
Pela compreensão de que todas as coisas mudam
E eclodem de modo natural, no seu devido tempo.
Sem que uma única deixe de se revelar e desenvolver.
Age sem intenção e não sustenta expectativas,
Nem noção alguma de pertença ou de alcance de resultados.
Uma vez empreendida a tarefa, abandona a questão.
Justamente por não reclamar qualquer crédito,
Não é desacreditado.
Desse modo o seu ensino perdurará e será tido em elevada estima.»

Lao Tzu (Tao Te Ching, LV [O Caminho Franco]):

«Se tiverdes um pouco de sabedoria
Para percorrer o Caminho Supremo
Todo o vosso cuidado será o de não vos desviares dele.
O Caminho Supremo é amplo e abrangente
No entanto, os homens preferem os atalhos.
Quando nos palácios reina o esplendor
Abundam nos campos o mato e as ervas daninhas,
E a desolação nos celeiros!
As pessoas albergam trajes sumptuosos
E carregam armas cortantes à cintura.
Têm excesso de comida e bebida
E mais riqueza que a que podem utilizar.
Tudo isto constitui arauto do roubo
E nada tem que ver com o Caminho.»

Percebo o nihil novi sub soli numa nova perspectiva, a minha paixão pelos antigos cimenta-se, sedimenta-se, docemente… enquanto a manhã abraça as horas lentas, o Sol faz a terra parir, e três poemas me perseguem, pedindo-me para conhecer o Mundo. Digo-lhes que não, para atentarem nos conselhos de Lao Tzu … mas insistem, dizendo-me que não querem sofrer o abortamento da alma e da memória, que até aceitam ser versos-manjericos (baptismo penitente do não). Acedo, convencido, rendido. A noite, terna, esteve fria; tremeu pelas dores dos meus irmãos do Sudão, da Eritreia, da Etiópia… que sonharam com pão; e gemeu as tripas das dores dos meus irmãos berciários que ka pud levá panela pa lume enquando o meu poeta, meio envergonhado no pensamento e desligado do mundo aparente, bebia a couple of Manhattans. Terna foi a noite, aqui. Lá, lá… está cruel.
.
E a beleza, a beleza não pára de crescer: Andante um poco largo…

Imagem: Emily Scott

  • VOZES DE ATENTAR…
“Não há progresso sem mudança. E quem não consegue mudar a si mesmo, acaba não mudando coisa alguma!”, George Bernard Shaw

«As gajas já nascem cruéis!» – diz o peixinho Jonas.
Imagem: Gigi Edgley