quarta-feira, 23 de junho de 2010

  • LISBOA É «NOVA METRÓPOLE» DE CABO VERDE?
O Governo presidido por José Maria Neves tem um problema congénito de comunicação com o povo de Cabo Verde. Passa grande parte do seu tempo a viajar (nem sempre justificado e em tempo oportuno — v.g., a participação do Primeiro Ministro nas comemorações do 10 de Junho em Portugal me pareceu desadequado e politicamente saloio para não dizer mais. O mesmo se diga do Ministro Manuel Inocêncio Sousa participar numa Conferência paga a 20 euros! na Reitoria da Universidade de Lisboa e que desqualifica quer o membro do Governo quer o Governo a que pertence, além do potencial candidato presidencial ou a outra coisa. A emenda de que "não sabia desse facto" ficou-lhe pior que o soneto, pois demonstra que não cura com coisas que deveria curar.

Mas o Primeiro Ministro continua a dar sinais contrários aos cidadãos com algumas acções e omissões, como é o caso de não querer debater questões fundamentais com o líder da oposição, mas ter tempo para os dialogar com os thugs, para passar horas no facebook (já me perguntaram, com ou sem justiça e com algum acinte, se é essa a governação electrónica do Governo de Cabo Verde) e para debates espúrios e de puro exibicionismo como o de que se deu conta na Universidade Lusófona de Lisboa – que terá, ao nível da qualificação, penso, o mesmo empolamento que teve o encontro de Carlos Veiga com os estudantes no num tempo não muito longe.

Sobre os comentários menos abonatórios às cidadãs membros do Governo e atribuídas ao Primeiro Ministro, elas não ficam bem ao presidente de um Governo – pois este não deveria alimentar essa forma excessivamente descontraída de governar e de dizer as coisas. Pode até ser fora do contexto, admito tal possibilidade, mas a dimensão de Estado de um membro do Governo, em particular do primus inter pares, não permite determinadas afirmações, mesmo que a título de mera brincadeira. Assim, o discurso da igualdade de género e tudo o mais é desqualificado e o mérito se perde por traquinices de raposinhas. A média de mais de um Ministro do Governo de Cabo Verde — além de outras autoridades nacionais — em Lisboa durante o presente ano é, de todo, um exagero e a capital lusa parece e se sentirá com razão a Metrópole de outrora…

Por vezes fica-se com a ideia de que José Maria Neves diz e faz as coisas sem pensar, sem reflectir devidamente; e depois de dizer as coisas descobre que é tarde demais para retirar ou corrigir o que disse ou fez. O entusiasmo deve acompanhar a razão de qualquer político ou política. Mas não! Passado algum tempo volta ao mesmo. Tem sido recorrente algumas decisões pouco racionais, de difícil compreensão no plano político a não ser que se tenha a ideia abjecta de que o povo de Cabo Verde é o tal povo cego; o que não deverá pensar, certamente.

A seu tempo descobrirá que algumas estratégias de comunicação — ou a falta delas — custam muito mais do valem de verdade. O Mundo não é de desatentos, e nem toda a gente dorme — enquanto se dança tango em Buenos Aires e Nova Iorque, come-se kamoca com café na Ribeira das Patas, terra de gente feliz sem saber que o é e que merece mais de tudo.

E dou por mim a pensar que José Maria Neves já está com o pensamento nas presidenciais, e que a sua estratégia para a juventude — mesmo com o desaire de não ver aprovado as alterações à Lei da nacionalidade antes do recenseamento na diáspora — pode vir a embrulhar uma espécie de justiça poética. Afinal, a alteração mais desejada da constituição poderá não ter o efeito mais querido; o que faz muita diferença. A contagem de espingardas terá de ser feita de outra forma, ou o contador ficar como está.

A realidade é que a mesma juventude que, de repente, está menos desempregada na estatística, no papel, tem um papel fundamental a desempenhar com a velha e renovada Metrópole como retaguarda. Mas, parafraseando Aristides Lima: já nada surpreende(rá)… a não ser, parece-me e para os menos atentos, essa de termos governantes cabo-verdianos freudianamente lusos e que, mesmo os ateístas, estarão rezar para o Governo de José Sócrates se aguentar até as eleições em Cabo Verde.

O facto de ter-se numa semana dois candidatos a candidatos a Presidente da República de Cabo Verde em Lisboa a falar sobre as presidenciais é sintomático de que têm consciência de que poderão vir a começar a campanha mais cedo do que o calendário construído e forçado á revelia da Constituição? Pode ser, também; mas David Hopffer Almada aprendeu depressa com os erros do Manuel Inocêncio Sousa; e está-se a fazer tudo par se ter o Auditório da Lusófona a abarrotar para o escutar… e provavelmente ver-se-á quem nunca se viu, e ouvir-se-á o que nunca se ouviu, se o candidato for consequente com as razões que o levaram a candidatar-se em 2001 (o título da conferência a proferir assim o indica, mas duvido que vá tão longe neste momento).

Nunca deixamos de ser o que sempre fomos: colonizados; colonizados morais, ao caso. E a Metrópole ri-se. Mário Soares diz o que diz… porque tem as suas razões, razões que os nossos políticos passam a vida a dar-lhe. Até participamos nas comemorações do Dia da Raça (como os nacionalistas chamam ao 10 de Junho); fazendo uma espécie de assunção política do dia. E o orgulho fere a face de bofetadas de mão de luva branca, mas pensa-se que é uma brisa marinha perfumada, algo de único. A cadeia alimentar é assim; também se aplica ao grau de cegueira.

Imagem: Kai Fjell — Adorning the Bride (1952)

PALABRAS DE SABIDURÍA

La fantasía, abandonada por la razón, produce monstruos imposibles; unida con ella es la madre de las artes y la origen de las maravillas – Goya.

Imagen: El Sábado de las Brujas — Goya

  • WORDS OF WISDOM
The recent economic meltdown was at root not a failure of character or competence, but a failure of ideas, Robert Skidelsky.

Image: Mark Jenkins — Street Installation, Washington D.C

segunda-feira, 21 de junho de 2010

 
  • LA MUERTE DIVINA

Yeshua ha-Notsrí
con todos los pecados del Mundo
quebró su corazón en la cruz.
¡Yo quiero morir
con todos los orgasmos del Mundo!

Imagen: La Sacerdotisa , Milo Manara

  • O DIA DEPOIS DE SARAMAGO
Saramago já cinzas! Também o seremos, um dia. Poucos teremos a sorte de ter tantos anos de vida, e muitos menos as honrarias que a sua arte lhe devolveu; mas o mais espantoso é que – e nisso os homens não são iguais – ainda menos terão a coragem, mesmo errando e equivocando-se, de dizer o que pensam. Escrevia neste blog, a 7 de Outubro de 2000: «Esse Saramago, não fica em silêncio enquanto o mundo perece. Com ou sem razão, faz bem!»

O silêncio envolveu José Saramago; mas também calou parte da consciência do país. O dia depois de Saramago é um depois mais silencioso, mais carneiro. E muitos terão supirado de alívio; pois com ou sem razão incomodava muitos lobos, em particular os lobos vestidos de cordeiro. Discordava na forma e na substância de muito do que o homem José Saramago dizia – por vezes com falhas de razão clamorosas e que me deixavam espantado! – mas admirava e admiro parte substancial da sua obra como escritor e a sua coragem cívica e política... o que muita cidadania não é nem chega para ser capaz. 

O país não perdeu um grande escritor, não; perdeu um crítico social, que com ou sem razão nunca se calou, nunca foi cordeiro da maioria, nunca foi cidadão castrado como a maioria continua a ser. E invejo José Saramago, hoje! Afinal, ele sabe ou não sabe, neste dia depois de ser cinzas, qual é o sentido desta grande aventura. À minha fé tem hoje por hoje a certeza. E eu terei de esperar, com uma curiosidade que sabe a pão de mel num dia de fome…

Imagem: José Saramago

  • PRECE AO DEUS UNIVERSAL

Ó Criador de Toda a Vida,
que apareces na perfeição da Tua beleza,
quão múltiplas são as Tuas obras.
Ó Deus Único, Senhor de toda a Eternidade!
Do Teu espírito emanam todas as criaturas!
Só o Teu amor, a Tua bondade, governam todas as coisas.
Na natureza estão os Teus pensamentos,
pois Tu estás na folha da grama,
no grão de areia,
no raio de luz que flutua no céu,
Assim como no todo sem fronteiras!
Ó Tu que vives eternamente:
Aspiro novamente o doce aroma
que vem da Tua boca,
dia após dia, o meu coração
contempla a Tua beleza.
Tenho desejo incontidos de
novamente ouvir a Tua meiga Voz
e necessito, com todas as forças do meu ser,
que os meus passos sejam guiados
pela beleza da Tua imorredoura luz!
Ó Tu que planas acima de todos os firmamentos:
Dá-me as tuas mãos,
que sustentam o teu espírito,
que eu possa recebê-Lo
e viver somente por intermédio dele;
lembrar teu nome,
por toda a eternidade,
pois Ele não perecerá jamais!
------ Faraó Amenofis IV (Akhenaton), Séc. XIV a.C

Portugal, ou Porto Rico?
(29 de Julho de 1977)

          Aos que por tudo e por nada deitam as mãos à cabeça e se lastimam do mal que as coisas correm, aconselharia eu a leitura da Constituição: quer-se tônico melhor do que aquele primeiro artigo que, solenemente, entre palmas e abraços, proclama que «Portugal é uma nação soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes»? Mas àqueles que, por verdura dos anos ou exuberante florescência da saúde, tendem a ver tudo cor-de-rosa, o mesmo conselho daria. Então veríamos a que alturas subiriam as esperanças dos primeiros, veríamos como trambulhariam ao rés da terra os exageros dos segundos. A panacéia, a cura universal é, afinal, barata, custa na minha edição umas pouquíssimas dezenas de escudos, e bem tolo é afinal este povo português que não percebe a que extremos chega a sua felicidade, abençoada por uma Constituição assim.
           Simplesmente, também em abundância não falta quem à custa do mesmo povo se vá divertindo, ou se diversão não é, então pior, porque é propósito, plano e sua fria realização. Olhe-se para este governo que socialista se diz e tem no rótulo, obrigado a respeitar escrupulosamente a Constituição e tratando-a como mero «farrapo de papel». Olhe-se para a idéia e a prática que o dito governo tem do que seja sociedade sem classes e transição para o socialismo: repare-se nas leis que os ministros produzem e que adequadas maiorias parlamentares têm vindo a aprovar, à esquerda e à direita, segundo a antiquíssima táctica de jogar com os temores mútuos e obedecendo à habilidade elementar de fazer política à vista. Olhe-se, enfim, para não continuar uma enumeração que seria longa, e abandonando por hoje essas ninharias que para os senhores governantes são socialismo e classes, transição para ele e abolição delas, olhe-se no já citado primeiro artigo as palavrinhas que afirmam ser a República Portuguesa soberana e baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular: sorria pois quem tiver vontade de chorar, carregue o sobrolho quem tenha o sestro de andar de caninha na água.
          Sem dúvida que foi a vontade popular, tomada em termos aritméticos, voto por voto, que fez do Partido Socialista (continuemos, para sua vergonha, a escrever a palavra por extenso) partido de governo e governo: mas é contra o povo e, portanto, contra a vontade dele (a não ser que os portugueses sejam irremediavelmente masoquistas) que o governo do Sr. Mário Soares tem vindo a governar, praticamente desde que este celebrado socialista se sentou na principal cadeira do conselho de ministros. Já foi mil vezes escrito, já foi mil vezes denunciado que o Partido Socialista está a governar contra especificações essenciais da Constituição, e portanto contra o povo que elegeu os que a redigiram: evitemos, portanto, as repetições. Quando na semana passada falei de oportunismo e traição, não estava com certeza a pensar no PPD e no CDS, coerentíssimos partidos que sabem tão bem o que querem, que até sabem levar o Partido Socialista a fazer o que a eles convém, cada um na sua altura e segundo o seu interesse. Nisso, o Partido Socialista tem ótima boca.
          Mas onde as coisas atingem o delírio, onde as palavras, coitadas delas, são magnificamente conspurcadas, é quando se fala de dignidade da pessoa humana e de soberania. As palavras, meu caríssimo e único leitor, são infelizes, não podem defender-se de quem lhes troca o sentido, de quem não se sente obrigado a respeitá-las, precisamente porque é mínimo ou nulo o seu respeito pela pessoa humana. Falar em dignidade em Portugal, quando todos os dias se aprovam leis contra o povo, quando a polícia espanca e vem depois esconder a mão, negar que tivesse espancado, quando a subserviência se instalou nos corredores do poder, começa por ser indignidade e acaba por ser perda de sentido moral. O nosso país atravessa uma crise econômica gravíssima, toda a gente o sabe. E também vive uma profunda crise moral, mas essa crise, ao contrário do que se quer fazer acreditar, não tem os seus mais elevados expoentes nem na droga, nem na criminalidade, nem na prostituição: paira mais alto e tem piores conseqüências.
          E agora a soberania. Sim, realmente não somos Porto Rico. Tirando alguns lugares próprios onde naturalmente flutua, drapeja, paira e faz sombra a bandeira norte-americana - é esta a nossa bandeira portuguesa, verde, encarnada, armilada, acastelada e, se a tradição é verdadeira, chagada, que nos cobre a todos, mesmo quando em rigor nos não protege. Porém, a política nem sempre tem a cor das bandeiras. E toda a gente que não quer fechar os olhos ao que é evidente ou não aceita que lhos fechem, sabe que há em Portugal uma «eminência parda» que segura não poucos fios da vida portuguesa, aqueles fios com que se tem vindo a tecer, com mãos de Washington e Duque de Loulé, a rede principal que nos atou os movimentos libertados no 25 de Abril e no Primeiro de Maio. Essa «eminência parda» é o embaixador Carlucci, o homem mais livre que existe em Portugal, se poder é sinônimo de liberdade, se liberdade é isto de dar ordens em Portugal como quem as desse em Porto Rico. Mas a Constituição continua a dizer que somos uma República soberana.
------ in José Saramago, Folhas Políticas 1976-1998, p.19-21

sábado, 19 de junho de 2010

  • PROSTITUIÇÃO POÉTICA E DIVINA
Os autores de alguns blogs made in cv resolveram falar sobre a prostituição. Dos lugares comuns ao retorno à “legalização” da prostituição, como se ela fosse ilegal… passando pela confusão da prostituição com o abuso sexual de menores – isso sim crime! – há de tudo um pouco. Mas achei graça a sentença «A prostituição não tem nada de poético» do João Branco. E achei graça porque existe poucas actividades humanas com tanta poesia como a prostituição; aliás, o próprio acto de fazer poesia é menos poético do que a prostituição enquanto actividade.

Existe, sim, uma dimensão poética na prostituição; na verdade, a actividade é uma contínua expressão da comédia e da tragédia da personae que a vive. Mais: existe uma dimensão divina da mesma. Ah, pois! A prostituição pode ser uma arte, grandiosa e efémera. Uma cortesã não é um pedaço de carne, é muito mais do que isso quando exerce a sua função – é uma verdadeira actriz que se transmuta em efémera companheira, conselheira, contadora de histórias e fonte de prazer. Dá amor, o Eros desejado do seu corpo, e por momentos o companheiro cede todas as suas agruras e necessidades a ele. É um amor que tudo vence, no momento. E por isso Virgílio dizia nas Bucólicas: et nos cedamus amori (rendamo-nos também nós ao amor).

O mundo antigo percebia isso muito bem. E Chrisys de Pierre Louis – das obras que já li sobre o tema – é um dos livros mais maravilhosos da literatura do último século e que nos transporta à esta realidade da antiguidade Grega. E quando Rei descobre que a cortesã que visitava e pagava generosamente os favores sexuais era, na realidade, a sua Rainha…

O século XXI ainda é culturalmente opressor, e ainda não compreendemos muitas das dimensões da liberdade humana. Ainda não tivemos o Renascimento Sexual, e, paradoxo dos paradoxos, tal não culpa da moral religiosa, não. E, bem vistas coisas, a prostituição tem mais benefícios sociais do que malefícios quando vista como um exercício de liberdade e não é sujeita à pacóvia censura moral que, fatalmente, a remete à clandestinidade social. O engraçado é que os maiores moralistas são aqueles acabam por ser achados como clientes das modernas cortesãs.

A verdade é que prostituição verdadeiramente nociva é a moral; e o mal que dela emerge é ainda maior porque, como Baudelaire dizia a propósito do Diabo, a sua maior arma é convencer-nos de que não existe. E nestas coisas existe uma vingança poética, a espreita e a sorrir…

sexta-feira, 18 de junho de 2010

  • O MEU POETA E DEUS
Escrevia um poema em verbo dos três Miguéis, quando, de repente, sou interrompido.

— VB, por vezes deveríamos fazer de Deus… — diz-me o Meu Poeta.
— Deverias escutar os oráculos e o teu coração, Meu Poeta…
— Ah, escuto; sim! E um dos teus favoritos, e o teu coração! ó VB…
— Pois…
— Lembras-te, VB, do que Teresias dizia a Creonte?
— Sim…
— Então, faço de Teresias e pergunto-te: «Em que medida a maior riqueza é ter juízo?»
— A maior riqueza, Meu Poeta, é amar a Deus e a sua criação; e deixá-Lo com o juízo que deve deter sobre esta, mesmo quando, como tu, se é devidamente tentado a fazer as vezes de Deus.

O Meu Poeta quedou-se em silêncio, e eu vou voltar a escrever o meu poema e seguir a cultivar o meu jardim. Mas fico a pensar: «Em que medida a maior riqueza é ter juízo?» As raposinhas são verdadeiramente perigosas… e por isso se deve ter guardas armadas às portas do coração e lavrar o bem no entendimento.

Imagem: Solidità della nebbia — Russulo (1912)

  • INAMOVIBLE ADIÓS
¡Adiós bello cuerpo de oro!
Recorro todos los tomos del mundo
y de del corazón de Adonay
buscando por la tarde milagros
y destinos de improviso enamorados.

Todo está inmóvil y sereno
como la aurora de los tiempos
y el beso que se hunde al hueso de la luz
y de los cielos de los dioses desnudos.

Todo es un montón de sueños,
un mar de bendición y de hambre de todo.

¿Te Hace falta algo, sueño?
Tengo en mi pecho el umbral de tu naturaleza ajena
y sé que es un amante burócrata y infiel
como son los buenos amantes
los que traen en sus manos la eternidad
y son en el amor barbaros como las putas de la calle.

¡Adiós bello cuerpo de oro!
No eres un sueño, eres el sueño y todo.
--- Virgílio Rodrigues Brandão

quarta-feira, 16 de junho de 2010


  • COLD, COLD FELLING, Gary Moore
I’ve got a cold, cold feelin; It’s just like ice around my heart.
I’ve got a cold, cold feelin; It’s just like ice around my heart.
I know I’m gonna’ quit somebody, every time that, feelin’starts.

You treat my like a prisoner, because my hands are tied.
Everything you do to me, is stackin’ up inside.
It’s a cold, cold feelin’ Yea, You’re just like ice around my heart.
I know I’m gonna’ quit somebody, every time that, feelin’starts.

There’s a change in me baby, once I was blind but now I can see.
There’s a change in me baby, once I was blind but now I can see.
I’m gonna’ put everybody down baby,
That ever made a fool outta me.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

  • HUMANIDADE PRISIONEIRA: DE FUKUYAMA A DAWKINS

Acabei de seguir as eleições na Bélgica, e relia Ibn Al Arabi e Francis Fukuyama. E concordo com Fukuyama quando afirma que não existe uma relação causal e indefectível entre desenvolvimento e democracia, ainda que exista uma correlação positiva entre estas duas variáveis da existência humana. Já não concordo com o mesmo quando defende que «liberal democracy may constitute the "end point of mankind's ideological evolution" and the "final form of human government," and as such constituted the "end of history".» É uma ideia recorrente, que Fukuyama defende com brilhantismo em The End of History and the Last Man; ainda que equívoca, pois a sua premissa fundamental, do meu ponto de vista, é falha de sentido; mas isto é matéria para outro foro. Lembrei-me, então, de um outro sentido desta questão, e lavro aqui uma breve nota.

G.N. Clark, no seu discurso inaugural em Cambridge, disse: "Não há segredo ou plano na História que reste para descobrir". É claro que este juízo tem uma premissa dogmática que fere a sua validade ab ibnitio, mas admitamos que tal asserção, ainda assim, seja de considerar.

Mas, mais do que isso, tomemos outra asserção dogmática e finalista, esta de Dawkins. Richard Dawkins, diz que não existem mistérios da vida, que Darwin e Wallace os devendaram. Isto é, a história — no plano teleológico — chegou ao fim; isto segundo G.N. Clark, pois para Dawkins não existem mais mistérios a serem descobertos, o sentido da vida está desvendado e não nos resta nada mais que contemplar a vida e compreender o seu mecanismo (dir-se-á que Francis Fukuyama segue a mesma lógica, no plano da governação da Polis que teria, no actual estádio, chegado ao fim da história, cristalizando, assim, o sistema democrático liberal — o que é um equívoco).

Se é assim, devemos seguir o conselho de um epitáfio deixado há séculos numa Villa romana do norte de África (precede, cronologicamente, o condicional "comamos e bebamos que amanhã morreremos" que Paulo dizia aos helenos de Corinto):
Caçar, banhar-se,
Jogar, rir
— Isto é viver!
Mas não! A vida é mais, muito mais do que isso. O que eu pergunto é: e onde fica o amor e a humanidade que, em sim mesmos, são dos maiores mistérios da vida e os limites de toda a acção humana no devir da existência? A vida não se resume ao sentido biológico e naturalístico nem ao acervo de conhecimentos que o homem acumulou; a vida tem uma dimensão transcendente que impele a humanidade a ser humano, digno e um buscador da transcendência de si e do outro. E é isso que faz a grandeza da humanidade, e é isso a aproxima da essência das coisas, e dá sentido a vida; seja na dimensão biológica — que é condição e não fim da humanidade —, seja na psico-social, i.e., na percepção que temos da gestão da nossa sociedade e da história como devir crono-existencial da vida.

Não se deve querer uma humanidade prisioneira; pois a humanidade é essencialmente espírito. Por isso a humanidade tentará, sempre, compreender não somente o quem eu sou, de onde venho, para onde vou. Não existem mistérios na vida e na história? Chegamos ao fim do quê? O ponto de partida, e a perspectiva com que vemos o nosso objecto é que determina as nossas conclusões — nisso Descartes e Bertrand Russell estão de acordo —; sendo certo que há mais filosofia e verdade na mão do carpinteiro que fará o meu caixão e no beijo da minha amada do que em tudo isto que nós homens engendramos para explicar a mão de Deus escrevinhado um poema que seremos nós, a humanidade.

Imagem: Matéria — Umberto Boccioni (1912)

WORDS OF WISDOM

How many ignoramuses have slandered us spiritual beings! — Ibn Arabi.

Imagem: Abigail Clancy

domingo, 13 de junho de 2010

  • AS ELEIÇÕES DA BÉLGICA. O FIM DO REINO DA BÉLGICA?
As eleições na Bélgica e os resultados do escrutínio. Para seguir ao pormenor, a quem se interessar. E interessa a todos, pois, ao que parece, os belgas não se entendem - e pode arrastar a Europa numa crise que se tem tentado ignorar e evitar. Mas pode-se evitar um nacionalismo genuino, e uma crise de identidade política e ideológica num Estado mosaico no plano político e cultural?

A vitória do N-VA (Nova Aliança Flamenga), que levará a um Governo minoritário e de continuação da crise — pois é improvável que venha a conciliar-se com o PS (que se tornou a maior família política belga), e, acabará por levar os nacionalistas da Flandres a pedir a cisão do Reino da Bélgica. A irracionalidade do voto tem destas coisas, pois a Bélgica precisava de um Parlamento com outra estrutura e de um Governo que pudesse ser sustentado por uma maioria minimamente confortável. Via a estação de Televisão belga LaUne e um jornalista belga perguntava à uma cidadã de Liége, simpatizante e votante do N-VA, sobre o que era preciso fazer no futuro, e ela respondeu:
— Muitas coisas!
— O quê, por exemplo — perguntou o jornalista.
— Oh, não preparei a minha entrevista... — replicou a cidadã.
.
Uma resposta eloquente sobre o que é, de verdade, a liberdade de voto democrático. A Europa não precisava da continuação da crise política belga, e muito menos de um recrudescimento do nacionalismo no seio da União Europeia. O Partido Socialista, com base na sua base de apoio — ao nível da família política —, quererá ser Governo (e muito provavelmente sê-lo-á); o N-VA poderá querer impor uma agenda nacionalista, e pode querer, também ele, ser Governo com base no facto de ser o partido mais votado, ainda que um voto geograficamente concentrado. Será o princípio da continuação da crise que começará amanhã; mas é mais do que isso: é o princípio da cessação da Flandres do Reino da Belgíca, como preconiza o N-VA.

Assistiu-se, hoje, ao fim do Reino da Bélgica? Sim, do seu inelutável início. E o paradoxo é que é um reino desmantelado pela democracia... by the book da História.

sábado, 12 de junho de 2010

  • OS CAMINHOS DE DEUS E PEQUENAS DISSIDÊNCIAS
Decorria o ano de 1989/90 quando conheci um dos seres humanos mais belos e extraordinários que já se cruzaram na minha vida. Terá alcançado, certamente, toda e mais felicidade que uma pessoa humana merece. Ensinou-me uma coisa que então não apreendi de todo: as pessoas podem, por vezes sem querer, ser empecilhos para o desenvolvimento de outras. Foi um pensamento que demorei muito tempo a perceber o alcance, e ainda mais a compreender a essência. Demorou pouco mais de uma década, mas percebi e apreendi o sentido das suas palavras; não tinha a ver com processos de razão, de raciocínio, mas sim com a dimensão prática da vida.

Agora, ao escrever estas linhas, lembro-me de, em meados dos anos oitenta, ter lido um livro de Merlin Carothers chamado Louvor que Liberta, que me levou a ler um outro livro do mesmo autor – O Poder do Louvor. Neste o reverendo Carothers narra um facto que então me pareceu muito interessante: teve um acidente e partiu uma perna, ficando limitado na sua acção, uma vez que esteve acamado e não podia desenvolver com normalidade a sua acção. Mas, mesmo nessa situação, louvava a Deus por isso – o que, da perspectiva do pensamento do cristianismo prático que então abraçava (começava a seguir de perto o ensinamento de John Osteen, Kenneth Hagin, Oral Roberts, Benny Hinn, Kenneth Copeland…), me parecia um equívoco da percepção de Deus. Lia os seus livros com um sentido crítico, crivava os seus ensinamentos: «louvar a Deus, sim; mas não pelo mal que nos acontece» – pensava e dizia a mim mesmo.

Mas, dizia Merlin Carothers, que louvava a Deus – mesmo parecendo estranho a sua acção – em todas as circunstâncias. A realidade é que a sua limitação permitiu-lhe lançar mão de um projecto que adiava há muito, e acabou por fazê-lo durante o período de convalescença, com grandes benefícios pessoais e para a sua comunidade. O que pensava então – e continuo a pensar hoje – é que não deveria louvar Deus pelo mal que lhe aconteceu, mas sim pela misericórdia de o ter salvo de algo mais grave. Nisso residia, essencialmente e então, a minha discordância da sua doutrina de “louvar em todas as circunstâncias”.

Na verdade Deus tem sempre estranhas opções – diz-me o meu poeta. Eu digo que Deus tem caminhos rectos, e justos. Por vezes tem de conduzir-nos pelos atalhos das nossas opções, do exercício da nossa liberdade ou livre necessidade (perdoai-me Agostinho e Aquino, mas é mais esta conclusão de Espinosa que a outra), e colocar-nos na estrada certa. Daí a vox populi – nem sempre compreendida – de que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Sim, Deus faz com que tudo, mesmo o mal, acabe por contribuir para o bem dos que o amam – mesmo daqueles como eu que, por vezes, critica as suas opções, e que penso que deve(ria), tem de haver, uma media via – a essência do tomismo – nos seus planos para a criação.

É assim que hoje compreendo (de uma forma mais profunda do que quando ensinava o Evangelho) o sentido da parábola do filho pródigo, assim como entendo o que me diziam 1989/90: que as pessoas, por vezes, podem ser um empecilho ao nosso crescimento. Por vezes há que perder essas pessoas, deixá-las para trás – a vida, por vezes e naturalmente, encarrega-se disso – para se alcançar um novo horizonte, sem amarras. E isso digo eu que sou um calvinista mitigado (na verdade mais próximo da ortodoxia de Origenes e da heresia necessária de Valentino), no que concerne ao destino é claro; eu que penso que Deus tem o chicote do tempo nas mãos e, cedo ou tarde, leva-nos para onde quer e quando quer. Como dizia Aníbal Barack, «Vê-de como nada pode ser feito contra a vontade de Deus» . O africano teria lido a história de Jonas e atentado no destino de Ninive? Não creio, é muito improvável.

O que sei é que, por vezes – demasiadas vezes –, sinto-me como Jonas. É que não será o homem, por si mesmo, uma media via da essência ou o Φ, a divina proporção, de toda as coisas e seres existentes? Protágoras, se conhecesse David e Salomão, certamente que concordaria comigo… É nestas alturas, quando penso nisso e no mal que alimenta o Mundo, que atrevo-me a discordar de algumas premissas do pensamento do meu Mestre, mas sem nunca deixar de o Amar; afinal o amor é a essência de tudo, e é o vínculo do meu pensamento à humanidade e a Adonai. Mas a espada de talião me parece, por vezes, tão necessária, tão natural, tão de acordo com a natureza…

E sinto-me impelido a seguir o conselho de Helvius Pertinax e a usurpar o derradeiro grito de Cipião Nasica. Afinal, a vida é um vapor, uma dissidência da eternidade.

Imagem: Desenho do Coração, Lonardo da Vinci

  •  MOMENT(O) ZEN
Não se deixe perturbar pelo passado. Olhe para o futuro.
In Regras de Soyen Shaku

Imagem: Dante adorando a Cristo, William Blake

The tyger - William Blake

sexta-feira, 11 de junho de 2010


  • E o que Daniel Cohn-Bendit diz é apenas a ponta do iceberg... e eisto tudo parece-me uns negócios feitos por outras bandas por países europeus amigos.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

| VOZES DE ATENTAR...

«Antes de tudo não mudes; pois tudo está conforme a natureza universal e dentro de pouco tempo não serás nada em nenhum lugar, como não o são Adriano ou Augusto», Marco Aurélio Antonino.

Imagem: Anjo armado no Sepulcro de Adriano (Sepulcrum dos Antoninos).

  • VOZES DE ATENTAR...
People quite often think me crazy when I make a jump instead of a step, just as if all jumps were unsound and never carried one anywhere – Ezra Pound.

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O JULGAMENTO DA HISTÓRIA

O exercício do poder é, em si mesmo, um dado ético. Mas, não raras vezes, os detentores do poder perdem o norte da sua função e passam a pensar somente em si mesmos, no grupo que os sustenta, i.e., os partidos, e não no povo. Quando pensam nos governados acabam ou por ser depostos e considerados cruéis, incompetentes e quejandos. O que vale é que a história acaba, cedo ou tarde, por repor realidade e quem medra no mal acaba por ser devida e eticamente justiçado, pelas urnas ou pela história.

A eternidade, o verdadeiro objectivo do homem, mesmo do homem sem Deus, tem uma balança que se equilibra a si mesma. Mas a imortalidade só se ganha com o bem, e este é uma forma de redenção pelo mal que quem detém o poder acaba por causar pelas suas acções activas ou omissivas pois, e isso é insofismável, o bem de uns representa um mal para outros — não importa a dimensão mas o facto em si.

Cedo ou tarde haverá uma Φ em tudo; para além de Marx e Engells.
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Imagem: Cidadão etrusco... antes de desaparecer da história.  

quarta-feira, 9 de junho de 2010

| LA ESENCIA DE LAS COSAS

La teología es una de las empresas humanas, designadas tradicionalmente como «ciencias», que trata de percibir un determinado objeto o ámbito de objetos siguiendo el camino mostrado por él mismo en cuanto fenómeno, y que procura entenderlo en su sentido, a la vez que expresa el alcance de su existencia. Parece que el término «teología» quiere decirnos que en ella se trata de una ciencia especial (¡especialísimal), de una ciencia que quiere aprehender a «Dios», entenderlo y expresarlo.

Pero, puesto que bajo el término «Dios» pueden darse a entender muchas cosas, son también muchas las clases de teologías existentes. No hay ningún ser humano que, consciente o inconscientemente (o también de manera semiconsciente), no tenga a su Dios o a sus dioses como el objeto de su supremo anhelo y de su confianza, como la razón de sus más profundas vinculaciones y obligaciones, y que en este aspecto no sea también un teólogo. Y no hay ninguna religión, ninguna filosofia, ninguna cosmovisión que no se haya vuelto con alguna profundidad o superficialidad hacia una divinidad, interpretada y descrita de tal o cual manera, y que en este sentido no sea también teología.

Esto no sólo ocurre cuando a esa divinidad se la considera positivamente como la suma de la verdad y del poder de algún principio supremo, sino también cuando se pretende negarla; esta negación, en la práctica, consistirá simplemente en menoscabar su dignidad y su función reduciéndola, por ejemplo, a la «naturaleza», a una pulsión vital inconsciente y sin forma determinada, al progreso o al hombre que piensa y actúa con sentido progresista, o también a una nada redentora, en la que el hombre habrá de integrarse porque tal es su destino. Por nuestra parte afirmaremos que son también teologías esas ideologías manifiestamente «ateas».
------- In, Karl Barth, Introducción a la Teología Evangélica, Salamanca, 2006, p.21-22

Imagen: Yuri Gagarin, en la primera viaje en órbita de la tierra.

| ELIOGÁBALO – O IMPERADOR QUE BEBIA OURO
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Pode-se beber de tudo neste Mundo, mas mesmo tudo! As almas mal intencionadas pensarão no baptismo essénico, as mais cruéis no chumbo quente de torturas de outros tempos, sendo que as mais sofisticadas ou gananciosas de prazer pensarão no ouro. Antonino Eliogábalo – o jovem imperador que, entre muitas inovações, introduziu em Roma o habito de comer-se pratos frios (servidos em serviços de prata) no verão e pratos quentes no inverno; elevou o prazer à uma dimensão exotérica sem sair do corpo. As suas ideias eram tidas pelos romanos como aberrações. Mas houve coisas que os aristoi romanos acabaram por gostar, a força do hábito e da experimentação: bebidas refrescadas com a neve que mandava buscar de grandes distâncias para refrescar as suas bebidas, nomeadamente vinhos que aromatizava com rosas e especiarias.

A rosa, sendo-lhe particularmente querida, era usada, também, para confeccionar as suas iguarias. O que, não raras vezes, fazia. Foi o único imperador cozinheiro, que tenha eu conhecimento no presente estádio do meu conhecimento da história política. Hierocles, o seu marido (sim, isso do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é ideia nova, não), que o diga…

Mas Eliogábalo tinha uma especial predilecção pelo ouro, a tal ponto que introduziu o metal nas bebidas que consumia. Séculos depois, Henrique VIII seguiria os seus passos ao transformar o banquete na sua bebida preferida: vinho com folhas de ouro. Hoje, em muitas partes do Mundo se pode comer ouro! Sim, pizza ou chocolate com finíssimas folhas de ouro; vinhos brancos e licores com folhas de oiro, tudo aparece hoje como uma novidade. Mas não é, tal deve-se a Antonino Bassiano Eliogábalo, o Imperador afro-asiático do império romano; nos longínquos finais do primeiro quartel do século III d.C.

O que é novidade, e disso gosto em particular, é o Black Martini – que tenho uma versão e que chamo Eliogábalo – que é feito com vodka negra e goldschlager (licor com ligeiro sabor a canela e com pequenas folhas de ouro). Mudam os ingredientes, mas a ideia é do imperador divergente. O Black Martini deveria chamar-se Eliogábalo! Pois a ideia de um imperador africano em Roma – terra do martini (ainda que o black martini não leve martini ) – e que gostava de beber ouro… parece surreal, mas é um facto histórico; e digno de ser comemorado e lembrado.

O Black Martini é uma bela bebida para os sentidos, só é pena ser difícil encontrar uma boa vodka negra, goldschlager e, ainda mais difícil, um barman que faça a bebida de forma adequada. Mas as coisas boas são assim mesmo – belas, complexas e com sentido. E, por incrível que possa parecer – ao contrário da pizza com folhas ouro –, beber um Black Martini é não um acto de ostentação, como era para Antonino Eliogábalo e Henrique VIII ter ouro nas suas bebidas, mas sim um acto de prazer, uma espécie de orgasmo no copo. É algo análogo a beber champanhe com morangos, e comer o fruto nas portas do paraíso.

| O MEU POETA, EU E A ETERNIDADE

Há dias e momentos em que nos sentimos aliviados; não por se poder dizer free at last, free at last, free at last! mas porque, como diz o marteleiro do ecco homo, ser demasiado humilde é ser verme. Omnia vincit amor, et nos cedamus amori — grita o meu homónimo das profundezas do tempo. Amanhã será um belo dia, mesmo que chova baba de Cérbero em forma de canivetes e me ofertem duas moedas de prata. Ah! lembro-me que tenho uma moeda de prata de Severo Alexandre no bolso… e uma eternidade para trás e outra ainda maior para a frente; e são como Janus Bifrons.

Afinal, quantos filhos tinha o Conde Ugolino? — pergunta-me o meu poeta.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

| OS SUBTERRÂNEOS

“Eu sempre achei que Cabo Verde não deveria ter sido independente, não assisti à independência de Cabo Verde por isso mesmo” — Mário Soares, in Colóquio Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização.

O que é que esta afirmação e a imagem que ilustra este texto têm a ver com o facto do Presidente Pedro Pires se ter remetido ao silêncio sobre as palavras do ex-Presidente da República da Lusitânia? Os subterrâneos da política têm destas coisas, quase incompreensíveis para uma razão esclarecida. Mas como tenho saudades do Sábado, nada digo agora. Agora… ainda que não deva ser preciso; pois quem percebe, perceberá.

 
| LA JAULA

Afuera hay sol.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.

Yo no sé del sol.
Yo sé de la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.

Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.
Afuera hay sol.
Yo me visto de cenizas.
----- Alejandra Pizarnik

Imagen: Jaimie Mackenzie

quinta-feira, 3 de junho de 2010

  • LA FRAISNE
For I was a gaunt, grave councillor
Being in all things wise, and very old,
But I have put aside this folly and the cold
That old age weareth for a cloak.

[…]

I do not like to remember things any more.

I like one little band of winds that blow
In the ash trees here:
For we are quite alone
Here 'mid the ash trees.
------ Ezra Pound, Umbra, p.13
[estou a ver se compartilho esta obra na íntegra com os leitores de terra-longe]

Imagem: Di Cavalcanti

quarta-feira, 2 de junho de 2010

  • O MUNDO TAMBÉM TEM BOAS NOTÍCIAS
Segundo Boston Globe, a República Popular da China aprovou nova legislação que proíbe o uso de provas obtidas com o uso de violência ou através da tortura. Para muitos é uma afronta aos direitos humanos a obtenção de provas por via da tortura, mas ela acontece em muitos países ditos democráticos…
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Esta decisão da China representa um enorme passo em direcção a dados valores da modernidade e da protecção da pessoa humana. Uma bofetada a muitos países «democráticos» que ainda admitem a tortura como forma de obtenção de provas em processo criminais ou fecham os olhos ao seu uso. Mas, para mim, a grande notícia e virtude desta alteração legislativa é que muitos cidadãos condenados a morte, e com recursos pendentes nos tribunais de apelação, poderão escapar a morte por fuzilamento. Isso se lograrem demonstrar que foram torturados, o que poderá ser relativamente fácil ou não, pois, na China, tem sido prática generalizada e com a conivência de muitos magistrados.
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A luta por um sistema judicial justo e pela abolição da pena de morte na China continuará, esta é uma vitória – uma vitória substancial e que, pela sua dimensão ética, pode ser o prelúdio da emergência da cultura de defesa dos direitos humanos, o que levará a cidadania a reclamar mais e mais até se chegar a um Estado de Direito Democrático. É a primeira grande vitória que, em anos de esforços, de petições e de denúncias que todos nós, os defensores dos direitos humanos a nível universal, temos da China.
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E que ânimo, que felicidade! saber que muitas vidas poderão ter sido salvas por uma decisão que, no ocidente, parece ser básica: a tortura elimina a liberdade, e como tal é inadmissível. Mas existe uma luta enorme pela frente, e há-de chegar o dia em que o que almejamos acontecerá – a abolição da pena de morte, pois a questão da democracia é uma questão ética bem mais complexa do que parece.

Imagem: Instrumento de tradução usada por Julius Sreicher durante o julgamento de Nuremberga (4 línguas simultâneas) no Tribunal Militar Internacional Penal.

terça-feira, 1 de junho de 2010

  • LA ESENCIA LEJANA

Tengo un cáliz de amor y sueños
en la mano derecha, ¡y no es una boñiga!
Estoy en la ventana jadeando
mis deseos de isla
y de mártir
y de vuelo de banderas y estandartes
y de cóndor
y de viento resucitado
y de jardines azules
y negro palomito de sueños
mas sueños que todos los sueños…
y yo voy a regalarle todo lo que soy, hoy.

Insoslayable es todo eso,
yo lo sé, ¿de verdad, es el sueño lejano
como las palomas desnudas del desierto?
¡No lo sé!
Lo que sé es que Hermes es un dios cínico
y tiene Eurídice en sus brazos sin mañanas
y su cantador lejano y de lágrimas de piedra.
Alza el vuelo
hasta la raíz del mar,
del mar sendero de fuego, piedras
y teatros y tú que no dices nada y no me ayudes,
¡ hoy y ya!, a crear una Via Negra para las estrellas
y los rincones de tus besos.

La fundación de todo el dolor…
no es nadie, es El nombre y murmullo.
¿Oyes? Son mil estadios acantilados llorando.

¿Sí es el amor paciente
y si no debe tener gafas y mucho menos dolores?
No lo sé! Soy un miliciano del amor, si…
pero no lo sé…
La criatura de amor se llama destino
y respira copas de oro y bestias de todos los colores.

Sin cesar jamás se despide.
¡Yo quiero cordones de seda y puros
más puros que los de la hacedora cubana!

¡Ah, las escaleras de Dios! y la hacedora cubana…
suena con la fantasía de los hombres
y de su desnudez en el cuerpo ajeno
mientras hierve de placer y liberta
sus manos, sus dedos tremiendo…
en los puros
verte la esencia grasa
de su vaso y entrañas
en los puros
y es la fantasía antes de la fantasía.

Y en la ventana
sofriendo la muerte y la saudade
tengo un Partagás en mis manos
y espero el cair de las cenizas
y la esencia lejana de un paraíso de Cuba
en una tumba abierta de mármol itálico.
------ Virgílio Brandão

Imagem: Di Cavalcanti

  • FORÇA DI CRETCHEU                                                
                                                                 [Morna]
Ca tem nada ness bida más grande qui amor
Si deus catem midida, amor ainda ê maior
Amor ainda ê maior, maior qui mar qui céu
Ma d`entre otros cretcheu, di meu ainda ê maior.

                                                        [côr]
Cretcheu más sabi, ê quêl quê di meu
Ele ê quê tchábi qui t`abrim nha céu
Cretcheu más sabi, ê quêl qui'm crê
Ah s`m pêrdel mort dja bem.

Óh força di cretcheu abrim nha asa em flôr
Dixam alcançá céu
Pám ba odjá noss senhor
Pam ba pidil simente d`amor
Sima ess di meu, pam bem dá tudo djenti
Pa tudo bem conchê céu.
----- Eugénio Tavares

  • VOZES DE ATENTAR
What you call the spirit of the age is in reality the spirit of the Lord himself, in which the age is mirrored — Goethe.

Imagem: Magna Charta Libertatum, outorgada por João sem Terra aos ingleses.  

| ABUSES AND AWARDS


A poet can't be in disfavour,
he needs no awards, no fame.
A star has no setting whatever,
no black nor a golden frame.

A star can't be killed with a stone,
or award, or that kind of stuff.
He'll bear the blow of a fawner
lamenting he's not big enough.

What matters is music and fervour,
not fame, nor abuse, anyway.
World powers are out of favour
when poets turn them away.
----- Andrei Voznesensky