quinta-feira, 30 de junho de 2011

  • PARA ACABAR DE VEZ COM A ESCURIDÃO
O que tem acontecido com a ELECTRA ao longo dos anos autorizaria a pensar que o povo cabo-verdiano é (parece) um povo manso – um rebanho de carneiros mansos –, mas não é nem uma coisa nem outra! E deve mostrar isso aos governantes, e aos administradores da coisa pública. Mas como? – perguntar-me-á. Devem processar a ELECTRA, e deixar de pagar a Electricidade! (Imagem só o que aconteceria se TODOS os cidadãos e TODAS as empresas não pagassem, pelo menos durante um mês – ou no limite do pagamento antes da interrompção do serviço –, a factura à ELECTRA) Se todos proporem acções judiciais contra a Empresa (com ou sem ajuda da ADECO – que deveria tomar uma posição firme e sem forma de dúvida sobre esta matéria) a ELECTRA acabará por ter de melhorar o serviço público a que está adstricto ou ir para a falência, dando origem a algo que sirva os cabo-verdianos.

Proponho aos cabo-verdianos (reiterando uma ideia com barba e anos) o recurso ao Apoio Judiciário (e ao patrocínio judiciário pago pelo Estado) para proporem acções de Responsabilidade Civil Contratual e por Factos Ilícitos em razão dos prejuízos patrimoniais e não patrimoniais que têm sofrido ao longo dos anos. A Ordem dos Advogados, e os Advogados individualmente, têm o dever de patrocinar os lesados de forma a cumprirem com o papel social que a Constituição lhes confere.

É hora de dizer um basta! com acções concretas, da cidadania activa deixar de ser mera retórica ou um conceito apropriado pelos políticos quando lhes dá jeito. É tempo do povo cabo-verdiano acordar da noite escura – não da história, como diria Hegel sobre África – mas do marasmo social do silêncio no mínimo compremetedor e caucionador. Acabem de vez com a imcompetência da ELECTRA ou com a ELECTRA. Sendo condenado a pagar s danos e não patrimoniais, a ELECTRA ou pagaria ou ficaria devedores dos consumidores que poderiam, deste modo, fazer a compesação devida nas futuras facturas enviadas pela ELECTRA.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

  • VOZES DE ATENTAR
Esquadrinha a vida e o carácter de quem vitupera os demais, pois ninguém vive sem culpa (Dicta Catonis, I.5).

Imagem: Ghost Rider – Boris Vallejo

domingo, 26 de junho de 2011

  • PIRATAS, PESCA E POLUIÇÃO
Não é uma apologia dos «piratas» somalis, não; é, sim, a apologia de uma verdade escondida sobre a pirataria na Somália. A ONU tem tido um papel sofrível e censurável neste e noutros aspectos: só decide agir quando os poderosos são afrontados e em razão dos interesses destes. E isso não é, de todo, digno. Mas, afinal, a ONU foi criada para quê (lembram-se)? Remeto-vos à história pós II Guerra Mundial e ao germe e real fundamento das «guerras coloniais». Esta situação somali lembra-me a resposta do pirata capturado por Alexandre Magno: «Senhor, que eu porque roubo em uma barca sou ladrão, e vós porque roubais em uma armada, sois Imperador?»

Um pirata é um pirata! Um poluidor assassino é um poluidor homicida.

Muitos não se preocuparão com este problema somali, mas deveriam. Há ainda poucos anos havia alguns metais pesados em Cabo Verde, nomeadamente o Mercúrio (que era recolhido do fundo do Mar - de um navio afundado - em pequenas quantidades para venda no exterior, nomeadamente na União Europeia); assim como há pouco tempo o Governo de Cabo Verde fez um acordo de pescas com a União Europeia para receber pouco mais de 400 mil euros para os barcos europeus pescarem nas águas territoriais cabo-verdianas (notemos que Cabo Verde tem Zona Económica Exclusiva enorme) e deixando os pesqueiros nacionais – com menos capacidade técnica – sem capacidade de pesca e o país a importar pescado...

  • ASSUNÇÃO ESTEVES, FERNANDO NOBRE E A ÉTICA PARLAMENTAR
«Ours is essentially a tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habitats, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We've got to live, no matter how many skies have fallen» (D.H. Lawrence, Lady Chatterley’s Lover). Poderia o autor destras belíssimas linhas estar a falar do Portugal de hoje, destes dias trágicos e infelizes em que vivemos – onde, at last!, se descobriu que até os juízes, os guardiões da ordem jurídica e da moral social dominante, fazem batota (pior é quando o fazem não na formação mas no Julgamento das pessoas e usam a prerrogativa da «convicção do julgador», uma espécie de poder divino de condenar, para destruir homens bons).

Mas nem tudo é mau, existem boas notícias. Assunção Esteves foi eleita Presidente da Assembleia da República! Que bela notícia para o país! Foi minha professora de Direitos Fundamentais na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (acomulava, na altura, a função docente com a de Juiz no Tribunal Constitucional). É das pessoas mais inteligentes com quem já tive o prazer de privar; com uma dose considerável de vaidade intelectual, é certo... mas tem todo direito a tê-la! ao contrário de muitos pavões que andam por aí. Sempre achei um desperdicio a sua ida para a Assembleia da República... A razão? Não estava entre os seus pares, e a academia portuguesa perdia em muito. Com a sua eleição o país tem um Presidente da Assembleia da República que é uma cidadã com uma dimensão intelectual e humana de excepção. Estar-lhe-ei para sempre grata por me ter apresentado, em particular, o pensamento de Robert Alexy e uma perspectiva alargada dos direitos políticos, económicos, sociais e culturais.

Muitos se apressaram a reduzir este evento ao facto de ser mulher, de ser a primeira mulher a exercer essa função. Que pequenez intelectual! Assunção Esteves sabe(rá) melhor do que ninguém o que fazer enquanto Presidente da Assembleia da República pois conhece a natureza da função e que o povo de Portugal espera da classe política. Reitero: poucos politicos têm a sua dimensão intelectual a humana... Lembro-me de, um dia, alguém ter-lhe furtado uma caneta, e de como ficou desgostosa! Pensei que era uma coisa estranha: um Juiz do Tribunal Constitucional, com uma choruda remuneração, desgostosa por ter perdido ou terem-lhe furtado uma caneta. Uma Montblanc, dizia.

Anos depois, em 1998, ofereceram-me uma Montblanc em Paris, que, curiosamente, foi igualmente furtada, em Albufeira (percebi, então e em analepse situacional, o seu desgosto; não pelo valor material da coisa em si mas pelo que representaria ao nível dos afectos). Nunca fiquei a saber se recuperou ou não a sua caneta (ou esferográfica). Do mesmo modo que achava graça, eu e os meus condiscípulos da FDL, o facto de ela não saber como se ligava e se desligava «essas máquinas» (assim chamava os nossos gravadores que registavam as aulas!). hoje percebo porquê. A data... não. Além do mais é uma mulher glamour intelectual: um sorriso luminar, uma energia contagiente e uma inteligência que se percepciona à distância.

Os deputados portugueses estão, neste aspecto, de parabéns! O mesmo não direi na forma encontrada para dizer a Fernando Nobre que a Estrela de Alva é um aviso milenar: a sua anunciada humilhação pública e parlamentar em nada dignificou a Assembleia da República, e somente a eleição de Assunção Esteves salva os deputados de uma critica mais severa pelo desvio da ética parlamentar. Sacrificou-se a ética parlamentar no altarde uma moral particular, partidária, e com um resultado necessário mas com danos colaterais evitáveis. Salvou-se, no processo, a feliz eleição de Assunção Esteves. Se ao país, por fatalidade, falhasse neste momento o Presidente da República... que bela Presidente teria!

O futuro dirá se ouve um desvio da ética parlamentar para «colocar Fernando Nobre no devido lugar» (como parece) ou houve lugar à uma ruptura mais profunda da ética parlamentar nacional. Parece-me que a coisa é bem mais mesquinha... ainda que devidamente motivada e reactiva.

Imagem: Assunção Esteves, Presidente da Assembleia da República Portuguesa

sexta-feira, 24 de junho de 2011

  • EU E O MEU POETA
É preciso fazer um «Inventário das Promessas Não Cumpridas do Governo de José Maria Neves» – alerta-me o meu poeta.

Imagem: Evolution - Luiz Royo



A DESIGUALDADE JUDICIAL DOS ESTRANGEIROS EXTRADITANDOS NO BRASIL

Mau grado a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal do Brasil, a verdade é que o Estatuto do Estrangeiro de 1980 no que concerne à prisão preventiva é manifestamente inconstitucional, em ostensivo confronto com a Constituição Brasileira de 1985. Tenho uma grande dificuldade em entender como uma Corte Suprema, com tantos juristas de excelência, não declara inconstitucionais as normas (de excepção em relação ao Código de Processo Penal Brasileiro) que obrigam a manutenção da prisão preventiva durante todo o pleito extradicional. Simplesmente não existe um prazo limite para a prisão preventiva, e muito menos situação que legalmente permitam a sua alteração por outra medida de coacção.

O Ministro Luiz Fux, en passant, aflora neste processo a questão real: o tratamente desigual – ex lege – do cidadão estrangeiro em relação ao cidadão brasileiro (não só sobre a questão da prisão preventiva em si, mas também sobre a questão da imputabilidade). O plenário, como em outras ocasiões, ignorou o mérito da questão.

A minha admiração pelo Ministro Marco Aurélio, em da sua consciência do mandato de optimização constitucional da defesa e do seu humanismo, cimenta-se (não concordo com ele, neste caso, na questão do internamento do inimputável, a não ser no plano de aplicação da Convenção sobre o cumprimento de pena) pois revela-se, tem-se revelado, um Juíz da substância e não da forma: um homem e não um mero funcionário atrás de Beca de Juiz ou Ministro. Um dia destes, o muro de silêncio sobre esta discriminação dos estrangeiros cairá (a norma, compreendo, protege o sistema judicial brasileiro e os seus atrazos... e a ponderação que está na base da sua manutenção, da não declaração da sua inconstitucionalidade pelo STF, é, de todo, injusta e até mesmo corporativa). Até lá... caberá aos defensores dos extraditandos no STF o pugnarem por aquilo que é o seu dever: defender a igualdade constitucional ente nacionais e os estrangeiros, e levar essa luz aos Ministros do Supremo Tribunal Federal. Cedo ou tarde compreenderão a razão da razão.

  • A NORMALIDADE DAS DOENÇAS MORAIS E OS MANDATÁRIOS DE MANUEL INOCÊNCIO SOUSA
Qual é o problema de Manuel inocêncio Sousa ter a Cristina Fontes, Ministra da Saúde, como Mandatária nacional da sua candidatura a Presidente da República? Qual é o problema do mesmo candidato ter como Mandatário na Holanda o M.I. Luís Karateca, proprietário de uma sex house, um cidadão que ganha a vida à custa do "trabalho" (exploração, noutros quadrantes) sexual de outrém? – perguntam muitos.

Não é, prima facies, ilícito a Ministra Cristina Fontes (que tenho como uma mulher inteligente, e pessoalmete acho uma bela mulher!, i.e., com atrativos e mais valias eleitorais consideráveis na corrente sociedade) ser Mandatária do candidato presidencial... mas nem tudo o que é lícito nos convém – advertia S. Paulo aos coríntios. Dizia prima facies, pois no plano mais fundo dos princípios é um membro de um órgão de soberania, o Governo, a interferir, directamente, na formação da vontade dos cidadãos na escolha de um outro órgão de soberania – o Presidente da República. Isto é: o princípio da separação de poderes é, em concreto, ferido com a intervenção directa de um membro do Governo na estrutura de campanha do candidato Manuel Inocêncio Sousa (que, infelizmente para ele, dificilmente escapará do que é na realidade e do que lhe é destinado: ser o Delfim e tocador de tambor de José Maria Neves). Isso para não falar de outras razões... mas esta já é prova bastante da ilicitude de tão inusitada ou inocente iniciativa.

No que concerne ao Mandatário na Holanda... é legal e legítimo ter-se um negócio desses na Holanda. Não se pode, nem se deve!, cencurar o Mandatário Luís Karateca pela natureza do seu modo de vida e num país que o admite (quem me conhece, um pouco ao menos, sabe que estou muito longe da moral dominante nesta matéria). O que é cencurável é o facto que tal modo de vida, em Cabo Verde, seria considerado crime e, no plano social global, censurado pela maioria da sociedade.

Não é a prostituição que está em causa – pois ela até tem uma dimensão social útil e considerável –, como alguns querem fazer crer; o que está em causa é, sim, o facto de que a escolha deste Mandatário veicula a ideia de que o candidato presidencial cauciona uma forma de vida que é censurada pela maioria dos cabo-verdianos e é considerada lenocínio em Cabo Verde e na maioria das nações civilizadas que o país tem como referências éticas. Assim, o que parece lícito prima facies, não o é... na realidade do universo do candidato: Cabo Verde. Perceberei as razões da escolha deste Mandatário, mas tal não é avocável aqui e muito menos chamado à colação.

Estas duas situações, a comfirmarem-se, são dois erros de casting ou erros compreensivos da realidade por parte da candidatura de Manuel Inocêncio Sousa. Estas realidades não são evidentes? Deveriam ser! e aqui é que reside a preocupação deste escriba. Recorrendo à analogia. Acontece o mesmo com a lógica da limpeza do pintor/operário: no primeio dia tem todos os cuidados com a roupa limpa, mas depois esta é manchada por uma gota de tinta ou de óleo, e tenta limpá-la. No dia seguinte acontece o mesmo, e tenta disfarsá-la. Ao terceiro dia... já nada faz. Ao quinto... já limpa as mãos na sua roupa. E como não pode ter roupa nova todas as semanas, lava-a. E um dia descobre que tem uma roupa tão incrustada de tinta que não consegue distinguir a tinta do tecido; comforma-se com isso, e até começa a gostar da sua roupa suja, que esteja limpa ou suja terá sempre a mesma aparência externa.

O mesmo acontece com as doenças morais e a desconsideração ética endémica: determinadas acções censuráves, pela sua repetição, tornam-se «normais» para os seus agentes, não o sendo, no entanto, para a comunidade no seu todo. O perigo reside no facto, em razão das relações de poder, de uma minoria poder impor esta sua visão de uma «normalidade» anormal... pois é ilícita, moralmente inaceitável e eticamente insustentável.

Imagem: Guilty Pleasures _ Luis Royo

domingo, 19 de junho de 2011

  • A INFAUSTA ADESÃO AO TPI OU A RES NÃO BOA
Eis algo com que não posso concordar com Aristides Lima. Porquê? Porque tal seria feita com base numa norma constitucional inconstitucional. E o jurista Aristides Lima, um dos melhores do país, sabe isso (não pode deixar de saber...). A defesa desta tese de adesão de Cabo Verde ao TPI é o caucionar, ex post, da mutilação da Constituição na última revisão. E, em última análise, defender a violação da dignidade humana que, como é consabido, é imcompatível com a pena perpétua.

Como é que se pode defender a dignidade humana e, ao mesmo tempo, caucionar a sua violação (Aristides Lima perdeu a oportunidade de se demarcar da infausta revisão constitucional que a Assembleia Nacional que presidiu aprovou; a história não absolverá os deputados que a fizeram!).

A colaboração a União Europeia em matéria de direitos humanos não passa, necessariamente, pela adesão ao TPI e, a demais, não pode ser feita à custa dos direitos humanos dos cabo-verdianos, nomeadamente do sacrifício dos direitos, liberdades e garantias fundamentais dos nacionais de Cabo Verde. Aristides Lima é candidato à Presidente de Cabo Verde, assim como os deputados da nação cabo-verdianas são de Cabo Verde, e não da União Europeia e dos seus interesses. Confesso que, nesta matéria, esperava mais de Aristides Lima... mas a surpresa é a mãe dos dias. Sempre o connatus essendi, ao caso do animal político de Aristóteles e Ibn Khaldum. E um animal sob a égide do instinto, seja qual for o adjectivo que o qualifica, é um animal tout court.

Imagem: Aristides Lima, candidato à Presidente da República

sábado, 18 de junho de 2011

THE ANGEL

The angel was flying through sky in midnight,
And softly he sang in his flight;
And clouds, and stars, and the moon in a throng
Hearkened to that holy song.
He sang of the garden of God's paradise,
Of innocent ghosts in its shade;
He sang of the God, and his vivacious praise
Was glories and unfeigned.
The juvenile soul he carried in arms
For worlds of distress and alarms;
The tune of his charming and heavenly song
Was left in the soul for long.
It roamed on earth many long nights and days,
Filled with a wonderful thirst,
And earth's boring songs could not ever replace
The sounds of heaven it lost.
------ Mikhail Lermontov

  • EU E O MEU POETA

Deveríamos ser capazes, todos, de ver um pouco mais além – diz-me o meu poeta.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

  • DOUBLE PLEASURE

I am looking for roman coins of Didius Julianus (max. May of 193 AD), Antoninus Bassianus (max. 198, 201m 211 and 212 AD), Septimius Severus, Clodius Albinus, Ophelius Macrinus, Diadumenianus, Antoninus Eliogabalus, Severus Alexandre. I buy coins of the IV Legio Scythica.

Image: The kiss, Rodin

terça-feira, 24 de maio de 2011


My heart is a place of prayer... says the poet.

Mo feran oyon!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

  • HUMANA CONDITIO
I finally got the book that will help you to understand women better: Women's Manual.
Have you got a copy?

  • I AND MY POET
I am losing weight because I want, and trust in humanity… because I need, and it grows too – I told to my poet.

Image: The poet Etienne Carjat Baudelaire

  • A KAREZA DAS QUECAS

Quecas dadas, quecas não dadas.
Quecas tentadas, e por outras sonhadas
são, ainda assim e na convicção, quecas.
E se são quecas, são karas.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

  • O NOMEM E AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS
Pedro Pires marca as eleições presidenciais cabo-verdianas. Só se surpreende com a marcação das eleições para o dia 7 de Agosto quem não quer ver… era expectável que assim fosse. O padrão anterior assim o indicava, e até já tinha comentado isso com pessoas amigas. Sem surpresa. Agora, Pedro Pires (que é neste momento Presidente de cabo verde em violação flagrante da Constituição da República) invocar a integridade constitucional, o não querer violar a Constituição, quando o viola todos os dias, para fixar tal data é… caricato! Não quer ficar além do mínimo, e não quer dar a ideia de que pode ficar ad aeternum em função dessa dupla gaffe constitucional da revisão de 2010.

Não se viola só um c’zinha… não!

Seja como for, o mal o menor será a eleição ter sido marcada para Agosto? Esta é uma situação, de ordem pratica e não despicienda, que pode(rá) ter influência nas eleições; daí, por razões diversas, o MPD e o PAICV desejarem as eleições mais tarde. No plano da ética política esta decisão das eleições serem realizadas no mais curto espaço de tempo possível era, no mínimo, o seria de esperar de quem foi Presidente de República de Cabo Verde durante dois mandatos e que, por usurpação do poder soberano do povo pela Assembleia Nacional (que agiu como se o sistema político cabo-verdiano fosse o que não é) e uma violação funda da Constituição, continua a ter o nomen de Presidente da República mas que, em verdade, não o é no plano de uma leitura profunda e devida da Constituição.

Isso de ser-se democrático não é (de)forma, não; é mater. E há quem não veja por não querer! E à memória vem o velho adágio sobre o "pior cego", e aqueloutro sobre o Rei que o é por ter um olho... Tudo faz sentido, se pensado e compreendido; o que, a final, não é coisa fácil quando a liberdade do outro é semântica para os cortadores do queijo. Terra de nomem se tornou a minha.  

Imagem: Blind – Paul Strand

  • V ESTAÇÃO - HUMANA CONDITIO
Há quem se lembre de rir e de chorar connosco, "antes do Vesúvio ejacular as chamas da eternidade em anónimos..."

Há coisas a que se não é obrigado, e por isso são belas; sublimes até. Gosto de falar, mas as palavras cansam-me... como se fossem o asno de Nietzsche, quase que o sendo. Quase… ao alcance da vontade, e da consciência: mudar o Mundo seria fácil, se pudesse mudar o coração de um único homem, se pudesse fazer os «imortais» perceberem que um pirilampo não é o Sol ou alimento, que ter dinheiro para uma cerveja não o mesmo que para o banquete de Henrique VIII.

Há estações em que as pessoas revelam-se belas. E depois… depois é sempre depois. Será por não fazer sentido haver uma VI Estação?

Imagem: Dora Maar, Man Ray

terça-feira, 10 de maio de 2011

A      Paradise is very expensive... Mohamed.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

  • AS VIRGENS DE O
Alguns Media ficaram tão felizes com a morte de Osama Bin Laden que, por erro, anunciaram que «Obama has been shot». (A Globonews anunciou, sem mais, a morte de Obama; mas era, na verdade, uma Páscoa serôdia.) O Presidente Obama estava política e tecnicamente morto por suicídio induzido... mas a morte de Osama Bin Laden ressuscitou-o! Michelle Obama, John McCain e o meu poeta e tutti quanti pensarão: «Deus! O que 72 virgens não são capazes de fazer...»

Tristes dias, estes em que comemora-se a morte de um ser humano, e, o que é pior, existem razões de ordem da racionalidade prática para sustentar esta aleivosia contra a humanidade em e por si mesma. O que é trágico... ou será que é somente a manifestação do que poucos são capazes de ver e de sentir? Sim, será que o sentimento trágico da vida está a democratizar-se e a globalizar-se? Anuncia-se a morte dos poetas e dos sonhos, e o Ragnarök é inevitável.

  • DE NOVO: DENTE POR DENTE
Acordo. Osama Bin Laden foi morto. O Mundo está mais seguro? talvez... mas é uma grande vitória de Barack Obama, quando mais precisa(va). A tentativa de matar M. Al-Kadafi e a morte de civis líbios pela NATO [numa acção militar que viola a Carta da ONU e que constitui verdadeiro crime de guerra pois tal acção conssubstancia uma agressão ilegitima; mesmo aprovada pelo Conselho de Segurança, este tem os limites da Carta!] serão esquecidas, secundarizadas. Eu, como Sancho Panza, não creio em coincidências; mas... que estamos perante um profundo retorno civilizacional e ético, lá isso estamos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

  • UN ODIO Y UN HOMBRE

El viento del sol de sábado grita
que es tarde para los corazones desafinados:
me lleva a su Nilo lo que quiero
y lo que quiero son mil sueños tumbados
y todo lo que quieres olvidé mucho antes de ayer
llegar con su dolor de plumas,
piedras lentas…
y el doctor dictar lo que todos sabemos:
la locura es eterna,
un hombre dura menos que un odio
(donde que el silencio es más grande que el dolor)
que Dios suporta hasta escuchar la voz del justo.
Y Él se queda en silencio.
Sabe que un hombre dura menos pero vale más
que un odio.

El mundo está enfermo.
Sangra crueldad y vergüenza espuria.
¡Sábelo el viento! y no está claro de dónde proceden las voces
del descamino de Otelo y su amor blanco.
Hoy es el Dia de resucitar
y estoy fumando un puro Montecristo
para acordar la mañana y besarla,
besarla como un loco, como si fuese mi amor.
Lisboa, 18-04-2011
Virgílio Brandão

terça-feira, 12 de abril de 2011

Texto censurado no site do Pastor-deputado Feliciano:

M.I. Pastor-deputado Feliciano:

a sua explicação justificadora é como diz o povo: pior que o soneto. Tenho pena que não seja capaz de distinguir entre o ser racista e veicular uma doutrina racista que justificou, durante séculos, a escravatura dos negros africanos em todo o Mundo. Cita Flávio Josefo (um historiador judeu com cidadania romana que, enquanto oficial das legiões romanas e sob a ordem de Tito Vespasiano – o pai e o filho – participou no cerco de Jerusalém e na destruição do Templo de Salomão, reconstruído por Herodes o Grande, e que, estava imbuído do semitismo pós lei Mosaica), cuja fonte «histórica» é a mesma que hoje temos: a dimensão do mito e que, nesta citação em particular, lavra em erro. Não pode confundir estas considerações de Flavio Josefo sobre a mitologia judaica com as narrações que faz em «Histórias das Guerras Judaicas», que presenciou, foi interveniente e narrou (esta obra, sim, granjeou-lhe a fama de historiador). Mutatis mutandis, mutaitis mutandis… M.I. Pastor-deputado Feliciano.

O seu erro teológico, de que não se retrata, é inferir que a negritude é uma maldição... e que tal maldição é causa da escravidão. Mais: que essa causa da escravidão se mantem até hoje!, que somente o negro que se torna cristão se liberta desse jugo maldito herdado de Cã. Isto é: admite que o negro, por causa da verticalidade da decisão divina, está condenado a ser escravo; mesmo hoje, pois Deus não muda de parecer no devir da História (só a Cruz, e o mandado de Jesus a Nicodemos são susceptíveis de abolir). Que barbaridade! Que afronta! Ver tal assunção num Pastor evangélico e num representante eleito do povo brasileiro é, no mínimo, vergonhoso e infamante. Lê-lo transporta-me ao paleolítico da Teologia.

Isso, Pastor-deputado Feliciano, levado às últimas consequências, poderá vir a ser causa de pedido de cassação do seu mandato como Deputado federal… é que um representante do povo não pode defender doutrinas racistas, promovedoras da escravatura ou de menoridade existencial dos africanos. Atente no absurdo da sua posição…

M.I. P. Feliciano, não me pode acusar de ser um Scápula dos cristãos, não! Sou cristão, e, muito provavelmente, já pregava a Boa Nova antes de V. Senhoria se tornar um cristão. Escrevi-lhe uma Carta Aberta, ontem, e espero que lhe seja útil para perceber a barbaridade da sua posição e, a final, arrepender-se do que disse e reitera.

Não é sua genealogia que fala por si, são as suas acções; pois pode ter ascendentes afro-brasileiros e ser racista (deveria saber que elas não são incompatíveis, logo não pode ser usado como argumento de defesa e de justificação da atoarda racista que veiculou e continua a defender). Mas acredito em si quando diz que que não é racista. O problema é que defende uma doutrina objectivamente racista e justificadora da escravidão, e com tal comportamento viola as leis brasileiras… e é pena não ter consciência disso!

Neste aspecto, não são os seus detractores que o querem enterrar (e também os há e haverá, sei), não. É o Pastor-deputado Marco Feliciano que se enterra a si mesmo, e faz isso defendendo o indefensável, veiculando a barbárie e praticando a aleivosia. Mas tudo isto é um problema de saber, de conhecimento…

A terminar, digo-lhe que se fosse um Teólogo mediano nunca diria que Deus não muda de posição, que a «sua palavra não volta atrás» (a Palavra de Deus não volta para si vazia – mas isso é num outro contexto; é uma questão de domínio da hermeneutica bíblica que, definitivamente, não é o seu forte) pois isso está tão longe da verdade como o fundo da Fossa das Marianas está da constelação de Andrómeda. Bastaria lembrar-lhe, v.g., da estória de Sodoma e Gomorra, do Rei Exéquias, de Nínive ou do Capítulo I do Evangelho de João para infirmar o que diz… enfim, M.I. Pastor-deputado Feliciano, erra e persiste no erro.

Orarei por si, para que Deus o ilumine.
Abraço fraterno
Virgílio Brandão

  • O CENSURADO
O Marco Feliciano publicou no seu sítio na web uma explicação justificativa da sua declaração sobre a maldição dos africanos no twitter. Como tinha escrito uma Carta Aberta ao mesmo… não resisti a comentar o texto. Mas, surpresa minha!, fui CENCURADO. Não tive tempo para o publicar o texto em causa, mas faço-o agora, passados alguns dias.

Fica o texto Pastor e o comentário que foi censurado, ipsis verbis. Note-se que, no entanto, Pastor-deputado faz algumas considerações que me parecem assertivas; mas não são o objecto da vexata quaestio em causa. Há muitas formas de silenciar ou de se tentar silenciar as pessoas; mas neste caso o problema é de incontinencia verbal. Censura à liberdade de pensamento religioso no sítio de um Pastor e deputado federal… coisa bizarra!

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Pr Marco Feliciano fala sobre polêmica no Twitter

– 31 de março de 2011

Após algumas horas de uma postagem na internet: AFRICANOS DESCENDEM DE ANCESTRAL AMALDIÇOADO POR NOÉ. ISSO É FATO. O MOTIVO DA MALDIÇÃO É A POLÊMICA. NÃO SEJAM IRRESPONSAVEIS TWITTERS rsss Fui alvo de milhares de pedradas, sapatadas, raquetadas, “twittadas”, e ainda virei matéria de midias como UOL, etc. O que gostaria aqui de explanar, explicar e logo depois DENUNCIAR é algo grotesco e absurdo!

Primeiro a Explanação:

Gn. 9:22-25 – E viu Cão, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber a ambos seus irmãos no lado de fora. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e os seus rostos estavam virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera.E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos.E disse: Bendito seja o SENHOR Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por escravo.

No texto acima temos a citação biblica onde Noé amaldiçoa o descendente de Cão, ou seja, toda a sua descendencia, pois Canaa era o mais moço. Canaã representa diretamente a descendencia de Cão representando todos os seus filhos.

Gn.10:6 – E os filhos de Cão são: Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã.

Acima vemos os filhos de Cão. Entre eles Cuxe. Veja abaixo a citação do Historiador Hebreu:

Flavio Josefo dá conta da nação de Cuxe, filho de Cam e neto de Noé : “Para um dos quatro filhos de Cam, o tempo não para toda a mágoa o nome de Cush; para a Etiópia , sobre o qual reinou, são ainda menos Neste dia, tanto por si e por todos os homens na Ásia , etíopes chamados. “(Antiquities of the Jews 1.6). ( Antiguidades dos Judeus 1,6).

Bem, citando a bíblia e a história, a veracidade sobre a postagem. AFRICANOS DESCENDEM DE CÃO, FILHO DE NOÉ.

Segundo a Explicação:

Como Cristãos, cremos em bençãos e portanto não podemos ignorar as maldições. Recai sobre o homem o peso da lei, toda vez que por ele a lei é quebrada.

Ex.34:7 que conserva sua graça até mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a rebeldia e o pecado, mas não tem por inocente o culpado, porque castiga o pecado dos pais nos filhos e nos filhos de seus filhos, até a terceira e a quarta geração”.

Alguns creem que tudo acontece aqui na “horizontal” da existência, tipo, problemas vem por culpa do governo, empresarios, etc. Mas nós cristãos cremos que existem coisas que vem da “vertical”, ou seja, cremos que Deus governa o mundo. E sua palavra não volta atrás .

Todavia, também cremos que toda vez que o homem, a familia, o país, entrega os seus caminhos ao Senhor, toda maldição é quebrada na cruz de Cristo!

Tem ocorrido isso no continente africano. Milhares de africanos, tem devotado sua vida a Deus e por isso o peso da maldição tem sido retirado, afinal esta escrito na palavra de Deus:

Is.10:27 – A unção despedaça o jugo!

Gl. 3:13 – Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;

Terceiro a DENUNCIA:

Desde o periodo das eleições, quando apresentamos ao povo evangélico as leis que tramitavam na camara, como a Pl. 122, comecei a receber ataques, ameaças, xingamentos, e outras coisas mais que não vale a pena citar aqui. Um dos seus representantes mais atuantes, um parlamentar eleito, ao assumir seu lugar em Brasilia, chamou a imprensa e declarou guerra a bancada evangélica. Sou o Deputado Evangélico mais votado do País. Dai seus tiros contra mim, através dos seus asseclas que ficam no twitter a espreita, procurando alguem que possam denegrir. No twitter existe um grupo de homoafetivos que deturpam tudo o que digo, e dessa vez foram longe demais! Esparramando pela midia uma matéria esdruxula! Ja fui entrevistado hoje por muitos jornalistas, alguns sensibilizados por compreenderem do que se trata, outros irritados ja me chamando de HOMOFÓBICO E RACISTA.

Alerta a comunidade evangélica! Estamos sob fogo cruzado! E é preciso uma ação coletiva de repudio a esses ataques e a essas infames insinuações, pois isso pode provocar o ódio, a cólera, a ira, e sabe Deus o que mais.

Recebi uma mensagem de ameaça de morte dizendo que estou na lista ao lado de pastores como Silas Malafaia e outros.

Conclamo a Mídia Cristã responsável, pois existem tambem no nosso meio cristão uma MIDIA MARROM, inescrupulosa, baixa, irresponsável e leviana, que se alimenta de especulações e fofocagens! Nesse momento não é o meu nome que está em jogo, nesse momento estão em jogo comigo MILHÕES DE CRISTÃOS QUE LUTAM PELA FAMILIA ASSIM COMO EU.

Que fique bem claro aqui de uma vez por todas, NAO SOU HOMOFÓBICO. O que as pessoas fazem nos seus quartos não é do meu interesse. Sou contra a promiscuidade que fere os olhos de nossos filhos, quer seja na rua, nos impressos, na net ou na TV. Respeito o ser humano, mas tenho o direito de ser repeitado também! NÃO SOU RACISTA! Sou Brasileiro com um sangue miscigenado, por africanos, indios e europeus. SOU CRISTÃO sim Senhor.

Peço oração a todo o povo cristão brasileiro, os que lutam pela familia, os que amam ao Senhor, e os que me conhecem há tempos, e sabem que como todo brasileiro sou afro-descedente. Auxilío missionários no continente africano com sustento. E ja estive por lá e bem sei da luta daquele sofrido povo. E oro por eles!

Um abraço fraterno naquele que quebrou todas as maldições, Jesus o Senhor!
Agradeço a toda mídia brasileira pelo respeito e apreço.
Pr. Marco Feliciano
Deputado Federal PSC-SP

  • EU E O MEU POETA
Anotava ao meu poeta:

Dizia o sábio Shi Nai Na: «Não desprezes a cobra por não ter asas, porque quem é capaz de dizer se um dia não se tornará num dragão?» pois é… por isso e mais que amo as mais evidentes das palavras sábias de Coélet. Tomás de Aquino ou Espinosa? Who cares? para nos preocuparmos precisamos de saber... e ser. E ambas as coisas são demasiado difíceis para a antecâmara da podridão, para quem espalha; junta só conhecem, estes, as de bois. .

Qualquer instante é mais diverso e profundo do que o Mar... Jorge Luis Borges (1964)

segunda-feira, 4 de abril de 2011


SOBRE A «MALDIÇÃO» DOS AFRICANOS:
CARTA ABERTA AO PASTOR-DEPUTADO FEDERAL DO BRASIL MARCOS FELICIANO


Lisboa, 04 de Abril de 2011

M.I. Pastor-deputado Marco Feliciano é a consciência de um negro consciente da Grandeza dos seus ancestrais (e da responsabilidade intelectual que tenho) que impele a minha pena, mesmo num momento em que demando silêncio a mim mesmo, mas desdito-me de tal forma da Vossa afirmação de que os africanos são «amaldiçoados» que não resisto a escrever-Vos este breve apontamento em forma de brevíssima Carta Aberta.

«Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polémica. Não sejam irresponsáveis twitters.»

A Vossa afirmação, como reiteraste posteriormente, é da ordem da hermenêutica bíblica. Sim, é verdade; concordo consigo neste particular. Mas é de uma hermenêutica bíblica racista, historicamente racista e xenófoba… e tem o dever de o saber, como estudante da Bíblia e político. E a conclusão do seu juízo é a de um mau teólogo, provavelmente formado à pressa ou um self made teologian, de quem não conhece as coisas na sua verdadeira dimensão (confundindo as dispensações e, pior: esquece a graça de Deus; a não ser que seja, também, um deliverance preacher – mas mesmo assim não escaparia às críticas de substância inerentes ao juízo em si); e, sendo lícito ter as opiniões publicas que lhe aprouver, não lhe convém como um político com as responsabilidades que detêm. Não servir a dois reinos tem aqui, de todo, uma dimensão fina… e não cito Agostinho de Hipona por inferir que V. Senhoria terá em pouco a autorictas da sua docta opinio.

M.I. Pastor-deputado federal Marco Feliciano, atentai por momentos neste apontamento sobre as origens de África na tradição religiosa judaica, grega e cristã que anotarei aqui nesta carta (encontrará, em breve, parte desta anotação no meu livro «Os Imperadores Africanos do Império Romano»). Anoto que a sua oração tem, tem de ter!, um artigo a mais... pois o motivo da maldição não é «a» polémica... Terá querido dizer que «O motivo da maldição é polémica». Começo com esta bondade hermeneutica; se não for o caso, que faça um interpretação autêntica da sua afirmação.  

África, segundo a tradição bíblica ou judaico-cristã, terá as suas origens em Cush (Génesis, X), geralmente identificado como neto de Noé e filho de Cã e que foi o Patriarca das nações da antiguidade conhecidas como cushitas e hoje o Egipto e o Sudão que partilhavam na antiguidade não somente os benefícios do fecundo rio Nilo, mas uma cultura de base comum, ou muito próxima.

O filho mais novo de Noé, chamado Cã, é considerado – numa interpretação sui generis do primeiro livro da Tora e que uma muito profícua, prolixa e secular literatura teológica dá voz – o causador da negritude (Génesis, IX:20-27). Esta história das origens do Egipto e do Sudão (erradamente se referindo à Etiópia) foi usada por muitos para fundamentar a escravidão dos negros, com base na ideia de que estes seriam povos amaldiçoados ab ibnitio, isso antes de aparecer o argumento do racionalismo científico de Hegel para sustentar, noutro plano e para além da teologia bíblica, esta tese e a divisão de África na Conferência de Berlim de 1885 (leia – a este propósito e para compreender a divisão de África e que tem sido a causa de muitas maldições de África, nomeadamente o Colonialismo e a pobreza estrutural dos povos africanos – «Filosofia da História» de Hegel).

Cush, filho de Cã, levaria a marca da maldição de Noé ao seu filho Cã: a negritude. E tudo por causa de uma decisão tomada durante uma «ressaca» de vinho, e das consequências da mesma (deixemos as demais mensagens subliminares inerente à tal narração, nomeadamente sobre a natureza feminina, para eventual núpcia dialéctica). Segundo a Bíblia esta foi a primeira bebedeira de um ser humano, e as consequências foram um comportamento inadequado de Noé e a maldição do filho, que foi expulso no meio da ressaca do pai e, por inferência hermenêutica de muitos, ficou com a marca da negritude. Esta foi a maldição de Noé. Alguns autores admitem a possibilidade, sórdida e sem fundamento bastante, diga-se – além da mera especulação –, de que Cã terá tido relações homossexuais com o pai, Noé; e que seria essa razão a causa da maldição, e não o facto de Cã não ter escondido a condição de alcoolizado do seu progenitor e do abuso sexual que este terá perpetrado nos filhos.

Este é o motivo da dita maldição; que é, sim, polémica. Daí ter de haver um execesso discursivo com o artigo definido na sua oração. Tal temática merecia um maior cuidado na sua veiculação; é uma questão de responsabilidade intelectual, diria Karl Popper. E, M.I. Pastor-deputado federal Marco Feliciano, tem de perdoar-me este preciosismo!, um dado inferido por via hermanêutica não é facto... até porque não estamos no campo da História (o dado veiculado por si como facto não é narrado no texto bíblico mas inferido por via interpretativa) mas sim do mito.

Concorre, neste plano, uma prolífica literatura sobre a descendência dos primeiros homens, e uma das obras mais interessantes é a de Charles de Kirwan: «Le Déluge de Noé et les Races Prédiluviennes», Librarie Blous et Barral, Paris, 1899. Kirwan enumera uma série de questões e lança muitas pistas para se entender a génese dos povos pré diluvianos e os que povoavam o oriente médio, tendo um tese interessante sobre a existência de descendentes de Caim – os filhos da discórdia – no tempo de Moisés e ligações destes a Noé e à sua descendência, nomeadamente de Cã (o Negro, nesta teologia racista). Os agricultores africanos eram chamados por cananitas, ainda na era cristã, sendo que eram chamados púnicos pelos gregos, isto é, gente da terra púrpura (Theodor Mommsen, «The History of Rome», Volume II, Richard Bentkey, New Burlington Street, London, 1868, p.3) antes de terem o nome de, v.g., afri e lybium.

Também se utiliza o nome para identificar este povo ou raça cujos descendentes do fundador a Bíblia nos dá notícia na Tora (Génesis, X.7-8.). Nimrod, filho de Cush e neto de Cã – segundo a narração bíblica –, fundou um grande império cuja ambição culminou na construção da Torre de Babel e na confusão das línguas dos povos de origem cushista; emergindo então a diáspora dos descendentes de Cush.

Nesta perspectiva, esta é/será a origem de todos os povos de África, como entendemos hoje o continente africano. Em termos de estabilização demográfica, Cush designava a zona ou região sul do Assuão, no Nilo superior e conhecido como Núbia (Parte do Egipto e do Sudão, terras ligadas e banhadas pelo rio Nilo), Sennar (Parte do território do Sudão) e Abissínia do Norte (Etiópia e Eritreia); correspondia à África oriental, ao Sudão da actualidade. Os gregos denominaram-na de várias formas mas um facto manteve-se claro ao longo da história: Cush era há muito uma nação poderosa quando, por volta do Século VIII a.C., Roma e Cartago emergiam como potências no Mundo antigo, tendo os reis núbios ou cushitas reinado sobre o Egipto dos faraós. Shabitku ou Shabataka, segundo Rei da XXVª. dinastia – também conhecido como Djedkare, foi um desses faraós sudaneses que reinaram sobre o Egipto. Sucessor de Shebaka ou Shabaka, (712-698 a.C.), também denominado Neferkare de quem era sobrinho, viria a desconsiderar uma política de co-habitação pacífica com a Assíria, praticada pelo seu antecessor, para hostilizar o Rei da Assíria, Senaqueribe, de quem se tornaria um grande rival.

Quando a palestina foi atacada pelos assírios, Shabataka ocorreu em sua ajuda – não sem desconfiança de muitos; entre eles o profeta Isaías (Isaías, XVIII.1 e XX.3-5) que exortava o povo hebreu a não confiar nesses príncipes; e a dimensão racial dessa atitude não era despicienda. Fosse como fosse, a história leva-nos às muitas ligações entre Cush, Sudão, Egipto, Etiópia, Cartago e demais povos com influências semitas e donde emerge uma relação mítica (e mística) com a história.

Note, M.I. M.I. Pastor-deputado Marco Feliciano, que um dos mais abençoados (do ponto de vista incidente histórico) faraós da história, Tuthankamon, era filho dos luminosos Akenathon e Nefertiri e neto Amenofis III e de Tyi, a rainha núbia do Egipto; isto é, nessa perspectiva da história e da narrativa bíblica, uma cushita descendente directa de Cã. E tudo aquilo que acredita e ensina, hoje e enquanto Pastor, tem a sua origem doutrinária nessa gente «amaldiçoada»! Sim, o monoteísmo que hoje acredita é uma criação africana (e nem me alongarei muito para dizer-lhe que a liberdade religiosa que hoje beneficia – à laia de Direitos Humanos e Liberdade Religiosa – é um ganho a que se deve a um africano, um «amaldiçoado», em primeiro lugar: Tertuliano de Cartago. Leia Ad Scapulum, e perceberá o que digo) e não é nenhuma «bênção» dos abençoados ocidentais, de uma Europa brança e de olhos azuis (Ocidente que, por essa altura, ainda vivia em cavernas e na obscuridade de tudo). Até seu Natal, a sua memória natalícia de menino é uma história africana, do Egipto cushita a narrar a fuga de Horus (filho de Isis e Osiris) de Seth até o Egipto. Horus que, como Jesus nasceu de uma virgem no dia 25 de Dezembro e que, adulto, ressuscitaria depois de cruxificado. Isso, ó Pastor... foi-lhe legado por um povo amaldiçoado... não pelos Evangelhos, como pensa.

Aquilo que acredita, até mesmo na Santíssima Trindade, é criação dos «amaldiçoados africanos». Diga-me: Consegue imaginar a história da Igreja sem o magnífico Ario, Tertuliano, Cipriano de Cartago, S. Gelásio I, Agostinho de Hipona... e a Escola de Alexandria? Certamente que não! Estes eram, M.I. Pastor-deputado Marco Feliciano, «amaldiçoados» africanos... como eu (é claro que não tenho a luz desses ínsignes africanos; só nos liga o sermos africanos e termos o epíteto de «amaldiçoados» dado por seres que navegam numa docta ignorantia, como diria Nicolai de Cusa). Neste aspecto, direi de V. Senhoria o seguinte: Mene Mene Tequel U Farsim! Como Teólogo sóis uma desgraça, ó homem! Se fosse Reitor da Universidade onde cursou Teologia mandaria retirar-lhe o diploma ou então teria de fazer um exame de recertificação; se é que alguma vez estudou Teologia. Mas, infelizmente, tenho de dizer o mesmo de si enquanto Legislador!

Sim. Veja o período histórico de Roma entre 193-235 d.C. e verá que coincide com o período do Direito Romano Clássico (existem no Brasil muitos e muito bons manuais de Direito Romano para consultar). E quem eram os Imperadores durante esse período? De Septimio Severo a Severo Alexandre, passando por Ofélio Macrino… eram «amaldiçoados» africanos que, por desventura sua e dos que acreditam nessa afronta racista que veicula, criaram 4/5 do que é hoje conhecido como o Corpus Iuris Civilis que sustenta a ossatura jurídica do Estado de que é, neste momento, Deputado Federal (o mesmo se diga das demais ordens jurídicas, nomeadamente das que têm matriz romano-germânico). Um deputado Federal deve saber mais… Mene Mene Tequel U Farsim!

Pode uma árvore má dar um bom fruto?  – perguntava o Mestre Nazareno. O Direito e a religião de que benificia, hoje, e são o seu ganha pão, são, na sua essência, criações e/ou promoções africanas. A sua afirmação é fruto da ignorância, uma doença social que se cura com o estudo, com a aquisição do saber. «E conhecereis a verdade e a verdade Vos libertará», dizia o Nazareno. E bem dizia o profeta Oséias que «o povo é destruido por falta de conhecimento». Nada de mais asssertivo nestas circunstâncias, não acha, ó M.I. Pastor-deputado Marco Feliciano?

E se existiam cushitas em África, também os havia na Ásia ou médio Oriente – também conhecido como a terra de Cush, segundo o escriba do livro de Génesis. Mas, resulta incontornável um facto bíblico: foi Ninrod, filho de Cush, neto de Cã e bisneto de Noé, quem fundou o primeiro Império conhecido nessa parte do Mundo – onde, em verdade, como nos diz Samuel Noah Kramer, começa a História. É nos vales dos rios Tigre e Eufrates – actual Iraque – que o filho de Cush assenta as fundações (Genesis, X.8-12) do seu Império. Este espalhar-se-ia pelo Mundo até chegar ao norte de África, nomeadamente ao Egipto e ao Sudão. Assim sendo, os povos da África do Norte, nomeadamente os cartagineses que dominaram o Mundo antes dos romanos, eram, também eles, descendentes geracionais de cushitas.

Assim, M.I. Pastor-deputado Marco Feliciano, quando emite este juízo fá-lo em relação aos povos africanos e aos demais povos do médio Oriente que têm, na sua grande maioria, a mesma origem genealógica, no plano bíblico e histórico, que os africanos: Noé, Cã, Cush e Nimrod. Veicula uma mensagem muito perigosa, além de ser, no plano hermenêutico, incompatível com a doutrina e a ortodoxia cristãs. Sei que existe uma heterodoxia hermenêutica cristã emergente da liberdade de interpretação nascida da Reforma promovida por Lutero, Calvino… e que se cimentou com os novos movimentos evangélicos, mas existem limites, e estes são o núcleo essencial do cristianismo; um humanismo que não admite o racismo e a mensagem racista, expressa ou subliminar.

O discurso racista é incompatível com o cristianismo, assim como o era com o judaísmo pré mosaico. Lembra-se do Evangelho de João (capítulo I) que diz que o Verbo divino «veio para o que seu mas os seus não receberam. Mas a todos que o receberam deu-lhe a autoridade de se tornarem filhos de Deus»? e de S. Paulo dizer aos coríntios que não há judeu nem grego em Cristo? É assim nesta dispensação – em que o cristão está liberto da lei da morte – como era antes da Leis mosaicas em que não havia diferenciação do homem em razão da sua cor mas sim pela sua fidelidade à Deus e aos seus mandamentos (a questão do semitismo religioso – e a análise necessária de Levítico XIX e seguintes e Deuteronómio XXVIII – levar-me-ia longe, e o tempo não me permite discorrer sobre isto agora).

Um exemplo deste facto: Séfora, a mulher de Moisés, que este conheceu na terra de Midiã (terra da contenda) depois de sair do Egipto, era cushita – no sentido de negra do Sudão – e o profeta foi duramente criticado pelos irmãos Aarão e Miriam por a tê-la tomado, isto é: ter-se casado com uma mulher negra. A punição divina de Miriam por este acto de racismo e/ou xenofobia é irónica, como que a dizer que Deus tem sentido de humor: «ficou branca como a neve» (Números, XII.1-15) por causa da lepra, por ter sido contra o casamento de Moisés com uma mulher negra. A oposição dos irmãos de Moisés ao seu casamento com Séfora dever-se-ia mais às suas origens, ou aquilo a que os hebreus considerariam as suas origens, do que ao facto de ser negra (muitos veriam neste facto o mesmo que o Pastor-deputado veicula). De ser amaldiçoada. Que Séfora e os cushitas eram negros, resulta um facto, como o profeta Jeremias deixa claro: a tribo de Judá era tão incapaz de extirpar a sua propensão para o mal (como diria Emmanuel Kant in «A religião nos Limites da Simples Razão») como um cushista mudar a cor da sua pele (Jeremias, XII.23).

Fosse Séfora da terra de Cush da Arábia, do Egipto ou do Sudão, a questão era a mesma – da ordem da xenoreligião e/ou do racismo. Ao que tudo indica a mulher de Moisés era da terra de Cush africana, isto é: era núbia (sudanesa). Deste modo, existe uma relação histórica estreita entre os povos da África do norte – e numa perspectiva mítica de toda a África – com os povos semitas descendentes de Noé e que deram origem aos vários povos do médio oriente e à uma grande conexão étnica e racial entre os mesmos (vide, v.g., «História do Mundo» de Herodoto).

Com a emergência do Império romano, os diversos povos que viviam no espaço norte do continente, hoje conhecido como africano, ganham uma dimensão unitária ao nível da nomenclatura geográfica e política do mundo – o Orbis Terrarum. África emerge depois de uma evolução complexa da sua nomenclatura – que merece uma atenção que escapa a este texto – tem estas ligações míticas e com uma dada teleologia antropológica que um Deputado da República Federativa do Brasil tem o dever de conhecer ou de não desconhecer. Por vezes cometemos lapsus calami… até teológicos! pois os políticos são normais, tendo em consideração a casta rasteira e pobre que prolifera pelo Mundo. Está-se perante um lapsus calami religioso? Parece-me que sim, quero crer que sim. Bom seria que esclarecesse cidadãos perplexos e curiosos como eu, de vez.

Existe, como anota Alexandre Koyré (Alexandre Koyré, «Reflexões Sobre a Mentira») neste plano específico da política ou da actividade política, uma diferença de substância entre mentir e dizer uma mentira. Da mesma forma que, do meu ponto de vista, existe entre fazer o mal e veicular o mal; e como é consabido: errar é humano, mas persistir no erro é pecado. E sabemos bem qual é o salário do pecado ó M.I. Pastor-deputado Marco Feliciano... A diferença está, em essência, na consciência da ilicitude ou na falta de consciência da ilicitude da acção (para usar uma linguagem ius penalista). Penso que a sua afirmação é mais desta ordem do que daquela e derivará de um facto: os seus conhecimentos de teologia só podem ser sofríveis, e isso fez com que reproduzisse (com alguma leveza de ánimo, é certo) uma afirmação que, compreendendo a sua verdadeira dimensão, não poderá não concordar, sob pena de não poder usar o nomem de cristão. Na verdade não pode concordar com tal doutrina… ela é incompatível com o cristianismo e foi historicamente usada para legitimar a escravatura. Mas se acredita nela… só poderei dizer o mesmo que Voltaire, afinal vivemos num Mundo em existe espaço para tudo, até para a barbarie travestido de liberdade de expressão e outras coisas mais.

Espero que seja abst+emio; pois, afinal, a causa da maldição foi o mosto, não é. A demais: ó Lemuel, ó Lemuel... é como diz: não sejamos irresponsáveis, pois o que sai da boca contamina. E muito.

Fica o meu protesto, pois o tempo não me permite, de momento, mais; e um espanto tremendo por verificar que uma discussão de séculos espante e surpreenda tanta gente num Mundo em que o conhecimento está tão disponível...

Um negro cabo-verdiano que sabe um pouco do sentido da história e que não se sente nada, mas nada amaldiçoado por ser e ter nascido africano; pelo contrário: tenho um profundo orgulho nos meus ancestrais africanos. Sem eles... que Mundo pobre teríamos! Não saber isso é, em larga medida, ser-se cego. Espero, sinceramente e por alguma ventura, ter trazido um pouco de colírio ao seu olhar sobre a maldição que recai sobre nós os africanos... e que não é, de todo, o que veiculais. Mas isso é outra questão... bem mais funda e premente.

Abraço fraterno:
Virgílio Rodrigues Brandão, Afri
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domingo, 3 de abril de 2011

  • HUMANA CONDITIO
A generosidade é, muitas vezes, um manto de problemas – diz-me o meu poeta.

sábado, 2 de abril de 2011

  • QVO VADIS, DAVID?
Nada de surpreendente: Aristides Lima candidata-se à Presidente da República. Já é o terceiro. Esta candidatura do ex-Presidente da Assembleia Nacional é uma prova iuris et de iuris de que o «mecanismo democrático» do PAICV, anunciado por José Maria Neves, falhou! Uma falácia desnudada pela legítima candidatura de Aristides Raimundo Lima.

A procissão vai no Adro, vox populi est. E não tenhais dúvidas. David Hopffer Almada estará, neste momento, muito arrependido de ter aceitado as «regras do jogo democrático» do PAICV... contou mal as espingardas, e depois precipitou-se a aceitar a derrota partidária e a mostrar-se adepto da lógica do cordeiro: submeteu-se ao escrutínio do PAICV e não ao do povo (àquela é uma lógica de «eleição indirecta» do Presidente da República já aplicada na revisão da Constituição e que estendeu, inconstitucionalmente!, o mandato de Pedro Pires). Uma prova de que o país cresce e evolui democraticamente? Não, pelo contrário! Falta a funda de David... não para apontar para nenhum Golias hesperitano mas para o charco; e o charco que já fede federá muito.

E eu sinto-me doente de alma (se mais razões não houvessem), desapontado: sou natural de um país com um Presidente da República que exerce o poder ilegitimamente, em violação da Constituição. Que Pedro Pires renuncie ao mandato que já não tem, que Basílio Ramos assuma a Presidência da República e seja marcada a eleição presidencial devida. A africanização de Cabo Verde só poderia ser pior se tivéssemos uma guerra. Não temos guerras nem maremotos, felizmente e louvemos a Deus por isso; mas não temos uma ética política bastante: vale tudo para se chegar e manter-se no poder! Uma questão de grau? Talvez... mas a verdade é que o mal é e será sempre o mal. A violação de um valor fundamental é isso e só isso. Dizer «só violei um bocadinho» ou «nô t’violâ so un c’zinha…» não vale!

Imagem: Hokaido, japão