domingo, 31 de julho de 2011


  • O PAI INCOMPETENTE OU A INCOMPETÊNCIA DE LIMA, SEGUNDO JANIRA HOPFFER ALMADA
Segundo a Ministra Janira Hopffer Almada, Aristides Lima não foi escolhido pelo PAICV para ser candidato presidencial por falta de competência, porque «não tem competência». Mas, agora pergunto: falhar na identificação da competência não é, em si mesma, falta de competência? Pergunto isto pelas seguintes razões: Aristides Lima não foi, durante 10 anos, Presidente da Assembleia Nacional, e substituto constitucional do Presidente da República? Mas, então, o PAICV colocou um incompetente nesse lugar? (Aristides Lima substitui, inclusive, Pires Pires como Presidente sempre que este se encontrou impedido.) Será por causa disso que não há água e luz no país? Será por causa disso que temos uma educação «melhor que os Estados Unidos da América?»? Será por causa disso que importamos quase tudo (salva-nos beleza, música, mar e ar!)? Será por causa disso que o país é a cada dia mais violento e inseguro? Será por causa disso que a justiça é uma injustiça pegada? Será por isso que os ministros trocam de pasta como de camisa, para tudo ficar na mesma, sem melhoria que se veja? Será por isso o país estava blindado à crise? Será por isso que... (quer que continue? Oh!... olhe para a formiga.)

Uma pergunta ocorre-me: Como é que a Ministra da Juventude terá olhado nos olhos do PAI depois de ter gritado ao Mundo que ele, o pai biológico e moral (David Hopffer Almada, ex-candidato a candidato presidencial preterido pelo Conselho Nacional do PAICV) e o outro, o pai político (o PAICV, que caucionou Aristides Lima na Assembleia Nacional por 10 anos), são incompetentes? Como? Espero que tenha tido consciência do que disse (o país, ao que parece, não percebeu o que foi dito pela jovem Ministra no comício).

A política, e o discurso político tem os seus limites. Não vale tudo; não pode valer tudo. Chamar o até cerca de um mês Presidente da Assembleia Nacional, e o próprio pai de incompetentes... é um exemplo extraordinariamente belo para a Juventude cabo-verdiana; não é? E quem nos garante, agora, que o seu candidato é competente para ser Presidente da República? Será (i) quem tem escolhido os (in)competentes para gerir o País, ou serão as obras feitas com dinheiros caidos do céu? Aplicar dinheiro em estradas e portos (obras programadas há mais de 50 anos!) não é guardar a Constituição. E Basílio Mosso Ramos, actual Presidente da Assembleia Nacional, é também incompetente? É que foi escolhido pelas mesmas pessoas que indicaram Aristides Lima para Presidente da Assembleia Nacional...

sábado, 30 de julho de 2011


  • Today, after all, I can really understand Petrarch, D. Quixote and David...

  • HOMINI LUPUS HOMINI
Até onde vai a maldade humana? Não sei, de verdade que não...

Este jovem cidadão nigeriano, tendo cometido um roubo, foi linchado da forma que se vê. Esta é a mob cidadã. O Governo da Nigéria, e as autoridades judiciais nigerianas, fecharam os olhos à esta barbaridade. Seja de onde for, Justiça deve ser clamada por este homem. Por isso edito aqui esta monstruosidade. Um pecado, qualquer delito (ainda menos um contra o património) não pode ser expiado desta forma. Esta é uma cidadania homicida, o espelho de uma sociedade troglodita em que a criminalidade urbana não se encontra devidamente controlada e em que a violência é um vírus endêmico e multiplicador.

Começa-se queimando carros, simbolicamente, e acaba-se queimando homens. Tudo tem o seu início, o seu germe. Não existe combustão expontânea no plano social.

Esta hedionda situação lembra-me um vizinho, dono de um estabecimento comercial  que, depois de ser assaltado várias vezes por jovens deliquentes (já nem se dá ao ttrabalho de ir à PSP apresentar queixa ou dar notícia do crime), no outro dia, dizia-me com aspecto de vingador descrente na ordem social e na Justiça:
- Dr., um dia destes mato um!

Aconselhei-o. E renovo periodicamente o conselho. A verdade é que, em todas as dimensões da vida social, o homem é cada vez mais o que Thomas Hobbes dizia: homini lupus homini, o homem é lobo do homem. E os lobos estão aí... por vezes sob a forma de cordeiros comendo-nos silenciosamente, por acção ou por omissão. Homicidas e incendiários há-os de tods todos os tipos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

  • A MORTE DE AMÍLCAR CABRAL, A ESSÊNCIA DO PAIGC/CV E O SEQUESTRO DE CABO VERDE
«Amílcar Cabral foi assassinado por dirigentes do PAIGC por causa das intrigas, da sede de poder e da falta de respeito pelos valores. [...] Amílcar Cabral, [foi] morto por causa da intriga. Por pessoas que não foram leais com os seus camaradas» – disse o Primeiro Ministro José Maria Neves num comício do candidato presidencial Manuel Inocêncio Sousa. Nada de substancialmente novo, pois esta matéria tem sido objecto de várias incursões académicas, sem grande profundidade, é certo, mas interessantes q.b.; sendo a última a de Pavel Danilov (o Ministério da Cultura poderia patrocinar a edição dessa obra em português; sempre se faria algo de verdadeiramente útil para a cultura nacional que precisa de se libertar da «história oficial» do país).

A novidade é tal sair do seio do PAICV... do seu Secretário-Geral que sabe que o homícida que deu a rajada final em Amílcar Cabral chamava-se... Inocêncio! (Nada a ver com o candidato do PAICV, que tem claras debilidades enquanto candidato presidencial mas que é um paz de alma.) mas que era mero peão executor na intriga que vitimou o líder pan-africanista. Falta-nos saber qual foi a mão, de entre os membros do PAIGC (que sempre teve o discurso oficial de terem sido «os colonialistas»), que embalou a acção de Inocêncio. Todas as narrativas da morte de Amílcar Cabral deixam perceber um facto: houve acções facilitadoras, para além da segurança, que permitiram o homicídio/execução do então líder do PAIGC (em circunstâncias que lembra-me, recorrendo à analogia de situação, a morte do Imperador Ofélio Macrino às mãos dos seus seguranças).

Voltando à José Maria Neves e à sua analogia em forma de denúncia pública que num país verdadeiramente democrático seria objecto de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (espero que tal venha a acontecer, que o recém eleito Parlamento não seja como os anteriores: um grupo de deputados-carneiros que passam a ideia de serem acéfalos e em constante demissão das suas funções de guardiões políticos do Estado de Direito democrático). Esta afirmação pode ser vista como uma tentativa de conduzir o discurso político cabo-verdiano a um patamar do vale tudo das guerras das comadres, dos frater do PAICV e um alerta de que existe quem pode ir «até onde for necessário» para alcançar o poder. Mas não é somente isso, é muito mais: é o desentranhar da revelação da natureza antidemocrática do PAICV, da verdade sobre o PAIGC/CV e da sua incapacidade de lidar com a diferença inerente ao processo democrático. Aliás, José Maria Neves acusa Aristides Lima, de forma indirecta mas insofismavelmente clara, de ser (i) anti-democrático e (ii) desleal com o PAICV e com Cabo Verde, i.e, de ser um traidor da mesma jaez dos que mataram Amílcar Cabral.

Aristides Lima não quer ouvir, para não ter de responder e cair na lama que tamanho discurso dialêctico necessariamente demanda. José Maria Neves, apercebendo-se do que fez, tenta emendar a mão sem o fazer. Mas o dito e o feito, dito e feito estão. E as palavras de José Maria Neves são claras: «Temos de escolher entre quem está a dividir e quem está a unir. Entre quem é leal e respeita as regras do jogo e os outros, que não são democratas, que não são leais com os companheiros e com Cabo Verde.» É um ataque claro e feroz a Aristides Lima e ao seu caracter como cidadão e candidato; aquilo a que os americanos chamam, nestas circunstâncias, de caracter issue.

Tem razão o líder do PAICV: Aristides Lima (assim como David Hopffer Almada e Manuel Inocêncio Sousa) submeteu-se a um escrutínio democrático interno, e não aceitou o resultado porque este foi-lhe desfavorável. Neste aspecto o juízo de José Maria Neves sobre a anti-democraticidade de Aristides Lima é de todo inatacável. Aliás, este juízo até está enraízado na história política de Aristides Lima que não somente (i) foi contra a abertura política democrática do país como (ii) não votou a Constituição democrática que institui a democracia e (iii) nos seus escritos académicos revela-se entre aqueles que defende que a 13 de 1991 não houve lugar à uma ruptura política e mais tarde constitucional com a Constitução de 1992.

Se dependesse de Aristides Lima, ainda hoje teríamos a Constitução semântica de 1980 e o Partido único a governar Cabo Verde num sistema de pluralismo monopartidário. Assim, a sentença de José Maria Neves a laudar Aristides Lima, seu então líder parlamentar, de antidemocrata tem de ser tida em consideração. Não pode ser tida como uma afirmação leviana (aliás, Manuel Inocêncio Sousa veio dizer que este era um discurso para o interior do PAICV; feito na rua, para rádio e televisão gravarem! Que bem fica ao candidato do PAICV: defender o seu líder e o seu camarada, mesmo tendo-o como adversário). Mas no plano de não assunção da Constituição e dos seus valores, aquando da sua aprovação, também se aplicaria a ele mesmo e a Manuel Inocêncio Sousa (mas eles, dirá o Primeiro Ministro, estão convertidos... pois respeitam as regras democráticas, até no Partido; Aristides Lima, não!).

Curioso será de notar que Aristides Lima não votou a Constitução que quer defender como Presidente da República; não votou a sua aprovação, porque era contra o sistema democrático que ela veio a introduzir, e não votou as posteriores alterações à mesma Constituição. Porquê? Esta é uma questão que José Maria Neves (e a revelia partidária da candidatura presidencial provam?) respondeu: porque é um antidemocrata. Se não é o caso, se a acusação não procede, i.e., que se converteu à democracia do Estado de Direito democrático, deve uma explicação ao povo de Cabo Verde, antes de se submeter ao escrutínio popular no dia 7 de Agosto de 2011:
(1) identifica-se com os valores da presente Constituição ou não?
(2) Porque não votou a Contituição em 1992 e não votou as suas alterações em 1999 e 2010?

Como candidato a Presidente da República, o cidadão Aristides Raimundo Lima tem esta dívida com os cidadãos cabo-verdianos; comigo e consigo, leitor. Insofismavelmente. Eu até que perceberei as razões subjacentes a tais factos... mas é como o Imperador Marco Aurélio dizia à Faustina a Nova e a Lucilla Augusta: À mulher de César não basta ser séria...

Sobre a deslealdade para com o PAICV... o facto de candidatar-se a revelia do partido, violando regras por ele aceites como militante e agindo de forma que prejudica, objectivamente, o PAICV e os seus interesses, é de ter-se como desleadade para com o partido a quem fez tantas declarações de amor ainda há pouco tempo (quem não se lembra da última campanha eleitoral e do que a precedeu?). E deslealdade – neste caso em que se esperava uma outra acção de Aristides Lima, um outro sentido ético partidário – é traição ao Partido de que é, ainda, militante (coisa estranha... num candidato a Presidente da República).

Agora, sobre a desleadade para com Cabo Verde, eu gostaria de ver este aspecto esclarecido, pois é, uma vez mais, a já arcana apropriação da ideia e do estatuto de «povo» e «nação» pelo PAICV (como a ala do PAICV que apoia Aristides Lima faz com o de «cidadania»). É que Manuel Inocêncio Sousa tem como slogan a máxima absolutista «Eu sou Cabo Verde», e o entusiasmo juvenil e autoritário da campanha tem acento tónico na primeira pessoa. Aristides Lima atraiçoa, afinal, que Cabo Verde? O Cabo Verde que é o PAICV/Manuel Inocêncio («Mais Cabo Verde», i.e, «Mais PAICV» foi o slogan de José Maria Neves nas eleições Legislativas) ou, pelo contrário, o Cabo Verde que é a nação e o Estado indivisível e inapropriável?

Vem ao de cimo o que me parece uma evidência há muito patente: o PAICV e os seus militantes ainda não interiorizaram os valores do Estado de Direito Democrático e ainda pensam, como pensavam e agiam durante a Ditadura de Partido de 1975-1991, que Cabo Verde é o PAICV e que o PAICV é Cabo Verde. Aristides Lima, que não pode dizer (como defendia com José Maria Neves e Manuel Inocêncio Sousa o slogan «Mais Cabo Verde», subliminarmente «Mais PAICV») que ELE (MI) é Cabo Verde só poderia apropriar-se e dizer outra coisa: EU sou a cidadania (os apoiantes de Aristides Lima, chamam-no O Presidente da cidadania; pois claro...). É uma questão endógena, de formatação política. Até mesmo o naif Joaquim Monteiro (cuja coragem cívica se saúda), confesso militante do PAIGC, também age nesta mesma senda, e se auto-intitula «o candidato do Povo». A fabula do escorpião e da rã aplica-se, ao caso, por analogia necesssária: as pessoas são o que são e não o que dizem ser.

Agora, prezado leitor, deverá conseguir perceber a razão do juízo do Primeiro Ministro José Maria Neves, e porque é que uma pessoa «desleal» para com Cabo Verde foi caucionada por ele para ser Presidente da Assembleia Nacional durante duas Legislaturas consecutivas: Porque para José Maria Neves, para Manuel Inocêncio Sousa e Aristides Lima Cabo Verde é o PAICV; Cabo Verde, «o povo» e a «cidadania» são eles e a sua troupe e entourage socio-ideológica e mais ninguém. Enquanto dividiam os poderes e as benfeitorias do Estado, como se este fosse coutada sua, tudo corria bem; até o cortador oficial do queijo dobrar a mão, contra o que a intelectualidade de Aristides Lima considera ser o normal, o racional: Ele era «o candidato natural», o messias presidencial do PAICV, «o melhor homem da terra», do Cabo Verde/PAICV. A estrela de Alva caiu, rebelou-se contra a ordem das coisas do PAICV, e resolveu imitar a natureza da sua estrutura natural: intitulou-se O Candidato da Cidadania (na falta da estrada das estruturas do Estado, agrarrou-se à berma deste; tudo sob o manto diáfano do discurso popular legitimador).

Aristides Lima traiu o PAICV? Sim, mas não o fez sozinho.  

Aristides Lima traiu Cabo Verde? Sim, traiu o Cabo Verde democrático ao alinhar com essa ideia de um Cabo Verde que é o partido PAICV e, deste modo, traiu o Cabo Verde dos cidadãos. Sempre optou por servir mais ao Cabo Verde/PAICV que ao Cabo Verde real, a da cidadania que agora reclama ser Sua, que quer encarnar à força e pela força, como o PAICV encarna, em mensagens subliminares, o Cabo Verde que quer Ele mas que, na realidade constitucional, é democrático e não é ninguém mais que a soma de todos nós. Cabo Verde é demasiado grande para ser resumido a um MI autoritário! e a cidadania e o povo não dão (não deram nem podem dar, ex natura) carta branca a ninguém para encarnar e dizer-se escolhido antes de ir às urnas.

Se devidamente compreendida, a acusação de José Maria Neves a Aristides Lima é extensível a todos aqueles que estão com Aristides Lima e a sua candidatura: serem anti-democráricos e terem, eles, os «intriguistas» do PAIGC/CV, participado na morte de Amílcar Cabral (neste com o sentido simbólico deste momento, um momento de destruição da Unidade, da unidade do partido e da unidade/confusão (em sentido jurídico e que ainda está na alma de muitos dirigentes e militantes do PAICV) do partido com Cabo Verde. E esta foi/é, reitero, uma das razões porque o PAICV não aprovou a Constituição de 1992 em resistência a democracia pluripartidária e ao Estado de Direito Democrático: o Estado de Direito era o Estado dirigido pelo PAIGC/CV, ente dirigente da sociedade e supraestadual). É o próprio líder do PAICV que acusa os membros do seu partido de anti-democráticos... por não respeitarem as decisões do seu próprio partido (e extende-se para além...); e tem razão ao dizer isso.

As consequências desta realidade são evidentes: Feliberto Vieira, v.g., deixou de ter espaço no elenco governamental liderado pelo Primeiro Ministro José Maria Neves. Como é que um intriguista, antidemocrático (que desrespeita as decisões da cupula do Partido que sustenta o Governo) e traidor pode fazer parte do Governo de Cabo Verde? Só se esse Governo for, também ele, constituido por antidemocratas. Depois das eleições, ou o homem das pombas se demite ou, obviamente... A fuga para a frente de Feliberto Vieira (para escapar da armadilha da afirmação de competência que o cargo de Ministro lhe impõe; o que foi bem pensado! no quadro da estratégia do jogo de poder pela futura liderança do Partido) pode não servir-lhe de nada, a final. Resta ver o que vai fazer: mostrar-se agarrado ao poder ou avançar para a oposição interna patente a José Maria Neves. Estas eleições presidenciais decidem muito mais do que o cargo de Presidente da República...

Acresce à esta confissão de falta de democracia interna (diz Aristides Lima, e os seus apoiantes «rebeldes») e de democratas (diz José Maria Neves) no seio do PAICV, uma outra confissão: a da morte de Amílcar Cabral ter sido orquestrada pelos intriguistas do PAIGC. É uma acusação de gravidade extrema, e que não pode passar despercibida; até que não foi nem pode ter sido dito de ânimo leve (sabe-se, de forma insofismável, a quem a bateria foi dirigida; e o momento até é propício a tal). José Maria Neves sabe quem foi que mandou matar Amílcar Cabral, e sabe os motivos. Mais: sabe que foram pessoas do partido político que dirige: o PAIGC/CV (quem conhece os meambros políticos de então, por vivência ou estudo, sabe(rá) tirá conclusões de difícil contestação). Esta informação não pode ser escondida do povo cabo-verdiano (até este momento admitia que pudesse estar sujeita  a segredo de Estado; mas não agora). O primeiro Ministro tem o dever de o divulgar sem rodeios ou demitir-se do Governo; até porque, ao que se infere das suas palavras, também teme ser morto como Amílcar Cabral o foi pelos camaradas. E aponta o dedo... terrível!

O fratricídio e o homicídio político, estes, já os tinha notado (entre camaradas, muitos que ainda nem nascidos para a política estão, e entre aqueles que a história clama o nome) como prática corrente e recorrente na sociedade cabo-verdiana... agora temer o homicídio físico no nosso tempo histórico, como teme José Maria Neves, é algo de tenebroso. E os maus, desta vez, não são o MPD e quem não lê pela velha Cartilha pan-africanista mas o próprio partido, o PAICV (seja qual for a facção) que continua a querer confundir-se com o Estado de Cabo Verde.

Democracia em Cabo Verde? Não basta haver eleições e haver uma alternância no poder para se qualificar um Estado de democrático. O PAICV continua a ter Cabo Verde ideologicamente sequestrado, e o que é triste é ver que o país não percebe isso... Resta saber é se não perceberá isso ao ponto de acreditar que quem é acusado – de forma sustentada – pelos camaradas de longas caminhadas e lutas partidária de (i) anti-democrata, (ii) intriguista e (iii) traidor (além de não ter votado a Constituição e as suas revisões) pode ser campeão da cidadania e, mais: Presidente da República de Cabo Verde, i.e., guardião do Estado de Direito democrático que, ao que parece, não se identifica.

Who watches the watchmen, afinal? Supostamente deveríamos ser nós, o povo. Mas parece que existe um povo dentro do Povo em Cabo Verde...


  • A MELANCOLIA ARISTOTÉLICA
Relia Nicomachean Ethics de Aristóteles, e os meus olhos cairam nesta afirmação de que «O bem é aquilo a que todas as coisas tendem» (Aristóteles, Nicomachean Ethics, I.1). Mas, quod est bonum? Sim, afinal, o que é o bem? Em que medida o bem é diferente do bom? Meditava sobre isto; de como o Sol também queima... e descobri que os sonhos exalam melancolia.

O bem será, na verdade, o lugar natural da humanidade? O meu poeta aconselha-me a ler Boechio, e a escrever poesia; pois, insiste, os sonhos exalam melancolia. Escuto. A realidade é uma pedra no charco; pois, outra vez, é como diz o outro poeta: «Ya no es mágico el mundo».

Imagem: Douleur d'amour – Bouguereau

QUEM MATOU AMÍLCAR CABRAL, segundo José Maria Neves.


Dia 1
Os dirigentes do PAIGC

Dia 2
Os colonialistas... e a polícia política.
 
Mas, a final, em que é que ficamos, Primeiro Ministro José Maria Neves? Estamos todos à espera que nos venha dizer, a nós, o povo, quem foram os autores morais (os mandantes, como se diz no Brasil) da morte de Amílcar Cabral. Sabemos que sabe, e por isso deve dizer o que sabe; até porque a insinuação de que duas pessoas que foram Presidentes da República de Cabo Verde (além de outros que detêm ainda hoje responsabilidades ao nível nacional e são honrados como combatentes da Pátria) são ou podem ter sido os autores morais do homicídio de Amílcar Cabral é razão para causar um alarme social considerável e resulta danosa para a imagem do país no exterior; a não ser que tal resulte de uma justa e desejável clarificação histórica. Sobre Aristides Pereira, Pedro Pires e os então dirigentes do PAIGC recaiem as suspeitas (nihil novi sub soli) que urge clarificar.

A constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito ou de uma Comissão Independente de Inquérito ad hoc para clarificação desta situação que é, a final, parte substancial da nossa memória colectiva mais recente é um imperativo. A sociedade cabo-verdiana já não é, totalmente, composta de frutos da OPAD/CV ó Primeiro Ministro José Maria Neves... Mas teremos parlamentares "com colhões" (passe o vulgo da expressão) para pedirem, imediatamente, a constituição de um Comissão Parlamentar de Inquérito? A ver vamos... pois está visto que, ao contrário do pretende, legitimamente, Carlos Veiga, o Primeiro Ministro não irá se pronunciar sobre esta matéria, pelo menos como o líder da oposição deseja. Mas, não se lembra da bombas pré-eleitorais da ligação da oposição ao PAICV ao "tráfico de droga" e aos males da ELECTRA à "sabotagem" do MPD e seus simpatizantes? 

É necessário desconstruir o discurso do Primeiro Ministro José Maria Neves, que, durante algum tempo pensei ter um problema de comunicação... mas acabei concluindo ser, o Primeiro Ministro de Cabo Verde, um demagogo primário. E isso é tão perigoso e pernicioso como a intriga política.  E tem razão numa coisa: pouco importará quem vença as eleições presidenciais; ele, José Maria Neves, sairá ganhando; pois até já terá garantido a Aristides Lima que terá uma boa relação com este na Presidência (caso este ganhe, claro está...). Namorando o inimigo, José Maria Neves... Intrigante? Nem por isso; nem por isso...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

  • MEMÓRIAS CURTAS
Aristides Lima não votou a Constituição de 2010 – Manuel inocêncio Sousa.

terça-feira, 26 de julho de 2011

  • NEW WORLD
«No room service» – Strauss-Khan syndrome.

CABRAS E POLÍTICOS

Perguntaram-me, há pouco, de Hong Kong: – Que tal é o Cabo Verde? Sorri, e como Agostinho de Hipona inquirido sobre o vento (e eu sou de uma ilha filha do vento!), não soube bem como responder... sabendo como. É que, de repente, lembrei-me de Restom Bacha, antigo Comissário no Líbano. Certa vez perguntaram-lhe:
– Que tal é o Líbano?
Ele respondeu:
– Se afastássemos as cabras e o clero seria um paraíso.
Que bela analogia a que me assaltou a alma há pouco:
– Que tal é o Cabo Verde?
– «Se afastássemos as cabras e os políticos seria um paraíso...» – ia dizendo, mas não era oportuno. História e política não casam com certas coisas... como a incontinência verbal.

domingo, 24 de julho de 2011

  • IN MEMORIAM
Ave Maria Emíla, gratia plena, Dominus tecum.

  • PERPLEXIDADES
Não há água? Não é luz?

Quem é que te mandou acreditar na mentira, ó povo de Cabo Verde?

terça-feira, 19 de julho de 2011

DESCARADAMENTE ALELUIA

Tenho fome, de ti.
Trazes-me a madrugada devoluta
como o pão do Sudão;
acaricias-me o estomâgo saliente
e vazio, vazio de carnes em que se tornou
a minha alma corrupta de sonhos,
ostra putrefacta, coisa nua
sem ti para me ruminar nos céus gemidos.
Os homens são maus, eu sei!...
Tu és o seu espelho negro, e te amo
furação de horas longas.
O vento, antes de calar-se de orgasmos,
sussurou-me o seu nome além.
Na esquina das Aleluias
deu-me o seu segredo: o oriente
e o teu manjar.
Era, assim menino, como o poeta
que sonhava resgatar pão quente da terra
gentia e lágrimas doces e felizes dos corações...
...mas os corações são pássaros,
e pássaros não choram, nem pelos sonhos
como tu.
---- 19-07-2011
Virgílio Brandão

  • TRUE POET’S FELLINGS

«Your body hurts you as the world hurts God» – Sylvia Plath (in 103).

  • A REPÚBLICA É VERDE E VAI NUA
Vi e ouvi o debate presidencial. Confrangedor, no mínimo. Não poderia ser pior. Ficou claro o que eu já tinha como uma evidência racional antes de ter acontecido: Manuel Inocêncio Sousa não tem condições, objectivas e subjectivas, para ser Presidente da República de Cabo Verde. Pode ter sido, como foi, um Ministro competente (ainda que com horizontes limitados) naquilo que lhe era exigido pelo Primeiro Ministro de José Maria Neves... mas isso não chega, não chega para ser Presidente da República. E o debate revelou muitas das suas fragilidades endógenas (compreende-se, assim, a inteligente recusa do confronto directo, a dois, com os demais candidatos).

O mais interessante que Joaquim Monteiro disse foi: «O que seria Cabo Verde hoje se após a Independência tivesse adoptado um sistema pluripatidário?» (Que pena o Dr. Almeida Santos não ouvir esta pergunta de um confesso militante do PAIGC... ) Uma pergunta retórica, que ele mesmo deveria responder, pois era, então, militante do PAIGC e sabe razões pelas quais não foi instituida a democracia pluripartidária. No demais este candidato, assim como Manuel Inocêncio Sousa, é um deserto de ideias. É, ideologicamente, um candidato da esfera política do PAICV, e restará saber quando é que desisitirá a favor de Aristides Lima.

A escolha racional só poderá ser entre Aristides Lima e Jorge Carlos Fonseca; os únicos com qualidades subjectivas e funcionalmente capazes para serem Presidente da República de Cabo Verde. Aristides Lima, se (além de ter prestado vassalagem partidária ao Conselho Nacional do PAICV para dele receber a benção do apoio partidário à sua candidatura, e outros pecados mais que deixo para outro texto) tivesse emitido um voto expresso de protesto aquando da mutilação da Constituição da República em 2010, poderia, neste momento, ter legitimidade bastante para falar em nome da cidadania inconformada e defensora dos valores da República e para marcar uma posição de dissidência sistémica e não meramente partidária que, na verdade, resulta meramente instrumental.

A candidatura de Inocêncio é, para o PAICV, meramente instrumental, de tocador de tambor dialéctico que, em parte, serve também para ofuscar a candidatura de Jorge Carlos Fonseca, o que, em parte, tem conseguido. Jorge Carlos Fonseca já terá percebido a estratégia de afogamento, resta saber é se consegue contornar este colecte de forças retórico, esta artimanha política do PAICV que, a dado nível, se tornou fraticida (uma analogia com 1991 será feliz q.b.).

É verde, a República; e segue formosa mas nua...

PS: Por razões ponderosas só agora pude editar este texto.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

  • WHAT’S IMPORTANT?
"There is a firestorm, if you like, that is engulfing parts of the media, parts of the police, and indeed our political system's ability to respond "– James Cameron.

And the other parts?...  

quarta-feira, 6 de julho de 2011

  • PERGUNTA NÃO EXISTENCIAL
Pode um cidadão que se recusou a aprovar a Constituição da República se apresentar como candidato a ser guardião da Constituição?

Imagem: One Soul in Heaven ~ Bouguereau

domingo, 3 de julho de 2011

A EXCISÃO CONSTITUCIONAL

  • Onde estavam os defensores da Cidadania quando a Constituição da República foi excisada na Assembleia Nacional?

sábado, 2 de julho de 2011

  • O MEU POETA E A MEMÓRIA  
A falta de memória e a ingratidão, são dos maiores defeitos da humanidade – diz o meu poeta.

  • O MEU POETA E A MENTIRA
Quando um homem mente... mata uma parte do Mundo, a mais nobre – diz-me o meu poeta.

Imagem: Abduction of Psyche – Bouguereau

quinta-feira, 30 de junho de 2011

  • PARA ACABAR DE VEZ COM A ESCURIDÃO
O que tem acontecido com a ELECTRA ao longo dos anos autorizaria a pensar que o povo cabo-verdiano é (parece) um povo manso – um rebanho de carneiros mansos –, mas não é nem uma coisa nem outra! E deve mostrar isso aos governantes, e aos administradores da coisa pública. Mas como? – perguntar-me-á. Devem processar a ELECTRA, e deixar de pagar a Electricidade! (Imagem só o que aconteceria se TODOS os cidadãos e TODAS as empresas não pagassem, pelo menos durante um mês – ou no limite do pagamento antes da interrompção do serviço –, a factura à ELECTRA) Se todos proporem acções judiciais contra a Empresa (com ou sem ajuda da ADECO – que deveria tomar uma posição firme e sem forma de dúvida sobre esta matéria) a ELECTRA acabará por ter de melhorar o serviço público a que está adstricto ou ir para a falência, dando origem a algo que sirva os cabo-verdianos.

Proponho aos cabo-verdianos (reiterando uma ideia com barba e anos) o recurso ao Apoio Judiciário (e ao patrocínio judiciário pago pelo Estado) para proporem acções de Responsabilidade Civil Contratual e por Factos Ilícitos em razão dos prejuízos patrimoniais e não patrimoniais que têm sofrido ao longo dos anos. A Ordem dos Advogados, e os Advogados individualmente, têm o dever de patrocinar os lesados de forma a cumprirem com o papel social que a Constituição lhes confere.

É hora de dizer um basta! com acções concretas, da cidadania activa deixar de ser mera retórica ou um conceito apropriado pelos políticos quando lhes dá jeito. É tempo do povo cabo-verdiano acordar da noite escura – não da história, como diria Hegel sobre África – mas do marasmo social do silêncio no mínimo compremetedor e caucionador. Acabem de vez com a imcompetência da ELECTRA ou com a ELECTRA. Sendo condenado a pagar s danos e não patrimoniais, a ELECTRA ou pagaria ou ficaria devedores dos consumidores que poderiam, deste modo, fazer a compesação devida nas futuras facturas enviadas pela ELECTRA.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

  • VOZES DE ATENTAR
Esquadrinha a vida e o carácter de quem vitupera os demais, pois ninguém vive sem culpa (Dicta Catonis, I.5).

Imagem: Ghost Rider – Boris Vallejo

domingo, 26 de junho de 2011

  • PIRATAS, PESCA E POLUIÇÃO
Não é uma apologia dos «piratas» somalis, não; é, sim, a apologia de uma verdade escondida sobre a pirataria na Somália. A ONU tem tido um papel sofrível e censurável neste e noutros aspectos: só decide agir quando os poderosos são afrontados e em razão dos interesses destes. E isso não é, de todo, digno. Mas, afinal, a ONU foi criada para quê (lembram-se)? Remeto-vos à história pós II Guerra Mundial e ao germe e real fundamento das «guerras coloniais». Esta situação somali lembra-me a resposta do pirata capturado por Alexandre Magno: «Senhor, que eu porque roubo em uma barca sou ladrão, e vós porque roubais em uma armada, sois Imperador?»

Um pirata é um pirata! Um poluidor assassino é um poluidor homicida.

Muitos não se preocuparão com este problema somali, mas deveriam. Há ainda poucos anos havia alguns metais pesados em Cabo Verde, nomeadamente o Mercúrio (que era recolhido do fundo do Mar - de um navio afundado - em pequenas quantidades para venda no exterior, nomeadamente na União Europeia); assim como há pouco tempo o Governo de Cabo Verde fez um acordo de pescas com a União Europeia para receber pouco mais de 400 mil euros para os barcos europeus pescarem nas águas territoriais cabo-verdianas (notemos que Cabo Verde tem Zona Económica Exclusiva enorme) e deixando os pesqueiros nacionais – com menos capacidade técnica – sem capacidade de pesca e o país a importar pescado...

  • ASSUNÇÃO ESTEVES, FERNANDO NOBRE E A ÉTICA PARLAMENTAR
«Ours is essentially a tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habitats, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We've got to live, no matter how many skies have fallen» (D.H. Lawrence, Lady Chatterley’s Lover). Poderia o autor destras belíssimas linhas estar a falar do Portugal de hoje, destes dias trágicos e infelizes em que vivemos – onde, at last!, se descobriu que até os juízes, os guardiões da ordem jurídica e da moral social dominante, fazem batota (pior é quando o fazem não na formação mas no Julgamento das pessoas e usam a prerrogativa da «convicção do julgador», uma espécie de poder divino de condenar, para destruir homens bons).

Mas nem tudo é mau, existem boas notícias. Assunção Esteves foi eleita Presidente da Assembleia da República! Que bela notícia para o país! Foi minha professora de Direitos Fundamentais na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (acomulava, na altura, a função docente com a de Juiz no Tribunal Constitucional). É das pessoas mais inteligentes com quem já tive o prazer de privar; com uma dose considerável de vaidade intelectual, é certo... mas tem todo direito a tê-la! ao contrário de muitos pavões que andam por aí. Sempre achei um desperdicio a sua ida para a Assembleia da República... A razão? Não estava entre os seus pares, e a academia portuguesa perdia em muito. Com a sua eleição o país tem um Presidente da Assembleia da República que é uma cidadã com uma dimensão intelectual e humana de excepção. Estar-lhe-ei para sempre grata por me ter apresentado, em particular, o pensamento de Robert Alexy e uma perspectiva alargada dos direitos políticos, económicos, sociais e culturais.

Muitos se apressaram a reduzir este evento ao facto de ser mulher, de ser a primeira mulher a exercer essa função. Que pequenez intelectual! Assunção Esteves sabe(rá) melhor do que ninguém o que fazer enquanto Presidente da Assembleia da República pois conhece a natureza da função e que o povo de Portugal espera da classe política. Reitero: poucos politicos têm a sua dimensão intelectual a humana... Lembro-me de, um dia, alguém ter-lhe furtado uma caneta, e de como ficou desgostosa! Pensei que era uma coisa estranha: um Juiz do Tribunal Constitucional, com uma choruda remuneração, desgostosa por ter perdido ou terem-lhe furtado uma caneta. Uma Montblanc, dizia.

Anos depois, em 1998, ofereceram-me uma Montblanc em Paris, que, curiosamente, foi igualmente furtada, em Albufeira (percebi, então e em analepse situacional, o seu desgosto; não pelo valor material da coisa em si mas pelo que representaria ao nível dos afectos). Nunca fiquei a saber se recuperou ou não a sua caneta (ou esferográfica). Do mesmo modo que achava graça, eu e os meus condiscípulos da FDL, o facto de ela não saber como se ligava e se desligava «essas máquinas» (assim chamava os nossos gravadores que registavam as aulas!). hoje percebo porquê. A data... não. Além do mais é uma mulher glamour intelectual: um sorriso luminar, uma energia contagiente e uma inteligência que se percepciona à distância.

Os deputados portugueses estão, neste aspecto, de parabéns! O mesmo não direi na forma encontrada para dizer a Fernando Nobre que a Estrela de Alva é um aviso milenar: a sua anunciada humilhação pública e parlamentar em nada dignificou a Assembleia da República, e somente a eleição de Assunção Esteves salva os deputados de uma critica mais severa pelo desvio da ética parlamentar. Sacrificou-se a ética parlamentar no altarde uma moral particular, partidária, e com um resultado necessário mas com danos colaterais evitáveis. Salvou-se, no processo, a feliz eleição de Assunção Esteves. Se ao país, por fatalidade, falhasse neste momento o Presidente da República... que bela Presidente teria!

O futuro dirá se ouve um desvio da ética parlamentar para «colocar Fernando Nobre no devido lugar» (como parece) ou houve lugar à uma ruptura mais profunda da ética parlamentar nacional. Parece-me que a coisa é bem mais mesquinha... ainda que devidamente motivada e reactiva.

Imagem: Assunção Esteves, Presidente da Assembleia da República Portuguesa

sexta-feira, 24 de junho de 2011

  • EU E O MEU POETA
É preciso fazer um «Inventário das Promessas Não Cumpridas do Governo de José Maria Neves» – alerta-me o meu poeta.

Imagem: Evolution - Luiz Royo



A DESIGUALDADE JUDICIAL DOS ESTRANGEIROS EXTRADITANDOS NO BRASIL

Mau grado a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal do Brasil, a verdade é que o Estatuto do Estrangeiro de 1980 no que concerne à prisão preventiva é manifestamente inconstitucional, em ostensivo confronto com a Constituição Brasileira de 1985. Tenho uma grande dificuldade em entender como uma Corte Suprema, com tantos juristas de excelência, não declara inconstitucionais as normas (de excepção em relação ao Código de Processo Penal Brasileiro) que obrigam a manutenção da prisão preventiva durante todo o pleito extradicional. Simplesmente não existe um prazo limite para a prisão preventiva, e muito menos situação que legalmente permitam a sua alteração por outra medida de coacção.

O Ministro Luiz Fux, en passant, aflora neste processo a questão real: o tratamente desigual – ex lege – do cidadão estrangeiro em relação ao cidadão brasileiro (não só sobre a questão da prisão preventiva em si, mas também sobre a questão da imputabilidade). O plenário, como em outras ocasiões, ignorou o mérito da questão.

A minha admiração pelo Ministro Marco Aurélio, em da sua consciência do mandato de optimização constitucional da defesa e do seu humanismo, cimenta-se (não concordo com ele, neste caso, na questão do internamento do inimputável, a não ser no plano de aplicação da Convenção sobre o cumprimento de pena) pois revela-se, tem-se revelado, um Juíz da substância e não da forma: um homem e não um mero funcionário atrás de Beca de Juiz ou Ministro. Um dia destes, o muro de silêncio sobre esta discriminação dos estrangeiros cairá (a norma, compreendo, protege o sistema judicial brasileiro e os seus atrazos... e a ponderação que está na base da sua manutenção, da não declaração da sua inconstitucionalidade pelo STF, é, de todo, injusta e até mesmo corporativa). Até lá... caberá aos defensores dos extraditandos no STF o pugnarem por aquilo que é o seu dever: defender a igualdade constitucional ente nacionais e os estrangeiros, e levar essa luz aos Ministros do Supremo Tribunal Federal. Cedo ou tarde compreenderão a razão da razão.

  • A NORMALIDADE DAS DOENÇAS MORAIS E OS MANDATÁRIOS DE MANUEL INOCÊNCIO SOUSA
Qual é o problema de Manuel inocêncio Sousa ter a Cristina Fontes, Ministra da Saúde, como Mandatária nacional da sua candidatura a Presidente da República? Qual é o problema do mesmo candidato ter como Mandatário na Holanda o M.I. Luís Karateca, proprietário de uma sex house, um cidadão que ganha a vida à custa do "trabalho" (exploração, noutros quadrantes) sexual de outrém? – perguntam muitos.

Não é, prima facies, ilícito a Ministra Cristina Fontes (que tenho como uma mulher inteligente, e pessoalmete acho uma bela mulher!, i.e., com atrativos e mais valias eleitorais consideráveis na corrente sociedade) ser Mandatária do candidato presidencial... mas nem tudo o que é lícito nos convém – advertia S. Paulo aos coríntios. Dizia prima facies, pois no plano mais fundo dos princípios é um membro de um órgão de soberania, o Governo, a interferir, directamente, na formação da vontade dos cidadãos na escolha de um outro órgão de soberania – o Presidente da República. Isto é: o princípio da separação de poderes é, em concreto, ferido com a intervenção directa de um membro do Governo na estrutura de campanha do candidato Manuel Inocêncio Sousa (que, infelizmente para ele, dificilmente escapará do que é na realidade e do que lhe é destinado: ser o Delfim e tocador de tambor de José Maria Neves). Isso para não falar de outras razões... mas esta já é prova bastante da ilicitude de tão inusitada ou inocente iniciativa.

No que concerne ao Mandatário na Holanda... é legal e legítimo ter-se um negócio desses na Holanda. Não se pode, nem se deve!, cencurar o Mandatário Luís Karateca pela natureza do seu modo de vida e num país que o admite (quem me conhece, um pouco ao menos, sabe que estou muito longe da moral dominante nesta matéria). O que é cencurável é o facto que tal modo de vida, em Cabo Verde, seria considerado crime e, no plano social global, censurado pela maioria da sociedade.

Não é a prostituição que está em causa – pois ela até tem uma dimensão social útil e considerável –, como alguns querem fazer crer; o que está em causa é, sim, o facto de que a escolha deste Mandatário veicula a ideia de que o candidato presidencial cauciona uma forma de vida que é censurada pela maioria dos cabo-verdianos e é considerada lenocínio em Cabo Verde e na maioria das nações civilizadas que o país tem como referências éticas. Assim, o que parece lícito prima facies, não o é... na realidade do universo do candidato: Cabo Verde. Perceberei as razões da escolha deste Mandatário, mas tal não é avocável aqui e muito menos chamado à colação.

Estas duas situações, a comfirmarem-se, são dois erros de casting ou erros compreensivos da realidade por parte da candidatura de Manuel Inocêncio Sousa. Estas realidades não são evidentes? Deveriam ser! e aqui é que reside a preocupação deste escriba. Recorrendo à analogia. Acontece o mesmo com a lógica da limpeza do pintor/operário: no primeio dia tem todos os cuidados com a roupa limpa, mas depois esta é manchada por uma gota de tinta ou de óleo, e tenta limpá-la. No dia seguinte acontece o mesmo, e tenta disfarsá-la. Ao terceiro dia... já nada faz. Ao quinto... já limpa as mãos na sua roupa. E como não pode ter roupa nova todas as semanas, lava-a. E um dia descobre que tem uma roupa tão incrustada de tinta que não consegue distinguir a tinta do tecido; comforma-se com isso, e até começa a gostar da sua roupa suja, que esteja limpa ou suja terá sempre a mesma aparência externa.

O mesmo acontece com as doenças morais e a desconsideração ética endémica: determinadas acções censuráves, pela sua repetição, tornam-se «normais» para os seus agentes, não o sendo, no entanto, para a comunidade no seu todo. O perigo reside no facto, em razão das relações de poder, de uma minoria poder impor esta sua visão de uma «normalidade» anormal... pois é ilícita, moralmente inaceitável e eticamente insustentável.

Imagem: Guilty Pleasures _ Luis Royo

domingo, 19 de junho de 2011

  • A INFAUSTA ADESÃO AO TPI OU A RES NÃO BOA
Eis algo com que não posso concordar com Aristides Lima. Porquê? Porque tal seria feita com base numa norma constitucional inconstitucional. E o jurista Aristides Lima, um dos melhores do país, sabe isso (não pode deixar de saber...). A defesa desta tese de adesão de Cabo Verde ao TPI é o caucionar, ex post, da mutilação da Constituição na última revisão. E, em última análise, defender a violação da dignidade humana que, como é consabido, é imcompatível com a pena perpétua.

Como é que se pode defender a dignidade humana e, ao mesmo tempo, caucionar a sua violação (Aristides Lima perdeu a oportunidade de se demarcar da infausta revisão constitucional que a Assembleia Nacional que presidiu aprovou; a história não absolverá os deputados que a fizeram!).

A colaboração a União Europeia em matéria de direitos humanos não passa, necessariamente, pela adesão ao TPI e, a demais, não pode ser feita à custa dos direitos humanos dos cabo-verdianos, nomeadamente do sacrifício dos direitos, liberdades e garantias fundamentais dos nacionais de Cabo Verde. Aristides Lima é candidato à Presidente de Cabo Verde, assim como os deputados da nação cabo-verdianas são de Cabo Verde, e não da União Europeia e dos seus interesses. Confesso que, nesta matéria, esperava mais de Aristides Lima... mas a surpresa é a mãe dos dias. Sempre o connatus essendi, ao caso do animal político de Aristóteles e Ibn Khaldum. E um animal sob a égide do instinto, seja qual for o adjectivo que o qualifica, é um animal tout court.

Imagem: Aristides Lima, candidato à Presidente da República

sábado, 18 de junho de 2011

THE ANGEL

The angel was flying through sky in midnight,
And softly he sang in his flight;
And clouds, and stars, and the moon in a throng
Hearkened to that holy song.
He sang of the garden of God's paradise,
Of innocent ghosts in its shade;
He sang of the God, and his vivacious praise
Was glories and unfeigned.
The juvenile soul he carried in arms
For worlds of distress and alarms;
The tune of his charming and heavenly song
Was left in the soul for long.
It roamed on earth many long nights and days,
Filled with a wonderful thirst,
And earth's boring songs could not ever replace
The sounds of heaven it lost.
------ Mikhail Lermontov

  • EU E O MEU POETA

Deveríamos ser capazes, todos, de ver um pouco mais além – diz-me o meu poeta.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

  • DOUBLE PLEASURE

I am looking for roman coins of Didius Julianus (max. May of 193 AD), Antoninus Bassianus (max. 198, 201m 211 and 212 AD), Septimius Severus, Clodius Albinus, Ophelius Macrinus, Diadumenianus, Antoninus Eliogabalus, Severus Alexandre. I buy coins of the IV Legio Scythica.

Image: The kiss, Rodin

terça-feira, 24 de maio de 2011


My heart is a place of prayer... says the poet.

Mo feran oyon!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

  • HUMANA CONDITIO
I finally got the book that will help you to understand women better: Women's Manual.
Have you got a copy?

  • I AND MY POET
I am losing weight because I want, and trust in humanity… because I need, and it grows too – I told to my poet.

Image: The poet Etienne Carjat Baudelaire

  • A KAREZA DAS QUECAS

Quecas dadas, quecas não dadas.
Quecas tentadas, e por outras sonhadas
são, ainda assim e na convicção, quecas.
E se são quecas, são karas.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

  • O NOMEM E AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS
Pedro Pires marca as eleições presidenciais cabo-verdianas. Só se surpreende com a marcação das eleições para o dia 7 de Agosto quem não quer ver… era expectável que assim fosse. O padrão anterior assim o indicava, e até já tinha comentado isso com pessoas amigas. Sem surpresa. Agora, Pedro Pires (que é neste momento Presidente de cabo verde em violação flagrante da Constituição da República) invocar a integridade constitucional, o não querer violar a Constituição, quando o viola todos os dias, para fixar tal data é… caricato! Não quer ficar além do mínimo, e não quer dar a ideia de que pode ficar ad aeternum em função dessa dupla gaffe constitucional da revisão de 2010.

Não se viola só um c’zinha… não!

Seja como for, o mal o menor será a eleição ter sido marcada para Agosto? Esta é uma situação, de ordem pratica e não despicienda, que pode(rá) ter influência nas eleições; daí, por razões diversas, o MPD e o PAICV desejarem as eleições mais tarde. No plano da ética política esta decisão das eleições serem realizadas no mais curto espaço de tempo possível era, no mínimo, o seria de esperar de quem foi Presidente de República de Cabo Verde durante dois mandatos e que, por usurpação do poder soberano do povo pela Assembleia Nacional (que agiu como se o sistema político cabo-verdiano fosse o que não é) e uma violação funda da Constituição, continua a ter o nomen de Presidente da República mas que, em verdade, não o é no plano de uma leitura profunda e devida da Constituição.

Isso de ser-se democrático não é (de)forma, não; é mater. E há quem não veja por não querer! E à memória vem o velho adágio sobre o "pior cego", e aqueloutro sobre o Rei que o é por ter um olho... Tudo faz sentido, se pensado e compreendido; o que, a final, não é coisa fácil quando a liberdade do outro é semântica para os cortadores do queijo. Terra de nomem se tornou a minha.  

Imagem: Blind – Paul Strand

  • V ESTAÇÃO - HUMANA CONDITIO
Há quem se lembre de rir e de chorar connosco, "antes do Vesúvio ejacular as chamas da eternidade em anónimos..."

Há coisas a que se não é obrigado, e por isso são belas; sublimes até. Gosto de falar, mas as palavras cansam-me... como se fossem o asno de Nietzsche, quase que o sendo. Quase… ao alcance da vontade, e da consciência: mudar o Mundo seria fácil, se pudesse mudar o coração de um único homem, se pudesse fazer os «imortais» perceberem que um pirilampo não é o Sol ou alimento, que ter dinheiro para uma cerveja não o mesmo que para o banquete de Henrique VIII.

Há estações em que as pessoas revelam-se belas. E depois… depois é sempre depois. Será por não fazer sentido haver uma VI Estação?

Imagem: Dora Maar, Man Ray

terça-feira, 10 de maio de 2011

A      Paradise is very expensive... Mohamed.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

  • AS VIRGENS DE O
Alguns Media ficaram tão felizes com a morte de Osama Bin Laden que, por erro, anunciaram que «Obama has been shot». (A Globonews anunciou, sem mais, a morte de Obama; mas era, na verdade, uma Páscoa serôdia.) O Presidente Obama estava política e tecnicamente morto por suicídio induzido... mas a morte de Osama Bin Laden ressuscitou-o! Michelle Obama, John McCain e o meu poeta e tutti quanti pensarão: «Deus! O que 72 virgens não são capazes de fazer...»

Tristes dias, estes em que comemora-se a morte de um ser humano, e, o que é pior, existem razões de ordem da racionalidade prática para sustentar esta aleivosia contra a humanidade em e por si mesma. O que é trágico... ou será que é somente a manifestação do que poucos são capazes de ver e de sentir? Sim, será que o sentimento trágico da vida está a democratizar-se e a globalizar-se? Anuncia-se a morte dos poetas e dos sonhos, e o Ragnarök é inevitável.

  • DE NOVO: DENTE POR DENTE
Acordo. Osama Bin Laden foi morto. O Mundo está mais seguro? talvez... mas é uma grande vitória de Barack Obama, quando mais precisa(va). A tentativa de matar M. Al-Kadafi e a morte de civis líbios pela NATO [numa acção militar que viola a Carta da ONU e que constitui verdadeiro crime de guerra pois tal acção conssubstancia uma agressão ilegitima; mesmo aprovada pelo Conselho de Segurança, este tem os limites da Carta!] serão esquecidas, secundarizadas. Eu, como Sancho Panza, não creio em coincidências; mas... que estamos perante um profundo retorno civilizacional e ético, lá isso estamos.