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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

  • BULDOZERS

Encontrei-te na serra
imagem desdobrada de querubim;
não eras fácil de não amar.
Eu, a antecâmara do santo dos santos,
sangrei o medo
e toda a tarde foi sonho de horas.

Agora sangro,
sangro e registo a realidade
por não haver mais luta:
mãos invisíveis e bulldozers arrasam-me
em Mindelo e grito:
«O deserto não deve crescer!
Quando se alimenta o deserto e os corvos,
a luz deve nascer dentro de nós.»
---- Sertã, 19-09-2010 (06:35 a.m)
Virgílio Brandão

Imagem: Judith Slaying Holofernes — Artemisia Gentileschi

terça-feira, 21 de setembro de 2010

  • ANJOS DA SERRA
O meu destino, se parar,
que seja no teu céu;
nos campos revoltos de sonhos
que do íntimo brotam em silêncio
como este rio brando que fende a serra
e beija as sombras de ouro e os olhares campestres.

O meu olhar é geométrico, sim;
é redondo como o sorriso da alvéola-amarela:
a minha casa, o meu mundo todo antes de ti.

O meu destino, se parar,
que seja no teu céu, murmúrio dos anjos
da Serra que cai sobre mim
com a aurora em mirra perguntando-me:
“Que haverá de mais belo, além mim mesma,
do que despertar o planalto do coração
e o povo em bruto?”
---- Sertã, 19-09-2010 (07:02 a.m)
Virgílio Brandão

Imagem: Fotografia de exposição múltipla de Marcel Duchamp (1912)