- MANUEL VEIGA NA RCV – A LINGUA CABO-VERDIANA
Acabei de ouvir Manuel Veiga, O Ministro da Cultura, na RCV (ouço, ainda, a rádio… e Nadejda de Solange Cesarovna… que bela voz! E penso que valeu ouvir a rádio, por isto que escuto agora). Orlando Lima, jornalista da RCV saiu-se com uma tirada infeliz na conversa com Manuel Veiga:
— No ti ta papiá um kriolo fedi kê di Praia…
No comments!
Mas o Ministro da Cultura não disse nada de novo, nem o jornalista perguntou. Mas que oficialização é que se vai fazer se (i) o que se pretende com a revisão do Artº.9º. da CRCV é a clarificação (sic) da norma? Clarificação que o projecto do PAICV, como proposta, não faz – infelizmente, mas pode(rá) ser socializado. Mas (ii) e o Decreto-lei nº. 8/2009 de 16 de Março que oficializa o ALUPEC como alfabeto cabo-verdiano, o que foi que fez? Não foi a oficialização da língua cabo-verdiana com base no sistema ALUPEC? Será que deixou de existir? Porquê, diga-me: qual é a razão de todos ignorarem esta aberração de haver uma lei contra a República e todos fazerem de conta que não existe? É que, como se viu na AN, o PAICV está a espera que o MPD mude (mas de que discurso?) e se resolva a questão da língua no plano constitucional e se repristine o Decreto-lei nº. 8/2009 de 16 de Março.
O argumento da variante que se fala mais é preocupante… critério quantitativo?, não! É claro que eu percebo o que o Ministro da Cultura quer dizer, todos os cabo-verdianos percebem. O que não é, de todo e do meu ponto de vista, o problema, ainda seja parte dela; a questão resta nos procedimentos, sempre os procedimentos... O que me admira, pois sempre que oiço o Ministro da Cultura me parece uma pessoa com bom senso, mas depois age de forma diametralmente oposta…
Já tardava ouvir o do poder político, nomeadamente do Ministro da Cultura, o argumento de que o Acordo Ortográfico está próximo do ALUPEC — como previsto... — e da economia da língua. Uma entrevista para o Ministro Manuel Veiga dizer o que tem dito, repetidamente, em todos os fóruns por onde tem passado? Haja paciência! O Ministro da Cultura termina a entrevista dizendo que «os deputados vão dar uma prenda de Natal» aos cabo-verdianos: a oficialização da língua cabo-verdiana. Sim, espero que se chegue a um consenso sobre a revisão da Constituição — e a questão da língua nem é das questões mais prementes. Mas e então, volto a perguntar: o que é o Decreto-Lei nº 8/2009 de 16 de Março? É altura de alguém falar claro! Fica este diálogo (da Antígona de Sófocles):
Creonte: — Só tu, em Tebas, sustentas tais opiniões.
Antigona (apontando para o Coro): — Todos eles pensam como eu, mas mordem os lábios.
Imagem: Pleasure, René Magritte
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
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terça-feira, 10 de Novembro de 2009
- DE DOCTA IGNORANTIA
Ainda soa na minha mente, o meu momento de reflexão. «Existirá, pois, um máximo absoluto sem o qual nada pode existir» – diz Nicolau de Cusa (Nicolau de Cusa, De Docta Ignorantia, I.4). E, tenho de assentar, há parcialidade de conhecer, a não ser em YHWH. E lembro-me das palavras de Hemon a Creonte: «Aqueles que pensam ter recebido a sabedoria em exclusivo, ou possuir uma eloquência, ou um talento sem igual, fazem prova muitas vezes, da inconsistência das suas pretensões. Mesmo para um grande magistrado , não é desonroso aprender constantemente a rever os seus julgamentos…» (Sofocles, Antígona, II).
Mas há quem ache que não, há quem ache que não… o Mundo está cheio de sábios e de donos da razão, da ciência (das ciências, Deus meu, das ciências!) e tutti quanti que é saber. É, de todo, a douta ignorância; a douta e papagueante ignorância. E, como dizem que disse o grego, não sabem que nada sabem; de todo. E o Pai os perdoará, como perdoou a todos aqueles que não sabiam o que faziam.
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- SÓCRATES E O CASAMENTO DE PESSOAS DO MESMO SEXO
O Primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, decidiu que irá apresentar uma proposta de Lei à Assembleia da República para a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mais do que previsível, como escrevi aqui ainda na anterior legislatura. Não terá dificuldade em conseguir aprovar essa lei, pois o Bloco de Esquerda e o PCP farão a maioria necessária no Parlamento. Mas parece-me que procede a duas coisas, graves, a meu ver: (i) desconsidera a natureza do casamento e a sua sacralidade e (ii) e o espírito das leis, a que emana da comunidade.
E sabe isso. E por saber isso, não quer o referendo. Todas as pessoas têm direito a constituir família, mas existem várias formas contratuais e modalidades jurídicas para se resolver esse problema sem ser por essa via. Mas o problema é ideológico, não é jurídico, social ou muito menos de defesa dos direitos das pessoas do mesmo sexo a constituir família, pois uma coisa é constituir família, a liberdade sexual e a esfera da vida privada e suas opções e outra é casar.
Imagem: Enter my mind, Samarel
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- CIRCULACIÓN
La solitaria muela de una puta
una muerta sin nombre
llevaba una corona de oro.
Las demás se habían desprendido
como por un secreto acuerdo.
Ésta la extrajo el sepulturero para sí.
Porque, decía,
sólo la tierra debe volver a la tierra.
---- Gottfried Benn
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segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
- OS CLÁSSICOS DA TERTÚLIA DA RCV
Falar-se de clássicos, e destes só ouvir falar de Homero… sabe a pouco e é pouco, muito pouco. E propõe-se uma leitura clássica que não o é. «O Estrangeiro» de Albert Camus (obra fundamental do existencialismo — que é tão menos literatura como é «O Príncipe» de Maquiavel…) e as «Memórias de Adriano» de Marguerite Yourcenar (que é um livro verdadeiramente fabuloso1) não são clássicos. Podem ser considerados obras fundamentais da literatura francesa, ou até «clássicos franceses», ou «clássicos contemporâneos» mas nunca clássicos em sentido próprio. O mesmo se diga de «O Médico e o Monstro» de Stevenson (que vem atrás das obras de Rudyard Kipling e de Jules Verne, no género aventura e ficção fantástica, por exemplo, e atrás de Mary Shelley se for catalogado como terror). «Coração das Trevas», de Conrad… é, será, um clássico contemporâneo na medida em que o é, por exemplo, «A Oeste Nada de Novo» de E.M. Remarque.
Note-se que, no que a Joseph Conrad diz respeito, o leitor mediano terá preferência por «Lord Jim» — que é uma obra de referência do imaginário aventureiro da minha juventude e da minha geração, e que tem um profundo sentido moral, no sentido clássico — em relação ao «Coração das Trevas» não tem (mesmo sendo ambos obras trágicas segundo o cânone grego). Ademais, surpreendeu-me que um ex-colonizado tenha uma leitura tão apaixonada por essa obra de Conrad. Este, com E.R. Burroughs (quem não se lembra de «Tarzan dos Macacos»?) e Rudyard Kipling («O Homem Que Queria ser Rei» e «O Livro da Selva») são dos escritores mais comprometidos com o ideário imperialista e colonialista (pior: com uma ideia de inferioridade do negro e demais povos colonizados em relação ao homem branco).
Pois é: esses livros tinham e têm muito pouco de infantil, ao contrário do que parecem, pois trazem uma mensagem subliminar e ideológica que escapa ao leitor comum. Mas são clássicos da literatura moderna, no sentido moral e ideológico do seu tempo e da sua disseminação e popularização, mas não têm a dimensão do humanismo que encontramos na «Ilíada» de Homero, na «Antígona» de Sófocles ou no «Prometeu Agrilhoado» de Ésquilo. Ser clássico é muito mais do que ser e ser-se preservado ao longo do tempo. Existem clássicos que a maioria dos cidadãos do Mundo nunca ouviram falar, e é pena que se tenha perdido a oportunidade de os dar a conhecer e terem os conversadores do programa atentado numa ideia refundida de clássico.
Note-se o caso de as «Viagens da Minha Terra», de Almeida Garret (outra das obras referidas no programa). Livro que li pela primeira vez como obrigação escolar mas que gostei de imediato, mas só é um clássico para e no contexto da literatura portuguesa. Já a «Morgadinha dos Canaviais» … foi um dos primeiros livros «a sério» que li (o primeiro foi «Uma Família Inglesa», também de Júlio Diniz) e tem um lugar particular na minha memória literária, mas só é clássico na medida em que considerarmos Júlio Diniz um autor clássico da literatura portuguesa.
Os clássicos são e estão historicamente definidas. «A República» de Platão é um clássico, sim! E não é tão utópico como se pensa…basta lê-lo, basta lê-lo e pensar na sociedade em que vivemos. Assim como «A Política» e a «Ética a Nicómaco» de Aristóteles, a «Antigona» de Sófocles, a «A Cidade de Deus» de Agostinho, as obras de Plutarco, Plínio, o Velho, de Homero, Virgílio, Ovídio, Dio Cássio, Josefo, Tito Lívio, Herodoto, Juvenal, Lamprídio, Spartiano, Ésquilo… são clássicos, no sentido próprio da palavra.
Aconselhar um clássico, é complicado... Para iniciar a leitura em todas as idades, «O Principezinho» de Saint-Exupéry é boa sujestão (não é um livro infantil, não! assim como «Alice no Pais das Maravilhas» ou «Alice através do Espelho» de Lewis Carroll não são livros infantis…), assim com «Cândido» de Voltaire são boas leituras: leves e profundas. Ah!, essa de colocar Sofia de Mello Breyner Anderson entre os clássicos, não lembra ao Diabo! É uma boa poetisa, sim. Mas está longe de ser um clássico, ainda que da literatura portuguesa! Se tivesse ouvido o nome de Florbela Espanca, diria que se estava a fazer um justo paralelo do significado dela para a literatura portuguesa, enquanto poeta, com a que Rosália de Castro tem para a poesia Galega.
Quantos aos clássicos cabo-verdianos… quando começarem a promover a nossa cultura de forma devida, nomeadamente reeditando os autores de antanho, poderemos falar deles com propriedade. Pois isso de ser clássico, não é só dizer que se é, ai não. Ser-se não é bastante. No sentido de clássicos nacionais, de Cabo Verde, é fácil dizer que este ou aquele é um clássico; acho que esse é o mais fácil dos exercícios; mesmo que não tenha sido lido, mas só citado… ou ouvido dizer; como é moda ou modismo em dado sector da cultura.
Imagem: Olympe – Jean Louis Grig
[1] Livro que gosto em particular, por destoar das obras do género. É, com «Ulisses» de James Joyce, provavelmente, o livro mais difícil que se pode aconselhar a qualquer leitor. Uma proposta de leitura da Dra. Ondina Ferreira que está ao alcance de muitos poucos leitores, pois é um livro que só se consegue ler (no sentido de perceber a obra) se se conhecer os clássicos, os verdadeiros clássicos – e Marguerite Yourcenar escreveu «Memórias de Adriano» para poucos, talvez a pensar em si mesma (é a sensação que fico sempre que vasculho a obra) e num bonnus pater familias da cultura clássica que sabe quem foi Adriano. Neste aspecto foi pouco democrática. Mas quem foi que disse que a cultura é democrática?
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domingo, 8 de Novembro de 2009
- O PROGNOSTICADOR
O prognosticador putativo
gritava — eu ouvi, lá longe
no Mindelo terra-longe…
«O mundo dói-me,
dói-me mil vezes à velocidade da luz…
e ter tudo é ter nada
pois tudo o que se lega ao mundo
somos nós, em pó
ou cinzas
ou letra,
nós!
Ou será que, diz-me, ser
excremento animal…
isso: (bosta para fogão,
brasa de noites-amantes,
anseio de ser na pele diamante
da rosa fresca que amo e é minha)
em ouro vale o esquecimento?
A morna que fica para sempre ardendo
diz, diz para esses outros novos:
compensa, ó gente nova!, não ser
essa coisa velha que se chama pessoa?»
Imagem: Stonehenge, Salisbury, Inglaterra
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- MANEL D’NOVAS
Os cabo-verdianos na Holanda homenageiam, hoje, o trovador Manel d’Novas. De longe, associo-me de alma plena aos meus patrícios na Casa da Cultura, em Roterdão. Escrevi o poema O Prognosticador, a um trovador que, enquanto formos gratos e respeitarmos a memória da nação, estará sempre ligada à alma e à história da nação cabo-verdiana.
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sábado, 7 de Novembro de 2009
Primeiro Ministro José Maria Neves
Ministro da Cultura, Manuel Veiga- O SILOGISMO DA PÁ E DAS MÃOS LIMPAS
Quem não conhece o bê-á-bá do silogismo aristotélico? Aquele: todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal. Ao ver as imagens da nação a ser limpa (ai, Churchill! lembrei-me de ti, agora…), com os políticos a darem o exemplo, também, não deixei de pensar em tanta coisas, mas tanta coisa que o melhor é não partilhar, ter alguma contenção no verbo (não gostei, nada, mas nada do que vi – não da acção, mas da sua dimensão visual).
Assim, numa espécie de catarse visual, remeto a questão para o plano do mundo das ideias, e pergunto-me, perante as imagens do Primeiro-ministro José Maria Neves e do Ministro da Cultura, Manuel veiga: qual é diferença entre estas duas imagens? O que pensar delas, além das suas razões de ser?
Bem, antes disso, tenho de dizer o seguinte: agarrar numa pá não é coisa simples, não! tem ciência (e escreve quem descarregava, sozinho, um caminhão de arreia a pazada em 13 minutos!), e não é pouca. A forma como os M.I. Ministros agarram na pá, digo-vos, não só lhe dá cabo da costas, como os deverá ter cansado rapidamente — a não ser que tenham agarrado nos instrumentos somente para a foto, o que não creio. Uma pá pede gentileza: a mão esquerda do destro, v.g., deve estar solta, leve… deve libertar a pá quando se livra do material, para não forçar o corpo, obrigado a fazer força no sítio indevido. Mas, não quero falar sobre a ciência que os operários têm e que falha, que escapa a muitos doutores & engenheiros, o que quero é sofismar um pouco em torno de um silogismo que emerge das diferenças entre estas duas fotografias.
Todos usavam pá. Quem usa pá é operário. Logo, eram todos operários. Não, está errado! — dir-me-á, aprestamente. — Não são operários, são Ministros.
Talvez, talvez tenha razão. Note bem: talvez. Mas fiquemos por aqui, pois admito este sentido restrito de operário. Eram Ministros, o primeiro e o da cultura. As diferenças? O primeiro é canhoto (ou será que não lhe ensinaram a agarrar na pá?), o da cultura destro. O destro usa luva, o canhoto não. Logo, tenho de concluir que todos os destros usam luva, e todos os canhotos não usam luvas.
Mas o meu poeta, que não gosta de silogismos e muito menos de sofismas, alerta-me para um pormenor: a luva é cor-de-rosa! Cor-de-rosa, deuses! Assim, entendo o Primeiro-ministro: luvas cor-de-rosa e adequadas para lavar loiça ou roupa, não! Até porque as luvas, rosadas e frágeis, duraram pouco mais de uma hora naquele tipo de tarefa ministerial. O quê!? Falar de boné, gorro, ou de chapéus? E de máscaras? Please, give me a break! Saúdo a boa vontade, mas não se salva a imagem e algo mais (procedimentos, e mais não digo!).
Ah!, impressionou-me o carinho com que Manuel Veiga olhava para um velho pé de chinelo, quase que o afagando com a borda da pá, cansada, pesada (deveria estar a pesar o dobro do peso normal) — por não ser limpa há muito —, mas não tanto como a dor de cabeça que é o ALUPEC/Ak. Nessa tentativa de afagar o chinelo, como se tentasse descobrir um tesouro escondido ou o petróleo (também chamado «asas de 2011») sonhado e terá pensado para si mesmo:
— Aqui está um aspecto da cultura que nunca atentei…
Terá sido por isso, para não colocar mão na massa dialéctica, que não apareceu na Assembleia Nacional quando se discutou a questão da língua? Quem se interessa, aparece. Todos os interessados apareceram, menos Manuel Veiga. Logo, Manuel Veiga não estava interessado. Os silogismos são mesmo tramados, não são?
Imagens: A Semana on line
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En días helados de invierno, 1
En tiempo oscuro, sin esperanza,
Te arrojé toda de mi pensamiento,
Oh, quimera de la inmortalidad.
Ahora que el ardiente verano brilla,
Ahora entiendo que hice bien;
El corazón de nuevo he coronado,
Pero reposa en la tumba la ilusión.
Navego por la corriente clara,
Que fluye refrescante por mi mano;
Miro arriba, a la catedral azul,
Y no busco otra patria mejor.
Ahora, por fin, florecido lirio,
Entiendo tu queda salutación;
¡Tan claro como arde la llama,
Sé que he de morir igual que tú!
----- Gottfried Keller
Imagem: Skogskyrko garden, (o 1888 de Estocolmo, Suécia)
_____
[1] Poema que Gottfried Keller dedicou a Feuerbach.
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sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
- MAGISTRADOS, POLICIAS E A TOLERÂNCIA AO LIXO
Cá está uma história cheia de cabelo… com contornos no mínimo estranhos.
Ver as pessoas a limpar o que deve ser limpo, é agradável. Aplausos. Mas, para onde é que vai o lixo? É um momento adequado para o Governo aproveitar e decidir instalar no país as estruturas necessárias ao tratamento dos lixos (atenção aos procedimentos…), e dotar o país de uma política de tolerância zero ao lixo e a falta de higiene e segurança pública sanitária e alimentar. Dificilmente terá outra oportunidade, ao nível da tolerância social, como esta. Mas isso, também, passa pela ELECTRA. Mas esta, esta é outra conversa e hoje dia de tolerância, não é?
Imagem: Lady blues, Jean Louis Grig
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- VOZES DE ATENTAR
Imagem: Méthanal – Jean Louis Grig
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- O DESENVOLVIMENTO MÉDIO E O DENGUE, MAS…
O Governo decidiu alargar o âmbito da acção contra a epidemia de Dengue, mas… não digo mais agora, não por não haver lugar para o mas, ou que o mas não está aí para eu poder dizer: mas… está, sim, mas o melhor é esquecer esse mas, por um bem maior; o que não quer dizer que não possa dizer que somos mediamente desenvolvidos, mas somente nisto: quando acontecem coisas dessas como a epidemia da febre de Dengue é que percebemos a nossa real dimensão, o que somos de verdade. Somos o que somos, não o que pensamos que somos, mas...
Sem, mas!
Eu não falei em Estado de Emergência, mas… de facto acontece.
Imagem: Suicide note, Alexey Lobur
Nota: Interessante... Palavras cruzadas da RCV
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quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
ARTE
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
------ Fernando Pessoa
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- AS MINHAS TRÊS MORTES, A FEBRE DE DENGUE, O ESTADO DE EMERGÊNCIA SANITÁRIA E A POLÍTICA MEDROSA
Em menino, vivendo em Cabo Verde, fui vítima de meningite… e de todas as doenças más que se pode imaginar! Se aparecia uma epidemia qualquer, lá estava eu com ela, sempre. As doenças amavam-me, como se eu fosse Casanova e não um menino, e elas damas desconsoladas de amor. Cheguei a ser presumido morto certo, por três vezes. Deixa-me contar-te, telegraficamente.
A primeira vez foi com a meningite e outra desgraça de que não me recordo, mas que não quero saber agora para não fazer a minha mãe recordar esse tempo trágico para muitas mães que perderam os filhos. Nessa altura, na segunda metade dos anos sessentas, quando um surto de meningite atacou a terra e chegou a S. Vicente, contrai a doença e cheguei, inclusive, a ser declarado incurável e a ter o caixão e a mortalha prontas: só se esperava que eu morresse para me darem banho, colocar-me no caixão e me levaram para 1888, para fazer companhia a Nha Marquinha & k’iis ôte gent mort. Mas sobrevivi! A custo, mas sobrevivi.
A segunda vez… Um dia, o médico (no d’txá sê nome p’ra lá…) disse à minha mãe que eu tinha diabo em cima de diabo — a erisipela óssea e outra doença que nunca quis saber o nome — e que o melhor era levar-me para casa, para eu morrer em casa «porque precisava do espaço no Hospital para salvar quem podia». Coisa horrenda de se dizer à uma mãe, mas disse, o ilustríssimo Doutor, jurado segundo Hipócrates. Que podia ela fazer? Levou-me para casa, e as minhas tias e pessoas amigas prepararam, mais uma vez, a minha mortalha azul e branco de menino e o meu caixão. Mas a minha mãe não desistiu, e foi melhor médico que o doutor. Sobrevivi, dá para notar, não? As mães são assim: por vezes fazem milagres, e não há altar que chegue para elas, não…
Muitas epidemias, além das famigeradas fomes, sofremos, nós, os cabo-verdianos, no tempo colonial… A a memória, a memória é pouca e pequena, demasiado pequena. Por alguma razão Almada Negreiros dizia que Portugal era «o país mais atrasado da Europa», o país mais selvagem de todas as Áfricas», de uma África que chamava «reclusa dos europeus, o entulho das desvantagens e dos sobejos». A fome e as epidemias eram coisas correntes e recorrentes, a normalidade, antes da independência.
Agora, voltam as epidemias. Em poucos dias, 4 (quatro) mortos. Não se pode pensar somente em prevenção (que é fundamental, mas é uma prevenção paliativa, depois de consumada a epidemia), ou fazer como o médico que me mandou para casa para morrer… para resolver o meu problema, não. Há que atacar o problema na sua origem, neste momento: nos focos da doença e não passar a responsabilidade para a população, os funcionários públicos e os trabalhadores, com se se dissesse: vai trabalhar, ó povo! cura-te, ó doente! Evita a doença, ó cidadão! Vamos ver se, na Sexta-feira, verei os membros do Governo nas ruas a limpar o que deve ser limpo… é que não basta dizer para se fazer, é preciso fazer-se o que se diz. Membro do Governo, não é mau Padre, é pessoa de bem. Não diz para fazer, faz! Por isso governa e não é governado.
Venha (i) a protecção civil e (ii) o exército para as ruas, (iii) mobiliza-se os cidadãos e faça-se a limpeza geral das ilhas, no perímetro urbano e no interior, onde poderão estar focos de gestação dos mosquitos. Mais: que sejam tomadas medidas claras e precisas: que se puna quem lança lixo nas ruas — como se faz nos países limpos e onde não acontecem essas doenças (Singapura e Suíça são bons exemplos) —, com penas de multa e de trabalho comunitário e público de limpar as ruas. Esta parte é da competência da Assembleia Nacional (há coisa mais importantes a tratar, ó Senhores deputados! Como a vida, como a vida!) que tem de fazer a sua parte, também.
O Governo faz o que pode, certamente que pensa que sim, e creio na boa vontade. Mas há alturas em que isso não chega! O paliativo da prevenção e a mera medida de tolerância de ponto para se poder agir contra tal epidemia não me parece, neste momento, adequado. É altura de se tomar medidas de emergência, de se mobilizar todos os meios possíveis e passíveis de serem mobilizados para se combater esta epidemia. Não se pode esperar por mais mortos, por mais dor entre as famílias cabo-verdianas, para se agir!
Os meios internos não chegam? Que o Governo proponha ao Presidente da República a declaração do Estado de Emergência sanitária, a fim de se permitir, por exemplo, que sejam aterrados zonas de águas estagnadas pelas chuvas, obras ou outras razões em terrenos privados com proprietários descuidados com a higiene e a segurança públicas ou que estejam ausentes, se proceda a injunções necessárias contra aqueles que colocam em perigo a saúde publica e dos cidadãos individualmente considerados e, ainda, se possa recorrer à ajudas externa de países com competência na matéria. A cooperação internacional não é, não pode ser uma mera palavra — tem de ser efectiva. Recorra-se a ela, se necessário, e parece-me que se tornou mais do que necessário fazer isso.
Os eventuais órfãos, viúvas e viúvos, pais, irmãos e irmãs de eventuais vítimas mortais que possam vir a acorrer (Deus queira que não!), nunca perceberão que o Governo não percebeu que se está perante uma situação que se torna, a cada dia que passa, mais grave e mortal… e se estende a todas as ilhas. É preferível pecar-se por excesso do que por defeito, em particular em situações excepcionais como esta.
Esta questão não é política? É política, sim!, pois gerir a polis é a própria natureza da acção política — e uma sociedade que esteja perante uma epidemia é aquela que mais precisa de acção política dos seus governantes A verve destes vê-se nestas alturas de crise, pois para «deixar andar, e logo se vê no que dá» qualquer um serve; para isso não são precisos eleitos da nação. Deixemos de ter medo de falar, e de medo de ser penalizado por falar de um facto político que é a gestão da saúde e da segurança públicas, que é por causa delas, em particular da segurança pública, da polis, da cidade, da sociedade, que a política existe. Sim, o problema emergente desta epidemia da febre de Dengue é um problema político — como todas as questões públicas.
E é político porque, entre outras coisas, o Governo dá prioridade à uma governação electrónica num país sem luz, em vez de ser uma governação de formação ética e cívica num país onde os animais mortos e o lixo doméstico são lançados na rua (é, o tratamento do lixo é necessário, urgente, imperativo). Podemos ter um mundo novo, sim; mas sem doenças velhas e mortais. O orgulho, o orgulho é o braço direito da morte; e só pede ajuda a que tem e pode mais quem precisa; e nós precisamos de ajuda, pois o nosso Estado é de Emergência de facto.
Do que está à espera, para cumprir com a Constituição, com o Vosso dever de políticos, ó Governo da minha terra? Políticos medrosos e pusilânimes, não! O que assusta o povo, é não se fazer nada, não ver um plano claro para todos saberem de forma clara e que chegue a todos. Sexta-feira contra o negro indesejado, i.e., contra a febre de Dengue, o pico solitário do mosquito? Soa estranho, até porque somos ilhéus, em ilhas estamos, mas Robinson Crusoé (esse que, depois da primeira viagem, ao que parece, parou em terras nossas a caminho do Brasil) não nos chamamos, não.
Ah!, a terceira vez em que o caixão cruzou-se no meu caminho? Isso, isso é outra história. Talvez vos conte, um dia. A nossa terra tem tudo, mas tudo para ser feliz.
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MANIFESTO CONTRA SARAMAGO – EPÍSTOLA PÚBLICA A JOSÉ SARAMAGO
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- EU E O MEU POETA
Hoje, no balanço do meu dia, disse ao meu poeta:
— A única coisa que a democracia não pode dispensar, além das pessoas, é a crítica.
E sorriu, o meu poeta. O meu poeta sorriu…
Imagem: Gregoriana, Antonio Capel
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terça-feira, 3 de Novembro de 2009
- PENSAMENTO «PRIMITIVO» E MENTE «CIVILIZADA»1
A maneira de pensar dos povos a que normalmente, e erradamente, chamamos «primitivos» — chamemos-lhes antes «povos sem escrita», por que, segundo penso, este é que é o fator discriminatório entre eles e nós — tem sido interpretada de dois modos diferentes, ambos errados na minha opinião. O primeiro considera que tal pensamento é de qualidade mais grosseira do que o nosso, e na Antropologia contemporânea o exemplo que nos vem imediatamente à idéia é Malinowski. Afirmo, desde já, que tenho a maior admiração por ele, que o considero um dos maiores antropólogos e que não pretendo com esta observação diminuir-lhe a sua contribuição para o campo da ciência. Contudo, Malinowski tinha a sensação de que o pensamento do povo que estava a estudar — e, de uma maneira geral, o pensamento de todas as populações sem escrita que eram o objeto de estudo da Antropologia — era ou é determinado inteiramente pelas necessidades básicas da vida.
Se se souber que um povo, seja ele qual for, é determinado pelas necessidades mais simples da vida — encontrar subsistências, satisfazer as pulsões sexuais e assim por diante —, então está-se apto a explicar as suas instituições sociais, as suas crenças, a sua mitologia e todo o resto. Esta concepção, que se encontra muito difundida, tem geralmente, na Antropologia, a designação de funcionalismo.O outro modo de encarar o pensamento «primitivo» – em lugar de sublinhar que e um tipo de pensamento inferior, como o faz a primeira interpretação – afirma que é um tipo de pensamento fundamentalmente diferente do nosso. Esta abordagem à questão concretiza-se na obra de Lévy-Bruhl, que considerou que a diferença básica entre o pensamento «primitivo» – ponho sempre a palavra «primitivo» entre aspas – e o pensamento moderno reside em que o primeiro é completamente determinado pelas representações místicas e emocionais. Enquanto a concepção de Malinowski é utilitária, a de Lévy-Bruhl é uma concepção emocional ou afetiva.
Ora, o que eu tenho tentado mostrar é que de fato o pensamento dos povos sem escrita é (ou pode ser, em muitas circunstâncias), por um lado, um pensamento desinteressado – e isto representa uma diferença relativamente a Malinowski — e, por outro, um pensamento intelectual — o que é uma diferença em relação a Lévy-Bruhl.
in Claude Lévi-Strauss, Pensamento «Primitivo» e Mente «Civilizada», das Conferências Massey de 1977 publicadas pelas Edições 70, Lisboa, sob o título Mito e Significado (p.12-13).
Imagem: Claude Lévi-Strauss
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1 Anunciou-se a morte de Claude Lévi-Strauss, a poucos dias de completar 101 anos. Um homem de Cultura, no sentido mais nobre da palavra, e que ficará na memória da humanidade, sem o procurar.
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- CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORRÂNEOS
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimentos de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Assis, 11.06.1961
----- Jorge de Sena
Imagem: Auto-retrato, Jackson Pollock
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- O MEU POETA
VB, quando é que Aquiles alcançará a tartaruga? — pergunta-me o meu poeta.
Imagem: Frei Bartolomeu de las Casas
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segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
- A DISCUSSÃO DA REVISÃO DA CONSTITUIÇÃO (2)
O Primeiro Ministro, José Maria Neves, ao contrário de outras ocasiões, mostrou-se nervoso e com um discurso pouco escorreito – pudera, falava da língua cabo-verdiana e do ALUPEC na Assembleia Nacional. Logo que terminou o seu discurso, os trabalhos foram suspensos . Esta suspensão dos trabalhos, pelo Presidente da Assembleia Nacional, Aristides Lima, soou a gongo salvador… mas há amanhã. O discurso de Rui Figueiredo e António Pascoal deixa a antever uma manhã interessante (e clarificador, parece-me), em torno da língua cabo-verdiana.
Agora, pelo que deu para entender hoje, tudo parece indicar que esta revisão da Constituição irá falhar; se não falhar será uma revisão sobre matérias menores, sem lavrar nas questões fundamentais. Poderá, eventualmente, haver surpresas, mas começo a ficar céptico, demasiado céptico nesta matéria da Revisão da Constituição pois não creio que o PAICV venha a viabilizar nenhuma das propostas do MPD, e vice-versa. O projecto do deputado Humberto Cardoso será tido, para os dosi grupos parlamentares, como um corpo estranho; para prejuízo da qualidade da democracia.
A margem disso, parece-me que o grupo parlamentar do MPD ganha substância discursiva com Rui Figueiredo, António Pascoal e Mário Silva. Assim como os deputados poderiam ter defendido melhor as suas propostas! É que, ó M.I. deputado da nação José Manuel Andrade, a questão que defende, e bem!, de se mudar «homem» para «humano» não tem a ver com modernidade em relação à Constituição de 1992, nem com «nova nomenclatura», como diz o deputado Rui Semedo, mas sim com uma dimensão doutrinária e filosófica. São dois conceitos distintos, sim – e atinaram bem na questão do género, pois ela foi sobejamente discutida aquando da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a tal que enforma a Constituição de Cabo Verde. Aliás, a Comissão dos Direitos Humanos da ONU afastou, até por intervenção da sua Presidente, Eleanor Roosevelt, a representante da Índia e de outros países subdesenvolvidos (se Cabo Verde já fosse Estado independente teria defendido a mesma posição).
Se a defesa da proposta não foi a mais feliz e adequada, a verdade é que é uma boa proposta, e deveria ser aprovada. Não entendi, confesso que não consigo, em razão, entender, a posição de abstenção do MPD em matéria de direitos fundamentais – como foram as três primeiras propostas do PAICV. Nem quero crer no que me ocorre, só de pensar nisso sinto-me pecador! Se for esse o caso, o MPD deveria ter, então, proposto um outro procedimento de discussão das propostas? A ver vamos!
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- A DISCUSSÃO DA REVISÃO DA CONSTITUIÇÃO (1)
O que se passa com os deputados do MPD? Vai-se no Artº.3 do projecto de revisão do PAICV e verifica-se o boicote total. Um absurdo inadmissível, não aprovar os textos e não justificar a sua posição. Abstenção silenciosa. Se em matérias de consenso científico, como é a diferença conceptual entre homem e humano, e a garantia de direitos aos emigrados não se chega a consenso…
Rui Semedo tem razão, crioulo cabo-verdiano (como defende António Monteiro) não dignifica a língua cabo-verdiana, mas a questão não passa por isso, certamente. A redação não é a mais feliz, mas os deputados deverão chegar a um consenso, necessário, sobre a matéria. Abstensão, não será admissível.
A discussão segue a aqui, na RCV.
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Volta, como era previsível: depois dos partidos políticos terem decidido a sua liderança, a discussão sobre a Revisão Constitucional. E volta no local próprio, na Assembleia Nacional. É conveniente relembrar aos partidos políticos (que se aventuram no projecto de rever a Constituição em matérias como Direitos, Liberdades e Garantias fundamentais dos cidadãos) que uma coisa é o que se deseja e outra o que se tem ou se pode ter.
Ao contrário do que ouvi Gualberto do Rosário dizer meses atrás (em Conferência sobre a Parceria Especial de Cabo Verde com a União Europeia, proferida na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa), de que «o Direito se sujeita ao poder e à vontade política», o político e todo o social são sujeitos do Direito e são conformados por este: existe um Rule of Law e não um primado da política sobre o Direito – é por esta razão que se fala em Estado de Direito em oposição ao Estado autoritário; num existem limites ao arbítrio do poder político, no outro não... são os políticos que decidem o que é o bem social. As normas, como diria Karl Lowenstein, são da ordem da semântica jurídica para os Estados fundamentados no pensamento autoritário que, fundado no pragmatismo da vontade política, não se sujeita ao Rule of Law.
Assim, há que atentar nos Projectos de Revisão do PAICV no plano de um Estado enformado pelo Rule of Law, pelo império do Direito e não pela vontade política – esta tem limites, não vale tudo o que quer. The sky is not the limite — o limite da vontade política, quer do Governo quer da Assembleia Nacional, é a Constituição da República. É o Direito que condiciona a vontade política, não o contrário. É o caso, por exemplo, do projecto de revisão da Constituição do PAICV em matérias como, v.g., a extradição e a adesão ao TPI que brigam com os limites materiais de revisão da Constituição.
Que fique claro: a Constituição não admite o que os partidos políticos querem. E os partidos devem respeitar a Constituição da República; e se não o fizerem não respeitam o Império da Lei, o fundamento da Democracia. E a lei não diz o queremos que ela diga, mas sim o que diz e quer dizer. E assim é porque o poder legislativo tem um correlativo, inerente às suas atribuições, que é o dever de non facere em dadas matérias, como é o caso dos limites materiais de revisão da Constituição.
Sobre esta matéria, aconselho a leitura, por todos, de Teoria do Ordenamento Jurídico, de Norberto Bobbio, em particular o capítulo II.4-5 em que o filósofo, depois de aceitar a teoria da pirâmide normativa de Hans Kelsen e de afirmar o que é consabido, que: «as normas de um ordenamento não estão todas no mesmo plano» (sobre esta matéria, a Teoria de los Derechos Fundamentales de Robert Alexy é de ordem capital), atenta, ainda que de forma breve mas muito elucidativa, nos limites materiais e formais do poder legislativo. Limites constitucionais, emergentes da norma fundamental — a grundnorm kelsiana, e que se destinam a limitar o poder político e evitar o arbítrio. É, em essência, a razão do pensamento de Montesquieu no Espirito das Leis e que é a base doutrinária da ideia de limitação do poder, mais do que de separação de poderes — uma coisa é de natureza substancial e outra formal.
É matéria que deveria ser uma evidência lapidar; mas, pelos vistos, não é. Mas o que é isso de norma fundamental limitadora — limite material da revisão da Constituição? Usando a terminologia de divisão dos conceitos práticos de Von Wrigth: conceitos deontológicos, axiológicos e antropológicos, a questão fica clara. As ideias de base ou fundamentos dos projectos de revisão constitucional são evidentes, pois fundam-se (a) numa base axiológica — uma dada ideia de bem que grassa na comunidade internacional (que é, mesmo assim, variável); e (b) antropológica — isto é, de interesse e vontade legislativa em agir. Mas uma dimensão prática e necessária escapou aos textos (talvez porque são exíguos na sua motivação): a deôntica.
Sim, acontece que o que está em causa são normas de direitos fundamentais de natureza deontológicas — de mandado de non facere que funcionam como limites à acção do legislador, quer este coloque as coisas no plano axiológico ou antropológico. É, de todo, um problema de valores; dos que tratam Scheler, Hartman, Von Wrigth, Rawls… são os fundamentos da democracia que estão em causa: os direitos fundamentais da pessoa humana que fundamenta o Estado de Direito cabo-verdiano, e onde resta a base da soberania nacional — no povo e nos seus direitos basilares. Por isso é que os Estados, porque se assumem soberanos, não prescindem do directo de não extraditar os seus cidadãos; o que não quer dizer que deva ser santuário de e para criminosos. De todo que não!
Assim, será tão difícil de perceber que o limite material relativo (relativo porque se admite o alargamento da esfera de protecção da norma ius fundamental) de revisão da Constituição não permite a alteração da Constituição para extraditar cabo-verdianos ou entregá-los ao Tribunal Penal Internacional (TPI) no quadro de uma adesão ao Estatuto do Tribunal Penal Internacional? Espanta-me, pois, os projectos do PAICV e do Deputado Humberto Cardoso, até porque existem soluções que não violam a Constituição. Alterar-se a Constituição para agradar a comunidade internacional (alguma) não me parece nem boa política nem bom princípio. O pragmatismo tem limites, e os princípios estão na primeira linhas destes limites.
Pode(rá) haver uma tentativa de cindir, no plano conceptual, as ideias de “extradição” e de “entrega”, para se dizer que este conceito (a entrega) não consubstancia uma violação da proibição constitucional de extraditar cidadãos nacionais, pois não se extraditaria, tão somente se entregaria o cidadão para que fosse julgado ou cumprisse pena no exterior. Ora, mau grado os méritos que tal discussão pode(rá) ter, também resulta uma falácia, pois, na verdade, a entrega é um dos momentos processuais da extradição — esta consuma-se com a entrega do cidadão extraditando ao Estado requerente. Cindir este momento processual num outro conceito pode ter as virtualidades que tiver, mas não deve — é um deontos — é brigar com a proibição constitucional que, na verdade, seria defraudada com tal conceito.
Os limites materiais da revisão da Constituição são, mutatis mutandis, uma espécie de guarda pretoriana do ordenamento jurídico na sua dimensão ius fundamental. No que a uma norma em concreto diz respeito, como diz bem Gilmar Mendes, “importará sindicar o objecto e a esfera de protecção da norma” mas também, parece-me, contra o quê, contra que tipo de agressão se outorga essa norma. Sendo que «quanto mais amplo é/for o âmbito de protecção de um direito fundamental, tanto mais se afigura possível qualificar qualquer acto do Estado como restrição» (Gilmar Mendes, «Direitos Individuais e Suas Limitações: Breves Reflexões», in Gilmar Mendes Ferreira/Inocêncio Mártires Coelho/Paulo Gustavo Bonet Branco, Hermenêutica Constitucional e Direitos Fundamentais, Brasília, p.210 e segs). E a norma do Artº.285º. nº.2 da CRCV é uma dessas normas com uma esfera de protecção alargada ou reforçada, não sendo de admitir a sua limitação ou restrição.
Atentar contra eles é atentar contra toda a ordem jurídica, contra a própria ideia de Direito como fundamento do Estado Democrático pós liberal. É que os direitos fundamentais constituem uma ordem de valores que a Constituição, neste plano, concretiza com o mandato de non facere — não poderem ser revistas — o que é dizer que não se pode nem se deve restringir o direito a não ser extraditado (de forma directa e/ou indirecta) em quaisquer circunstâncias.
Post scriptum: Ah, sobre o Conselho Superior da Magistratura, e se os M.I. Deputados chegassem ao consenso de deixar a Presidência do Conselho Superior da Magistratura como está, com a Presidência por inerência do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, e com estes a serem eleitos pelos seus pares e com membros eleitos pelos magistrados judiciais e cidadãos eleitos pela Assembleia Nacional? É que, convenhamos, a Magistratura também deve ser sujeita ao escrutínio democrático, o que não quer dizer, em si mesmo, interferência do poder político. Mas, já pensaram os M.I. Deputados que a(s) Magistratura(s) são, em última análise, por natureza, também um poder político, no sentido de gestor, administrador da Justiça? Nada pode ou deve estar para além do controlo democrático, em particular os juízes.
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- LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS
El Gólem de Gustav Meyrink
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- A BANDEIRA DA MINISTRA DA JUSTIÇA
Para quê, pergunto-me, se discute a Revisão da Constituição da República de Cabo verde se ela não é respeitada em coisas simples e elementares como os seus símbolos (a Bandeira), ou os seus mandatos (a instalação do Tribunal Constitucional e o Provedor de Justiça) por membros do Governo? No outro dia ouvia na RCV — durante debate na Assembleia Nacional — que se condicionava a instalação do Tribunal Constitucional a aprovação dos nomes dos juízes… Alguma coisa está mal, mas muito mal, no que a cultura da Constituição diz respeito.
Sim, gostaria de saber qual é a Bandeira da Ministra da Justiça de Cabo Verde, pois a que está no blog da cidadã Marisa Morais não é a bandeira nacional. Não é pedir muito, pois não?
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domingo, 1 de Novembro de 2009
"É o fim de mais uma Convenção, a IX Convenção Nacional do Movimento para a Democracia, que acaba de me confiar a liderança do partido.
Uma liderança que assumo com responsabilidade reforçada pelo modo - bem expresso e sintetizado no dia das eleições - como, todos do Presidente cessante ao simples militantes de base da, mais distinta povoação se disponibilizaram para ela.
O Governo MpD, o próximo saído das legislativas de 2011, criará as bases para um crescimento sustentado e o desenvolvimento da nossa economia; garantirá mais segurança e mais justiça aos cidadãos; resolverá os graves problemas estruturais existentes; dará à juventude claras perspectivas de futuro e condições para a sua afirmação.
Será um Governo que assume o compromisso de não procurar substituir a acção, necessariamente ponderada e coerente, por abundância de palavras com o único objectivo de distribuir ilusões, desviar atenções e adormecer consciências, como vem acontecendo nos últimos anos.
O que a IX Convenção Nacional do Movimento para a Democracia deixou aqui evidenciado é que esta é a hora par dar um novo rumo aos País e que o MpD está preparado para, com o apoio dos cabo-verdianos, encontrar as melhores respostas para a solução dos problemas existentes.
A IX Convenção Nacional aprovou uma moção de estratégia que já prefigura as bases do programa do Governo MpD que a Nação irá legitimar em 2011. Ela dota o partido de uma orientação, sem ambiguidades, para a acção. Confirma os seus valores matriciais, os seus princípios ideológicos e reafirma a sua doutrina. É uma estratégia estruturada e adequadamente articulada, coerente, tendo por centro o Homem cabo-verdiano e os interesses de Cabo Verde.
A IX Convenção Nacional armou o partido para os combates políticos que se avizinham. Elegeu alguns dos novos órgãos dirigentes e criou condições para a criação de outros, igualmente fundamentais, ainda hoje, reflectindo na sua composição o País real e a dinâmica da juventude e da renovação da sociedade.
Confesso que não estou ainda totalmente satisfeito com o resultado alcançado hoje e que, quanto à representação do género, me sinto altamente insatisfeito. MAS creio que estão lançadas as bases para uma renovação equilibrada crescente do corpo dirigente do partido incentivando-se a prosseguir nessa indispensável via.
Concluímos, assim, com distinção, a IX Convenção Nacional do Movimento para a Democracia: foram eficazmente atingidos os objectivos propostos e ficaram novas metas que queremos alcançar com a mesma eficácia.
Esta Convenção permitiu igualmente aferir que a anterior presidência do MpD, do nosso companheiro Engº Jorge Santos, cumpriu, com sucesso, os propósitos que definiu: reforçar a organização do partido, alargar a sua influência na sociedade cabo-verdiana, projectá-la para os novos combates políticos que se perfilam no horizonte imediato.
O MpD é hoje (em número de militantes) o maior partido de Cabo Verde, o partido que governa o maior número de autarquias e as principais autarquias do País, com boa implantação na Diáspora. E isto é crédito que cabe a Jorge Santos: o Movimento para a Democracia, e eu mesmo, estamos-lhe profundamente gratos.
Jorge Santos, para além da sua enorme capacidade de líder, revelou também um grande desapego a cargos, colocando o partido e os interesses nacionais acima dos seus legítimos interesses pessoais. Deu, com isto, um exemplo de abnegação e verticalidade que a todos nos honra. Terá para sempre um lugar de destaque no nosso partido e fica no coração dos militantes. Contamos com ele na primeira linha para os combates políticos que se seguem, aos quais certamente ele não faltará, com a mesma dedicação, o mesmo empenhamento, a mesma coragem de que tem dado provas. Jorge Santos é um capital do Movimento para a Democracia: saberemos ser seus dignos continuadores.
Apesar dos avanços organizativos registados pelo MpD, que hoje é um partido unido e curado das feridas do passado, um partido vigoroso, temos consciência de que há ainda muito a fazer no plano partidário.
Importa continuar a fazer crescer o partido, sempre tendo em conta que aqueles que de nós se aproximam quando não somos poder o fazem seguramente por convicção: nada têm a ganhar.
Importa reforçar ainda mais organização local e regional do partido, assegurando capacidade de intervenção e influência a novel das localidades, dos municípios, das ilhas, das regiões e da diáspora. Mas devemos fazê-lo de modo que as estruturas partidárias não se confundam com o Poder autárquico, que sempre deve estar ao serviço das populações e não do partido.
Importa alargar ou promover a abertura do partido à sociedade e o incentivo à criação de novas organizações fundadas nos valores de que o MpD comunga, por forma a cimentar e aumentar a influência das ideias do partido na sociedade, cuidando de sempre preservar a autonomia dessas mesmas.
Estas são tarefas que nos propomos cumprir em prazo curto.
Mas vamos, desenvolver, no seio do partido mas em estruturas de apoio abertas à sociedade civil, os estudos estratégicos e de suporte a propostas de políticas públicas quer ao nível autárquico quer no parlamento. Nessa estrutura participarão seguramente muitos quadros de partido, que os mais experientes, quer os jovens quadros, que por razões diversas não oram incluídos nos órgãos dirigentes do partido embora tivessem todas as condições para a eles pertencerem.
Queremos ainda constituir rapidamente um Governo-Sombra que, nos diferentes sectores, assegures capacidade à oposição que neste momento somos e prepare com eficácia o Governo que amanhã seremos.
Para todos estes desempenhos é necessário que no nosso partido circule a informação não desvirtuada, sem tabus; é necessário que os militantes tenham acesso À informação sempre actual da actividade partidária, estejam os militantes em Santo Antão ou na ilha Brava, estejam na diáspora ou no País. Para isso é importante que o MpD disponha de canais de informação interna que nunca adormeçam e disponha igualmente de canais tecnologicamente adequados, com recurso à informação electrónica.
Será sempre pedra de toque o aprofundamento da democracia interna, dando informação aos militantes e dando-lhes também voz. Por esta forma seremos capazes de fortalecer a unidade do partido, sem temores pelo debate aberto das questões, sem recear reconhecer o direito à discordância: a diversidade e a diferença valorizam a democracia por que lutamos.
Mas, devemos sempre valorizar a unidade acima de tudo, a unidade que hoje existe, que foi conquistada. Aprendemos com os erros do passado e, aprendendo, recusamos repeti-los.
O MpD não é e não será um partido autofágico. É e será um partido onde vale a opinião de cada um para valer a opinião de todos. É e será um partido profundamente democrático.
Caros Companheiros, minhas Senhoras e meus Senhores
Atingimos todas as metas definidas para a IX Convenção Nacional, todos os propósitos expressos foram alcançados. Podemos dizer que passámos com distinção esta prova e que estamos preparados para, com a mesma eficácia, responder a desafios maiores que têm a ver com o dar solução ao problema do desemprego massivo que fustiga o País.
Sabemos que, para criar emprego, é preciso criar condições para um desenvolvimento real do País, para o crescimento forte e para o aumento substancial da competetividade da economia.
Não basta que nos consideram País de rendimento médio: é preciso que os indicadores económicos e sociais o confirmem. Sobretudo é fundamental que os cabo-verdianos se sintam, d facto, num País de rendimento médio, tanto no que respeita aos seus rendimentos, como no que refere às suas condições de vida e ao seu bem-estar. Esse é que é, e será, o grande critério: as condições de vida do povo cabo-verdiano.
E as condições de vida dos cabo-verdianos não melhoram com uma taxa de desemprego de 22% em média, de 46% entre os jovens e de 25% entre as mulheres; com um crescimento ligeiramente acima dos 3%; e com um endividamento do país que já representa 70% do PIB, excluindo os avales e as garantias; e com orçamentos eleitoralistas que apresentam um deficit nominal de quase 12%, isto é quase o triplo do que está legalmente estabelecido no Acordo de Cooperação Cambial e constitui condição essencial da sustentabilidade da taxa de câmbio fixo do escudo cabo-verdiano em relação ao Euro. Note-se, aliás, que o deficit real é maior, pois não inclui os elevadíssimos subsídios e a desornamentação que vêm sendo usados para suprir a ineficiência da TACV e da ELECTRA, entre outras.
Sabemos que, sem crescimento económico, não resolvemos o problema do desemprego, da pobreza, das grandes disparidades sociais que o actual Governo engendrou ao longo dos últimos dez anos. Por isso é que o futuro Governo MpD desde já equaciona os problemas e começa a testar soluções para retirar Cabo Verde da crise em que, pela sua incompetência e pelas suas políticas inconsistentes, o PAICV deixou mergulhar o País.
Actuaremos segundo os eixos enunciados na Moção de Estratégia: melhor intervenção do Estado na economia; aprofundar o Acordo de Cooperação Cambial para criar melhor integração na zona da União Europeia; e medidas para aumentar a competitividade e melhorar o ambiente de negócios em Cabo Verde.
Combater o desemprego é a aprioridade das prioridades. Nós vamos fazê-lo. Os cabo-verdianos têm que fazê-lo. Estamos que para esse trabalho.
Sem ambiguidades, dizemos que o turismo será a alavanca para o desenvolvimento. Mas também dizemos que só o será se políticas coerentes retiram este sector do pântano em que o deixaram e se tal for completamente com o desenvolvimento as pescas, da agricultura, dos transportes, da indústria transformadora. E apontamos as medidas necessárias para que cada um destes sectores de actividade possa desenvolver, num processo integrado e coerente. Os cabo-verdianos têm que fazer parte desse processo. Não podemos depender apenas da entrada e saída de turistas.
Sem ambiguidades, também dizemos que não há desenvolvimento sem um sistema energético funcional e que o actual Governo, cujo fim se anuncia, falhou redondamente nesta como noutras questões: afundou-se na demagogia, nas promessas balofas, no nacionalismo serôdio e inconsequente, no adiamento das soluções, permitindo assim que a crise energética se agravasse, bloqueando com isso a possibilidade de desenvolvimento do tecido económico.
Sem ambiguidades, dizemos ainda que não há desenvolvimento coerente e harmonioso se não existir um sistema de transportes que integre as diferentes ilhas, desencravando-as do isolamento. Que o investimento em infra-estruturas portuárias, aeroportuárias e rodoviárias apenas produz "elefantes brancos" se elas não servirem efectivamente ao transporte de pessoas e mercadorias, portanto se a elas corresponder a existência de um sistema de transportes activo. E aqui, valorizando as fachadas em detrimento das questões fundamentais, o actual Governo, cujo fim se anuncia, também falhou redondamente.
Sem ambiguidades, igualmente dizemos que não há desenvolvimento onde a iniciativa empresaria seja um parceiro castigado pela desconfiança de quem tem o poder decisório. E aqui, apesar de alguns discursos pontuais, a iniciativa privada tem sido tolerada, sob desconfiança, mas nunca aceite como um parceiro fundamental para o desenvolvimento do País pelo actual Governo.
Sem ambiguidades, propugnamos por um novo rumo capaz de resolver o problema do desemprego, capaz de promover o desenvolvimento, tendo em vista o reforço da democracia, apenas possível pelo reforço da sociedade civil. Entendemos que a política deve ter por centro o Homem e a dignidade da sua condição. É essencialmente por isso que damos prioridade à resolução dos graves problemas da economia.
Sem ambiguidades, defendemos e asseguraremos uma educação/formação de mais elevada qualidade para todos os jovens cabo-verdianos, introduzindo as reformas necessárias que o actual Governo deixou atrasar.
Estabeleceremos medidas de apoio aos jovens na educação e formação profissional, não excluindo medidas de subsidiação de propinas em universidade privadas como forma de aumentar as oportunidades de valorização dos mesmos, pois as taxas de juro são elevadas e os jovens estão excluídos do sistema bancário.
Nesse mesmo quadro, criaremos um fundo para cobertura de risco que encoraje o empreededorismo jovem nos vários domínios da economia; pugnaremos para que os jovens cabo-verdianos possam beneficiar do sistema ERASMUS nas Universidades da União Europeia; e bonificaremos juros na compra de habitação por parte de jovens.
Sem ambiguidades dizemos que faremos uma profunda reforma da justiça que a torne mais independente, eficiente e efectiva e que assegure a igual oportunidade do acesso a ela por todos os que demandam os tribunais, nos termos que deixamos exoressos na Moção.
Sem ambiguidades afirmamos que faremos uma nova vaga de descentralização quer no sentido da instituição da ilha como autarquia supra municipal, com poderes administrativos e recursos efectivos alargados. Do mesmo modo aprofundaremos a descentralização para o nível infra-municipal.
Sem ambiguidades, reconhecemos a existência de um problema de insegurança nos principais centros urbanos do país, que porém, consideramos passível de solução, com políticas adequadas, enunciadas na Moção de Estratégia.
Cometemos erros, por certo. Não expurgámos o aparelho de Estado dos resquícios totalitários ele existentes, não responsabilizámos aqueles que se comprometeram com a repressão sobe o povo cabo-verdiano, convictos de que eles por si mesmos se converteriam aos valores democráticos e descurámos a denúncia do sofrimento que o regime de partido único causou à Nação. Permitimos assim que o lobo se vestisse com pele de cordeiro e que o factor tempo apagasse da memória da sociedade o quanto teve de vil o regime totalitário.
A partir de 2011, o PAICV vai ter tempo para se repensar, para avançar na sua democratização, despojando-se da sua arrogância, dos seus tiques, dos seus vícios totalitários.
Na oposição, PAICV encontrará condições para se reformular e, finalmente, se deixar imbuir em definitivo pelas ideias e valores da democracia. E isso será bom e útil para Cabo Verde.
Até 2011, o Governo PAICV deve esperar de nós uma oposição leal, mas firme; uma oposição capaz de apresentar alternativas, de tomar a iniciativa de propostas legislativas no Parlamento; uma oposição que não receará apoias tudo quanto seja benéfico para o Povo cabo-verdiano e para o País, mas que combaterá vigorosamente tudo quanto lesivo dos direitos e interesses dos cabo-verdianos e contrário às regras democráticas.
Depois de 20011, já o Governo, por vontade dos cabo-verdianos, estaremos abertos ao aprofundamento do diálogo com os nossos adversários, até porque os nossos verdadeiros inimigos são a pobreza, o desemprego, o atraso, a incultura, o crime.
Para isso aqui estamos, nós do MpD, prontos para o trabalho, sem limitações. Conto com todos, coma força desta juventude, com a coragem destas mulheres e com a vontade de todos os cabo-verdianos para construirmos um Cabo Verde melhor. Eu conto convosco, contem comigo, incondicionalmente."
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- A VERDADEIRA MÃE DE ROMA
Quem não conhece a história da fundação de Roma, não ouviu o mito de Rómulo e de Remo que, crianças, foram criados e alimentados por uma loba? A história se repetiu de tal forma que se confunde com a ideia da Monarquia, da República e do Império romano, e a imagem da loba a amamentar os dois irmãos é, com o símbolo da República – SPQR – a representação de Roma.
A verdade, no entanto, é substancialmente diferente, se atentarmos na história romana e nas suas origens. O povo togado, em particular depois de banhar-se e afogar-se nas riquezas e no sangue africano de Cartago, tornou-se um povo improdutivo e ocioso: os escravos faziam praticamente tudo. A famosa loba romana, não é um produto de Roma mas sim uma peça de arte etrusca que os romanos — depois de assimilaram a sua cultura de tal ordem que o seu alfabeto, de matriz grega, se tornaria a base da língua e da escrita romanas — tornariam sua referência mítica. A loba etrusca não tinha, inicialmente, as figuras de Rómulo e de Remo — estas seguiram acrescentadas durante o Renascimento.
Mas não é a loba, na verdade, a verdadeira mãe de Roma. A mãe de Roma são as Sabinas, as raptadas e violadas sabinas. Não tivessem elas se apaixonado pelos seus raptores — o que hoje se chama de Síndrome de Estocolmo, mas que deveria se chamar de «Síndrome das Sabinas» — e o povo togado e sua glória nunca nos teria tocado, não teríamos, certamente, o modelo de civilização ocidental que hoje conhecemos. Teríamos outra coisa, certamente. Imagino que hoje, provavelmente, estaria a olhar para Baal Moloc ou Tanit, se exististe; o que é, seria, muito improvável. Deus! O que o amor e do perdão de uma mulher, ao caso de várias mulheres, pode fazer…
Umas coisas nascem do amor e do perdão, outras morrem na sombra do silêncio. Todos, de uma forma ou de outra, somos filhos do acidente no plano da história, ou da resiliência e da sorte no plano bio-genético.
Imagem: Rómulo e Remo mamando de uma loba
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- ULISSES REVISITADO
Dava a alma em tempos
por um beijo desejado
na noite; saltitava
de momento em momento,
de corpo em corpo...
De indizível ardósia a ébano discreto
listava os dias na alma do riso,
na aurora dos gritos,
na confinação da descendência em latex,
nos corpos que ficaram nos matos,
nas veredas selvagens,
nos recantos ilhéus
e na briga de ser novidade
dos resilientes não nascidos…
Marcava a eternidade sem voz,
coloria o mundo
até ser julgado pelos filhos abandonados.
Pena-desejo: tens de ser como nós.
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sábado, 31 de Outubro de 2009
- PÉROLAS VERDADEIRAS
Acabo de ouvir na RCV o discurso de Carlos Veiga no encerramento da Convenção do MPD. Um discurso claro, com ideias, curadora de eventuais feridas internas — que se tem tentado, bem, evitar —, congregador do partido e mobilizador ao nível interno e externo, e demarcando o inimigo do MPD: a pobreza e a falta de desenvolvimento do país.
A moção de estratégia em si, é documento para ser lido e analisado com cuidado. O que ouvi, durante o discurso e depois — durante a Conferência de Imprensa, segundo deu para entender — agradou-me. Muito, devo dizer. Alguns ilações podem ser tiradas, algumas particularmente interessantes, mas isso fica para depois. Agora, resta ver os órgãos eleitos do partido, e saber quem é que foi eleito para se ter uma ideia do que o novo líder do MPD pode contar, e esperar pelas decisões necessárias que terá de tomar. No discurso, começou bem. É que, em verdade, a liderança de Carlos Veiga começa hoje, hoje é o dia zero. Amanhã é um outro dia, que seja novo.
Eu, vou ver o Braga-Benfica.
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Ao (re)ler Caim, de José Saramago, lembro-me da obra de um outro ateísta: Arthur Miller, nomeadamente o seu livro The Creation of the World and Other Business. Absolutamente compreensível, pois nihil novi sub sole. E o nobelado anuncia um «nunca visto atrevimento» da sua obra...
Imagem: Marilyn Monroe (1954), antes de casar com Arthur Miller
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- MOMENTO ERÓTICO
Imagem: Shannon Stewart
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sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
- PIGS IN THE PARLOR
Por vezes, lemos coisas tão absurdas que, para não se sermos mal-educados resta-nos ser gráficos. O absentismo presente, o uso de instrumentos de trabalho, em particular de órgãos do Estado para se ter «bases de dados» privados – que, note-se, viola normas jurídicas (pois é, «legalismu») – para fins de propaganda política é coisa a ter-se em conta na terra da morabeza, onde se confunde «morabeza» com fraternidade…
Os fins, por mais nobres que possam ser ou parecer não justificam os meios. Mas há quem ache que sim, by any means necessary, é o lema. Mas, porque escrevo isso, se o que quero e me lembro mesmo é das palavras do meu Mestre, sim o quero mesmo é ser gráfico, direccionadamente gráfico.gov? Que seja, e seja entendido. I am not talking just about giving parlors to pigs, i am talking about "pigs in the parlor"!
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PUSHKIN E ANNA KARÉNINA DE TOLSTOIPor vezes fazemos e dizemos coisas cujas consequências não somos capazes de imaginar. O acidente, o incidente ou, simplesmente, o que compartilhamos pode gerar mundos. A propósito da língua, no outro referia-me a Pushkin e a Gogol e recebi um e-mail a perguntar-me a que isso tinha a ver com a língua, que o cabo-verdiano é sui generis, que é uma coisa nova e grandiosa. Sorri, pois só poderia fazer isso — perante isso e outras coisas mais.
O que me lembrou da sábia asserção de Salomão: nada há de novo debaixo do Sol; sim tudo tem uma origem, uma razão e um sentido. Aconselhei uma amiga a ler Anna Karénina — uma das maiores obras da história da literatura — de Tolstoi. Decorria o ano de 1875 quando o Conde Tolstoi recebeu na sua casa em Yasnaya Polyana a visita de um familiar, cujo nome não vislumbro de momento (se calhar não sei, pois se soubesse lembrar-me-ia), que estava a ler Pushkin. Esse bendito afro-russo, o maior dos poetas de língua russa e inspirador das melhores obras de Nicolai Gogol — pater do realismo russo — estava, sem saber, prestes a legar mais à humanidade estética.
Por mero acidente, na verdade curiosidade que um escritor não excessivamente arrogante tem, Tolstoi agarrou na obra e, enquanto dava «uma vista de olhos» na obra alguém entrou na sala e ele exclamou:
Tolstoi ficou de tal modo impressionado com a assertividade e clareza de Pushkin que se reviu, imediatamente, na sua escrita. Sem mais, pediu para não ser interrompido a nenhum pretexto ou razão e fechou-se na sua livraria. E começou, nesse momento, a escrever a sua obra maior: Anna Karénina. Levaria anos para a terminar, iniciando-se a sua publicação no Mensageiro Russo de 1875. Momentos, despertares…
Imagem: Alexander Pushkin
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quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
- CINCO. EU, O MEU POETA, MARYLIN, DEUS E O MAL
«Uma das provas que Deus não existe é Marilyn Monroe ter-se casado com Arthur Miller»
— diz-me o meu poeta. E lá vou eu, de mão na cabeça, desbravar memórias.Marilyn Monroe depois de um casamento atribulado com Joe di Maggio, casou-se com Arthur Miller, um homem cujo objectivo na vida era deixar a sua consciência na sua obra literária e não propriamente amar. Novo divórcio, é claro. A busca do amor (que é mais difícil de ser encontrado por pessoas especiais e capazes de amar) levou-a a um amor necessariamente de furna com John Fitzgerald Kennedy, a um desgosto profundo de quem sabia merecer mais do mais simples que se pode exigir: amor.
Como é que a mulher não poderia se suicidar? Um pensava que era Deus, outro que Deus não existia e o terceiro não pensava que era Deus mas mais do que Ele. Não há alma que resista. Sim – como me disse o meu poeta –, a culpa de Deus será admitir na existência pessoas boas… pois a evolução natural diz-nos que os fortes sobrevivem, e os fracos perecem; que isto está inscrito no padrão genético de cada um que procura perpetuar-se, by any means necessary.
Será por isso que muita gente confunde a bondade, o perdão, a urbanidade e a gentileza com fraqueza? Será por isso que o padrão do mal cresce a cada dia que passa, e as pessoas se tornam mais duras e desumanas (revelam-se, na verdade revelam-se)? Tudo indica que o mal vai vencer, que o humanismo e as transcendências mais não são do que formas de resistência ao mal. A final, será a natureza humana a vencer Deus (a nossa consciência e/ou inconsciência dEle), quando destruir toda a humanidade vergada sobre o fel do seu próprio mal.
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terça-feira, 27 de Outubro de 2009
- O INÍCIO DO FIM DO ANGOLAGATE
A magistratura francesa, com todas as suas particularidades, mostra-se verdadeiramente independente. Do poder político e não só, e não só... e iso é uma questão de cultura, sim: de cultura democrática.
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segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

- PRIMEIRAS IMPRESSÕES DA ASSEMBLEIA NACIONAL
Fiquei a saber, na voz da Deputada Janine Lelis: os novos juízes foram nomeados para o Supremo Tribunal de Justiça e… sem gabinetes. Como trabalham? — pergunto. Não faz mal, iis t’desenraká´s’iis midje — deverá ter pensado a tutela.
O líder da bancada do PAIC, Rui Semedo, diz que: «já há meios para se instalar o Tribunal Constitucional». Isto é, a culpa de não haver TC é, afinal de contas e do ponto de vista do PAICV, do MPD. Genial! — diria um espanhol. A Ministra da Justiça, Marisa Morais, diz que primeiro aprovam-se os nomes dos juízes, depois se fará a Portaria para os funcionários do Tribunal Constitucional e o demais… pois «já existem todos os meios». Mas que meios? Os valores aprovados no Orçamento do Estado? Ninguém perguntou, e ninguém disse.
Todos perceberam: primeiro a mobília, depois a casa. Ah! Esquecia-me (os deputados também): como foi aplicado as verbas inscritas no Orçamento de Estado para instalar, este ano que corre, o Tribunal Constitucional? Há um edifício fantasma que será o Tribunal Constitucional e ninguém sabe. Será na Praia, em São Vicente, na Assomada ou no Ribeira Brava, Nova Sintra, algures no Maio ou São Filipe? Ninguém quer saber? Nem um pouquinho de curiosidade, um b’kedim, um nikim de kuriosidad (agora é assim que se escreve, kapado!) ó nhis gent?
O MPD, ao parece, ainda continua a não estudar o discurso; a não ter uma estratégia parlamentar. A Cristina Fontes, Ministra da Defesa e da Reforma do Estado, diz coisas com sentido no que a Justiça diz respeito; até porque são evidências. Pena é não ser acompanhada por outros… media via, media via. Faz sentido o que diz.
A boa oposição (má para o poder) não pode ser, não deve ser cega, e muito menos obtusa. É um problema estrutural, ou mera falta de perspectiva? A verdade é que o país não melhorará enquanto a oposição não melhorar, não for mais incisiva e consciente da sua função. O facto de o MPD ter, neste momento, um líder que não é parlamentar dificulta-lhe a estratégia, mas não explica muita coisa.
Correndo o risco de ser injusto – e se for o caso penitencio-me e pedirei desculpas ao visado – parece-me que percebi um facto insólito: é impressão minha ou um deputado da oposição tinha a pergunta (a ser feita ao Secretário de Estado da Educação) escrita, e leu-a como mau aluno da terceira classe? A rádio tem dessas coisas… e a vida também: é um sofrimento, ouvir e não ouvir estes deputados, este Parlamento. Ó Marcelo! Marcelo…
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domingo, 25 de Outubro de 2009
- A FRANÇA E A CASTRAÇÃO QUÍMICA DOS AGRESSORES SEXUAIS
A França prepara uma legislação draconiana para os autores de crimes sexuais: a castração química. No plano das políticas criminais é, será uma medida proporcional e adequada e nos termos em que é proposta? Se em alguns casos limite a castração química poderá ser a única solução adequada no âmbito da ponderação dos direitos e interesses legítimos do agente do crime e da sociedade, já me parece excessivo ter uma lei que – no quadro do direito penal da culpa – se recorra a isso como mecanismo genérico.
O problema é que, e nisso resta a minha preocupação maior, no âmbito do direito penal da culpa os prevaricadores sexuais são, em regra, inimputáveis e nem sempre são tratados como um perigo social mas como criminosos comuns – em vez de aplicar-se-lhes medidas de segurança de forma a evitar-se problemas de reincidência, são sancionados com penas que não resolvem o problema de base: as patologias.
A França, segundo intenções do seu executivo, resolveu recorrer ao mecanismo draconiano da castração química. Isso, em dado plano, pode ser considerado por muitos como adequada – e nem sempre é –, mas levanta muitos problemas nos planos técnico e ético que não são despiciendas. O que os franceses querem é uma pena depois do agressor sexual ter cumprido a pena (e note-se que entre os agressores sexuais existem os acidentais e os patológicos, o que demanda um tratamento diferenciado), uma espécie de «tratamento preventivo» compulsivo.
A verdadeira pátria das liberdades anda a desviar-se em demasia dos cânones dos direitos fundamentais da pessoa humana, como neste caso. E existem outras soluções possíveis, é uma questão de olhar-se para o direito penal para além da culpa, da mera retracção vingativa que o admirável mundo novo da genética nos impele a reflectir, a perceber num outro quadro a problemática da criminalidade sexual. De todo o modo, estou certo que Michèle Alliot-Marie não conseguirá separar a sua condição de mulher da de Ministra do Interior da França com um Presidente como Nicholas Sarkosy e tudo fará para aprovar tal legislação. É uma perspectiva que dá votos, muitos votos e popularidade. Mas será adequada, justa? Ao ler uma entrevista da Ministra Michèle Alliot-Marie ao Le Figaro, as minhas dúvidas e preocupações adensaram-se.
Imagem: Michèle Alliot-Marie, Ministra do Interior da França
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Os Princípios de Bangalore e Cabo Verde
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