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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011


  • BERTRAND RUSSELL ON TOLERANCE, LOVE AND HATRED
In the later years of his life the British philosopher Lord Bertrand Russell – a pipe lover like me – was asked in an interview for the future:

Q. «What would you think it’s worth telling future generations about the life you’ve lived and the lessons you’ve learned from it?»

His reply was as follows:

A. «I should like to say two things: one intellectual and one moral.

The intellectual thing I should want to say is this: When you are studying any matter, or considering any philosophy, ask yourself only what are the facts and what is the truth that the facts bear out. Never let yourself be diverted either by what you wish to believe, or by what you think would have beneficent social effects if it were believed. But look only, and solely, at what are the facts. That is the intellectual thing that I should wish to say.

The moral thing I should wish to say... I should say love is wise, hatred is foolish. In this world which is getting more closely and closely interconnected we have to learn to tolerate each other, we have to learn to put up with the fact that some people say things that we don’t like. We can only live together in that way and if we are to live together and not die together we must learn a kind of charity and a kind of tolerance which is absolutely vital to the continuation of human life on this planet.»

Watch the video.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

  • HUMANIDADE PRISIONEIRA: DE FUKUYAMA A DAWKINS

Acabei de seguir as eleições na Bélgica, e relia Ibn Al Arabi e Francis Fukuyama. E concordo com Fukuyama quando afirma que não existe uma relação causal e indefectível entre desenvolvimento e democracia, ainda que exista uma correlação positiva entre estas duas variáveis da existência humana. Já não concordo com o mesmo quando defende que «liberal democracy may constitute the "end point of mankind's ideological evolution" and the "final form of human government," and as such constituted the "end of history".» É uma ideia recorrente, que Fukuyama defende com brilhantismo em The End of History and the Last Man; ainda que equívoca, pois a sua premissa fundamental, do meu ponto de vista, é falha de sentido; mas isto é matéria para outro foro. Lembrei-me, então, de um outro sentido desta questão, e lavro aqui uma breve nota.

G.N. Clark, no seu discurso inaugural em Cambridge, disse: "Não há segredo ou plano na História que reste para descobrir". É claro que este juízo tem uma premissa dogmática que fere a sua validade ab ibnitio, mas admitamos que tal asserção, ainda assim, seja de considerar.

Mas, mais do que isso, tomemos outra asserção dogmática e finalista, esta de Dawkins. Richard Dawkins, diz que não existem mistérios da vida, que Darwin e Wallace os devendaram. Isto é, a história — no plano teleológico — chegou ao fim; isto segundo G.N. Clark, pois para Dawkins não existem mais mistérios a serem descobertos, o sentido da vida está desvendado e não nos resta nada mais que contemplar a vida e compreender o seu mecanismo (dir-se-á que Francis Fukuyama segue a mesma lógica, no plano da governação da Polis que teria, no actual estádio, chegado ao fim da história, cristalizando, assim, o sistema democrático liberal — o que é um equívoco).

Se é assim, devemos seguir o conselho de um epitáfio deixado há séculos numa Villa romana do norte de África (precede, cronologicamente, o condicional "comamos e bebamos que amanhã morreremos" que Paulo dizia aos helenos de Corinto):
Caçar, banhar-se,
Jogar, rir
— Isto é viver!
Mas não! A vida é mais, muito mais do que isso. O que eu pergunto é: e onde fica o amor e a humanidade que, em sim mesmos, são dos maiores mistérios da vida e os limites de toda a acção humana no devir da existência? A vida não se resume ao sentido biológico e naturalístico nem ao acervo de conhecimentos que o homem acumulou; a vida tem uma dimensão transcendente que impele a humanidade a ser humano, digno e um buscador da transcendência de si e do outro. E é isso que faz a grandeza da humanidade, e é isso a aproxima da essência das coisas, e dá sentido a vida; seja na dimensão biológica — que é condição e não fim da humanidade —, seja na psico-social, i.e., na percepção que temos da gestão da nossa sociedade e da história como devir crono-existencial da vida.

Não se deve querer uma humanidade prisioneira; pois a humanidade é essencialmente espírito. Por isso a humanidade tentará, sempre, compreender não somente o quem eu sou, de onde venho, para onde vou. Não existem mistérios na vida e na história? Chegamos ao fim do quê? O ponto de partida, e a perspectiva com que vemos o nosso objecto é que determina as nossas conclusões — nisso Descartes e Bertrand Russell estão de acordo —; sendo certo que há mais filosofia e verdade na mão do carpinteiro que fará o meu caixão e no beijo da minha amada do que em tudo isto que nós homens engendramos para explicar a mão de Deus escrevinhado um poema que seremos nós, a humanidade.

Imagem: Matéria — Umberto Boccioni (1912)

segunda-feira, 29 de março de 2010


  • O DIÁLOGO, A NUVEM E O AMANHÃ QUE NÃO CANTA
A pobreza ou a origem social das pessoas não é, nunca foi, causa directa da criminalidade; ainda que, de certo modo, uma coisa acabe por potenciar outra em dadas circunstâncias — estas extraordinárias. Em circunstâncias de normalidade, a pobreza não serve de desculpa para as acções socialmente censuráveis. De forma alguma. As pessoas mais dignas que conheço e conheci ao longo da vida são ou eram pobres, mas pobres de coisas, nunca de alma. A verdade é que, do ponto de vista empírico, parece haver uma relação entre o bem-estar social e a alma das pessoas; e os pobres ganham nessa aferição entre o ter e o ser, pois parecem ser mais boas, puras e solidárias que os ditos «ricos» e «letrados».

Todos, de tempos em tempos, deveríamos nos despir de todos os bens materiais, como de pele material — como fazem alguns répteis ou fizeram Francisco de Assis e Tomás de Aquino —, para nos tornarmos mais humildes, menos ambiciosos de coisas e mais conscientes do que somos, do que nos rodeia e do outro. Um jejum de bens materiais ajudaria, certamente, muita da humanidade carnívora que nos rodeia a ser melhor do que é. No entanto, há que distinguir a pessoa em si e a sua situação — entender «o homem e a sua circunstância», como diria José Ortega y Gasset. E isso é uma tragédia que por vezes transborda para a sociedade, a mesma sociedade que por cegueira ou inabilidade não se constrói tendo em conta o seu fim último: bem-estar colectivo, para todos — pelo menos para a maioria, dentro da reserva do possível.

A culpa dos males sociais é, em larga medida, do todo e não do indivíduo que segue caminhos desviantes por imperativos de sobrevivência própria ou da sua família. Ao contrário do que muitos dizem por aí, não é o desenvolvimento que potencia o crescimento da criminalidade mas sim o contrário — a falta de desenvolvimento e a inerente falta de bem-estar, as necessidades fracturantes e desesperadoras emergentes da pobreza.

«A necessidade é inimigo da honra», ouvia em menino. Um santo pode, no limite, tornar-se um monstro a luz dos padrões morais dominantes. E da mesma forma como o mentir é — por vezes, e como bem ensina Kant — um dever, a verdade é que tenho dificuldade em censurar um pai ou uma mãe que se indignifica socialmente para suprir as necessidades da sua família. Mas será que se indignifica mesmo? O estado de necessidade diz-nos o que é o homem ou revela-nos o que deve ser o homem? Penso que, em dadas circunstâncias, é mais este do que aquele. É somente uma questão de perspectiva moral, análogo ao que Bertrand Russell demonstra sobre a nossa percepção das coisas em Os Problemas da Filosofia.

E é Bertrand Russell que nos diz que «Aquilo que passa por conhecimento, na vida comum, padece de três defeitos: é convencido, incerto e, em si mesmo, contraditório.» E, na verdade, conhecemos, assim, em parte — tomando emprestado uma expressão de S. Paulo — porque queremos saber o que nos é útil e não (i) o que as coisas são e (ii) muito menos movidos pelo amor ao saber ou ao outro. Esquecemos que, como diria Russell, que «toda aquisição de conhecimento é um alargamento do Eu […]». Perguntar às coisas e às situações, sejam elas quais forem, o que são e entendê-las na sua essência é o princípio do conhecimento. Isso quer dizer que devemos amar o objecto do nosso conhecimento, o que não quer dizer que ele — em si mesmo e por natureza — seja capaz de responder a todas as perguntas e de retribuir a afeição e dedicação inerentes ao processo de conhecer, mas que é um devir que nos levará ou contribuirá para o encontro da solução adequada, da escolha certa (em linguagem política).

Neste plano é que o diálogo é fundamental — não como meio ou fim mas como ponto de partida de um caminhar para um bem maior que é a compreensão do outro, das coisas e da realidade. O diálogo instrumental, deste modo, é, em si mesmo, uma contradição e, fatalmente — porque representa uma falácia —, leva a maiores males do que qualquer bem previsto por quem o utiliza. É que isso de ser-se ou querer ser-se cartesiano em política tem muito que se lhe diga. Assim como forçar a realidade para que se tome a nuvem por Juno pode até resultar, hoje. Mas o amanhã, se é verdade que não cantou até hoje, nunca se enganou.

Imagem: Sydnei (Júlio Santos)