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sábado, 2 de outubro de 2010

  • O UNIVERSO DE HUXLEY E CAIM
Um universo de momentos
renasce no teu rosto recriado nos ventos
remansos da memória,
esta fraterna vontade de ser só.

Um nome, ó Deus? Que importa
um nome se a essência do ser-se ilha será
a companhia do desejo manancial
que ciúma o monte que se funda no rio
sonhando-te flor de gerações
e erva aromática de uma vida no cepo?

Olha: do outro lado do espelho
está o universo que absorve os teus encantos,
a vaidade de ferro no inverno,
a espada una de cem mil homens de Sun Tzu,
o diamante envergonhado das Lundas
e todos os mandamentos da física e de Deus.
Aí está Frei Celestino e Francesco Graziano,
Matteo da Orio e Giulio da Salò
testemunhando a maior verdade deste universo:
o mundo venal caindo sobre Giordano
e não eras tu o sofredor, não…
Sou eu através do espelho, amanhã.

E quando chegarem os bárbaros,
os bárbaros Cains de hoje!
sei que terei saudades de não ter o amor de Rûmî,
Al-Hallâj e Swedenborg a vestirem as tardes
da palavra secreta que gerou mil mundos
e é Hela, a grande amante que trazemos no peito ao nascer.
------ 02-10-2010
Virgílio Brandão

Imagem: Símbolo da Inquisição

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

  • OS (VERDADEIROS) MISERÁVEIS

          Num Mundo de maldade consciente e militante das instituições e dos que as corporizam, de indiferença carnívora dos bem-aventurados pelo sistema vigente de distribuição dos bens, como é possível nos admirarmos com o facto de pessoas boas se tornarem predadoras do outro em vez de construtoras do Mundo? Num mundo de miseráveis, Les Miserables, de Victor Hugo, é uma lição impossível, hoje por hoje, homo aeconomicus por homo aeconomicus, mão que lava a mão, até a limpeza total de todo o bem da sociedade. Dir-me-ão que «as coisas são como são», e que «as pessoas colhem o que semeiam», que tudo é acção e consequência. Em parte o Mundo é construído assim, assentirei.
.         Mas e quando não existe acção e existe consequência, injusta, construída pelo mal que não verga a consciência e transforma a mentira em realidade, infortunados em incapazes? A verdade, a final, acaba por ser a mais dolorosa de todas: o mal triunfa sobre o bem, como tem sido regra desde que Caim matou Abel e a Lei da Talião entrou na alma humana como a consciência da nudez em Adão e Eva. Mas o dia virá em que não será assim, o dia virá em que o mal terá a sua recompensa: boa medida, recalcada, sacudida e transbordante de bem-fazer o que couber na sua natureza. Um dia, a consciência do bem se fartará — e que fará? Pergunta retórica? Talvez.
          Jean Valjean não mudou o mundo, mas o Mundo mudou-o, desumanizou-o e renomeou-o: 24.601. O Mundo não tem alma, mas Javert tinha — a final e afinal Javert tinha alma. Esse, pois a alma dos Javerts de hoje compram-se e vendem-se nos pelourinhos de coisas e de afectos; o mercado dos futuros dos senhores das instituições. Tudo, até o sagrado sentido do bem, tem um preço, mesquinho, demasiado mesquinho; todos têm o seu preço, igualmente mesquinho: encontra o que o outro precisa e terás o seu preço. Ah, Albino Forjaz de Sampaio! Não é cinismo, não; é a verdade quase nua e crua. A nudez, como tudo, tem a sua ocasião. Só quem nada precisa, só quem está disposto a prescindir de tudo é que não tem preço. O que é igualmente verdade. Já não há Javerts, de verdade. Mas quem não precisa de nada é um outsider deste mundo, e, cedo ou tarde, será crucificado, de uma maneira ou de outra. Deveria haver um rio puro, e almas igualmente puras nas convicções.
         Os verdadeiros miseráveis são os sem alma, os que, por mera fortuna ou preço de alma, comandam o Mundo. Condicionam mundo dos outros, os miseráveis? «Quem tem muito dentro de si pouco ou nada precisa do exterior» — dizia Goethe. E os maiores terramotos nascem de uma maldade, ou de um pensamento resolutivo. Tudo porque há miseráveis por aí, verdadeiros miseráveis de Fortuna cheia e consciência vazia. Dores de Libera, ambição de Pecunia. Les miserables, os outros, tinham as suas razões e, já bem dizia Burlamaqui, «a razão aprova, necessariamente, tudo aquilo que nos conduz à felicidade verdadeira». A felicidade radical — diz-me o meu poeta.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

| CUNNUS — A PORTA DO PARAÍSO E A CULTURA

A cultura dominante amordaça a alma e a voz. A cultura encontra-se capada do que é o mais essencial da alma humana: o erotismo e a sexualidade. Sem estes dois aspectos a pessoa humana é um ser menor, menos do que a sua aproximação divino. Incomoda, para muitos, dizer cunnus — cona. Os japoneses chamam-na, à cunnus, de «guokumon» — «porta real» e, por vezes e no plano poético, de «Princesa das flores». No oriente médio a dimensão cultural e exotérica do erotismo e da sexualidade era um factor central da vida, até o islão e as práticas sociais repressivas sobre as mulheres transformarem as sociedades islâmicas numa castrato voce global da beleza e do prazer (situação emergente essencialmente depois das “guerras santas” e passar a haver a necessidade dos homens casarem com as viúvas por razões de solidariedade e de prevenção de alguns “males” sociais, como a prostituição) e os radicalismos religiosos esconderem a mulher e tudo dela, em particular o seu oriente.

A hedionda prática da excisão feminina é uma das expressões maiores desta realidade, assim como a instituição da plurigamia fora do contexto social em que apareceu e foi instituída: institui-se uma repressão cultural sobre a mulher, castrando a sua sexualidade, escondendo a sua beleza e, na prática, tornando-a um objecto, um não ser. Na modernidade, até a imagem da mulher nua é proibida em tais sociedades. Mas nem sempre foi assim. Na conhecida obra de Al-Nafzawi, O Jardim Perfumado do Prazer Sexual encontramos quarenta e dois nomes para a nomear, e que o autor explica profusamente.

Os sumérios, v.g., usavam o mesmo nome para a cunnus e para rio – provavelmente pela dimensão fecunda de ambas. E não é despiciendo pensarmos que é os rios que circundavam o Jardim do Éden, nomeadamente o Tigre e Eufrates, eram o centro de vida da sociedade do seu tempo. O Éden, também chamado o Jardim das Delicias, pelos hebreus foi o local, na perspectiva bíblica que o homem recebeu o primeiro mandamento: “frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra” (Génesis I.28). E assim fizeram, nascendo primeiro Caim, Abel e, mais tarde, já fora do Jardim das Delícias, tiveram Seth e outros filhos e filhas. E nasceram, segundo determinação divina de parto de dores – como todos os homens: da Porta do Paraíso, ainda que, ao contrário de Caim e Abel, não entravam no Jardim do Jardim mas sim na terra espúria do exílio do Jardim, i.e., da Terra.

Eva e a sua Porta para o Paraíso tornavam-se a mãe e seiva do sentir da humanidade, na fonte da primeira criação depois de Deus dar comandos de vida à natureza. A vulva, segundo Santo Isidoro de Sevilha diz nas Etimologias, procederá de valva — porta de dupla folha. Isso porque é a entrada do sémen de vida e a saída do feto para tornar-se pessoa. No entanto, se se ler o poema «La Puerta de Venir al Mundo» de Giuseppe Giacchino Belli, chegamos à conclusão de que existiam razões sociais de ordem cultural – até de distinção do plano discursivo das pessoas em razão da sua cultura — para a utilização de determinados nomes, da dimensão destes e do foro que têm ainda hoje. Para além desta dimensão cultural do mundo das coisas, da matéria. A cunnus tem uma dimensão sagrada e que vai para além do plano meramente físico e estético: até os deuses são agentes da acção sexual (do hinduísmo e povos de cultura religiosa análoga, aos panteões egípcios e greco-romanos, passando pelas primeira civilizações conhecidas e ainda animistas puros, há, sempre, uma referência: a sexualidade da Mãe Terra), pois dela emerge a vida, e por ela todos entramos na existência, o “caminho de nascer”.

Compartilho o poema «La Puerta de Venir ao Mundo», Giuseppe Giacchino Belli que tem uma dimensão antropológica considerável e não despicienda:

«El que hable del coño de Catalina,
para hacerse entender de docta gente
deberá pronunciar vulva o vagina,
o parte o vergüenzas, igualmente.

Pero el pueblo común dice chumino,
cosa, chupa jornales, cueva, raja,
cañon, embocadura del pepino,
almeja, traga leches, caja, chocho, don Peluquín, quisquilla, seta,
castaña, hazanacuecos, tete, guapo,
conejo, guardapolvos, chichi, grieta,
tragón, boca sin dientes, barbas, papo,
camino de nacer, cuestión, maleta,
jaula del pajarito, pasarratos,
breva, higo, fresón, asa boniatos.

Y mientras para pocos es natural,
en muchos balla sepultura.»

Interessante será verificar que alguns destes nomes metafóricos de Nossa S’nhora d’boca v’rod pa txom, coligidos pelo autor em finais do século XVIII e início do Século XIX, ainda têm foro social em Cabo Verde, como é o caso de, v.g., “caxa” ou “quexinha”, “boca sem dent”, “grêta”, «pôpe d’quexinha” ou “ratcha”, tendo outros mutado, como é o caso de “chichi” que adquiriu dimensão funcional. De uma forma ou de outra, estamos sempre a ser condicionados, a ser normalizados, formatados socialmente pelo sistema, nomeadamente pelo educativo e pelos puritanos. Mas coisas há que, por maior conformidade que se procure para elas, sobrevivem. Felizmente, pois o caminho é, na modernidade, muito mais do que um “caminho de nascer”, mas também um caminho de viver, de prazer.

A ordem e a natureza das coisas. Assim foram gerados deuses e deusas, até mesmo os deuses da luz — os salvadores, como Mitra e Hórus. A excepção destes é a concepção imaculada de Jesus de Nazaré por Maria — a cunnus desta era a porta de entrada do Messias no Mundo, a abertura das portas do paraíso, não para José mas sim para a humanidade.

Existe uma crença, na verdade uma profunda e arcana convicção, que compara a mulher à porta. E se é porta, é porta do Jardim (i.e., da Terra, da existência), num sentido, e do inferno noutra — para aqueles que pensam que estamos no inferno, em transição existencial (v.g., racionalistas cristãos e hinduístas). É a raiz do prazer. Assim, a cunnus é, em sentido naturalístico, a fonte, a mãe e o fim de todos os deleites da humanidade. E se estamos no Jardim ou Inferno — dependendo do ponto de vista — bom será procurarmos a porta do paraíso e, aberta a porta, que deixe entrar o rei da glória. A cunnus é a essência da cultura, pois dela emerge o seu objecto estrutural — e sem o seu conhecimento o homem é um ai desavindo de todas as coisas, quase acéfalo. E, como dizia um antigo Juiz de Santiago: «dá-lhe metáfora, dá-lhe metáfora…» pois em metáforas vivemos, gente douta em docta ignorantia.
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Prima forma: Liberal