sexta-feira, 14 de setembro de 2007

CATIVOS DA METRÓPOLE – «CAMINHU LONGI»

01:00 AM. A noite continua escura – é da sua natureza, diz-me… Ah, pois... Prefiro pensar que do outro lado desta esfera milenar o Sol brilha com fervor ou que alguém, recostado sobre uma colina verdejante ou uma janela desejada está a ver estrelas no céu; de preferência amando…

Recebi um e-mail do Jorge Martins a dar-me conta da apresentação [19.Set. - Casa Fernando Pessoa em Lisboa] do livro «O fim do Caminhu Longi» de Augusto Nascimento e que retratará a vida dos emigrantes (!) – quais emigrantes, qual carapuça!, contratados feitos escravos à força pelo poder colonial – cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe. Obra que, a seu tempo, terá a minha atenção de leitor estudante.

Mas, agora, pergunto-me: porque (a) é que o Estado português nunca foi demandado por este crime contra a humanidade - é disso que se trata! - cometido contra os cidadãos cabo-verdianos que escravizou; (b) nunca se exigiu ao(s) Governo(s) de Portugal a assunção da sua responsabilidade para com os cidadãos que ainda estão retidos em S. Tomé e Príncipe a sonhar, com as «asas douradas» do pensamento, com a sua «pátria bela e perdida.»

Pelos dias vergados – invocando um não memoricídio, para relembrar a minha gente em S. Tomé, compartilho este Va pensiero do «Nabuco» de Verdi: às margens do Rio Eufrates (Iraque) os escravos hebreus do rei Nabucodonozor (que levou o povo de Israel e o malogrado rei Joaquim cativos para a metrópole Babilónica – como nos ensina o profeta Daniel) cantam: «Oh mia patria sì bella e perduta! Oh membranza si cara e fatal!» Pode(ria) bem ser uma morna que se ouve nas roças do «caminhu longi»…

Ah, será por isso que - num elogio da História à nossa gente mártir - sempre ouve a vexata quaestio de saber quem é/era o autor de «Sodade»? Va pensiero:

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«Vai, pensamento, em asas douradas,

vai, pousa sobre as colinas

e montes onde sopram as doces brisas,

a quente e leve fragrância da nossa terra natal!

Do Jordão, das saúdas margens

e das desoladas torres de Sião...


  • Oh pátria minha tão bela e perdida

Oh lembrança tão querida e fatal!

Harpas de ouro dos fatídicos lamentos

porque pendem mudas nos salgueiros?

A memória no peito revive

a qual fala de um tempo que se foi

Cada um como Sodoma nos fados

lança um som de profundo lamento,

que o Senhor te inspire uma canção

que insufle coragem no padecer.»

in Nabucodonosor, Giuseppe Verdi
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  • Lei de Rudin
    «Quando surgem crises que forçam as pessoas a escolher entre duas vias de acção possíveis, a maior parte escolhe a pior delas.»

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