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sábado, 6 de março de 2010

| NOTA ÀS PRESIDENCIAIS CABO-VERDIANAS

A propósito de um artigo que escrevi no Liberal, um cidadão, desafiou-me a escrever sobre as presidenciais. A verdade é que esta questão e o timing da eleição presidencial — do meu ponto de vista a razão maior das demoras do processo de revisão da Constituição — tem condicionado a vida política nacional pois, em verdade, condicionará a vida política de muitos «dinosauros» da nação política. Escrevi o seguinte (que não tem nada de novo ao que tenho dito e escrito há muito — as surpresas), em resposta ao cidadão em causa:

«Sr. Nuno Valente, será que não deu para perceber, pelo texto, que esta remodelação (e as decisões do Congresso do PAICV) indicam quem é que será o candidato presidencial do PAICV? Parece-me claro, mas se calhar as entrelinhas foi demasiado subliminares e tal é, de todo, culpa minha. Agora, o PAICV pode, em último caso — e em razão das multiplicidade de candidaturas —, decidir pela decisão democrática e, então, ter de encontrar um candidato de consenso que «não pensa nessa possibilidade».

Aliás, se notou bem, o Ministro Manuel Veiga saiu do Governo com uma crítica expressa ao Primeiro Ministro por este ter extinguido o Ministério da Cultura como ministério autónomo. Algo que era, até há dias era impensável de todo. O Manuel Veiga é fundamental para o PAICV – disse o Primeiro Ministro. Porque teve a necessidade de dizer isso? Porque o Manuel Veiga tem peso efectivo no partido e não é tempo de haver cisões no Partido do Governo. No mesmo sentido está a nomeação do Ministro das Comunidades emigradas que terá a função da apaziguar as hostes no exterior, pois há que evitar as barracadas; como a que aconteceu, por exemplo, nas eleições dos órgãos representativos do PAICV em Portugal.

Ah, sobre o MPD, parece-me que este deverá apoiar o candidato que se disponibilize e que, tendo o perfil de Estadista, experiência na gestão da coisa pública e cultura de Constituição, possa garantir à nação cabo-verdiana um magistério em prol da nação e das liberdades dos cidadãos.

De momento, nada mais digo. Abraço fraterno»

PS: Sigo o debate sobre o Recenseamento na Diáspora na RCV e, pelo que oiço, fico preocupado. E um facto é verdadeiro e insofismável: umas eleições podem ficar inquinadas ab ibnitio. Quem diz o contrário é porque ou não conhece a dinámica eleitoral ou tem razões para dizer o contrário.

| DESPOLITIZAR A EMIGRAÇÃO E O NOVO JORGE SANTOS

       Jorge Santos disse à RCV, na sequência da sua visita ao Luxemburgo, que é preciso «despolitizar» a emigração. Sorri, ao ouvir as suas declarações. Lembrei-me da fábula da rã e do escorpião. Boas intenções, mas o inferno está cheio de boas intenções — assim como o Mundo de injustiça. A despolitização da emigração há muito que deveria ter sido feita, mas basta ver Sidónio Monteiro — o Ministro Adjunto do Primeiro Ministro com a pasta da Comunicação Social — a ser nomeado como Ministro das Comunidades Emigradas a meses das próximas eleições para perceber que este discurso de Jorge Santos é bem visto do ponto de vista do timing mas que poderia e deveria ser mais incisivo e claro, pois o Governo e o PAICV estão longe de desejar e querer despolitizar a Diáspora.

       Agora, e à margem deste facto, confirmei uma coisa: o Jorge Santos tem tido um discurso mais consentâneo, mais sustentado e sereno, mais de acordo com o de um líder do que aquele que teve durante o período em que liderou o MPD. Não é que isso seja, para mim, estranho de verificar; o que acontece é que uma postura análoga — e outros pozinhos de chá, estratégia e uma Comissão Política mais solidária — poderia ter salvado a sua liderança e evitado a quase inevitabilidade do retorno de Carlos Veiga à liderança do MPD. Agora, certo é que, em politica como na natureza, raramente a mesma água passa pelo mesmo rio, a não que se transforme e espere o ciclo do Tempo.

Imagem: Jorge Santos, Tony Blair e António Capucho