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quinta-feira, 10 de julho de 2008

A floresta fechou-se atrás dela e deixou-a livre.
In John Steinbeck, A Um Deus Desconhecido, Lisboa, 1979, p.127

  • imgem: Les femmes, Milo Manara

quarta-feira, 2 de julho de 2008

  • ANOTHER KIND OF LOVE
Estive alguns dias no Brasil, mas não consegui deixar esse hábito de menino que é passar um pouco dos meus dias a ler e a escrever. Na viagem descobri três livros extraordinários, um deles «O Finado Matias Pascal» de Luigi Pirandello – o Brasil tem esse hábito maravilhoso de traduzir as grandes obras e que leitores como eu agradecem.

O livro, que não era meu e pelo qual me apaixonei ao me consumir algumas horas, ficou no local onde o encontrei. Arranjei uma edição espanhola, que, agora, releio com igual prazer; o mesmo livro, em regra, não tem o mesmo sabor em língua diferente do que o lemos da primeira vez – mas este não.

Podemos ficar mais pobres numas ou noutras coisas, mas a verdade é que temos sempre a oportunidade de enriquecermos a alma. Partilho uma passagem deste livro maravilhoso.

«La primera vez que hubo de ocurrirme encontrarme con un libro en las manos, cogido a la ventura, sin advertirlo, de uno de los estantes, entróme por el cuerpo un calofrío de horror. ¿Iría a sucederme lo que a Romitelli? ¿Me iría a creer obligado, por el solo hecho de ser bibliotecario, a leer yo por todos los que no iban a la Biblioteca? Y tiré el libro al suelo. Sólo que luego lo recogí de allí, y ¡ah! , señores, me puse a leer yo también, y también con sólo un ojo, ya que el otro no me servía para maldita la cosa.

De esa suerte leí de todo un poco, a la buena de Dios; pero, por lo general, libros de Filosofía. ¡Cuidado que pesan! Y sin embargo, quien se sustenta de ellos y en el cuerpo se los mete vive entre las nubes. A mí me echaron a perder el cerebro, que ya de mío teníalo desquiciado. Cuando se me calentaban los sesos cerraba la Biblioteca y por un repuesto caminito dirigíame a cierta parte desierta de la playa.

La vista del mar sumíame en un atónito asombro, que poco a poco iba degenerando en intolerable opresión. Me sentaba en la playa y hacía por no verlo, agachando la cabeza; pero no podía evitar oír su fragor a lo largo de la orilla, mientras lenta, lentamente, dejaba escurrir por entre mis dedos la arena densa y grave, murmurando:

— Así, siempre así; hasta la muerte; sin mudanza alguna jamás.

La inmutabilidad de la condición de aquella existencia mía sugeríame pensamientos súbitos, extraños, cuasi relámpagos de locura. Poníame en pie de un brinco como para sacudírmelos y empezaba a dar valsones a lo largo de la orilla; pero al ver entonces al mar enviar sin descanso a la playa sus mustias y soñolientas olas y al contemplar tanta arena allí abandonada, gritaba com furia, crispando los puños:

— Pero ¿por qué? ¿Por qué ha de ser esto?

Y me chapuzaba los pies. El mar alargaba por ventura un poco más sus leadas como para avisarme.» in Pirandello, El difunto Matías Pascal

sábado, 21 de junho de 2008

Temple of Olympian Zeus, Athens, Greece

sexta-feira, 20 de junho de 2008

«Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?» – Marcos, 8:36

«Pues, ¿de qué le sirve al hombre ganar el mundo entero y perder su alma?» – Marcos 8:36

«What good is it for a man to gain the whole world, yet forfeit his soul?» – Mark 8:36

«Et que sert-il à un homme de gagner tout le monde, s'il perd son âme?» – Marc, 8:36
  • Imagem: Catedral de Salamanca, Espanha

quinta-feira, 12 de junho de 2008

  • MOMENTO DE TERROR NO BRAZIL
Estive uns dias no Brasil a tratar de assuntos profissionais e percebi muitas coisas que até então não tinha a percepção correcta. Uma delas é que o país não é tão violento como se apregoa e que os brasileiros olham para os portugueses (não é o meu caso) como estes os vêm: burrinhos. Um portuga no Brasil tem o mesmo estatuto que um alentejano em Portugal. Achei graça, quer porque nenhuma dessas ideias preconceituosas constituem verdade quer porque sou cabo-verdiano (a minha dicção atraiçoou-me e acabei com o injusto rótulo de portuga...).

A minha graça desapareceu quando percebi que bastava abrir a boca para as coisas ficarem mais caras (na livraria do Aeroporto Tom Jobim/Galeão do Rio de Janeiro uma bela e esperta livreira quis receber euros como pagamento e dar-me o troco em reais sem fazer a devida conversão. Noutra ocasião, era bem capaz de passar por burrinho; tão bela que era a mulatinha...). Tirando esta excepção do Aeroporto, sorria, pedia a nota fiscal descriminada e guardava-a – quando saí do país mandei-as para a Fazenda Pública com a nota informativa adequada...

Agruras de estrangeiro e a que estou habituado. O que me deixou surpreso e por momentos aterrorizado foi outra coisa. Na pressa de ir para o escritório de um colega esqueci do meu computador portátil e tive de utilizar um do escritório gentilmente colocado à minha disposição.

Estávamos sobre a pressão do cumprimento de um prazo e, de repente, depois de abrir um documento guardado na minha pen drive, entrei em pânico. O teclado, com o trema e muitas teclas nos lugares errados (na verdade não habituais à minha percepção) era quase chinês para mim e dificultava em extermo o meu trabalho. O tempo corria contra nós e foi com muita calma e paciência que consegui descodificar o teclado...

Tive de voltar ao meu teclado de português lusitano e – sinceramente – dei hossanas a Deus por ter levado o meu computador portátil. Foi um momento de terror! Espero que o futuro Acordo Ortográfico não me venha a colocar, outra vez, nessa situação.