terça-feira, 12 de janeiro de 2010

  • A INSEGURANÇA, O CONVITE À GUERRA SUJA E O PAÍS REAL

O Primeiro Ministro está surpreendido com o nível de violência e de insegurança no país? Só pode(ria) ser anedota de carnaval antecipado, mas não é. Entende-se a estratégia. É compreensível, de manual mesmo. Teria possibilidades de ser bem sucedida, se o Primeiro Ministro José Maria Neves não governasse um país chamado Cabo Verde e não wonderland. Não é este país que há bastante tempo tem vindo a dar sinais de degradação da segurança interna, nomeadamente a urbana, de tal forma que, em 2008, a Ministra da Defesa, Cristina Fontes, disse que os militares estavam preparados para irem para as ruas porque se tinha consciência de haver um problema grave de ordem pública? As forças armadas não andaram, durante algum tempo, nas ruas da capital?

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O Primeiro Ministro José Maria Neves andava e tem andado onde para se surpreender? Será que o barómetro é haver alguém ligado à classe política para se ter consciência de que o crime organizado e os autores de crimes violentos desafiam a autoridade do Estado e colocam em perigo a paz social e a ordem pública? Os problemas devem ser resolvidos no momento certo, não devem esperar pelo timing eleitoral e outros factores laterais aos interesses dos cidadãos. E nem vale colocar as caras dos ditos thugs na caixa de correio dos cidadãos para estes fazerem o papel das autoridades policiais e judiciárias, pois o povo não pode nem deve aceitar fazer nenhuma guerra suja a que é, subliminarmente, convidado.

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A maioria dos crimes são cometidos por jovens? Qual é a surpresa, se o país é maioritariamente jovem, e existe um nível de desemprego entre a juventude que raia um nível demasiado escandaloso para ser escrito? Queriam que os crimes, contra natura estatística e social, fossem cometido pela minoria, especialmente a anafada? Por amor de Deus! Não façam dos thugs cordeiros expiatórios para tudo e mais alguma coisa, pois o problema é bem mais profundo e complexo para ser analisado com pressa ou mesmo leveza de ânimo. Não tenho dados estatísticos, mas não me surpreenderia se a maioria dos homicídios perpetrados em Cabo Verde não fossem cometidos pelos ditos thugs caçobodistas…

No que mais é que o Primeiro Ministro José Maria Neves é e será surpreendido?

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Um líder, dizia o rei Lisandro, deve reunir em si as qualidades do leão e do lobo. E poucos o conseguem, mesmo tendo oportunidade para isso. Mas pode-se aprender… Temos alimentado muitos lobos, e estes despertaram como leões para se alimentarem, e o desempregado não ajuda, o modelo social que construímos muito menos. A culpa é colectiva, mas não vale a pena ter o discurso de avestruz, e o Primeiro Ministro diz que tem andado a agir como a avestruz.

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Ao escrever este texto, oiço na RCV que houve um acidente na Ribeira Grande de Santo Antão: um veículo automóvel caiu no mar. E todos se sentem impotentes para ajudar. O maior inimigo dos bombeiros e dos acidentados é a falta de meios e… a escuridão. A maldita escuridão. Temos rádio, televisão, internet e governação electrónica, mas vivemos sob o imperium das trevas. Entre os acidentados poderá estar o músico Vadu, um virtuoso do batuko e da tabanka. Por vezes penso que temos um país de brincadeira, um país em que o previsível é um balão nas mãos de uma nação que cresce para o papel. Nestes momentos, a angústia nos diz qual é a realidade do país, e qual é o país real. As nossas fragilidades a nu.

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Imagem: Paul Klee

9 comentários:

Anónimo disse...

Oh doutor, desculpe la mas so mais esta e depois despeço-me. Sabe porque é que eu nao assino?

Porque isto para mim é um divertimento, uma brincadeira.

E' proque assinando como você faz a brincadeira acaba. Mas como acaba?

Sim acaba, porque aí ha que assumir as nossas responsabilidades de peito aberto.

Com isto quero dizer que o dr tem de deixar dessa mania de criticar todos os poderes em Cverde estando com o traseiro sentado em Lisboa.

Você se quiser ser levado a sério tem de ir para a terra e fazer politica aí. Politica, nao quer dizer ser politico profissional. Pode-se fazer politica fazendo o que está a fazer, escrevendo criticando, malhando neste e naquele, mas por favor a partir de Lisboa nao!

Sabe porquê? E' que dá a impressao que ainda somos uma colónia portuguesa, com os portugueses a mandar no nosso povo. Você fala de LISBOA como um Ministro do Ultramar a dar ordens nos governadores provinciais nas Ilhas.


Tenha pois mais coragem e abandon Lisboa aos portugueses e vá para a casa. Até porque honestamente você será mais util em CVerde.

Em Lisboa você será sempre um imigras!

Pronto está dito e pode responder-me da maneira que quiser, mas ja nao volto mais aqui.

Virgílio Brandão disse...

A.,
Olhe que taças… só mesmo de vinho e de champanhe, quando é bom.

Sobre o "fazer" política… bem, é um dever do cidadão ser activo e dizer o que pensa, não acha? Se se é crítico, que se seja.

Mas não é que, se calhar, até que tem razão (tirando essa do dictatum de um Ministro do Ultramar) sobre o estar longe e que a crítica do ausente do terreno é sempre mais fácil...

O não assinar não me preocupa, desde que se tenha a posição de pessoa, tudo bem. A dimensão da brincadeira é mais difícil para mim, mas percebo o que diz e quer dizer e respeito isso. Respeito, mas acho que é forma livre de se ser cidadão, mas uma cidadania menor porque mascarada. As razões, irão para além da brincadeira, pois assumir responsabilidades…

Abraço fraterno

Virgílio Brandão disse...

Ah,
la liberté et le droit de aler et (de)venir...

Hoje é dia da Democracia e da II liberdade, não é? Deve ser sempre, sempre.

Anónimo disse...

Virgílio, desta vez não concordo contigo, a coisa por aqui está muito complicado, mesmo! E os thugs estão a abusar, e muito!
De facto, é preciso estar aqui para ter uma noção mais clara do que se está a passar. Claro, que o problema é bem mais complexo e profundo, mas o que esses adolescentes e jovens estão a fazer está a passar do razoável, já não é só assalto não, é pedrada na casa (bloc d'calçada) gás pimenta, quem é testemunha de qualquer distúrbio, morte ou outro crime é ameaçado por estes rapazes, e vão em tua casa se for preciso para vingar... enfim a coisa está feia por aqui... a solução não é tão fácil assim meu caro, a questão de falta d'traboi não justifica estes crimes.
Marquez.

Virgílio Brandão disse...

Marquez,
Falta de trabalho não justifica nada, mas a verdade é há que temos de (re)construir a nossa sociedade. O modelo copiado de outras paragens e sem os travões inerente e a almofada social... não funciona.

E há reprimir de forma firme e dura a onda de criminalidade! Se não se for firme e duro com a nova geração, esta ira, cedo ou tarde, aterrorizar de tal forma as ilhas que acabaremos reféns dela – muitos já são reféns do medo. ´

Agora, existe outra criminalidade violenta que não será dos thugs, e que estes servirão de escudo social. O homicídio na Voz di Povo, por exemplo, não tem nada a ver com os thugs, pois não?

É preciso repensarmos o sistema penal cabo-verdiano e adapta-lo à realidade, à uma realidade dura e violenta. A resposta, deve ser dura, ainda que dentro dos padrões de humanidade de um Estado de Direito Democrático.

Abraço fraterno

MRVADAZ disse...

Meu caro,

Eu não estranhei o comportamento do nosso PM. Estou habituado a ouvir "chiliques" do gajo e com uma certa esperteza no fundo.

Ele faz uma política pensando que todos os caboverdeanos são ignorantes ou que estão limitados às conversas fiadas.

Não vou dizer mais porque já tive a oportunidade de falar tanto dele como do Carlos Veiga. Se CV quer progredir ou se esta é a vontade dos caboverdeanos, temos que apostar nos jovens e livrar dos caducos.

Do resto, o quadro político dos jovens está a fazer muita falta a Cabo Verde. Os poucos que estão lá, parecem fábrica dos enchidos, fazem exactamente o que os outros velhos fizeram ou que estão a fazer. Será por não ter as sua próprias filosofias?

Abraço

Anónimo disse...

Era o que faltava: a culpa do acidente que vitimou Vadu é também do Governo...sinceramente!!

Virgílio Brandão disse...

Caro Mr Vadaz,
tem filosofia própria? Deus os salve, ó homem! pois num país em que ter opinião é razão se criar ódios de estimação, ter "filosofia própria" seria suicídio.

Dê-lhes tempo, e depois veremos de que massa é que são feitos. É preciso espaço, e ainda não o têm, pois os velhos jovens ainda têm um poder tutelar desmesurável.

Os "velhos", Mr Vadaz, é um capital para a nossa terra, e devemos ajudá-los e tentar nos livramos deles. A nossa dos cidadãos deve ser um acrescentar e não um destruir, afinal de contas todos queremos o bem estar da nossa terra, não é?

Abraço fraterno

Virgílio Brandão disse...

13 de Jan de 2010 19:11:00,
onde é que foi que leu isso? De onde infere a "culpa" do Governo? Anda à procura dela, não é? Deve ser nova função...

Se calhar deveria ver e ouvir o Ministro da Administração Interna, aqui:
http://rtc.cv/tcv/index.php?paginas=40&id_cod=382&data=2010-01-13

Fique bem, com Deus.