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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

  • EPIFANIA HISTÓRICA
Durante anos tentei perceber de forma adequada o porquê, a razão funda, de pessoas como Adolfo Hitler, António de Oliveira Salazar e Winston Churchill terem tanta e tamanha admiração por Benito Mussolini por volta de 1933. Afinal, depois de tanto pensar e tentar entender este fenómeno, chego à conclusão intuída à partida, há anos: connatus essendi. Tão simples como isso. Tenho de ser mais cartesiano; e seguir o conselho de Helvius Pertinax. Até o Mundo conspira neste sentido; mas o que é certo é que o paraíso – como diz o meu poeta moribundo – não se alcança pela força: tem asas de cristal, portas de sonhos de ontem e ferrolhos de borboletas azuis acabadas de nascer.

Que o ano novo seja o que tiver de ser, se for bom.

Imagem: António de Oliveira Salazar à secretária, com uma fotografia autografada de Benito Mussolini. Foto de Bernard Hoffman (Life Magazine)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

| O COMUNISMO SERÓDIO DE NELSON MANDELA E O HUMANISMO

A 11 de Fevereiro de 1990 Nelson Mandela saía da prisão, depois de décadas de encarceramento por motivos políticos. Há, exactamente 20 anos e um dia saia da prisão para dar uma lição de humanidade ao Mundo e, aos políticos, mostrar-lhes que o caminho não é a eternização no poder mas sim fazer o melhor que se pode para os cidadãos da nação nas circunstâncias em que estiver. A lição está aí, perene e uma espada para as consciências, para ser apreendida. Uma lição magna de vida de que os homens mudam, e são, no plano do ser, o que escolherem ser como pessoas.

Na sua juventude, ainda estudante de Direito, conheceu a teoria comunista — e se deixou seduzir pelo canto dos amanhãs que cantam — e, mais tarde, a Satyagraha, a teoria da não-violência e da resistência pacífica de Gandhi. Este dizia que «A força de um homem e de um povo está na não-violência» (parafraseava Plutarco: «a grandeza de um povo está na forma como enfrenta desgraça»), e, por isso, Tagore o denominou de Mahatma — grande alma.

A escolha de Nelson Mandela foi e era simples: entre o comunismo conquistador — que tinham uma dimensão opressora da liberdade da pessoa humana — ou um humanismo activo e não violento. Venceu, em Nelson Mandela, a consciência de um humanismo activo e democrático — pelo que a atitude de dar as mãos aos seus algozes, numa prova de que a acção deve acompanhar o discurso e de que devemos mostrar ao mal que não somos melhores do que os que o praticam mas somos e devemos, sim, melhores do que o mal, e compartilhar com eles o poder é de uma singularidade que chega a transcender a natureza humana e a sua relação com o poder.

Mas, além disso, Nelson Mandela também é o testemunho vivo de que se pode transcender a consciência política do socialismo democrático e o pseudo humanismo que sustenta e, no plano político e social, trilhar um caminho mais humano e mais justo. Não é, assim, por acaso que há algumas décadas que se houve falar em capitalismo de rosto humano e até, num plano mais alargado, de política de rosto humano. Mas porquê política de rosto humano? Pressupõe esta asserção de que a política não é de rosto humano? Não, pois tal seria contra a própria política — como arte de governar, e bem governar. O que pressupõe é que os políticos governam de forma desumana, olhando para o seu umbigo e ventre anafado e não para a barriga, a educação e a cultura dos cidadãos cujos interesses governam.

A final, há que dizer que não se deve ter medo dos comunistas — como Churchill tinha, a ponto de elogiar o nacionalismo fascista italiano de Benito Mussolini, chamando a este «o maior legislador vivo», ou que levou à hedionda caça às bruxas no “democrático” Estados Unidos da América — mas sim pensar que, em dado momento histórico, muitos foram os homens bons que apoiaram o comunismo, o trotskismo, o nacional-socialismo, o fascismo e quejandos.

O homem de hoje é que importa, e não se tem de renegar nem esconder as origens para se ser o que almeja. A coragem de ser a soma de todas as coisas que vivemos é que faz o homem — não vale a pena querer-se ser super-homens, pois aí nasce o mal de todos os ismos. A grandeza de Mandela, e de todos os homens anónimos igualmente grandes, é não querem ser grandes, é não quererem ser mais do que os outros. Isso, sim, é humanismo. Mas há quem queira fica no passado, e no passado ficará. E isso, também, é humano. E isso, também, é liberdade; liberdade e crescimento, próprio da idade mental das pessoas.

Imagem: Nelson Mandela, no dia da sua libertação

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

| DE EZRA POUND A AUNG SAN SUU KYI

A história da política da modernidade está pejada de situações que me causam  perplexidades – mesmo considerando-as no seu tempo histórico. O caso de Ezra Pound – em plena América democrática – é uma delas. Ezra Pound esteve, durante 13 anos, preso sem culpa formada – a imagem do que acontece hoje com os prisioneiros de Guantanamo, só que ele era um preso político dos Estados Unidos da América. A razão? Diziam que estava incapaz, doente mental, mas não: era um prisioneiro político por ter defendido teses políticas próximas do fascismo italiano. Paradoxalmente – ou não, se atendermos à lógica da história dos vencedores – Winston Churchill defendeu o Duce Benito Mussolini chamando-o de “o maior legislador vivo” quando pensava que o fascismo era uma forma de fazer frente ao “perigo socialista” que vinha da URSS. E hoje, ainda hoje – de Burma a Cuba, passando pelo Irão – existem pessoas cujo único delito é pensarem e falarem de forma diferente do establisment político.

Ezra Pound foi internado num asilo de loucos, Mandela, Aung San Suu Kyi e os dissentes chineses, iranianos, cubanos… em cárceres para delitos comuns ou em prisão domiciliária. A diferença para estas pessoas, como foi para Mandela e Ezra Pound, é saberem que não são esquecidas, que há quem se importa com elas – mais: que se importam com a sua luta, com os valores de liberdade de pensamento que defendem (não se tem de concordar com a substância, mas sim com o princípio). Ezra Pound era visitado com frequência por Edith Hamilton, o que lhe servia de grande consolação. E de que falavam? Estas conversas são, de certo modo, vertidas no Cantos; e Ezra Pound esclarece: “de litteris et de armis, praestantibus que ingeniis”; i.e., de livros e de armas, de mentes extraordinárias quer do passado quer do presente (Ezra Pound, The Malatesta Cantos, 98).

A consolação da filosofia, como diria Boechio, ou a prova de que Gregório Magno tinha razão e Amor ipse intellectus est (o Amor em si é o princípio do conhecimento)? Num Mundo que derrapa à alta velocidade, bom seria que fosse uma coisa e outra coisa. |

Imagem: Ezra Pound