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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

  • O DIA DA LIBERDADE É TAMBÉM A CELEBRAÇÃO DA MEMÓRIA
Libertas inaestimabilis res est, dizia o Prudentíssimo Paulo no Digesto. É verdade, "a liberdade não tem preço", assevera o povo. E a liberdade do povo cabo-verdiano começou a 13 de Janeiro de 1991 e afirmou-se com a Constituição de 1992. Só sabe o que isso é, de verdade, foi quem viveu o tempo em que os cabo-verdianos não tinham liberdade... nem de sair do seu próprio país livremente. O PAIGC/CV decidia se podia ou não... de uma forma muito pior de coartar a liberdade do que no Estado Novo.

Hoje temos liberdade, todos nós! O Sol brilha para todos, mas primeiro houve que fundar a liberdade, dar raízes e um novo porvir ao povo das ilhas hesperitanas. O 13 de Janeiro é, para os cabo-verdianos, algo análogo à saída do povo de Israel do cativeiro do Egipto.

Os cabo-verdianos adoradores do bezerro de ouro da estrela negra (do pan-africanismo e do socialismo africano) também têm direito a celebrar a liberdade — até mesmo aqueles que renunciaram ou foram obrigados pelo PAIGC/CV a renunciar à nacionalidade cabo-verdiana —, mas bom seria que assumissem a cultura de liberdade do Estado de Direito Democrático que, como ensinava o homem de Könisberg, também tem limites imanentes. Mas é claro que é um imperativo fazer uma precisão à ideia de que «a minha liberdade acaba quando começa a do outro» e afirmar o que é e está — parece-me mais de acordo com a natureza humana: a minha liberdade é limitada quando se confronta com a liberdade do outro.

Feliz dia da Liberdade.

domingo, 24 de outubro de 2010

  • A LIBERDADE DE SERMOS O QUE SOMOS
É Domingo. Quero ir à Igreja, mas tenho uma miríade de coisas a fazer… mas Deus não deve esperar. Os seus conselhos muito menos.

Existem, diz Isaiah Berlin em Two Concepts of Liberty, "more than two hundred senses of liberty". Mas será que não basta a todos e cada um de nós o respeito por nós mesmos, pela consciência do limite da nossa liberdade perante a liberdade do outro para que toda a liberdade se realize? O Mundo é demasiado curto, a vida demasiado fugaz para se comprar as dores do outro e ter-se insónias de oiro: a bondade não é tolice; perdoar custa tanto como sofrer a indignidade, mas é, ainda assim, o caminho certo. Sim, é o caminho da liberdade de se escolher a liberdade do outro como uma barreira ética voluntária às nossas acções reactivas, legítimas ou não. O problema é que o Mundo é constituído de mudança, e todos podemos transmudar — como alerta Shi Nai An: "Não desprezes a serpente por não ter cornos, pois não sabes se um dia não se tornará num dragão".

As palavras… houve tempo em que eram corajosas; até Humpty-Dumpty reencarnar-se em escribas com o sonho do talento que só se vêm no subterrâneo do medo de não serem o Mestre-de-cerimónias das palavras que querem belas à patada: a omnibeleza da Rainha de Lewis Carroll. Malesherbes aprendeu-a de Luís XVI, quando o monarca escreveu-lhe uma carta dando-lhe conta que Turgot deveria ser afastado do poder por uma razão fundamental: o seu Ministro «pecava no bem que pensava fazer; pois não se pode obrigar um povo a ser feliz contra a sua vontade», sentenciou o Rei (o liberalismo de Turgot era, então, extemporâneo).

Se não somos felizes; não formos capazes de o ser por indignidade de alma, ambição desmedida, má fortuna ou porque temos um objecto de ódio que amamos por estar além de nós e que só destruindo-o poderemos almejar alcançar a satisfação da sua luz, chegar à penha da sua alma… o que fazer? — perguntar-me-á. Olhai para a serpente e sê sábio: deixai cair a capa da aristocracia bruta, da sine nobilitas do verbo e deixai entrar o Rei da glória: a beleza de ser belo no tempo próprio. Vem aí a mudança, o nascimento de um novo tempo! — clamam miríades de almas. Sempre foi assim, desde o início dos tempos deste confim do Universo: o solstício afasta-nos do eixo da nossa mãe prima, e fende-nos a nos mesmos… pedindo mudança. A grandeza é o ponto mais alto do início da queda; todos o sabem: de Chandragupta aos Ptolomeus de grandes sonhos; de Péricles a Luís XVI e Churchill vitoriosos e traídos pela demos ingrata que até no despertar adormece.

Se a asserção do prudentíssimo Paulo é verdadeira: libertas inaestimabilis res est, então só é possível ser-se grande em qualquer coisa quando estimamos a liberdade do outro escolher o que pode e quer ser, inclusive o anseio de ser melhores do que nós somos — se é que chegamos para ser referência de seja o que for — ou poderemos um dia vir a ser. Mas se não somos capazes disso, deveríamos fazer das tripas coração, renunciar a tudo e ajudar o outro a ser melhor do que é ou pensa que é. Difícil, dirá. Prefere o caminho largo, sem pedras pontiagudas — das que lança das ameias do seu castelo de ética de plasticina — para afinar o talento gravado? Que seja! Esta é a maior das liberdades individuais: sermos o que somos e não o que podemos ser, sendo que podemos ser melhores do somos. O ser humano veio ao mundo para deixá-lo melhor do que o encontrou; e só o pode fazer sendo aquilo que pode ser: uma pessoa humana. O respeito pela liberdade do outro é uma forma de ouvirmos a voz de Deus — digo ao meu poeta.

Imagem: Frey Bartolomeu de las Casas

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

  • NÃO ESQUECER...
A liberdade é a mais bela das coisas que a vida nos concede. Lembra-te de Aung San Suu Kyi... A sua luta deve ser também nossa.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

| O COMUNISMO SERÓDIO DE NELSON MANDELA E O HUMANISMO

A 11 de Fevereiro de 1990 Nelson Mandela saía da prisão, depois de décadas de encarceramento por motivos políticos. Há, exactamente 20 anos e um dia saia da prisão para dar uma lição de humanidade ao Mundo e, aos políticos, mostrar-lhes que o caminho não é a eternização no poder mas sim fazer o melhor que se pode para os cidadãos da nação nas circunstâncias em que estiver. A lição está aí, perene e uma espada para as consciências, para ser apreendida. Uma lição magna de vida de que os homens mudam, e são, no plano do ser, o que escolherem ser como pessoas.

Na sua juventude, ainda estudante de Direito, conheceu a teoria comunista — e se deixou seduzir pelo canto dos amanhãs que cantam — e, mais tarde, a Satyagraha, a teoria da não-violência e da resistência pacífica de Gandhi. Este dizia que «A força de um homem e de um povo está na não-violência» (parafraseava Plutarco: «a grandeza de um povo está na forma como enfrenta desgraça»), e, por isso, Tagore o denominou de Mahatma — grande alma.

A escolha de Nelson Mandela foi e era simples: entre o comunismo conquistador — que tinham uma dimensão opressora da liberdade da pessoa humana — ou um humanismo activo e não violento. Venceu, em Nelson Mandela, a consciência de um humanismo activo e democrático — pelo que a atitude de dar as mãos aos seus algozes, numa prova de que a acção deve acompanhar o discurso e de que devemos mostrar ao mal que não somos melhores do que os que o praticam mas somos e devemos, sim, melhores do que o mal, e compartilhar com eles o poder é de uma singularidade que chega a transcender a natureza humana e a sua relação com o poder.

Mas, além disso, Nelson Mandela também é o testemunho vivo de que se pode transcender a consciência política do socialismo democrático e o pseudo humanismo que sustenta e, no plano político e social, trilhar um caminho mais humano e mais justo. Não é, assim, por acaso que há algumas décadas que se houve falar em capitalismo de rosto humano e até, num plano mais alargado, de política de rosto humano. Mas porquê política de rosto humano? Pressupõe esta asserção de que a política não é de rosto humano? Não, pois tal seria contra a própria política — como arte de governar, e bem governar. O que pressupõe é que os políticos governam de forma desumana, olhando para o seu umbigo e ventre anafado e não para a barriga, a educação e a cultura dos cidadãos cujos interesses governam.

A final, há que dizer que não se deve ter medo dos comunistas — como Churchill tinha, a ponto de elogiar o nacionalismo fascista italiano de Benito Mussolini, chamando a este «o maior legislador vivo», ou que levou à hedionda caça às bruxas no “democrático” Estados Unidos da América — mas sim pensar que, em dado momento histórico, muitos foram os homens bons que apoiaram o comunismo, o trotskismo, o nacional-socialismo, o fascismo e quejandos.

O homem de hoje é que importa, e não se tem de renegar nem esconder as origens para se ser o que almeja. A coragem de ser a soma de todas as coisas que vivemos é que faz o homem — não vale a pena querer-se ser super-homens, pois aí nasce o mal de todos os ismos. A grandeza de Mandela, e de todos os homens anónimos igualmente grandes, é não querem ser grandes, é não quererem ser mais do que os outros. Isso, sim, é humanismo. Mas há quem queira fica no passado, e no passado ficará. E isso, também, é humano. E isso, também, é liberdade; liberdade e crescimento, próprio da idade mental das pessoas.

Imagem: Nelson Mandela, no dia da sua libertação

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


  • OF WOLVES AND MEN
Isso dos lobos e dos cordeiros já chateia. O Primeiro Ministro José Maria Neves percebeu muito bem o que o Presidente do MPD, Carlos Veiga, quis dizer na Convenção do MPD. E se não percebeu, fico decepcionado, de todo. É que tenho-o como um homem inteligente, pelo que só posso concluir que não quis perceber ou procura uma justificação para fazer uma clivagem desnecessária entre os cabo-verdianos e imputar isso a Carlos Veiga. O que o líder do MPD disse não foi nenhum atentado à honra ou dignidade externa de ninguém. Agora, se o Primeiro Ministro insiste num desagravo é porque, ao nível interno se sentiu agravado. Quer isso dizer que é ou se sente um lobo? Para isso não tenho resposta, só perguntas.

O rei Leandro dizia que um grande general ou estratega deveria congregar as características do leão e do lobo. O maior elogio que conheço, até hoje, sobre Aníbal Barak era que ele tinha estas duas características, e talvez por isso mesmo foi grandioso e era denominado Barak, O luminoso. Este é um facto da ciência política, de conhecimento necessário. Ser lobo, quer no sentido naturalístico quer na perspectiva do darwinismo social, não é mau, pelo contrário – tem a dimensão de um elogio no plano político. É, mutantis mutandis, estar num patamar superior da cadeia alimentar em relação ao cordeiro. Este, em regra, se puro, era destinado ao sacrifício – como acontecia no lugar santíssimo do templo de Salomão; caso fosse falho de pureza era alimento de lobo e outras alimárias ou dos homens em dias normais ou de festa.

Carlos Veiga sabe que tem mais que fazer, e não se pode dar ao luxo de lutar contra o poder instituído e a inércia do poder com a mesma lógica usada por Jorge Santos, que caiu na armadilha de perder tempo com o acessório do mentiroso, do burro, da ladeira… e de fazer uma oposição ao reboque da Agenda do líder do PAICV e as acusações de ligação ao narcotráfico e questões quejandas. O Primeiro Ministro, para ser consequente com o que pede a Carlos Veiga, poderia começar por lavrar um pedido de desculpas sobre as acusações que fez ao MPD, no dia das últimas eleições legislativas. Estas sim, foram e são ofensivas. Ou tem as provas e as apresenta no local próprio, ou pede desculpas.

O país não pode nem deve viver num clima de crispação política desnecessária, e muito menos de suspeição. O Primeiro Ministro deve fazer o que o povo o autorizou a fazer ou conceder-lhe o presente mandato: governar o país. Carlos Veiga deve concentrar-se no seu papel – dirigir a oposição e fazer oposição. Uma oposição séria e intransigente na defesa dos interesses dos cabo-verdianos e da nação. A tarefa é árdua, mitologicamente árdua, com a ingenuidade que o grupo parlamentar revela em algumas matérias. Ontem, na Assembleia Nacional, o PM José Maria Neves – depois dos ministros conseguirem escapar à questão do financiamento do INPS à ELECTRA –, respondeu que o Governo sabia e autorizou o negócio. E disse isso no encerramento do debate! E o MPD já nada podia fazer para obter os esclarecimentos necessários – que o debate parlamentar não esclareceu – e que se impunham. Foi engenhoso, predatório até, neste aspecto e no de, ao que parece, apresentar soluções para tudo e mais alguma coisa.

A panaceia da governação parece que sai da cartola. Mas não sai. O mundo é mágico, mas não é de mágicos – muito menos na política. E como os lobos não deixam muitos cordeiros dormirem, e como muitos cordeiros não deixam muitos lobos dormirem; logo, lobos e cordeiros andam acordados, decidi editar em terra longe (depois, depois de lido este texto) a Epistola dedicatória de Thomas Hobbes ao Conde de Devonshire na Introdução da sua obra O Cidadão. Quando não se é ofensivo, o discurso político, quer retórico quer dialéctico, é uma mais-valia para os cidadãos. E se há coisa que não se pode pedir a um homem é que peça desculpas pelo seu pensamento. Só um homem não livre, agrilhoado nas suas convicções, moralmente cobarde e pusilânime de ser pede desculpas pelo seu pensamento. E somente uma sociedade ou uma ou uma autoridade autoritária pede aos seus cidadãos que se retractem do seu pensamento, que tenham vergonha de pensar e de dizer o que pensam – em particular no plano político.

Voltaire sintetiza esta ideia numa asserção: «posso não concordar com o que dizes, mas lutarei até a morte para teres o direito de dizer o que pensas.» resta, nesta ideia, a essência da liberdade de pensamento e de expressão inerente ao Estado de Direito Democrático, o princípio da liberdade política – a liberdade política e cidadã que teve início em 13 de Janeiro de 1991 e que o PAICV diz que começou com a revisão constitucional de 1990. Assenhora-se desta ideia de liberdade, mas o seu líder tem um discurso que contraria esta ideia de liberdade e pluralismo discursivo. Quem age assim está aquém dos parâmetros valorativos de uma sociedade enformada pelo Estado de Direito Democrático – é um predador do pensamento do seu semelhante, um lobo da liberdade do outro. Não sei se Carlos Veiga, Presidente do MPD, pensa assim, mas eu, como cidadão, penso!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010



  • LA LIBERDAD Y LA POLITICA
El gobernar por medio del consenso sustituyó al gobernar por la coacción, y la pirámide que se había apoyado en un punto paso ahora a sostenerse en su base. Al hacer a cada ciudadano el guardián de su interés propio, Solón admitió un elemento de Democracia en el Estado. La mayor alegría de un gobernante, dijo, consiste en crear un gobierno popular. Consciente de que no se puede confiar plenamente en ningún hombre, sometió a quienes ejercían el poder al control vigilante de sus inferiores.

El único recurso contra los desórdenes políticos conocidos hasta entonces era la concentración del poder. Solón se comprometió a lograr el mismo objetivo mediante la distribución del poder. Dio a la gente común el grado de influencia que consideró que eran capaces de emplear, de manera que el Estado se privara de un gobierno arbitrario. La esencia de la Democracia, dijo, consiste en no obedecer a otro señor que a la ley. Reconoció el principio de que las formas políticas no son definitiva ni inviolables y que deben adaptarse a los hechos. Y se preparó tan bien para la revisión de su constitución, sin romper la continuidad o perder la estabilidad, que por siglos después de su muerte los oradores del Atica mencionaron su nombre, atribuyéndole toda la estructura de la ley ateniense. El sentido de su evolución estuvo determinado por la doctrina fundamental de Solón en orden a que el poder político debía ser proporcional al servicio público.

En la guerra pérsica, los servicios de la democracia eclipsaron a los de las ordenes patricias, ya que la flota que venciera a los asiáticos en el Mar Egeo estuvo dirigida por atenienses pobres. Esta clase, cuyo valor salvara al Estado y preservara la civilización europea, se había ganado el derecho a aumentar su influencia y privilegio. Los cargos públicos que hasta entonces habían sido monopolio de los ricos, se abrieron entonces a los pobres; para garantizar que ellos tuvieran su parte, todos los cargos se distribuyeron al azar, con excepción de los más altos.

En tanto se debilitaban las antiguas autoridades, tampoco existia ninguna norma aceptada de moral o derecho político que afirmara la estructura de la sociedad en medio del cambio. La inestabilidad que se había apoderado de las formas amenazaba los principios mismos del gobierno. Las creencias nacionales estaban cediendo ante la duda, y esta aún no abría camino al conocimiento.
------- in História de la Liberdade en la Antiguidad, discurso proferido por Lord Acton no dia 26 de Fevereiro de 1877 aos membros da Bridgnorth Institution na Agricultural Hall.

Imagem: Comemoração da vitória de Tito Vespasiano (filho). O saque de Jerusalém.

sábado, 5 de dezembro de 2009

  • DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
---- Mario Quintana

  • LEY DE LA MENTIRA

No importa la frecuencia con que se demuestre que una mentira es falsa. Siempre habrá cierto porcentaje de gente que crea que es verdad.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

  • A CONSTITUIÇÃO (IM)POSSÍVEL?
O acordo de Revisão Constitucional entre o PAICV/MPD é, em muitos aspectos, a mutilação e a desconstrução do Estado de Direito Democrático. Não somente pelo acordo em si – que na forma é sofrível –, mas pela sua substância. É que, pergunto, onde fica a Constituição e os seus valores, os valores abraçados em 1992? Tens razão, ó Hamlet, tens razão!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

  • DEPUTANDO COISAS INSÓLITAS

Um arquitecto – que não deve ter lido Copérnico, Galileu e Newton – causa esta obra de arte peniana (d’pixim d’terra, sima kiis dona cantora d’pon d’mar ta pregâ n’rua d’sabe y d’diazá na mund lá ne ruas d’Caniquinha, Kraca y de Um a Dez) uma vez por dia algures por aí. Coisas imprevisíveis, dir-me-á. Talvez, talvez. Tanto como o deputado da terra da fraternidade, perdão… da morabeza! que se lembrou de que o argumento não é à força verbal e da razão mas à cadeirada – caderada, diria o ufano representante (?) da nação. Há cada peixeirada! Digo: há cada caldeirada!

Deus! O melhor é ir ler um pouco de Adolfo Bioy Casares. Mas deixo-te, a ti que me lês – como convite a acompanhar-me na leitura –, estes versos de Dante Gabriel Rossetti, citados por JL Borges no brevíssimo prólogo que escreveu para «La invención de Morel» de Adolfo Bioy Casares:

I have been here before,
But when or how 1 cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound,
the lights around the soore...

O que sei é que, daqui onde estou, deputo a cadeirada – e penso se, por razões insondáveis, o arquitecto quis afastar os homens do local a dada hora, e por isso foi criativo o bastante para ter a sua voz gráfica sempre presente e na forma (todo lá dentro, da obra!).
.
Grita-se, de forma gráfica: – «Kuidado cu kadera

Imagem: (Obrigado, Barbara B.)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

  • A CUECA DA NATUREZA

    Tertuliano explica as razões porque se tornou cristão. Elas sempre me pareceram perceptíveis e compreensíveis à luz do mundo em que vivo… mas difíceis de compreender no seu tempo, por acarretar alguma irracionalidade existencial. Era, se assim se pode dizer, um elo dissociado da minha compreensão da sua pessoa, do seu pensamento, das suas opções e do seu tempo. Hoje, como que por uma epifania da razão, descobri o elo. Entendi. E é tão óbvio, tão elementar, tão patente — tão frio…

    Tem razão Vargas Villa, sobre a consciência das épocas. E lembro-me de José Martí, da sua reacção a morte de
    Garfield — não o gato, mas aquele que foi Presidente dos Estados Unidos da América: James Abraham Garfield — e do que dizia, no longínquo dia 1 de Outubro de 1881 (em artigo publicado no La Opinión Nacional, Caracas, 19 de octubre de 1881): «Quando se é testemunha das grandes explosões de amor da humanidade, sente-se orgulho de ser-se homem, assim como quando se presencia as suas prostrações ou fúria dá vergonha sê-lo. A morte é útil, a virtude é útil, a desgraça necessária e reparadora, porque desperta nos corações que a presenciam nobres impulsos de as eliminar. […] A dor alimenta, a dor purifica, a dor nutre.»

    A guerra corpo a corpo entre a lei do amor e a lei do ódio, como dizia José Martí, é contínua, como a natureza: todos os dias morrem e nascem coisas, sentimentos e pessoas, pessoas que morrem na luz e sem ira — digo eu. No plano da razão, também.
    «Sempre quis olhar para o meu caixão, ver-me exposto ao Mundo… saber onde andam as lágrimas. Curiosidade satisfeita. Vi a cueca da natureza» diz-me o meu poeta.

    Imagem: Mahmoud Ali, 8 anos (escola de Al-Qabs — Ramallah, Palestina)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Como tinha prometido, inicio a publicação das Palavras Cínicas de Albino Forjaz de Sampaio. Hoje é tempo da primeira carta.
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Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar.

Carta I

Meu amigo:
Escrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins deste meu bairro onde só muito fraco chega o rumor da grande cidade. De que hei-de falar? Da Vida? Pois seja. Tu vens para ela, para o imenso brouhaha. A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom, tolice. Não venhas. Aqui para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, hipócrita, e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga.

Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar.

Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfibrina-o às gargalhadas.

Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será ninguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que pretendem subir, odeia os que subiram e os que um dia subirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio dá mais prazeres que o Amor.

A satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja um mártir, quer ele seja um ladrão, é maior que a de sentir os braços opulentos de uma mulher que se entrega. É menos um. Sê pois forte como o diamante e como o Ódio.

No Amor —
gentil comédia — sê pródigo, e sobretudo nunca ames uma só mulher. Se és bom serás ridículo, se és mau serás temido. Sê mau sempre. Este farrapo a que se chama Vida foi, é e há-de ser sempre assim.

Tudo é egoísmo. Se és bom morrerás como Judas, se és mau, meu amigo, serás lembrado como Satã. Vem, mas vem cínico. Triunfarás, terás ouro, amantes, mulheres, o diabo.

Acredita que metade da humanidade nasceu para se rojar pela lama, para que tu, eu, todos os maus, todos os cínicos, a
esmagássemos e lhe cingíssemos fraternalmente as carnes com um chicote. Depois da morte há o Nada. Portanto, meu caro, aqueles que o sabem, o que pensam é em sugar a vida com um furor de agiotas sem entranhas. Isto é como no mar; já Shakespeare dizia que “o mugem vive para ser tragado pelo lúcio”.

Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te todas as humilhações, desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor todos os triunfos, desde o respeito ao Capitólio. Luta sempre calado, fino, sabido, que se não tens jeito para isto serás um eunuco eterno, castrado para a Vida, para o Amor e para o sonho.

A raiva também tem o seu gozo, o Ódio também tem o seu amor. E o amor do Ódio é maior porque é mais forte. Não poderás gozar e serás mais desprezado do que uma serapilheira que o uso condenou.

A carne é matéria como a rocha, a rocha é matéria como a flor. Da mulher honesta à prostituta não há diferença, a distância de uma à outra é nula. Não beijam ambas? Uma por prazer, outra por precisão. Pois, meu caro, eu prefiro a prostituta sempre. Acredita que todos se vendem, homens e mulheres, palhaços e imperadores, Cristos e mendigos: a questão é de preço e o preço sufoca todas as consciências, todas as revoltas.

Acredita que falta quem compre toda a gente que se quer vender.

A mulher mais honesta capitula, e aquilo a que tu chamas acaso, chamo eu persistência, e a persistência gasta a vida como a água gasta a rocha. Tu és filho de uma prostituta pois que tua mãe só foi de teu pai e teu pai foi o primeiro a quem ela se entregou, que depois o egoísmo do seu amor fez conservar junto de si...
O seu corpo tinha gozos inusitados que ele demandou primeiro. E se teu pai não fosse dela, seria o primeiro que lhe agradasse, o primeiro que a sua carne lhe impusesse, o primeiro que passasse à sua rua. Assim, tu és filho de um operário como o poderias ser de um assassino. Podia mais a sua carne do que ela, mas o seu egoísmo foi maior do que a sua carne.

A vida é uma luta brutal” (Tourgueneff).

Tu crês em Deus? Crês sim, que bem o sei. Pois bem; vai dizer-lhe que eu o odeio com toda a força do meu ódio. Tu que te dás com ele, que crês nele, que és amigo dele, vai dizer-lhe que ele é mais vil do que as coisas vis. Vai dizer-lhe que eu o odeio, porque ele deixou morrer aquela criatura aqui do lado, cujos seis filhos abandonados me vieram comer o meu jantar. Vai dizer-lhe o ódio que lhe tenho por ele deixar morrer aquele justo, que por ser bom teve de se matar; diz-lhe finalmente que nada disto se deve fazer quando se é Deus.

Que me odeie agora também porque eu dei o jantar aos pequenos que não o tinham; que me odeie porque a última camisa a dei a um pobre que quase ma roubou; que me odeie porque eu o castigo como no outro dia castiguei um velho que maltratava um cão. Anda, vai dizer-lhe que me odeie, que se avilte ainda mais se é capaz...

A geração é de covardes e “cada ano que passa está mais corrupto o mundo” (M. Gorki).

Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido!
Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca. Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há-de fuzilar a mim, o maior dos patifes que o socorri.

Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela que dá tudo o que tem. E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicote com que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado no candeeiro ali defronte.
De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmola — esmola humana — fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice.

Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também dar esmola e porque me curvei a ti. Toda a vida me fizeste bem, socorreste-me, agasalhaste-me. Um dia eu — mau como sou — estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu.

E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez.

Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntar a bota quando o fizerem, percebes? Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. “O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado” (Provérbios, XIV, 20), que não "merece carinhos quem não tempera caldo" (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor. A Vida? "Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos em semelhantes cavernas" (M. du Camp).

A Vida é uma canalhice, uma farsa, “uma luta brutal”, como diz
Tourgueneff.

In Albino Forjaz de Sampaio, Palavras Cínicas

Imagem: Subvertive beauty, Luis Royo

terça-feira, 10 de novembro de 2009

  • CIRCULACIÓN

    La solitaria muela de una puta
    una muerta sin nombre
    llevaba una corona de oro.
    Las demás se habían desprendido
    como por un secreto acuerdo.
    Ésta la extrajo el sepulturero para sí.
    Porque, decía,
    sólo la tierra debe volver a la tierra.
    ---- Gottfried Benn
Imagem: Within me, Samarel

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mstislav Rostropovitch, junto ao murro de Berlim.

Berlim, 9.11.1989

Quando os guardas estavam presos...
Pergunto: — O que guarda, de verdade, o guarda?

domingo, 25 de outubro de 2009

  • REIVINDICAÇÃO DA ARTE

    A boa, que ao seu amor nada nega
    E se lhe entrega com antecipação
    Saiba: que não é boa vontade não
    Mas talento, o que ele deseja na esfrega.

    Mesmo se à velocidade do som
    Do sou-tua dela à cópula chega
    Não é pressa que o botão dele carrega
    Quando às bolas seminais dá vazão.

    Se é o amor que primeiro atiça o fogo
    Precisa ela depois, para Inverno amparado
    De ser dona ainda de um traseiro dotado.

    De facto, mais que o fervor no olhar
    (Também faz falta) um truque há que usar:
    Coxas soberbas, em soberbo jogo.
    ----- Bertolt Brecht, Poesia erótica
Imagem: Stock Whipping, Milo Manara

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A fome, René Magritte

O José Saramago é, verdadeiramente, um inculto!
é o que apraz-me dizer, de momento.

domingo, 18 de outubro de 2009

  • AO POVO CABO-VERDIANO,1 Eugénio Tavares

“A ti, Lázaro, me dirijo. Falo-te, porém não sei se me ouves; invoco quando deve haver de levantado na tua alma e a incerteza do teu olhar apenas me dá a impressão fria da caligem que envolve a tua inteligência, da miséria em que se empocilga a tua triste existência moral. Fisicamente, eu sei, existes: bem te vejo curvado sob a mó de um labutar esmagador, investindo com quanto há de tempestuoso na adversidade para que não falte o pão na boca dos teus filhos. Moralmente, porém, não oiço a tua voz no concerto das vontades orientadas na disciplina e fortalecidas na união.

Vítima da dissolução do meio em que fadejas, pessoa civil sem valor real; força política sem consciência de direitos; dizer-te vivo é caluniar a tua incapacidade cívica e intelectual.

Tua sombra hesitante, eu a enxergo dentro da escura nulidade a que te reduziu o desmarcado egoísmo dos últimos degenerados da nossa orgia administrativa. O que têm feito, por ti, esses que, com proficuidade, podem exercer benéfica acção moral e política? Quando é que para elevar o teu nível moral ou económico sacrificam, eles, a mínima parcela do seu tempo ou do seu dinheiro? Quando é que se deixaram de abusar da tua ignorância? Quando foi que eles viram, na política, não um meio de fazer frutificar habilidades em proveito próprio, mas uma força de fazer progredir povos?

A tua classe preponderante não é um elemento de acção política; não é uma engrenagem do progresso; é uma das faces mais ridículas do egoísmo. “Cumpre, pois, irmão, o dever iniludível de exercer os teus direitos políticos. “Educa-te; une-te; disciplina-te; se associares o teu trabalho ao trabalho dos outros, de muitos, quando não possa ser de todos; trabalharás muito menos e lucrarás muito mais... Porque a riqueza de um, meu amigo, é, quase sempre conseguida à custa da miséria de muitos...”
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Imagem: Luís Royo

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1 Ao Povo Cabo-verdiano, de Eugénio Tavares. In intervenção de Corsino Fortes (homem de cultura, discreto, sensível, ciente das suas responsabilidades e atento às necessidades dos cabo-verdianos, foi, de todos os Embaixadores de Cabo Verde que passaram por Portugal, honra lhe seja feita, aquele que mais se preocupou, em termos práticos com a Comunidade cabo-verdiana) no Colóquio Internacional Humanismo Latino na Cultura Portuguesa ocorrido na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2002) sob o título de «Eugénio Tavares - Um Construtor do Humanismo Cabo-Verdiano». Fica aqui a hiperligação para o texto, que merece uma leitura atenta neste Dia da Cultura Cabo-verdiana e da celebração do nascimento de Eugénio de Paula Tavares.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

«A sua atitude deve ser a de um herói sem medo, mas o coração deve ser como o de uma criança: cheio de amor». in Regras de Soyen Shaku

Imagem: Manuela Arcuri
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1) Quando eu era criança, diz a mãe, depois de ser amamentado pouco mais de um ano, passei a amamentar-me numa outra mulher que tinha acabado de dar a Luz. Assim, mamei durante dois anos e isso deve ter-me feito algum bem; acho.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

  • VOZES DE ATENTAR...

"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", Jesus de Nazaré