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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

  • EPIFANIA HISTÓRICA
Durante anos tentei perceber de forma adequada o porquê, a razão funda, de pessoas como Adolfo Hitler, António de Oliveira Salazar e Winston Churchill terem tanta e tamanha admiração por Benito Mussolini por volta de 1933. Afinal, depois de tanto pensar e tentar entender este fenómeno, chego à conclusão intuída à partida, há anos: connatus essendi. Tão simples como isso. Tenho de ser mais cartesiano; e seguir o conselho de Helvius Pertinax. Até o Mundo conspira neste sentido; mas o que é certo é que o paraíso – como diz o meu poeta moribundo – não se alcança pela força: tem asas de cristal, portas de sonhos de ontem e ferrolhos de borboletas azuis acabadas de nascer.

Que o ano novo seja o que tiver de ser, se for bom.

Imagem: António de Oliveira Salazar à secretária, com uma fotografia autografada de Benito Mussolini. Foto de Bernard Hoffman (Life Magazine)

domingo, 24 de outubro de 2010

  • A LIBERDADE DE SERMOS O QUE SOMOS
É Domingo. Quero ir à Igreja, mas tenho uma miríade de coisas a fazer… mas Deus não deve esperar. Os seus conselhos muito menos.

Existem, diz Isaiah Berlin em Two Concepts of Liberty, "more than two hundred senses of liberty". Mas será que não basta a todos e cada um de nós o respeito por nós mesmos, pela consciência do limite da nossa liberdade perante a liberdade do outro para que toda a liberdade se realize? O Mundo é demasiado curto, a vida demasiado fugaz para se comprar as dores do outro e ter-se insónias de oiro: a bondade não é tolice; perdoar custa tanto como sofrer a indignidade, mas é, ainda assim, o caminho certo. Sim, é o caminho da liberdade de se escolher a liberdade do outro como uma barreira ética voluntária às nossas acções reactivas, legítimas ou não. O problema é que o Mundo é constituído de mudança, e todos podemos transmudar — como alerta Shi Nai An: "Não desprezes a serpente por não ter cornos, pois não sabes se um dia não se tornará num dragão".

As palavras… houve tempo em que eram corajosas; até Humpty-Dumpty reencarnar-se em escribas com o sonho do talento que só se vêm no subterrâneo do medo de não serem o Mestre-de-cerimónias das palavras que querem belas à patada: a omnibeleza da Rainha de Lewis Carroll. Malesherbes aprendeu-a de Luís XVI, quando o monarca escreveu-lhe uma carta dando-lhe conta que Turgot deveria ser afastado do poder por uma razão fundamental: o seu Ministro «pecava no bem que pensava fazer; pois não se pode obrigar um povo a ser feliz contra a sua vontade», sentenciou o Rei (o liberalismo de Turgot era, então, extemporâneo).

Se não somos felizes; não formos capazes de o ser por indignidade de alma, ambição desmedida, má fortuna ou porque temos um objecto de ódio que amamos por estar além de nós e que só destruindo-o poderemos almejar alcançar a satisfação da sua luz, chegar à penha da sua alma… o que fazer? — perguntar-me-á. Olhai para a serpente e sê sábio: deixai cair a capa da aristocracia bruta, da sine nobilitas do verbo e deixai entrar o Rei da glória: a beleza de ser belo no tempo próprio. Vem aí a mudança, o nascimento de um novo tempo! — clamam miríades de almas. Sempre foi assim, desde o início dos tempos deste confim do Universo: o solstício afasta-nos do eixo da nossa mãe prima, e fende-nos a nos mesmos… pedindo mudança. A grandeza é o ponto mais alto do início da queda; todos o sabem: de Chandragupta aos Ptolomeus de grandes sonhos; de Péricles a Luís XVI e Churchill vitoriosos e traídos pela demos ingrata que até no despertar adormece.

Se a asserção do prudentíssimo Paulo é verdadeira: libertas inaestimabilis res est, então só é possível ser-se grande em qualquer coisa quando estimamos a liberdade do outro escolher o que pode e quer ser, inclusive o anseio de ser melhores do que nós somos — se é que chegamos para ser referência de seja o que for — ou poderemos um dia vir a ser. Mas se não somos capazes disso, deveríamos fazer das tripas coração, renunciar a tudo e ajudar o outro a ser melhor do que é ou pensa que é. Difícil, dirá. Prefere o caminho largo, sem pedras pontiagudas — das que lança das ameias do seu castelo de ética de plasticina — para afinar o talento gravado? Que seja! Esta é a maior das liberdades individuais: sermos o que somos e não o que podemos ser, sendo que podemos ser melhores do somos. O ser humano veio ao mundo para deixá-lo melhor do que o encontrou; e só o pode fazer sendo aquilo que pode ser: uma pessoa humana. O respeito pela liberdade do outro é uma forma de ouvirmos a voz de Deus — digo ao meu poeta.

Imagem: Frey Bartolomeu de las Casas

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

| O COMUNISMO SERÓDIO DE NELSON MANDELA E O HUMANISMO

A 11 de Fevereiro de 1990 Nelson Mandela saía da prisão, depois de décadas de encarceramento por motivos políticos. Há, exactamente 20 anos e um dia saia da prisão para dar uma lição de humanidade ao Mundo e, aos políticos, mostrar-lhes que o caminho não é a eternização no poder mas sim fazer o melhor que se pode para os cidadãos da nação nas circunstâncias em que estiver. A lição está aí, perene e uma espada para as consciências, para ser apreendida. Uma lição magna de vida de que os homens mudam, e são, no plano do ser, o que escolherem ser como pessoas.

Na sua juventude, ainda estudante de Direito, conheceu a teoria comunista — e se deixou seduzir pelo canto dos amanhãs que cantam — e, mais tarde, a Satyagraha, a teoria da não-violência e da resistência pacífica de Gandhi. Este dizia que «A força de um homem e de um povo está na não-violência» (parafraseava Plutarco: «a grandeza de um povo está na forma como enfrenta desgraça»), e, por isso, Tagore o denominou de Mahatma — grande alma.

A escolha de Nelson Mandela foi e era simples: entre o comunismo conquistador — que tinham uma dimensão opressora da liberdade da pessoa humana — ou um humanismo activo e não violento. Venceu, em Nelson Mandela, a consciência de um humanismo activo e democrático — pelo que a atitude de dar as mãos aos seus algozes, numa prova de que a acção deve acompanhar o discurso e de que devemos mostrar ao mal que não somos melhores do que os que o praticam mas somos e devemos, sim, melhores do que o mal, e compartilhar com eles o poder é de uma singularidade que chega a transcender a natureza humana e a sua relação com o poder.

Mas, além disso, Nelson Mandela também é o testemunho vivo de que se pode transcender a consciência política do socialismo democrático e o pseudo humanismo que sustenta e, no plano político e social, trilhar um caminho mais humano e mais justo. Não é, assim, por acaso que há algumas décadas que se houve falar em capitalismo de rosto humano e até, num plano mais alargado, de política de rosto humano. Mas porquê política de rosto humano? Pressupõe esta asserção de que a política não é de rosto humano? Não, pois tal seria contra a própria política — como arte de governar, e bem governar. O que pressupõe é que os políticos governam de forma desumana, olhando para o seu umbigo e ventre anafado e não para a barriga, a educação e a cultura dos cidadãos cujos interesses governam.

A final, há que dizer que não se deve ter medo dos comunistas — como Churchill tinha, a ponto de elogiar o nacionalismo fascista italiano de Benito Mussolini, chamando a este «o maior legislador vivo», ou que levou à hedionda caça às bruxas no “democrático” Estados Unidos da América — mas sim pensar que, em dado momento histórico, muitos foram os homens bons que apoiaram o comunismo, o trotskismo, o nacional-socialismo, o fascismo e quejandos.

O homem de hoje é que importa, e não se tem de renegar nem esconder as origens para se ser o que almeja. A coragem de ser a soma de todas as coisas que vivemos é que faz o homem — não vale a pena querer-se ser super-homens, pois aí nasce o mal de todos os ismos. A grandeza de Mandela, e de todos os homens anónimos igualmente grandes, é não querem ser grandes, é não quererem ser mais do que os outros. Isso, sim, é humanismo. Mas há quem queira fica no passado, e no passado ficará. E isso, também, é humano. E isso, também, é liberdade; liberdade e crescimento, próprio da idade mental das pessoas.

Imagem: Nelson Mandela, no dia da sua libertação

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

| DE EZRA POUND A AUNG SAN SUU KYI

A história da política da modernidade está pejada de situações que me causam  perplexidades – mesmo considerando-as no seu tempo histórico. O caso de Ezra Pound – em plena América democrática – é uma delas. Ezra Pound esteve, durante 13 anos, preso sem culpa formada – a imagem do que acontece hoje com os prisioneiros de Guantanamo, só que ele era um preso político dos Estados Unidos da América. A razão? Diziam que estava incapaz, doente mental, mas não: era um prisioneiro político por ter defendido teses políticas próximas do fascismo italiano. Paradoxalmente – ou não, se atendermos à lógica da história dos vencedores – Winston Churchill defendeu o Duce Benito Mussolini chamando-o de “o maior legislador vivo” quando pensava que o fascismo era uma forma de fazer frente ao “perigo socialista” que vinha da URSS. E hoje, ainda hoje – de Burma a Cuba, passando pelo Irão – existem pessoas cujo único delito é pensarem e falarem de forma diferente do establisment político.

Ezra Pound foi internado num asilo de loucos, Mandela, Aung San Suu Kyi e os dissentes chineses, iranianos, cubanos… em cárceres para delitos comuns ou em prisão domiciliária. A diferença para estas pessoas, como foi para Mandela e Ezra Pound, é saberem que não são esquecidas, que há quem se importa com elas – mais: que se importam com a sua luta, com os valores de liberdade de pensamento que defendem (não se tem de concordar com a substância, mas sim com o princípio). Ezra Pound era visitado com frequência por Edith Hamilton, o que lhe servia de grande consolação. E de que falavam? Estas conversas são, de certo modo, vertidas no Cantos; e Ezra Pound esclarece: “de litteris et de armis, praestantibus que ingeniis”; i.e., de livros e de armas, de mentes extraordinárias quer do passado quer do presente (Ezra Pound, The Malatesta Cantos, 98).

A consolação da filosofia, como diria Boechio, ou a prova de que Gregório Magno tinha razão e Amor ipse intellectus est (o Amor em si é o princípio do conhecimento)? Num Mundo que derrapa à alta velocidade, bom seria que fosse uma coisa e outra coisa. |

Imagem: Ezra Pound