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domingo, 24 de outubro de 2010

  • A LIBERDADE DE SERMOS O QUE SOMOS
É Domingo. Quero ir à Igreja, mas tenho uma miríade de coisas a fazer… mas Deus não deve esperar. Os seus conselhos muito menos.

Existem, diz Isaiah Berlin em Two Concepts of Liberty, "more than two hundred senses of liberty". Mas será que não basta a todos e cada um de nós o respeito por nós mesmos, pela consciência do limite da nossa liberdade perante a liberdade do outro para que toda a liberdade se realize? O Mundo é demasiado curto, a vida demasiado fugaz para se comprar as dores do outro e ter-se insónias de oiro: a bondade não é tolice; perdoar custa tanto como sofrer a indignidade, mas é, ainda assim, o caminho certo. Sim, é o caminho da liberdade de se escolher a liberdade do outro como uma barreira ética voluntária às nossas acções reactivas, legítimas ou não. O problema é que o Mundo é constituído de mudança, e todos podemos transmudar — como alerta Shi Nai An: "Não desprezes a serpente por não ter cornos, pois não sabes se um dia não se tornará num dragão".

As palavras… houve tempo em que eram corajosas; até Humpty-Dumpty reencarnar-se em escribas com o sonho do talento que só se vêm no subterrâneo do medo de não serem o Mestre-de-cerimónias das palavras que querem belas à patada: a omnibeleza da Rainha de Lewis Carroll. Malesherbes aprendeu-a de Luís XVI, quando o monarca escreveu-lhe uma carta dando-lhe conta que Turgot deveria ser afastado do poder por uma razão fundamental: o seu Ministro «pecava no bem que pensava fazer; pois não se pode obrigar um povo a ser feliz contra a sua vontade», sentenciou o Rei (o liberalismo de Turgot era, então, extemporâneo).

Se não somos felizes; não formos capazes de o ser por indignidade de alma, ambição desmedida, má fortuna ou porque temos um objecto de ódio que amamos por estar além de nós e que só destruindo-o poderemos almejar alcançar a satisfação da sua luz, chegar à penha da sua alma… o que fazer? — perguntar-me-á. Olhai para a serpente e sê sábio: deixai cair a capa da aristocracia bruta, da sine nobilitas do verbo e deixai entrar o Rei da glória: a beleza de ser belo no tempo próprio. Vem aí a mudança, o nascimento de um novo tempo! — clamam miríades de almas. Sempre foi assim, desde o início dos tempos deste confim do Universo: o solstício afasta-nos do eixo da nossa mãe prima, e fende-nos a nos mesmos… pedindo mudança. A grandeza é o ponto mais alto do início da queda; todos o sabem: de Chandragupta aos Ptolomeus de grandes sonhos; de Péricles a Luís XVI e Churchill vitoriosos e traídos pela demos ingrata que até no despertar adormece.

Se a asserção do prudentíssimo Paulo é verdadeira: libertas inaestimabilis res est, então só é possível ser-se grande em qualquer coisa quando estimamos a liberdade do outro escolher o que pode e quer ser, inclusive o anseio de ser melhores do que nós somos — se é que chegamos para ser referência de seja o que for — ou poderemos um dia vir a ser. Mas se não somos capazes disso, deveríamos fazer das tripas coração, renunciar a tudo e ajudar o outro a ser melhor do que é ou pensa que é. Difícil, dirá. Prefere o caminho largo, sem pedras pontiagudas — das que lança das ameias do seu castelo de ética de plasticina — para afinar o talento gravado? Que seja! Esta é a maior das liberdades individuais: sermos o que somos e não o que podemos ser, sendo que podemos ser melhores do somos. O ser humano veio ao mundo para deixá-lo melhor do que o encontrou; e só o pode fazer sendo aquilo que pode ser: uma pessoa humana. O respeito pela liberdade do outro é uma forma de ouvirmos a voz de Deus — digo ao meu poeta.

Imagem: Frey Bartolomeu de las Casas

quinta-feira, 11 de março de 2010

| VOZES DE ATENTAR

Através do conhecimento acolho Deus dentro de mim; através do amor me adentro em Deus — Maister Eckhart.

Imagem: Fetus, Leonardo da Vinci

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

| IMPORTEMOS O ANTINEPOTISMO DO BRASIL

Quando era menino, estudando no Liceu Bedjo no Mindelo, um professor que tinha o mau hábito de beber cerveja na sala de aula enquanto comia uns pasteis de milho quentinhos, resolveu ensinar aos alunos uma regra que, na altura — assim como hoje —, me pareceu batota. E disse-nos que em situação de dúvida sobre a forma correcta de escrever uma palavra, deveríamos escrever das duas formas, e uma haveria de estar certa. O professor, ao fazer a correcção pensaria que o aluno redactor sabia escrever a palavra da forma correcta, somente se tinha enganado (um lapsus scribendi, diria hoje) na forma de escrever — sabia, pelo que a forma errada não poderia ser considerada erro. O professor corrigiria o erro, e o aluno ficava a saber como era a forma correcta. E não teria erro, a marca vermelha no caderno… esperteza mindelense, pois claro — dir-me-á. Mas será mesmo?

Cabo Verde, que copiou a solução brasileira para a extradição de cidadãos cabo-verdianos (com a lógica discriminatória de cidadãos nados e naturalizados) durante o processo de revisão da Constituição bem que poderia ter copiado, também, outras soluções, como, por exemplo, a do Salário Mínimo e a do acesso a cargos públicos como entendido pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil. Sobre este, deixo à consideração dos leitores de Terra-Longe a Súmula Vinculante nº.13 de 21 de Agosto de 2008 e do que dizem, e bem, os Ministros do STF (sobre a forma, parece-me ser desconforme com a lógica do Estado de Direito, mas isso é outra questão):

«A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica, investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança, ou, ainda, de função gratificada na Administração Pública direta e indireta, em qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição Federal.» Isto é, o Artº.37º. da Constituição Federal.

Copias selectivas, que dá jeito ao poder político e não povo? Se não é assim, parece. E, por vezes, o que parece é. E coisas há que parecem-se tanto com a realidade que não podem ser miragem mas realidade. Importemos, além das novelas, das sungas, do samba carnavalesco e a discriminação dos cidadãos pátrios as muitas coisas boas que o Brasil tem: importemos o Salário Mínimo, importemos o anti-nepotismo, já!

Para depois, para depois fica Deus. Um dia importaremos Deus, e poderemos dizer que Deus é cabo-verdiano. Teremos alegria a rodos, gás natural, ouro, petróleo, uma terra agrícola fértil e uma economia a crescer — como aconteceu com o Brasil: descobriu que Deus era brasileiro e deixou-o crescer, até ter idade para, agora, estar a trabalhar e a dar pão ao povo brasileiro e a outros que ainda não importaram Deus de algum lugar. Mas podemos começar, já, por agora, a importar o antinepotismo.

Andy Warhol — Still Life (polaroid exhibition)