domingo, 28 de junho de 2009

  • O MUNDO ENLOUQUECEU, OU ENLOUQUECEMOS O MUNDO?
O Real Madrid, o meu clube preferido em Espanha (com o sofrido e estoico Salamanca), depois de pagar 65 milhões euros ao Milão pelo brasileiro Kaká, decidiu contratrar o português Cristiano Ronaldo, por 94 milhões de euros ao Manchester United, (que passou a ser o meu clube preferido depois do Liverpool, com o endiabrado Ian Rush, ter dado 5-1 ao Benfica no antigo Estádio da Luz) e uma cláusula de rescisão de 1000 (mil) milhões de euros. Negócios assim são uma vergonha, uma ostensiva falta de pudor perante a miséria e a fome que grassa no Mundo.

E se gastássemos o dinheiro em pão, se víssemos que existem outras prioridades? É uma violência, uma violência incompreensível – mesmo para mim que sou um apaixonado pelo futebol. E, como dizia Barack Obama no seu discurso ao mundo islâmico no Egipto, violence is a dead end. Para lá caminhamos, sem remissão – mas com pecados. Poderíamos, de vez em quanto, ser polícias de nós mesmos, ascetas ou franciscanos em busca do melhor caminho para a alma.

O meu poeta, contou-me-me o seguinte:
«Lembro-me de, há alguns anos, zangado comigo mesmo (e para fazer uma pessoa momentaneamente feliz), ter cortado o cabelo para me lembrar que há coisas que não são verdadeiramente importantes – sermos tolerantes e capazes de prescindir do que nos é precioso é, também, um caminho. Por vezes, eu que sou benfiquista de primeira água, deixo de ver os jogos do meu clube para estar tranquilamente a meditar; o que me ajuda na luta diária de manter a minha alma paciente e tranquila. É uma questão de prioridades. E foi por uma questão de prioridades que não vi a final Campeonato do Mundo entre a França e o Brasil em 1998.

Estava em Paris, com um bilhete de futebol na carteira, da alma ansiosa para ir ver a final no Stade de France em Saint-Dennis, quando um amor de então me pediu para ficar com ela em casa – era Domingo, o seu dia de descanso e queria estar esse dia em casa, na minha companhia. Pareceu-me justo o seu pedido, e assim fiz. Não vi a final do Campeonato do Mundo… mas vi uma mulher feliz; e não há nada de mais precioso nesta vida que ver uma pessoa amada feliz. Nunca ficou a saber que eu tinha um bilhete para a final, pois se soubesse teria insistido para eu ir ver o jogo. As mulheres são assim, especialmente quando amam alguém. E se alguém é capaz de fazer um sacrifício por nós, porque não fazer o mesmo? Porque não pensar que a felicidade do outro é tão importante como (senão mais que) a nossa, que as pessoas – em particular as que nos amam – estão primeiro?

Sei, sei que não é fácil. Sei que é mais fácil dizer do que fazer, mas é possível. Pode começar por prescindir de uma coisa que gosta imenso, oferencendo-a a quem dela necessite, ou simplesmente agarrando um Omega, um Rolex ou um isqueiro Dupont de ouro e lança-o ao mar ou ao rio; pode convidar um mendingo para almoçar no melhor restaurante que puder pagar – dando-lhe o dinheiro para pagar a conta – e verá que se sentirá menos vaidoso e esse homem recuperará parte da sua auto-estima; entre num restaurante com um amigo, veja-o comer e beber o que quiser, acompanhe-o na bebida, mas não coma (fará bem à sua auto-disciplina) e pague a conta. Agarre a sua melhor camisa, a quela que gostar mais, lava-o, mande engomá-la e oferece-o a alguém que precise dela, de preferência alguém que possa ver a usá-la. Pode começar assim, e, um dia, se for suficientemente louco para ver os outros felizes, agarre em todo o seu dinheiro e dê-o a um desconhecido em necessidade.»

Ouvi o meu poeta, e disse-lhe o que te digo agora: o trágico disto tudo é que, fazendo de Advogado do Diabo, penso que o que o Real Madrid fez foi isso mesmo: agarrou numa fortuna e deu ao Milan e ao Manchester (paradoxalmente clubes com donos milionários), para fazer feliz os seus adeptos. É, ou o Mundo ficou louco, ou o enlouquecemos – diz o meu poeta. Ou então perdemos a noção do que é sermos humanos; como costumo dizer: temos homem mas não temos humanidade. O meu Mestre diz tanto sobre isso, mas não é escutado.

PS: Deverás estar a pensar (sei, Joshua, que o farás) porque coloquei uma foto do Rasputin aí, não é? Pois é… a história e o cérebro servem para alguma coisa.

Imagem: Grigory Rasputin, nas vésperas da Revolução (1916)

6 comentários:

Jonas disse...

Oh companheiro então tu queres convencer a malta que foi altruísmo escolher entre ir ver a Final ou ficar enrolado o dia todo com a moçoila?
O que eu vejo é uma win win situation...
Eh pá só espero que a tua prestação nesse dia não tenha estado ao nível da do Brasil...

rsrsrsrsrsrsrsssssss

Virgílio Brandão disse...

Oh Jonas! Eu, Jonas!? Eu não. O meu poeta, peixinho, e meu poeta... rsrsrsrs

Abraços peixinho

Amílcar Tavares disse...

Discordo completamente dessa demagógica e generalizada ideia baseada na pretensa "vergonhosa" dimensão desses investimentos.

Não passa de um negócio.

Aliás, o CR é um "pobrezinho" se olharmos para os lucros dos desportistas.

O Real Madrid e o Barcelona, por exemplo, têm fundações que apoiam milhares por todo o mundo.

Ganham muito mas dão algum e a mais não são obrigados.

Joshua disse...

Não sabes, não...porque fiquei presa a pensar no que estava eu a fazer nessa altura...e quando cheguei ao fim do teu blá blá blá nem me lembrava do Rasputin.
Mas já agora explica lá. Está visto que a tua história e o meu cérebro não combinam
:)

Virgílio Brandão disse...

Nem podem, Joshua. As minhas histórias e as do meu poeta são coisas diferentes. E isso é coisa que tu e o meu amigo peixinho Jonas ainda não perceberam...

Divide o cerébro: metade para o que digo, a outra para o meu poeta, para o que é e o que lhe contam . O seu blá,blá,blá..., como dizes. Talvez ajude.

Mas quem se lembra do que estava a fazer há 11 anos? Se te lembrares, é natural que esqueças o Rasputin.

:-)

Joshua disse...

Olha não sei o que te diga...o que não é bom sinal.