segunda-feira, 1 de junho de 2009

  • A MORTE DE LUIS CABRAL E A FESTA NÃO ESTRAGADA

Luís Cabral morreu, seguiu para a maior aventura. A última vez que o vi, visilmente debilitado, foi no Sana Hotel em Lisboa, por ocasião das comemorações da Mulher cabo-verdiana a 08 de Março. Trocamos algumas palavras de circunstâncias, e pensei – como pensamos sempre – que o voltaria rever mais tarde nesse dia ou em outra ocasião. Mas não, não aconteceu.

Luís Cabral, quer queiramos quer não, foi um dos heróis da libertação dos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde do jugo colonial. Não sanciono, nunca sancionei nem sancionarei a maioria das suas políticas como Presidente da Guiné-Bissau até ser deposto por Nino Vieria, pois a história é o que é e o homem é, como dizia José Ortega y Gasset, ele e a sua circustância. E pelo que fez por Cabo Verde e pela Nação cabo-verdiana é digno de honra e respeito eminente. É um pater partriae, sempre o vi assim – na vida e na morte, o que é um juízo objectivo. Mas nem todos vemos as coisas da mesma forma, o que aceito com normalidade – mesmo quando não me revejo nessas perspectivas. A morte de Luis Cabral colocou-me perante uma situação dessas.

Estava acidentalmente na Associação Cabo-verdiana (ACV) de Lisboa quando, eram 22:18 PM, recebi uma mensagem no telemóvel: Luis Cabral morreu. Os convivas tinham acabado de jantar, uma artista apresentava um novo trabalho discográfico e, muito cabo-verdianamente bebia-se e dançava-se. Dei a notícia ao Rui Machado, a presidir os destinos da ACV, esperando que transmitisse a notícia aos presentes – em particular aos cabo-verdianos e sócios presentes. Mas não, continuou tudo na mesma, como se nada tivesse acontecido.

Depois de muita insistência, um ou outro presente que entretanto foi tendo conhecimento do facto, lá se fez o anúncio da morte de Luis Cabral, eram quase uma hora da manhã. Confesso que fiquei chocado, não somente porque era de se fazer o anúncio no momento em que se teve conhecimento da notícia, até porque se estava na Associação Cabo-Verdiana, mas pela justificação que me deram para não ter sido feito na altura: o anúncio teria estragado a festa. Chocou-me esta forma de ver as coisas, este pragmatismo extremista de se colocar a festa acima da solidariedade, dos sentimentos, dos afectos, da gratidão… é mesmo coisa de terra sab p´cagâ!

Luis Cabral lutou, arriscando a sua vida, viu o irmão, Amilcar Cabral, morrer para que pudéssemos ter um Estado, festejar a independência e viver a liberdade, mas na sua morte não somos capazes de parar um minuto para anunciar a sua morte… pois estragaria a festa, o jantar de uma centena e meia dúzia de pessoas. Se calhar a decisão do Rui Machado foi a mais correcta, e eu é que estou enganado e estou a ser piegas… um nacionalista de meia tijela e que a festa é o mais importante, talvez. Sim, talvez… Mas o que sei é que, como aprendi como meu Mestre há alguns anos, "onde está o teu tesouro aí está o teu coração". E nestes momentos aprende-se muita coisa; e algumas não são assim tão óbvias.

A divida de gratidão que, como cabo-verdiano, tenho para com Amílcar Cabral, Luis Cabral, Nino Vieira, Aristides Pereira, Titina Silá, Pedro Pires, e todos os outros que lutaram pela minha liberdade e pela liberdade do meu povo é imensa, visceral e fraterna. Há coisas que não têm preço. E ver a sua memória não honrada, ainda que de forma simbólica, é, para mim, uma ofensa. Um aviso a Pedro Pires, Aristides Pereira e os demais heróis da luta da libertação vivos e pela democracia: quando morrerem (e que vivem muitos e longos anos!), não morram num dia de festa! Isso de estragar a festa alheia é do caraças! – diria o peixinho.

Imagem: Luis Cabral em 1974, aquando da luta da libertação na Guiné-Bissau

5 comentários:

Maria disse...

Partilho a sua indignação,Luis Cabral foi e será sempre um Homem determinante à nossa Historia e digo-lhe que DIARIAMENTE sou confrontada com situações supostamente banais mas que pertubam os meus valores mais puros de identidade.
Só um exemplo: no dia da Africa, a TCV resolveu fazer um voxpop pelo mercado da Sucupira, pelos stands de emigrantes da costa, perguntando se a maioria das pessoas que lá iam fazer compras são e cito "caboverdianos ou africanos"...
Juro que não percebo como ninguem repara neste tipo de falhas inomináveis, até nos pequenos pormenores quão facilmente nos esquecemos e perdemos das nossas origens...estiveram estes HOMENS E MULHERES a lutar pela LIBERDADE de um povo que pelos vistos nem se considera africano, e tendo passado a maior parte da minha adolescencia em São Vicente, digo-lhe que é uma situação recorrente e bastante banal...
Eu é que sou irreal e utópica dize-me uns...
Eu.
Estiveram os meus avós a fugir da PIDE, os meus tios na cadeia, o meu avó até hoje treme ao ver uma cancela por lhe lembrar as fronteiras,a minha avó ficou dias em casa por não poder andar nas ruas cheias de cadaveres...e eu é que sou irreal e utópica.
Bom, Obrigada pelo espaço onde pude fazer este longo (demasiado...) desabafo.
Sua Leitora
Sueli Duarte

Virgílio Brandão disse...

Sueli Duarte,
Entendo perfeitamente o que diz. Se eu fosse Director da TCV, levantaria um processo disciplinar a quem mandou fazer essa pergunta! Não om o objectivo de despedir a pessoa, pois cerca de 20% de desemprego já chega, mas sim para poder ter consciência da barbaridade da pergunta.

Mas é fácil de perceber: temos, como povo, estado a ser recolonizados em termos culturais, forma ostensiva – ainda que em algumas questãoes, como nessa questão, tal se faça de modo subliminar.

E sobre esta questão da ACV e a morte de Luis Cabral, estavam na sala 3 (três) Comendadores – se estavam mais passou-me desapercebido (poderiam estar, pois onde está um, em regra, estão quase todos…) – recentemente honrados pela Nação cabo-verdiana na pessoa do Presidente Pedro Pires. O problema, como vê, não é da somente da “arraia-miúda” arrastada pelo pragmatismo de se querer ser “branco”, “não negro” ou “europeu” mas bem mais profundo. Enfim… dá que pensar.

Sim, andaram muitos a morrer pela nossa liberdade… e não nos mostramos dignos desse sacrificio. É estranho, uma maldade da história Luis Cabral ser enterrado em Lisboa… Merecia mais do Estado de Cabo Verde, uma vez que, por razões de vária ordem não pode(rá) descansar na Guiné-Bissau! Nestas alturas vemos e entendemos muitas coisas, demasiadas! Possivelmente, não verei nem o Chefe de Estado nem o de Governo do meu país no funeral de Luís Cabral – o que não me surpreenderia.

Abraço fraterno
PS: Não é utópica, não! Continue assim, pois a maioria não é sinónimo de razão…

Amilcar Tavares disse...

Inacreditável. Enquanto dirigente associativo tive que engolir revoltado a comportamentos desses.

Subscrevo por completo a tua indignação!

Virgílio Brandão disse...

É Amílcar, são os nossos representantes na Diáspora, os nossos "Comendadores".

Soube que O Presidente Pedro Pires e o Presidente Aristides pereira deevrão estar no funeral.

Abraço fraterno

Anónimo disse...

...passa sabe! moré cá nada!...
O nosso povo é assim!