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domingo, 12 de setembro de 2010

  • A «BÍBLIA PARA TODOS» OU A MORTE DA BÍBLIA E A REDUÇÃO DE DEUS
A Bíblia é uma obra que não tenho entre a minha lista de livros preferidos, simplesmente porque é muito mais do que um livro. Faz-me falta, como os livros em geral, mas ela em particular! Assim, depois de ter lido oito versões das escrituras sagradas cristãs, tenho-me contentado, nos últimos anos, a revisitar uma tradução de João Ferreira de Almeida ou a ler uma passagem, diariamente, da King James no meu telemóvel. Não pensava, tão cedo, decidir ler o texto de uma ponta a outra — e de forma atenta. Mas não é que tive a notícia de que foi publicado uma nova tradução em português: «A Bíblia Para Todos»? Assim, lá me lancei, entusiasmado, a ler esta nova tradução da Bíblia.

Há muito que não tinha uma decepção literária tão grande, nem encontrava uma obra análoga com tantos erros. O primeiro erro aparece logo na primeira frase, com a introdução do advérbio «quando» que denuncia a natureza interpretativa — de compromisso ecuménico da moderna cristandade com outros grupos religiosos — e não meramente tradutora e de simplificação compreensiva da obra em si. Este advérbio vem truncar uma riquíssima dimensão interpretativa de Génesis I.1: «No princípio criou Deus os céus e a terra.» Parecerá coisa de pouca monta, mas não é! É uma questão de exegese; e no texto em causa a interpretação funde-se ao texto literal, retirando-lhe forma e substância interpretativa para quem entende, como eu, que houve dois momentos de criação da Terra no devir temporal que é descrito entre os versículos 1 e 2 do primeiro capítulo do livro de Génesis.

O texto, neste caso, passa a ter um outro sentido para o leitor; leitor que é, por si mesmo e segundo a natural liberdade de livre interpretação, um intérprete do texto que se lhe apresenta. O sentido interpretado passa, assim, a ser o texto a ser interpretado. O que tem e terá consequências sobejamente negativas na forma como se vê e se verá — o leitor mediano não deixará de o ver — a Criação em si e o homem pré-histórico a partir desta nova versão da Bíblia.

Como se não bastasse isso, Genésis I.3 (“E disse Deus: Haja luz; e houve luz.”) é traduzido na seguinte forma: “Então disse Deus: «Que exista a luz!» E a luz começou a existir.” Uma frase, a terceira do texto! e temos um livro — sagrado para muitos e memória dos antigos para outros (o que torna o ecumenismo, a partida, uma falácia bem intencionada) — com 2415 páginas assassinado. É a tradução «A Bíblia Para Todos»; para todos, menos para mim. Este é o segundo de quatro erros colossais que se descortinam logo no primeiro parágrafo do livro de Génesis desta nova tradução. E os erros acumulam-se nos parágrafos seguintes… e, note-se, só falo da página 17 de um livro com 2415 páginas. E já nem atento no aspecto formal do livro que, a um leitor comum e iniciante na leitura da Bíblia é passível de causar estranheza e confusão, pois assume uma disposição não tradicional dos livros.

Que ganhos se tem com isso? Nenhuns, a não ser para os estudiosos do Livro — que não serão os alvos primeiros da edição. Mas mesmo para estes, resulta estranho a disposição dos livros, mau grado a justificação constante da apresentação — que não tem um critério uniforme e, do meu ponto de vista, pouco convincente tendo em consideração os fins da obra em causa. Perceberei a lógica de igualdade aristotélica subjacente a tal critério, se fosse de aplicação universal, mas não! Só é aplicável às tradições religiosas diferentes, não ao cidadão… o destinatário primeiro da obra. Mas esta é uma outra dimensão da questão…

A primeira conclusão que tiro, desde já, é que esta tradução, ao querer simplificar, procede à uma subversão ontológica de Deus e retira o sentido teleológico da Criação do texto, impossibilitando qualquer cotejo lógico da ciência — no seu actual estádio — com o relato da Criação como facto histórico. O que é de gravidade extrema no plano teológico, pois enfraquece as posições de fé do cristianismo em frente da razão como ciência.

A ponte compreensiva entre as várias facções do cristianismo, e destas com o judaísmo, não deve ser feita com o corte da corda que une aquelas: com o sacrifício (i) de uma ideia de Deus omnipotente e (ii) de um Verbo divino criador como a Luz da existência (iii) com um plano para a pessoa humana no devir da história e da existência. Estes dois aspectos, sendo que o segundo não é compartilhado pelos outros povos e religiões do Livro (o judaísmo e o islamismo), são fundamentais para o cristianismo — tanto quanto a ressurreição. E esta tradução, «A Bíblia Para Todos», briga com estes valores fundamentais do pensamento e da ética cristãs; e vai para além do farol da razão que foi bandeira de Lutero e demais reformadores da Igreja — a liberdade de livre interpretação das escrituras (é necessariamente pleonástico). Mas esta livre interpretação é de ordem subjectiva, e não pode — seguindo a lógica do glosadores do Talmude ou dos comentadores da cristandade medieva — é integrar a interpretação no texto dando-lhe uma dimensão objectiva na forma, na compreensão literal da mesma, que é dimensão hermenêutica mais básica para o leitor comum.

Genésis I.3 (“E disse Deus: Haja luz; e houve luz.”), traduzido na forma: “Então disse Deus: «Que exista a luz!» E a luz começou a existir” consubstancia — assim como a questão do mal no sentido maniqueísta — uma redução da grandeza de Deus (o que, em última análise, é a negação de Deus como conceito) ao expurgar da divindade a luz. Assim como a autonomia do mal diminui a totalidade de El Eloha, o Deus criador, a emergência da luz no momento da Criação demanda a conclusão de que ela não existia antes. E o verbo divino, então, no sentido hermenêutico que emana do texto em causa, deixaria de ser a Luz do Mundo antes da criação deste, e Deus não poderia ser Luz (e até o argumento de que existe luz em sentido físico, ético e teológico não procederá nesta sede, naturalmente… pois nada é ou pode ser subtraído a Deus). O que, do ponto de vista do cristianismo, é um contra-senso. Uma heresia, dir-se-ia noutros tempos. E digo-a agora: é uma heresia! Uma interpretação herética do sentido das escrituras, que no plano do texto em si quer na globalidade das escrituras.

Esta tradução, se bem que legítima e com louváveis intenções, não constitui uma mais-valia para o cristianismo da actualidade e muito menos para os fins últimos do cristianismo, pelo contrario! A equivalência semântica não deve, nem pode, levar a alterações formais que alteram a substância do texto bíblico. Mas esta tradução, se bem que avisa que «procura preservar certos aspectos formais do texto original», vai longe demais: assassina o texto bíblico logo no início e, no plano teológico, apresenta um Deus menor ao leitor e uma terra inicialmente sem ordem, que não é a mesma coisa que vazia — o que tem um sentido hermenêutico — contrário às tradições cristãs.

Como se não bastassem o ateísmo e os tocadores de tambor da “morte” de Deus, agora temos um texto Bíblico que, além de matar o conceito tradicional de Deus, abre brechas insanáveis perante a ciência ao nos apresentar uma Terra criada “sem ordem”; o que é absurdo pois contraria a natureza em si e a história geológica do planeta. Parafraseando Salomão: «Há caminho que ao homem parecem direitos, mas cujos fins são caminhos da morte» (Provérbios XIV.12). Nada poderia ser tão assertivo como esta asserção do sábio Coélet.
---- Prima forma: Liberal on line.  

quinta-feira, 22 de julho de 2010

  • AS LIBELINHAS
A 18 de Dezembro de 2008 escrevia este post.

No outro dia falava com uma mui querida amiga sobre as libelinhas, as de Claúdio Augusto César. Hoje, lembrei-me deste post… é verdade: pode-se (deve-se!) semear outras coisas e o triunfo não deve ser do mal. Sim, tenho de concordar com Salomão, «o que estraga a vinha não são as raposas, são as raposinhas». Libelinhas, libelinhas… as libelinhas devem ser escutadas.

O mal é paciente; mas pode ser morto de fome, com arte.

Imagem: Jackson Pollock, sem título (c.1950)

sábado, 12 de junho de 2010

  • OS CAMINHOS DE DEUS E PEQUENAS DISSIDÊNCIAS
Decorria o ano de 1989/90 quando conheci um dos seres humanos mais belos e extraordinários que já se cruzaram na minha vida. Terá alcançado, certamente, toda e mais felicidade que uma pessoa humana merece. Ensinou-me uma coisa que então não apreendi de todo: as pessoas podem, por vezes sem querer, ser empecilhos para o desenvolvimento de outras. Foi um pensamento que demorei muito tempo a perceber o alcance, e ainda mais a compreender a essência. Demorou pouco mais de uma década, mas percebi e apreendi o sentido das suas palavras; não tinha a ver com processos de razão, de raciocínio, mas sim com a dimensão prática da vida.

Agora, ao escrever estas linhas, lembro-me de, em meados dos anos oitenta, ter lido um livro de Merlin Carothers chamado Louvor que Liberta, que me levou a ler um outro livro do mesmo autor – O Poder do Louvor. Neste o reverendo Carothers narra um facto que então me pareceu muito interessante: teve um acidente e partiu uma perna, ficando limitado na sua acção, uma vez que esteve acamado e não podia desenvolver com normalidade a sua acção. Mas, mesmo nessa situação, louvava a Deus por isso – o que, da perspectiva do pensamento do cristianismo prático que então abraçava (começava a seguir de perto o ensinamento de John Osteen, Kenneth Hagin, Oral Roberts, Benny Hinn, Kenneth Copeland…), me parecia um equívoco da percepção de Deus. Lia os seus livros com um sentido crítico, crivava os seus ensinamentos: «louvar a Deus, sim; mas não pelo mal que nos acontece» – pensava e dizia a mim mesmo.

Mas, dizia Merlin Carothers, que louvava a Deus – mesmo parecendo estranho a sua acção – em todas as circunstâncias. A realidade é que a sua limitação permitiu-lhe lançar mão de um projecto que adiava há muito, e acabou por fazê-lo durante o período de convalescença, com grandes benefícios pessoais e para a sua comunidade. O que pensava então – e continuo a pensar hoje – é que não deveria louvar Deus pelo mal que lhe aconteceu, mas sim pela misericórdia de o ter salvo de algo mais grave. Nisso residia, essencialmente e então, a minha discordância da sua doutrina de “louvar em todas as circunstâncias”.

Na verdade Deus tem sempre estranhas opções – diz-me o meu poeta. Eu digo que Deus tem caminhos rectos, e justos. Por vezes tem de conduzir-nos pelos atalhos das nossas opções, do exercício da nossa liberdade ou livre necessidade (perdoai-me Agostinho e Aquino, mas é mais esta conclusão de Espinosa que a outra), e colocar-nos na estrada certa. Daí a vox populi – nem sempre compreendida – de que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Sim, Deus faz com que tudo, mesmo o mal, acabe por contribuir para o bem dos que o amam – mesmo daqueles como eu que, por vezes, critica as suas opções, e que penso que deve(ria), tem de haver, uma media via – a essência do tomismo – nos seus planos para a criação.

É assim que hoje compreendo (de uma forma mais profunda do que quando ensinava o Evangelho) o sentido da parábola do filho pródigo, assim como entendo o que me diziam 1989/90: que as pessoas, por vezes, podem ser um empecilho ao nosso crescimento. Por vezes há que perder essas pessoas, deixá-las para trás – a vida, por vezes e naturalmente, encarrega-se disso – para se alcançar um novo horizonte, sem amarras. E isso digo eu que sou um calvinista mitigado (na verdade mais próximo da ortodoxia de Origenes e da heresia necessária de Valentino), no que concerne ao destino é claro; eu que penso que Deus tem o chicote do tempo nas mãos e, cedo ou tarde, leva-nos para onde quer e quando quer. Como dizia Aníbal Barack, «Vê-de como nada pode ser feito contra a vontade de Deus» . O africano teria lido a história de Jonas e atentado no destino de Ninive? Não creio, é muito improvável.

O que sei é que, por vezes – demasiadas vezes –, sinto-me como Jonas. É que não será o homem, por si mesmo, uma media via da essência ou o Φ, a divina proporção, de toda as coisas e seres existentes? Protágoras, se conhecesse David e Salomão, certamente que concordaria comigo… É nestas alturas, quando penso nisso e no mal que alimenta o Mundo, que atrevo-me a discordar de algumas premissas do pensamento do meu Mestre, mas sem nunca deixar de o Amar; afinal o amor é a essência de tudo, e é o vínculo do meu pensamento à humanidade e a Adonai. Mas a espada de talião me parece, por vezes, tão necessária, tão natural, tão de acordo com a natureza…

E sinto-me impelido a seguir o conselho de Helvius Pertinax e a usurpar o derradeiro grito de Cipião Nasica. Afinal, a vida é um vapor, uma dissidência da eternidade.

Imagem: Desenho do Coração, Lonardo da Vinci

quarta-feira, 5 de maio de 2010

  • O NOVO SITE DA EMBAIXADA DE CABO VERDE EM LISBOA E A ECONOMIA NACIONAL
A Embaixada de Cabo Verde em Lisboa tem um novo website. Até aí tudo bem, pois o anterior era um horror estético. Pelo que só se pode aplaudir um novo site, ainda que o mesmo não traga nada de novo ao nível das funcionalidades e seja, na sua concepção, uma cópia integral do site da rádio terra-longe; quem o viu on line sabe do que estou a falar.

Estética a parte, o que me leva a escrever este nota é uma outra razão, de substância e não de estética. Num país com o nível de desemprego e a estrutura económica de Cabo Verde, o normal não seria que a construção do site fosse adjudicada à uma empresa cabo-verdiana? A resposta é claramente sim. Mas então, porque foi contratada uma empresa portuguesa para o fazer? A Helcadesign pode ser a empresa mais competente do Mundo, mas será que não havia em Cabo Verde quem fosse capaz de fazer uma web page de extrema simplicidade técnica, em html e um scroll repetido? Enquanto não investirmos, ainda que em coisas pequenas, no país e na capacidade das nossas empresas e dos nossos cidadãos não iremos longe no desafio do desenvolvimento.

O que estraga a vinha, como bem dizia o sapientíssimo Salomão, não são as raposas, são as raposinhas. O exemplo do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura, que contratou uma empresa nacional, a Prime Consulting (e parto do princípio de que a empresa seja nacional e que se tenha feio o devido concurso público), para fazer o seu website é de seguir; e espero que o resultado seja melhor (já agora: podem começar por corrigir o nome do Ministério… é que faz diferença quando grafa o nome de tal instituição) e demonstrativo da capacidade técnica do made in cv.

Já agora: se há coisa que nunca percebi é porque os empresários cabo-verdianos na diáspora, assim como as associações de imigrantes e instituições análogas de cabo-verdianos, não recorrem a empresas nacionais para execução de trabalhos — como é o caso da construção de web sites e seu respectivo alojamento ou outras actividades comerciais em que o outsourcing é possível — que poderiam ajudar a economia nacional. Ainda temos muito caminhar na construção de uma sociedade de solidariedade, pois de morabeza temos muito; para com os tenentes Serra e quejandos. Por vezes ocorre-me que a morabeza — assim como a cachupa (!?) que se come em Lisboa — nasceu do casamento entre a vontade de agradar o colonizador e o verdadeiro wit e boa vontade do povo cabo-verdiano. Ocorre-me, e nunca o tinha dito…
--- Imagem: Chema Madoz

sábado, 17 de abril de 2010


  • PALAVRAS DE SABEDORIA Y MORAL D’HISTÓRIA
    Cum sapiente loquens, perpaucis utere verbis — Hay que usar pocas palabras se hablas con un sabio; Kond bo falá k’um sábio, k’bo usá tcheu palavra; Use few words when speaking to a wise man; Quando falares com um sábio, usa poucas palavras. Um brocardo antigue y ke hoj poke gent t’dá atensão...

       Kond um’era menine, tinha um cosa que k’nôs tud tava aprendé n’Escola: «moral da história?» — prufessor tava perguntá. N’kel temp nô tá aprendê a pensá y a sinti desd ced razão d’ser de tud; o que menine d’agora ê um xenopensamento. Neste kaso, desde brocardo, moral d’história ê o ke Salomão t’dzê: «ne tcheu palavra tem transgresom», i.e., presensa d’um sábio ê meio kamim p’um moment de vergonha. P’kem tel, p’kem t’sentil...

Imagem: Ivan Tsarevich Cavalgando o Lobo Branco, Viktor Mikailovich Vasnetsov (1889)