Mostrar mensagens com a etiqueta silêncio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta silêncio. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

  • CONTENTMENT
Depois de três anos investigação, leituras e releituras, contraposições de fontes, ars combinatoria e depuração de ideias, e de trabalho nocturno, tinha um projecto a definhar; pelo que decidi consumir o meu tempo disponível nos últimos dois meses a terminá-lo. Missão cumprida – diz o meu poeta. Acho que deveria ir mais além, ser mais arrojado; pormenorizado. Mas aí teria mais um ano a consumir o meu tempo livre, e para isso há outras coisas a fazer. As notas extravagantes ficam para outra altura, para outro momento pois o Mundo pulsa e o deserto, o deserto não pára de crescer.

Os leitores de terra-longe terão notado a minha ausência, mas a causa era necessária. Eremitei em parte, e isso é bom para a alma, para a disciplina interior: não fazer o que se quer e quando se quer mas o que deve ser. Sinto, neste momento particular, aquilo que os anglo-saxónicos (ainda existem?) chamam de Contentment.

Imagem: Salvador Dali, O Nascimento de um Novo Mundo (1942)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

  • A MORTE DE LUIS CABRAL E A FESTA NÃO ESTRAGADA

Luís Cabral morreu, seguiu para a maior aventura. A última vez que o vi, visilmente debilitado, foi no Sana Hotel em Lisboa, por ocasião das comemorações da Mulher cabo-verdiana a 08 de Março. Trocamos algumas palavras de circunstâncias, e pensei – como pensamos sempre – que o voltaria rever mais tarde nesse dia ou em outra ocasião. Mas não, não aconteceu.

Luís Cabral, quer queiramos quer não, foi um dos heróis da libertação dos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde do jugo colonial. Não sanciono, nunca sancionei nem sancionarei a maioria das suas políticas como Presidente da Guiné-Bissau até ser deposto por Nino Vieria, pois a história é o que é e o homem é, como dizia José Ortega y Gasset, ele e a sua circustância. E pelo que fez por Cabo Verde e pela Nação cabo-verdiana é digno de honra e respeito eminente. É um pater partriae, sempre o vi assim – na vida e na morte, o que é um juízo objectivo. Mas nem todos vemos as coisas da mesma forma, o que aceito com normalidade – mesmo quando não me revejo nessas perspectivas. A morte de Luis Cabral colocou-me perante uma situação dessas.

Estava acidentalmente na Associação Cabo-verdiana (ACV) de Lisboa quando, eram 22:18 PM, recebi uma mensagem no telemóvel: Luis Cabral morreu. Os convivas tinham acabado de jantar, uma artista apresentava um novo trabalho discográfico e, muito cabo-verdianamente bebia-se e dançava-se. Dei a notícia ao Rui Machado, a presidir os destinos da ACV, esperando que transmitisse a notícia aos presentes – em particular aos cabo-verdianos e sócios presentes. Mas não, continuou tudo na mesma, como se nada tivesse acontecido.

Depois de muita insistência, um ou outro presente que entretanto foi tendo conhecimento do facto, lá se fez o anúncio da morte de Luis Cabral, eram quase uma hora da manhã. Confesso que fiquei chocado, não somente porque era de se fazer o anúncio no momento em que se teve conhecimento da notícia, até porque se estava na Associação Cabo-Verdiana, mas pela justificação que me deram para não ter sido feito na altura: o anúncio teria estragado a festa. Chocou-me esta forma de ver as coisas, este pragmatismo extremista de se colocar a festa acima da solidariedade, dos sentimentos, dos afectos, da gratidão… é mesmo coisa de terra sab p´cagâ!

Luis Cabral lutou, arriscando a sua vida, viu o irmão, Amilcar Cabral, morrer para que pudéssemos ter um Estado, festejar a independência e viver a liberdade, mas na sua morte não somos capazes de parar um minuto para anunciar a sua morte… pois estragaria a festa, o jantar de uma centena e meia dúzia de pessoas. Se calhar a decisão do Rui Machado foi a mais correcta, e eu é que estou enganado e estou a ser piegas… um nacionalista de meia tijela e que a festa é o mais importante, talvez. Sim, talvez… Mas o que sei é que, como aprendi como meu Mestre há alguns anos, "onde está o teu tesouro aí está o teu coração". E nestes momentos aprende-se muita coisa; e algumas não são assim tão óbvias.

A divida de gratidão que, como cabo-verdiano, tenho para com Amílcar Cabral, Luis Cabral, Nino Vieira, Aristides Pereira, Titina Silá, Pedro Pires, e todos os outros que lutaram pela minha liberdade e pela liberdade do meu povo é imensa, visceral e fraterna. Há coisas que não têm preço. E ver a sua memória não honrada, ainda que de forma simbólica, é, para mim, uma ofensa. Um aviso a Pedro Pires, Aristides Pereira e os demais heróis da luta da libertação vivos e pela democracia: quando morrerem (e que vivem muitos e longos anos!), não morram num dia de festa! Isso de estragar a festa alheia é do caraças! – diria o peixinho.

Imagem: Luis Cabral em 1974, aquando da luta da libertação na Guiné-Bissau

quinta-feira, 25 de setembro de 2008