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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

«A sua atitude deve ser a de um herói sem medo, mas o coração deve ser como o de uma criança: cheio de amor». in Regras de Soyen Shaku

Imagem: Manuela Arcuri
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1) Quando eu era criança, diz a mãe, depois de ser amamentado pouco mais de um ano, passei a amamentar-me numa outra mulher que tinha acabado de dar a Luz. Assim, mamei durante dois anos e isso deve ter-me feito algum bem; acho.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

  • A JUVENTUDE POLÍTICA DA TERRA DO RISO

    Quem me conhece, ainda que an passant, sabe que não sou puritano e que defendo a o direito à asneira e coisas análogas: a natureza não deve ser renegada. Agora, há coisas que não cabem em determinados lugares.

    E digo isso a propósito do que tenho visto e lido no site da Juventude do MPD: uma rubrica com piadas, e piadas de mau gosto! Depois de uma piada preconceituosa sobre judeus, segue-se uma piada sobre «caipiras» e outro sobre «cornos». Se a ideia é demonstrar o wit cabo-verdiano (que no Mindelo é um monumento vivo na alma das suas gentes) ou fazer o mesmo que a JPAICV tal resulta falha de sentido, um non sense pois não é o local não é indicado para esse tipo de humor que se promove.

    As piadas têm um destaque na página que não tem (nem teve) a Manifestação contra os despautérios contínuos da ELECTRA. Isso quer dizer, M.I. Miguel Monteiro, que se fosse Primeiro Ministro – como dizia no outro dia ao jornal Expresso da Ilhas –
    o país também arranjaria um Ministro para o humor? O Nuias da Silva e a sua equipa parecem seguir um outro tipo de humor. Será benefício do poder?

    O que tem piada mesmo – no plano politico (a JPD não reparou nisso?) – é o Primeiro Ministro de Cabo Verde estar na Convenção do Partido Socialista Português (José Sócrates depois irá ao do PAICV, apoiar José Maria Neves e/ou seu anunciado e previsível Delfim – com faz com José Luiz Zapatero) e isso ser perceptível por ostensivo, mas ter passado despercebido o facto das comemorações da Independência terem sido no Seixal… e não na Amadora, onde um compatriota nosso, Francisco Pereira, se candidata à Presidência do Município. Isso, sim… tem piada. Aliás, a gestão de todo o país é uma piada pegada! O que nos deixa verdes, mas verdes de riso; e cuidado: riso demais mata! E, como as doninhas do «Quem Tramou Roger Rabbit?» lembram (e lembro isso por causa dos monumentos da Jessica – que é coisa que também acaba), pode-se morrer de riso.

    Imagem: Miguel Monteiro, Lider da JMPD durante a desistência de Jorge Santos da liderança do partido (A Semana)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

  • RICH POLITICIANS AND WE, THE POOR PEOPLE

Europe wants to be an example for the World — everyone says. But to want and to be are different things, as the nature of things and reality shows every day, as now. EU commissioners 'take home more than €1m on leaving office' – says the Parliament Magazine on line. Read it! It's about you and you taxes, your vote, your life, the people you trust the public affairs, our fair Europe.

After this, read State and Utopia of Robert Nozick. We must understand those guys, the politicians, after all, we are The People, aren't we? But, will the Europeans, do what Sarah Gaskell thinks? That: "Taxpayers around Europe, whose pensions have been swallowed up in the recession, will rightly question why they are footing such an enormous bill for a handful of remote officials who they never voted for in the first place." I do not think so, for europeans like democracy, because it is safe, and allows them to live without the responsibility of thinking and the engagement on the decision making process: to vote is enough, and the politicians – the parties, I mean! – knows it. They know it and use it.

So, my brother european, when you asked me about the cleptocracy in Africa... I will show you a mirror – like Dorian Gray’s. It's politics public service or just a way of getting rich faster on people’s money? The answer, on the ground of ethics, é clear as fountain water. And comparing what can be compared, Sarah Gaskell says that "It is a topsy-turvy world when an unelected EU official is earning the same wage as the democratically elected president of the United States". And this is democracy! And I remember Adolfo Bioy Casares’ words: «No creo indispensable tomar un sueño por realidad, ni la realidad por locura.» Yes! The crisis… are just for the people, the poor people!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

  • A QUINTA-ESSÊNCIA
Não se fumava, nem havia crioulas no tempo de Aristóteles… infelizmente. Pois se se fumasse, certamente que a sua teoria do lugar natural teria outra formulação e a quinta-essência seria algo mais: palpar-se-ia nos extractos do mel vulcánico. Na Galileia não havia – que se saiba – crioulas; felizmente. É que, segundo a natureza das coisas, o filho de José e de Maria nunca teria sido o Messias se por lá andassem — afirma o meu poeta.
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Imagem: Lily Spencer

domingo, 23 de agosto de 2009

  • HILLARY CLINTON E 35 RAZÕES DA BOA (NÃO) GOVERNAÇÃO DE JOSÉ MARIA NEVES
Facto: os elogios da Secretária de Estado norte-americana à «boa governação» cabo-verdiana tiveram o condão de elevar o Governo de José Maria Neves em exemplo para África, e de «calar» uma oposição quase acéfala. Foi, no plano político, uma verba eucalyptus panglossiana de uma inesperada fada madrinha. Três coisas que me espantaram, espantam!, e que provam que ainda – mau grado termos lutado contra o imperialismo e o colonialismo – temos mentalidade de colonizados, humildade cristã espremida (na perspectiva de Nietzsche) e ambição pequena, demasiado pequena para as ambições e necessidades reais do povo cabo-verdiano.

Mas em que contexto é que se dá esse «elogio da boa governação» (lembra-me Erasmo de Roterdão e a sua obra dedicada a Thomas Morus, Ministro de Henrique VIII), e em que se baseia Hillary Clinton para dizer o que disse? Ela mesma o diz: pelo que ouviu! Não foi pelo que viu (ou ouviu do povo), mas sim pelo que ouviu: dos relatórios e do que foi dito e contado pelos políticos numa lógica de comparação com o pior que África revela. Quem fica contente com esta perspectiva, não me parece merecedor de governar Cabo Verde – seja este Governo, seja a oposição! A nossa terra e o nosso povo merecem – já o disse antes e reitero-o agora – outro padrão comparativo: o dos países desenvolvidos!

Boa governação em Cabo Verde? Sim, se comparado com o Zimbabué e a República Democrática do Congo! Transparência na governação e não corrupção? Sim, se comparados com o Quénia, o Zaire, o Gabão ou a Guiné Equatorial! Não violação dos Direitos humanos? Sim, se compararmos a nossa realidade com a do Continente africano cleptocrata e corrupta no global – mas o mal dos outros não justifica os nossos males! O termos mais mulheres que homens num Governo é razão para elogio? Não! A não ser na lógica feminista (e Hillary Clinton não escapa à esta armadilha ideológica), pois o que o partido que formou Governo fez foi chamar para o Executivo as pessoas – não o género – que pensou e pensa serem as mais competentes.

O Irão de Khameney e Amenidejade irá ter, dentro de dias, mais mulheres no Governo que muitos países ditos democratas (na Europa, v.g., foi preciso haver leis de quotas para haver mais mulheres na política). Isso torna(rá) o Irão um país democrata ou respeitador dos direitos humanos e das mulheres em particular? É claro que não – a não ser com vício silogístico; pelo que devemos ter cuidado com as inferências que retiramos do discurso político, venha de onde vier – ser do país mais poderoso do Mundo não quer dizer que se seja do «mundo das ideias» ou da razão plenipotenciária. As mulheres continuam a ser as maiores vítimas da discriminação social e da violência em Cabo Verde: dos empregos precários e escandalosamente mal pagos, passando pela violência doméstica e moral, o assédio moral, a discriminação de género na escola por engravidarem… (que o governo não faz nada, a não ser dizer que vai «estudar a questão») and so on!

É tempo, mais do que tempo, de deixarmos de confundir a nuvem com Juno! E, é bom que seja dito: a América não é uma democracia, como bem diz Noan Chomsky (e não fala propriamente da fraude eleitoral que determinou a derrota de Al Gore, nem da ilegitimidade da pena de morte – que é incompatível com a ideia de democracia – ou da venda de lugares políticos, não; fala de algo bem mais profundo, do que é denominado por Robert Dahl como Poliarquia), mas sim uma mera ilusão de democracia. Os políticos fazem com o povo algo análogo ao que Baudelaire diz sobre o Diabo: «a maior arma do Diabo é convencer as pessoas de que não existe»; assim, a maior arma dos políticos é convencer as pessoas que vivem numa democracia. A percepção de Alexis de Tocqueville (A Democracia na América) é, ainda hoje, um instrumento importante para percebermos a dimensão da «democracia» americana.

Temos uma Constituição de matriz ocidental – e a assunção dos respectivos valores – mas continuamos a comparar o projecto social da mesma com os padrões políticos do subdesenvolvimento de África! Como não posso pensar que os políticos não entendem a Constituição e os seus valores, tenho de chegar à outra conclusão para este facto: é uma lógica de desculpabilização da inépcia política que nós, os cidadãos-povo, não podemos nem devemos aceitar! Eu, como cidadão, exijo do Governo do meu país que cumpra com tudo o que a Constituição consagra, que realize o mandado do projecto social constitucional; não aceito, recuso-me a aceitar desculpas políticas com base em comparações espúrias e contra a matriz social (e cultural, pois a Constituição e a Democracia são, essencialmente valor e cultura) que preconizamos como Povo, Nação e Estado.

Mas o que é isso da «boa governação»? Será, certamente, a «escolha certa» consabida pelos cientistas políticos, mas tenho as minhas dúvidas de que seja aquilo que é vendido ao povo cabo-verdiano como facto consumado – com base em números e ouvir dizer – em dadas circunstâncias, como a visita da Secretaria de Estado Hillary Clinton. A realidade de uma boa governação não se casa com os números, mas com a satisfação das necessidades dos governados; os números só são relevantes quando expressam a verdade da realidade.

É por isso que o Primeiro Ministro José Maria Neves não se deve deixar «emprenhar pelos ouvidos» – como diz o povo, mas atentar na realidade (e esta não se engana) real e perguntar a si mesmo se é bem governado um país onde:

(1) não se consegue ter água para todos; (2) luz para suprir necessidades básicas (com a kapital da Nação cronicamente às escuras – e um Governo que já se revelou manifestamente incapaz de resolver o problema da ELECTRA); (3) em que a Ministra das Finanças vem a público reconhecer um erro notório na política fiscal – e que não é nada mais do que a ponta do iceberg fiscal; (4) em que a segurança dos cidadãos não é efectivamente garantida pelas forças de segurança; (5) em que o Supremo Tribunal de Justiça leva mais de dois anos a julgar um recurso de apelação no âmbito do poder paternal (ignorando, de forma ostensiva os direitos fundamentais de uma menor); (6) em que o Governo está há dez anos para instalar os serviços do Defensor do Povo (Provedor de Justiça) e o Tribunal Constitucional; (7) em que as leis – como foi o caso do Código Eleitoral – e a Constituição são reformadas numa espécie de cúpula e na surdina; (8) em que Governo é refém de um sistema de aprovação de leis fiscais absurdo; em que (9) que não existe um ordenado mínimo nacional – deixando os cidadãos mais desfavorecidos à mercê de empresários inescrupulosos;

(10) em que o ensino superior se torna elitista por se estar a tornar um sistema de formação privada em que os discentes pagam propinas mensais superiores a remuneração auferida pela maioria dos cidadãos trabalhadores (daí ser um negócio em que muitos se aventuram): (11) em que os deputados acumulam funções electivas e remuneradas e outras no Estado e/ou empresas públicas; (12) em que funcionários públicos acumulam funções e remunerações enquanto o (13) país tem uma taxa de desemprego a rondar os 20%; (14) em que a juventude se vê obrigada a emigrar, desertificando assim o solo pátrio; (15) em que alguns querem empurrar os «pobres» para a formação profissional (que é, em verdade, quase inexistente no país e é uma das falhas estruturais de Cabo Verde) para depois serem consumidos por terra-longe – daí os acordos com países europeus para «trabalhadores qualificados»; (16) em que a desigualdade social cresce a olhos vistos – com o consequente crescimento da criminalidade e de outras formas de comportamentos desviantes (ao contrário do que diz a Ministra da Justiça, não é o desenvolvimento que provoca o aumento da criminalidade: é o subdesenvolvimento, a pobreza, a guetização e a discriminação social que o faz!); (17) em que não existe um politica de retorno dos quadros formados no exterior (será por se pensar, mesmo, que cabo Verde tem «doutores a mais»?) e que promove algumas fragilidades; (18) em que o sistema de Saúde precisa de urgente requalificação, com custos insustentáveis para o Estado (ter cuidados de saúde é, para muitos, um luxo: quem tem dinheiro tem Lisboa, Boston ou Bruxelas); (19) em que a TACV se encontra em quase falência técnica, quando deveria dar lucro;

(20) em que não existe um plano de emergência em caso de alguma catástrofe natural; (21) com algumas ilhas, em termos de acessos ao resto do país e ao Mundo a mesma distância de Marte; (22) em que o Orçamento do Estado é, em grande parte, financiado por empréstimos bancários externos – como as consequências futuras que tal endividamento público terá no futuro da frágil economia nacional; (23) em que a Administração fiscal não controla as constas dos partidos políticos e dos detentores dos cargos públicos; (24) em que o Governo não consegue conter o tráfico de estupefacientes e de pessoas no arquipélago – chegando a Ministra da Justiça ao cúmulo de ter um discurso de quase capitulação perante o aumento do crime; (25) em que o tribunais reclamam independência do poder politico e os políticos reconhecem a necessidade (26) de haver um poder judicial independente e com um Governo incapaz de encontrar soluções adequadas para essa realidade; (27) com os pobres a reclamar trabalho, pão e justiça – recebendo migalhas e musicais de verão, como se fossem lídios e não cabo-verdianos; (28) em que o lixo ameaça afogar a pouca terra que temos; (29) em que o ambiente, enquanto direito fundamental dos cidadãos, é desconsiderado por ausência de politicas sustentáveis;

(30) com um Ministério da Cultura que não cura das raízes da nação, e um Governo que não consegue instituir a língua materna como língua nacional por manifesta falta de coragem política (censura que é, também extensível à oposição; (31) em que se admite a possibilidade – que os americanos rejeitaram liminarmente – de poder-se extraditar cidadãos nacionais para serem julgados no estrangeiros ou entrega-los ao Tribunal Penal Internacional, porque o Governo apresenta uma proposta de Lei no sentido de resolver-se estas questões sem ser por via da revisão da Constituição; (32) em que o Governo assume responsabilidades internacionais, nomeadamente o Tratado da Extradição da CPLP, que o obriga a rever Constituição e brigar com esta e os direitos, liberdades e garantias dos cabo-verdianos; (33) em que a Comissão de Direitos Humanos e Cidadania é uma instituição materialmente tutelada pelo Estado; (34) em que a exteriorização de riqueza dos titulares de cargos públicos e de cidadãos com modo de vida não conhecido não é devidamente escrutinado; (35) em que a Imprensa é tudo menos livre e isenta, pois nada mais são do que caixas de ressonância dos interesses do poder instituído e/ou da oposição, e não dos interesses do povo e da nação.

Perante estas realidades (e mais há e haveria para dizer), parece que o que precisávamos era de um Emile Zola para um renovado J´Acuse social. Mas, verdade seja dita, há gente de boa vontade no Governo e na oposição que contribuem e contribuíram para que o país se tornasse um projecto político e social viável. A consolidação da independência nacional foi conseguida, em parte, nos últimos anos; mas nota-se, hoje por hoje, uma tentativa de retrocesso ao nível da independência económica, de projecto social democrático e do discurso político (paradoxalmente entre os parlamentares, os representantes do povo).

Existem aspectos positivos, sim; é verdade que os há. E felizmente que os há! Há que dizer, no entanto, que o facto do Governo (i) não ter o suporte parlamentar de uma maioria qualificada, como os dois primeiros governos depois de 1991 tiveram; (ii) de haver a convergência com o Euro (logo, uma limitação no plano da política monetária); (iii) e uma limitação da acção governativa no plano fiscal (que limita as políticas financeiras do Governo), além (iv) as limitações ex natura da estrutura económica e insular do país e a que acresce (v) a crise económica internacional e que tornam a acção governativa particularmente penosa sem, no entanto, serem situações ou razões desculpantes para a maioria dos males que o país sofre. É que o povo de Cabo Verde não quer uma política de sobrevivência, quer e ambiciona mais: uma política de desenvolvimento real, efectivo e sem ter de hipotecar os valores fundamentais que abraçou ao se tornar num Estado de democracia pluripartidária.

«O Presidente Obama e eu dizemos: sim, é possível, a boa governação em África. Olhem para Cabo Verde» – Hillary Clinton dixit. Isto é, no meio disso tudo que enumeramos, uma coisa resulta clara e espantosa para os americanos: não seremos, neste aspecto da boa governação, um exemplo somente para África mas para todo o Mundo: a nossa bolsa de valores não sente a crise internacional e, mais do que tudo, a nossa economia é blindada e anti-crise. Hillary Clinton levou a receita na bagagem, e o Luminoso Obama poderá, agora, fazer jus ao seu nome. Quem sabe, lá mais para a frente, não venhamos a ter um Nobel crioulo: o inventor da receita para vencer a recessão económica Mundial e a crise do capitalismo selvagem.

Mas, ironia a parte, o que foi dito é uma prova pleníssima de que a boa governação não é assim tão boa como se diz e se apregoa! Esta «boa governação», bem vendida e comprada por Hillary Clinton e o Luminoso Obama (o que exige ciência, diga-se an passant), faz-me lembrar o que Kant disse quando, em Konisberg, foi informado das atrocidades que se cometiam em França depois da revolução: «é o homem a aprender a viver em liberdade». O que não é, de todo, um elogio à percepção dos nossos parceiros e amigos americanos da realidade; não somente de Cabo Verde, mas de África em geral.

Agora, como disse em outra ocasião e aqui neste mesmo espaço, uma coisa resulta certa: governar um país com as fragilidades económicas e sociais de Cabo Verde é um exercício contínuo de milagre(s); e se queremos almejar a um Mundo Novo – admirável ou não – temos que o construir com transparência e verdade, pois esta liberta e aquela credibiliza. É com elas que se pode construir, como diz o Primeiro Ministro José Maria Neves, uma África nova, optimista e positiva. Por isso é que as instituições devem funcionar!

E, em Cabo Verde, as instituições funcionam? – perguntar-me-á. É, de todo, uma pergunta retórica, pois (i) A crise endémica na Justiça, (ii) a crise social: desemprego, criminalidade, pobreza, (iii) a falência da Assembleia Nacional (que delegou numa Comissão político-partidária a sua função mais nobre: rever a Constituição) em encontrar uma solução de revisão da Constituição, (iv) o não funcionamento do Provedor de Justiça e do Tribunal Constitucional, com funções estruturantes no Estado de Direito cabo-verdiano.
--- Publicado inicialmente em Liberal on line

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

¿Qué loco sembrador anda en la noche, aventando luceros que no han de germinar nunca en la tierra? Dulce Maria Loynaz, CXXII
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AS MASCARAS DA MORABEZA CABO-VERDIANA E SUBTILEZAS: «O AL BINDA QUE MORRA!»

A propósito de um ser que recusa a sê-lo e que se auto-baptizou como Al Binda, pergunto a mim mesmo: como é que pessoas inteligentes conseguem o milagre de confundir a nuvem com Juno? Ausência de colírio de razão, falência de percepção, a seu tempo descortinável – quando a chuva cair. Esse Al Binda incomoda muita gente, lá isso faz – a maioria das vezes sem razão de ciência ou qualquer outra, mas incomoda; como verifiquei ao ler uma notícia sobre Abílio Duarte no A Semana on line.

Li no diário on line, um comentário de «Jorge Alberto» (um renomado e respeitado político da terra que usa este e outros nomes como máscaras para fazer desabafos políticos que não pode [!?] fazer com nome próprio – o que até compreendo; em parte…) a dizer ipsis verbis:

«Mas já não se compreende tanta monstruosidade vinda de gente portadora de uma certa cultura, mas que, a coberto de pseudómino, aproveitam para se armarem em ignorantes para conspurcar a cidadania de todos aqueles que não leram pelas suas cartilhas. É o caso do Al Binda que, uma vez desmascarado, passou a utilizar o pseudónino de Underdoglas, para continuar a passar por ignorante, e poder dizer asneiras por má-fé, quando se trata de alguém que, basta que se saiba quem ele é, para ser desmascarado como um homem culto e conhecido por muita gente da sua geração. Só não divulgo neste fórum quem é esse tal de Al Binda ou Underdoglas, porque não me compete fazer isso, visto seria um desrespeito pela privacidade dos outros. Só que a continuar assim e se a pessoa não respeita aos outros, poderá também um dia desses não merecer o nosso respeito!»

Ora, quem não respeita os outros não merece ser respeitado (e sei que o Jorge Alberto, nem que seja por razões de formação e ideológica, leu Kant e conhece os imperativos morais deste), pelo que revelar a verdade e desmascarar um sepulcro caiado e mascarado não é violação de nenhum dever. Violação de um dever moral é saber quem é que ofende, ameaça e vilipendia cidadãos que dão a cara, que não se escondem nos vãos de qualquer coisa ou raios que o parte, e muito menos em discursos velados. Mas cada um é como é, e cada um vê o que é capaz e chega para ver; nem sempre «somos a medida de todas coisas», como diria Protágoras. Nossa S´nhora d´riôla rogai por nós! Coisas da natureza – dir-me-á o meu poeta.

Sei que o Jorge Alberto, também, não gostaria que se soubesse quem ele é – naturalmente. E o Al Binda, estou certo, se soubesse quem é o Jorge Alberto há muito que o teria gritado aos quatro ventos, em particular ao zéfiro do Leste antes de uma chuva serôdia. Há cerca de um mês escrevi uma Carta Aberta a um amigo – que, por acaso, é um amigo próximo do Jorge Alberto (esse andou a veicular, acintosamente, que eu era o Al Binda) –, e, como é do meu timbre, disse-lhe o que tinha a dizer e informei-o de que iria publicar a dita carta (pois é justo que as pessoas que convivem connosco saibam por nossa voz o que dizemos e pensamos delas). Pediu-me encarecidamente para não o fazer, e acedi ao seu pedido: as minhas razões eram e são menores que os prejuízos que lhe poderia causar. O que o «Jorge Alberto» não sabe, e agora fica a saber, é que, um dia destes, terá de dizer quem é o Al Binda – num tribunal qualquer. E terá de o fazer não como «Jorge Alberto» mas com o seu nome de baptismo; coisa que, certamente, não quererá nem desejará.

Por isso, ó M.I. «Jorge Alberto», fica aqui, sem subtilezas, um desafio ao cidadão responsável que é: diga quem é o Al Binda! E se achar que sou eu (já, noutra ocasião, perguntou a um amigo comum se eu era um outro mascarado – hoje percebo porquê, pois não entendia, até há pouco tempo, essa cultura de mascrinha e os seus objectivos); diga-o! Eu, da minha parte, prometo que não revelarei a sua identidade real – de forma directa ou indirecta – e apelo a quem o saiba para, do mesmo modo, não o fazer. Agora, esta forma de fazer política no anonimato não me parece coisa muita digna – como me disse em determinada ocasião, Cícero primava pela frontalidade; e quem é político deve, tem o dever de o fazer a todo o momento.

Cícero, ó «Jorge Alberto», se vivesse hoje faria o mesmo a Catilina, não usaria o pseudónimo, não! Afinal, se fosse o Almada Negreiros – o que era merecido mesmo era um «Manifesto Anti Dantas» a esse Al Binda; sendo certo que não me parece ser merecedor de tanto. Ratos, «Jorge Alberto», matam-se com DDT (já agora, use um pouco para si mesmo, suicide essa mascara e ressuscite para a luz do dia – para a arena da política «transparente»).

E essa profilaxia social, ó «Jorge Alberto», é feita, deve ser feita, de forma adequada e com verdade por toda a sociedade, por todos nós – uns com mais responsabilidades do que outros; e no seu caso tem responsabilidades acrescidas. Pois de outro modo, tenho de fazer-lhe a mesma pergunta que o Mário Matos fez, bem, no A Semana on line: «Dondê sociedade civil?» (deve perguntar ao Primeiro Ministro e líder do PAICV, pois não foi ele que disse – a propósito da visita de Hillary Clinton a Cabo Verde – que temos uma sociedade civil forte? Ah!, cogito: será que o Mário Matos começa a discordar do líder antes do tempo programado?). Não queira, ó «Jorge Alberto», ser um desaparecido ou naufrago social, parte de «uma geração representada por um Dantas» – como dizia Almada Negreiros. Assim, o Dantas, id est, o Al Binda «que morra». Pim!

É responsabilidade sua, a de «matar» o Al Binda e ressuscitá-lo para a luz do dia (se não o fizer é, moralmente, responsável pelas ofensas e afrontas que o mesmo venha a perpetrar contra os seus concidadão). Se sou instigador e possível autor moral deste «homicídio de pessoa moral»? Sim, assumo a responsabilidade de o instigar a dizer a verdade, a limpar o porão até de si mesmo: assuma, ó «Jorge Alberto», a sua responsabilidade social nesta matéria; pois outra coisa não é de esperar da pessoa atrás do «Jorge Alberto». Pim!

Também sabemos que os Al Bindas, Underdouglas e quejandos fazem-lhe um favor político pouco descortinável mas vital, não é, ó «Jorge Alberto»? Pim! Por esta razão, não tenho muitas esperanças de que venha a dizer quem é o Al Binda e/ou o Underdouglas; pois este ainda vai fazendo alguns favores políticos (se calhar sem se aperceber de que é instrumentalizado – talvez por inconsistência política e necessidade de «dar nas vistas») a ambos os lados da barricada. Enfim: somos um país de subtilezas e nem sempre somos capazes de as entender; daí existir uma fome larvar a alastrar pela nação inteira e que não é de pão...
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Imagem: Fernado Pessoa, Almada Negreiros

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

  • REVISÃO CONSTITUCIONAL: ERAM DOIS, MAS SÓ UM COMETEU ADULTÉRIO…
Sobre a discussão que grassa em Cabo Verde sobre a Revisão Constitucional, e pelo mais que esperado e previsível falhanço do processo (daí, como disse a muitos amigos, ter deixado de escrever sobre a matéria no Liberal on line) lembrei-me da arcana expressão latina, de autor desconhecido mas que terá sido usado a propósito da violação da Lucrécia (pelo menos por Santo Agostinho na Cidade de Deus) e da queda de Tarquínio o Soberbo que determinou a emergência da República Romana: «Mirable dictu; duo fuerunt, et adulterium unus admisit» (Ó maravilha: foram dois e só um cometeu adultério). Pois é, mesmo como diz uma música da terra profunda: «Nossa S´nhora d´Riola rogâ por nós». O povo bem que precisa.

E parece que eu não estava enganado quando previa que só depois da Convenção do MPD é que haveria revisão constitucional. E ao ouvir as explicações, erráticas e obscuras, compreendo as razões políticas e partidárias do falhanço desse processo. E por onde andam as actas da Comissão Eventual da Revisão da Constituição? – pergunto. É documento a ser tornado público, com a maior brevidade possível, pois só assim o povo saberá o que os deputados da Nação andaram a fazer todos meses para nada, e porque não se chegou a um consenso (os consensos são sempre soluções frágeis, e vivemos numa terra de consensos forçados).

Note-se que as matérias não são, ao que parece – as que vêm a público… – problemas de maior, como são os casos da Presidência do Conselho Superior da Magistratura Judicial ou da alteração da maioria para a aprovação de leis fiscais. São questões técnicas, de sistema jurídico-constitucional que, do ponto de vista dos técnicos é simples de serem resolvidos: (i) ou Conselho Superior da Magistratura Judicial (CSMJ) continua a ser presidido pelo Presidente do Supremo Tribunal (STJ) de Justiça (que deverá ser eleito pelos seus pares, e não ter nomeação política!), por inerência, ou, em alternativa, (ii) ser o CSMJ constituído por magistrados e cidadãos na mesma proporção (tendo o presidente do STJ lugar no mesmo), sendo o seu Presidente eleito, também e sempre, pelos respectivos Conselheiros e não pelo poder político. Não aceitar nenhuma destas soluções, que serão as que melhor se adequam a matriz política e jurídico-constituional pátrio, é ir contra o interesse nacional e dos direitos do povo cabo-verdiano.

No que concerne às normas fiscais… bem, como digo e escrevo há anos: tal é uma aberração política, pois não faz sentido que a maioria exigida para a sua aprovação de normas fiscais seja a qualificada. Pois tal, na verdade, faz com que o Governo fique constantemente refém da oposição, e consubstancia uma forma sub-reptícia de afrontar a separação de poderes que deve(ria) existir, em tese matriz, entre a Assembleia Nacional e o Governo. São problemas menores, ao nível da solução, pois outros existem mais complexos, mas nem por isso não passíveis de soluções igualmente simples, se se pensar no interesse nacional e não no(s) partido(s) e na(s) agenda(s) politica(s) determinada(s) por este(s). Tenho, eu e o povo cabo-verdiano, de concordar com Carlos Veiga: as pessoas e o Estado estão acima dos partidos; mas parece que, nesta questão da revisão da Constituição não é o que se passa na mente dos deputados da nação que agem, na verdade, como deputados dos partidos.

E como, ao contrário do que dizia Tucídides, não «desfrutámos de um regime político que não imita as leis dos nossos vizinhos; mais que imitadores de outros, nós, de facto, servimos de modelo para os outros» (Tucídides, El Discurso Fúnebre de Pericles, III), temos de ver a nossa matriz de ciência e conformar as nossas decisões fundamentais de acordo com ela e o interesse nacional. E se somos copiadores, devemos agir de acordo com a matriz copiada; inventar, e mal, não vale! É, será, duplamente penalizador não agir de acordo com ciência certa.
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Nota-se, an passant, que Tucídides fazia alusão ao decênviro (dez Tribunos do povo, magistrados encarregues de defender os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos – os primeiros da história, a nível institucional republicana) que, aquando da instauração da República, foram encarregues de fazer leis escritas para Roma num período de conturbação social que o desaparecimento do poder real causou. Alguns destes homens foram até a Grécia estudar o sistema político grego e as leis de Sólon que, a final, deram origem (depois de dois anos de estudo, nota-se) àquela que seria a norma fundamental da República Romana: a Lei das Dozes Tábuas. Esta é, certamente, a primeira Constituição republicana em sentido material (Benjamin Constant que me perdoe, mas esta realidade precede a Magna Charta de João sem Terra) e formal da história ocidental. Segundo Marco Aurélio, Demócrito dizia que «O mundo é apenas mudança; a vida apenas opinião» (Marco Aurélio, Pensamentos Para Mim Mesmo, IV.4). É caso para dizer: Nihil novi sub soli.

Não proceder-se à revisão da Constituição é uma traição à nação! Como Lucrécia que foi violada pelo príncipe de Roma, assim a nação cabo-verdiana e as suas esperanças legítimas são afrontadas pelos seus representantes na Assembleia Nacional. E é bom lembrar aos senhores deputados que foi a violação de Lucrécia que causou a queda do Rei de Roma, e deu lugar à República (para os distraídos e esquecidos da História, fica ao conselho de (re)visitarem, v.g., Tito Lívio e/ou Mommsen); assim como foram os abusos do poder, o autoritarismo e a arrogância política que levarem à queda do PAICV em 1991 a instauração da II República cabo-verdiana e, depois, à derrota do MPD, depois de este ter a história ao seu lado e os instrumentos jurídicos adequados para perpetuar-se no poder se tivesse tido ciência para tanto. A história é memória, e a memória ensina mais do que se pensa. Mas só aprende quem quer, e pode (há quem não tenha estrutura para tanto).

Em Outubro, depois da Convenção do MPD e o PAICV saber com o que contará para os próximos embates políticos, iremos ter, outra vez, a questão da Revisão Constitucional na agenda política. Os interesses do país dobram-se, mais uma vez mais, aos interesses dos partidos. Mas será um vira o disco e toca o mesmo, embaralhar e tornar a dar – muitas vezes mal, como diria o meu mestre Carlos. Mas, por vezes pergunto a mim mesmo: porque rever uma Constituição que não se respeita, nem se introduz normas para obrigar quem a desrespeita a respeitá-la?
------ Publicação originária: Liberal on line
  • Imagem: Esperança, Gustav Klimt

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

  • O MEU POETA
Não aparento aquilo que sou; sou muito mais do que aquilo que aparento — diz-me o meu poeta.

Imagem: Zamia Cunaria Ovulate Strobilus, New York Botanical Garden, New York, USA

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

  • E?
E se África renegar, de forma definitiva, o modelo democrático ocidental? – pergunta-me o meu poeta.
— Tenho pensado nisso nos últimos tempos, e anotado o que há que anotar para o futuro, com o Admirável Mundo Novo... que pode ser vermelho ou não – volvo.

Imagem: Au-dessus du Monde, Vladimir Kush

domingo, 9 de agosto de 2009

  • A MORTE COMO NECESSIDADE: BIÚS, RAÚL SOLNADO E KARL MARX
Pois é, o Biús morreu. No Mindelo. Deus!, que terra mater para se morrer! O Raul Solnado, a pessoa que mais me fez rir desde que cheguei a Portugal – e como adoro rir! –, também seguiu para a maior das aventuras. Para os braços de Hella, seria bom, pois é a melhor de todas as escolhas. Se não a abraçarmos, ela nos abraçará.
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A morte é uma coisa necessária, imposta pela natureza para nos lembrar, a nós, homens, o quão efémeros somos e quão vã é a nossa pretensa glória e a busca incessante de coisas que a traça e a ferrugem consomem. Por vezes pode ser bela, gloriosa, libertadora das nossas dores, dos nossos medos, das ingratidões acumuladas, dos sonhos impossíveis até para Deus. A morte faz uma coisa extraordinária e é uma magna lição que Marx e Engels acabaram por aprender: é a única coisa que nivela os homens, naturalmente desiguais, e demonstra a injustiça de uma sociedade sem classes: coloca uns na eternidade e outros na terra do esquecimento, sem metafísica.

Se da vida só conseguiremos levar o que os outros não podem nos tirar, não é menos verdade – pelo menos para mim – que viemos a este Mundo para o deixarmos um pouco melhor do que o encontramos. Um momento na nossa vida, um único momento, pode realizar essa missão, e por vezes, a maioria das vezes, não nos apercebemos disso. Como dizia Tucídides no discurso fúnebre de Péricles, o salvador e construtor de Atenas: «A sepultura dos grandes homens é a terra inteira: deles nos falam não somente um epitáfio sobre a sua tumba; também no estrangeiro persiste a sua memória, gravado não em monumento, mas sim, sem palavras, no espírito de cada homem» (Tucídides, El Discurso Fúnebre de Pericles, IX). E no espírito de cada homem fica essa consciência de finitude imposta e renovada, de eternidade ansiada, desejada, procurada e só recebida como um inexpiável toque de Midas.

Image: Dark Labyrinth (LXXVIII), Luis Royo

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

  • CONTENTMENT
Depois de três anos investigação, leituras e releituras, contraposições de fontes, ars combinatoria e depuração de ideias, e de trabalho nocturno, tinha um projecto a definhar; pelo que decidi consumir o meu tempo disponível nos últimos dois meses a terminá-lo. Missão cumprida – diz o meu poeta. Acho que deveria ir mais além, ser mais arrojado; pormenorizado. Mas aí teria mais um ano a consumir o meu tempo livre, e para isso há outras coisas a fazer. As notas extravagantes ficam para outra altura, para outro momento pois o Mundo pulsa e o deserto, o deserto não pára de crescer.

Os leitores de terra-longe terão notado a minha ausência, mas a causa era necessária. Eremitei em parte, e isso é bom para a alma, para a disciplina interior: não fazer o que se quer e quando se quer mas o que deve ser. Sinto, neste momento particular, aquilo que os anglo-saxónicos (ainda existem?) chamam de Contentment.

Imagem: Salvador Dali, O Nascimento de um Novo Mundo (1942)

domingo, 21 de junho de 2009

  • MINOR HUMANA CONDITIO
Há quem fique de «pés juntos», invocando Juno e Minerva, com o cérebro em formol ou como os túbaros depois de uma orgia monumental. Que fazer quanto a isso? Como dizia Aristoteles, “When pressing needs are satisfied, man turns to the general and more elevated”. Deveria ser assim, mas parece que não… parece que não. É-se, como o escorpião, o que se é. Minor humana conditio, pois claro.

Imagem: Mother Earth, Luis Royo

segunda-feira, 25 de maio de 2009

  • DESPOJOS DE DOMINGO CANIBAL

É Domingo. O perdão da divida externa dos países pobres, a pena de morte, a Nova Ordem, o corporativismo judicial, o mal como situação não necessária, a pobreza estrutural e a miséria humana – as suas causas são tanto ou mais dolorosas do que elas mesmas – azucrinam-me a alma enquanto escuto Albinoni, Corelli e Bellini no meu momento de reflexão. Melhor é não pensar – diz o poeta. Fumo um ducados (que saudades tenho de um cigarillo negro cohiba ou de um popular sem filtro!), e resolvo ler um pouco: reli um texto, enviado por um amigo, sobre Ugolino e passo os olhos por Emanuel Swedenborg – tem prioridade não técnica nestes dias.

O universo cai aos bocados, podre pelo norte, de ausência de pão a sul, de afectos dementes, com a dor esmolando pelas ruas, a lua e a amante da rosa desertas. Estaciono na poesia – leio The Ship of Death and Other Poems de D.H. Lawrence, e paro em «Snake»:

A snake came to my water-trough
On a hot, hot day, and I in pyijamas for the heat,
To drink there.

[…]
The voice of my education said to me
He must be killed,
For in Siciky, the black, black snack are innocent, the gold are venomous.

[…]
And a voice in me said, If you were a man
You would take a stick and break him now, and finish him off.

Terrível… Espreito a alma de T. S. Eliot (Little Gidding):

[…]
Quick now, here, now, always –
A condition of complete simplicity
(Costing not less than everything.)
And all shall be well
When tonges of flame are in-folded
Into the crowned knot of fire
And the fire and the rose are one.


Não, as rosas ardem, queimam demais na primavera. Como diz Camilo (Shakeaspeare, The Winter´s Tale, IV.3):


I should leave geazing, were I of your flock,
And only live by gazing.


Nada disso, não. Talvez seja de seguir o conselho de Hamlet (Shakeaspeare, Hamlet, II.1): “By indirections find directions out” e, como me diz Wordsworth, haja “A virtue which erradicates and exalts / Objects through widest intercurse of sense”. Mas a verdade, assume a voz de José Gomes Ferreira (Poesia I, XXXIII):

Nasceste por engano nestes céus
lua de sangue
– pintada dos corações de todos os mortos.

O que quero, é o Domingo – a alma do sagrado. Não há vozes sobre os céus, hoje. Miguel brigou, e perdeu o meu poema de figos maduros para as potestades do ar. Estaciono a alma em Ezra Pound (Ezra Pound, De Aegyito) consolado:

Eu, até mesmo eu, que conheço as estradas
Através do céu, e o seu vento no meu corpo.


Eu vi a Senhora da Vida,
Eu, até eu, que voarei com a andorinha
.

Sim, com as andorinhas felizes. Essas que banharam Rosália de Castro de sonhos (Rosália de Castro, Dos Palomas):

¡Felices esas aves que volando
libres en paz por el espacio corren
de purísima atmósfera gozando
!

E o Domingo foi-se com a noite. Lembro-me de Helvius Pertinax – esta memória é o maior dos conselhos. Ugolino não matou a fome: a natureza suplanta todos os afectos – aqui reside a razão maior do mal. Por isso é inextirpável – como diz-nos Emmanuel Kant em A Religião nos Limites da Simples Razão. Estas coisas também matam um Domingo, e muitos outros dias. Deveria ter trocado isto pelos Lusíadas, dar uma braçadas… como diz um peixinho que sabe teclar mas lê pouco. Ai Voltaire! A tua velha… era feliz. Não acrescentava dores às dores, lá isso não fazia ó Coélet.

Imagem: Veneziana de costas virada para o mar…

terça-feira, 14 de abril de 2009

  • A NATUREZA DAS COISAS...
Aquila non capit muscas – já diziam os antigos...