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terça-feira, 17 de novembro de 2009

  • A CUECA DA NATUREZA

    Tertuliano explica as razões porque se tornou cristão. Elas sempre me pareceram perceptíveis e compreensíveis à luz do mundo em que vivo… mas difíceis de compreender no seu tempo, por acarretar alguma irracionalidade existencial. Era, se assim se pode dizer, um elo dissociado da minha compreensão da sua pessoa, do seu pensamento, das suas opções e do seu tempo. Hoje, como que por uma epifania da razão, descobri o elo. Entendi. E é tão óbvio, tão elementar, tão patente — tão frio…

    Tem razão Vargas Villa, sobre a consciência das épocas. E lembro-me de José Martí, da sua reacção a morte de
    Garfield — não o gato, mas aquele que foi Presidente dos Estados Unidos da América: James Abraham Garfield — e do que dizia, no longínquo dia 1 de Outubro de 1881 (em artigo publicado no La Opinión Nacional, Caracas, 19 de octubre de 1881): «Quando se é testemunha das grandes explosões de amor da humanidade, sente-se orgulho de ser-se homem, assim como quando se presencia as suas prostrações ou fúria dá vergonha sê-lo. A morte é útil, a virtude é útil, a desgraça necessária e reparadora, porque desperta nos corações que a presenciam nobres impulsos de as eliminar. […] A dor alimenta, a dor purifica, a dor nutre.»

    A guerra corpo a corpo entre a lei do amor e a lei do ódio, como dizia José Martí, é contínua, como a natureza: todos os dias morrem e nascem coisas, sentimentos e pessoas, pessoas que morrem na luz e sem ira — digo eu. No plano da razão, também.
    «Sempre quis olhar para o meu caixão, ver-me exposto ao Mundo… saber onde andam as lágrimas. Curiosidade satisfeita. Vi a cueca da natureza» diz-me o meu poeta.

    Imagem: Mahmoud Ali, 8 anos (escola de Al-Qabs — Ramallah, Palestina)

domingo, 15 de novembro de 2009

  • NADEJDA

    Escrevia uns poemas, e parei: ouvia Nadejda de Solange Cesarovna. Não percebo russo, mas gosto da música… mas depois, perguntei-me: o que está esta Calíope crioula a cantar? O que anda a dizer? Não pode ter nada a ver com a Nadejda que me recordo sempre que ouço a música: Nadezhda Krupskaya, a mulher de Vladimir Lenin. Lá fui à Enciclopédia da História da Rússia ver, se encontrava uma outra Nadejda… e não encontrei. Se estivesse aí em CV, procuraria essa síntese de Calíope, Flora e Vénus para me explicar o que diz a música, mas como eu estou longe, vou ter de perguntar a um dos meus amigos entendidos em russo.

    Odeio não perceber as coisas, e a razão das coisas, também. Mas chegarei lá, e ter esperança é um bom princípio. A mulher de Lenine chamar-se Esperança, é curioso, não é? Agora, é tempo de ouvir o Debate Africano na RDP-África. Logo is another day, lá diria a Scarlett O’Hara.

    Imagem: Nadezhda Krupskaya, mulher de Vladimir Lenin sentada à sua secretaria de trabalho (Enciclopédia da História Russa)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

  • DE DOCTA IGNORANTIA

    Ainda soa na minha mente, o meu momento de reflexão. «Existirá, pois, um máximo absoluto sem o qual nada pode existir» – diz Nicolau de Cusa (Nicolau de Cusa, De Docta Ignorantia, I.4). E, tenho de assentar, há parcialidade de conhecer, a não ser em YHWH. E lembro-me das palavras de Hemon a Creonte: «Aqueles que pensam ter recebido a sabedoria em exclusivo, ou possuir uma eloquência, ou um talento sem igual, fazem prova muitas vezes, da inconsistência das suas pretensões. Mesmo para um grande magistrado , não é desonroso aprender constantemente a rever os seus julgamentos…» (Sofocles, Antígona, II).

    Mas há quem ache que não, há quem ache que não… o Mundo está cheio de sábios e de donos da razão, da ciência (das ciências, Deus meu, das ciências!) e tutti quanti que é saber. É, de todo, a douta ignorância; a douta e papagueante ignorância. E, como dizem que disse o grego, não sabem que nada sabem; de todo. E o Pai os perdoará, como perdoou a todos aqueles que não sabiam o que faziam.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

  • PIGS IN THE PARLOR

    Por vezes, lemos coisas tão absurdas que, para não se sermos mal-educados resta-nos ser gráficos. O absentismo presente, o uso de instrumentos de trabalho, em particular de órgãos do Estado para se ter «bases de dados» privados – que, note-se, viola normas jurídicas (pois é, «legalismu») – para fins de propaganda política é coisa a ter-se em conta na terra da morabeza, onde se confunde «morabeza» com fraternidade…

    Os fins, por mais nobres que possam ser ou parecer não justificam os meios. Mas há quem ache que sim, by any means necessary, é o lema. Mas, porque escrevo isso, se o que quero e me lembro mesmo é das palavras do meu Mestre, sim o quero mesmo é ser gráfico, direccionadamente gráfico.gov? Que seja, e seja entendido. I am not talking just about giving parlors to pigs, i am talking about "pigs in the parlor"!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

sábado, 19 de setembro de 2009

  • DESPOJOS DE FESTIM – VIAGEM SENTIMENTAL

Há uns anos, fazia o Curso Geral dos Liceus em Lisboa, mais concretamente: na Póvoa de Santo Adrião, quando me chegou às mãos o livro Palavras Cínicas, do professor Albino Forjaz de Sampaio. Vinha de uma colega, mais velha do que eu (confesso que atentava mais nas suas formas opulentas do que no que dizia) e fiquei, confesso, espantado com a obra e, hoje, estive a ler um pouco do livro. Foi a Primeira Carta que, paradoxalmente, me apresentou Ivan Turgueniev… ainda me lembro das primeiras palavras amadas de Turgueniev e que me assaltaram a alma, presas e a voar para mim de O Sonho: «A minha mãe depositara em mim todos os seus pensamentos e cuidados, enlaçando a sua vida com a minha».

Tornei-me devedor, de Albino Forjaz de Sampaio (apoucadíssimo por Almada Negreiros no poema «Manifesto Anti Dantas» pelos seus escritos no jornal A Luta) – por me ter apresentado Turgueniev, e, a modo dessa apresentação, devo a Machado de Assis o achamento de Shelley, quando, lendo Helena, encontrei grafado este excerto de poema: I can´t give what men call love e apaixonei-me pela poeta. A Borges, por exemplo, depois de ter lido El Golem (um dos melhores poemas que já li) e Los Conjurados devo a introdução a Adolfo Bioy Casares, Gustav Meyrink e Amiel, numa perseguição que faço ao pensamento interior do poeta e meio vislumbrada na sua poética. «Serei capaz de escrever poemas de amor depois dos oitenta anos?» — pergunto-me.

Mormente estes benefícios mediatos de busca de beleza num mundo pejado de darwinismo social — visto por Hobbes, Turgueniev e decantado por Forjaz de Sampaio —, as Palavras Cínicas ainda hoje me incomodam e me impelem, sempre, a procurar a beleza, a consolação da filosofia, como diria Boeccio, e da arte, trazendo-me esta desejos e sensações, coisas meio vislumbradas… como voz de Kavafys. E hoje, nem o ter tido o prazer de acrescentar mais duas interpretações à colecção do meu Adágio preferido (Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo) me salva de alguma putrefacção de alma que a verdade por vezes transporta. Mas há que, como Cândido, continuar a cultivar o nosso jardim, a cuidar da rosa silenciosa, a sentir o seu aroma ausente pois o bem não exige recompensa, é a recompensa.

E decidi (pondero nisso há muito), que deveria compartilhar as cartas de Palavras Cínicas de Albino Forjaz de Sampaio, e não sei se faço um favor de partilha; não sei não... mais uma incerteza para a minha colecção de dúvidas. Seja como for, que estejas num festim, sempre! Diz o autor no proémio das mesmas: «Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar.» Mas vida não é má, só é cruel para os bons e corrompedor da beleza. O que faz toda diferença, parece-me.

A Viagem Sentimental - Konstantin Kalynovychend

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

  • DEUS NÃO GOSTA DE FUMAR, DEUS GOSTA DE BEETHOVEN

    A música de Beethoven é verdadeiramente divinal. A sonata nº.14 para piano, a 5ª. (1º. movimento) e a 9ª. Sinfonias são boas companheiras para um puro e um momento de reflexão. Como é possível que não se perceba a beleza que é viver, simplesmente viver? Não cobiçar o bem ou mal do próximo, mas ser cobiçoso de viver? Amordacemos Freud com a beleza, pois Deus gosta de Beethoven!

    — Deus, porque o meu puro não é um Montecristo Nº.1, um Sancho Panza, um Churchill da Romeo y Julieta ou um esplendido ou um robusto da Cohiba?
    — Porque não é um puro, mas somente um charuto – respondeu-me.

    Pois claro. E decidi escrever um poema a mim mesmo! Porquê? Porque me apetece! – é razão bastante? Há cada estraga-prazeres...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

  • EM ESCUTA…

Daqui a pouco haverá uma entrevista a Carlos Veiga na RTC. Quem puder, faça como eu: escute o que o virtual novo líder do MPD tem a dizer. Será às 22:00 PM, hora de Cabo Verde. Enquanto espero, escrevo um poema. Se estiver com disposição depois de ouvir o que Carlos Veiga tiver a dizer, partilharei este escrito.

Imagem: Relógio da Lei de Ohm

sábado, 5 de setembro de 2009

Há metafísica bastante em não pensar em nada (Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, V).
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  • OBAMA — «O LUMINOSO», O DEFINHAMENTO CULTURAL DA AFRICANIDADE CABO-VERDIANA E A (NÃO) CRITICA DA GOVERNAÇÃO
A propósito de ter chamado o Presidente Barack Obama de o Luminoso no texto que escrevi sob o título «HILLARY CLINTON E 35 RAZÕES DA BOA (NÃO) GOVERNAÇÃO DE JOSÉ MARIA NEVES» e publicado no Liberal on line recebi alguns e-mail inusitadamente pouco simpáticos, pois, na perspectiva dos emissores dos mesmos, estaria a referir-me de forma jocosa ao Presidente Barack Obama (além de ofender os políticos cabo-verdianos). Aqui e agora, publicamente me penitencio: peço desculpas a essas pessoas; e peço desculpas por ter a veleidade de ter pensado que tal era, seria, consabido e que os olhos servem para ver. Mas como não é, explico aos mesmos o seguinte:

O nome Barack, de origem africana (da púnica Cartago), é, antes de mais e como em regra acontece, um adjectivo. O povo judaico que, segundo a Bíblia, tem origens comuns com o povo africano, também usava e usa o mesmo nome e, o que é curioso, com o mesmo significado. Encontramos o nomen «Barack», no livro de Juízes (Juízes, IV.6), mas ficaria na história pelas suas raízes africanas. Foi inicialmente usado para Amílcar que, por suas vitórias, foi cognominado como «Barak» ou «Barack»=o Luminoso e que os ocidentais chamam de «Barca». Assim, Amílcar – general e mais tarde Sufeta de Cartago que revelaria o seu projecto social e revolucionário no início das guerras púnicas (guerras entre África e Roma pelo controlo das rotas comerciais no mediterrâneo e pela posse das colónias africanas da Sicília, Hispânia e da Córsega) — ficou conhecido como Amílcar «Barca», id est: «o Luminoso».

Sendo certo que o seu filho, Aníbal (por Trébia, Tesino, Transimeno e, essencialmente, por Canas), seria mais merecedor do cognome que o pai e, com justiça, é chamado de «Barack». A história, assim o fez: herdou do pai – e pela sua grandeza (é um dos cinco maiores generais da História militar) o cognome «Barack».

E assim Amílcar e Aníbal (assim como o irmão deste, Asdrúbal — que foi menos feliz que Aníbal) ficaram conhecidos na História com o mesmo cognome: «o Luminoso» (é claro que o conquistador acidental, sim: acidental e também ocidental, se encarregaria de transformar o adjectivo em nome; na verdade, sem saber, recuperava a essência do nome em si). Os cognomes eram comuns na história antiga, como, por exemplo, o Cônsul Cipião Emiliano — conhecido como Cipião «o Africano» (por ter vencido Aníbal na trágica batalha de Zama), e o seu filho homónimo (o da queda e destruição de Cartago) como Africanas minor. Assim como Catão era conhecido como «o Censor» ou «o Velho», ou Octávio tomou o cognome de «Augusto», isto é: «divino», e que, com o tempo, de adjectivo qualificativo tornar-se-ia em nome próprio. E se o nome de Augusto foi escolhido por Octávio por razões políticas (essencialmente as mesmas que o levariam a encomendar a magistral Eneida ao poeta Virgílio), a conselho de Agripa e Caio Mecenas, o «Barack» de Amílcar emergiu da alma do povo africano que o achou e considerou um homem extraordinário, isto é: Barack – «luminoso».

Aníbal, o mais luminoso dos «luminosos» africanos (na história de África e do ocidente que o precedeu no século III a.C. encontram-se poucos nomes que o igualam em glória e fama: Seti I, Ramsés II e Amenófis IV – Akenaton em África; Péricles e Alexandre da Macedónia na Europa nascente da Grécia), seria chamado pelos ocidentais, depois retirarem o sentido ao seu nome e passar a ser Barca, de Aníbal «o Cartaginês», o nome do inimigo vencido e não Aníbal o Africano ou Amílcar Barack o Luminoso e grande estratega que a história, injustamente, se encarregaria de vituperar com a odiosa inverdade de ter sucumbido às «delicias de Cápua». Mas o nome sobreviveria na sua forma africana, e nos confins de África até chegar aos nossos dias. E o pai de Barack Obama, pela sua cultura africanista e formal, sabia porque nomeou o filho de «Barack», e em boa hora o fez – pois, por um incidente da história, retoma a memória de três dos maiores africanos da História: Amílcar, Aníbal e Asdrúbal Barack — «os luminosos». O mesmo aconteceu com o povo judaico – mesmo depois do grande exílio imposto por Tito Vespasiano – que conservou o nome; daí termos nomes como, por exemplo, o de Ehud Barak.

É que em África, mesmo na África colonizada, sempre se teve o cuidado de dar aos filhos nomes com sentido. Assim, em Cabo Verde — assim como nas colónias portuguesas em geral – desafricanizou-se os nomes, mas a consciência africana das populações fê-las adaptar-se, num fenómeno de aculturação sobrevivente e em termos onomásticos, com a arma maior do colonizador: o cristianismo. Assim, a título de exemplo, os dezasseis filhos que a minha avó materna gerou e pariu em Santo Antão foram nomeados com nomes de santos, mártires e figuras maiores do cristianismo: Eusébio, Daniel, Moisés, Sara, Efigénia, Helena… sendo ela mesma Estevina (de Estevão, o primeiro mártir do cristianismo). O mesmo se diga da minha família paterna, da ilha do Fogo: o meu avô, Pedro Alexandrino (e as dezenas de filhos que legou ao Mundo), casado com Ana, seguiu o mesmo padrão cultural ao nomear os filhos: Joaquim, Juvenal, Pedro, Virgílio… que, também, seguiriam o mesmo padrão e chamariam os filhos de Virgílio, Ana, Maria, Alexandrino, Pedro, etc… não é acidente, é cultura!, cultura no sentido mais profundo da palavra, e é um dos factores da nossa identidade que vai morrendo: os nomes dos cabo-verdianos são escolhidos à moda do modernismo europeu e brasileiro – em razão da fama de alguns no momento e não em função do sentido antropológico e metafísico do nome enquanto representação externa da pessoa.

Neste aspecto temos muito a (re)aprender com a África mais profunda, e com países como o Japão — vide, por exemplo, o cerimonial xintoísta de escolha do nome dos filhos dos membros da casa real nipónica: não são os pais que escolhem o nome mas sim os astros e pela determinação da natureza. Quanto maior foi a resistência ao colonialismo e menor foi a sua influência na vida social dos colonizados, maior foi a manutenção do sentido maior da cultura dos povos que escravizaram, oprimiram e exploraram: a sua língua e a manifestação maior da sua identificação no Mundo – o nome.

A língua e o nome estão intimamente ligados, pois o nome é que nos identifica no Mundo e tem um sentido maior do que aparenta. Por essa, e muitas razões que não cabem neste texto, é que gosto, em particular, de um o poema cabalístico de Jorge Luís Borges — El Golem (transcrevo aqui, de memória, a primeira quadra):

Se, como o grego diz no Crátilo,
O nome é o arquétipo da coisa
Nas letras de rosa está a rosa
E todo o Nilo na palavra Nilo.

E é por causa desta dimensão cabalística que o nome da mulher de Abraão foi mudado de «Sarai» para Sara e o dele de «Abrão» para Abraão. É que quando chamamos alguém pelo seu nome não fazemos algo de inócuo, invocamos a sua própria natureza e sua razão e papel no Mundo (que é, afinal, a «pessoa»).

Nós, cabo-verdianos, com a aculturação maciça que temos sofrido de Portugal e do Brasil, com as telenovelas e os programas pimbas portugueses que assaltam os lares da nossa boa e sã gente, vamos, aos poucos, transformando Cabo Verde numa cidade portuguesa (como Eça de Queirós dizia da Lisboa aculturada do seu tempo: uma cidade francesa em Portugal). Somos independentes? Sim, somos; mas culturalmente dependentes do imperim cultural do ex-colonizador; e no seu pior, pois é uma cultura de alienação, uma cultura circense e com os objectivos deste.

Confesso — e permita-me o leitor esta confissão desbragada: a verdade é que temo que venhamos a ter o mesmo destino dos estruscos. Se não cuidarmos da nossa cultura, da língua em particular (mesmo tendo a plena consciência de que o que alguns querem com o ALUPEC é uma Cátedra e emprego Ad aeternum, além de dourada reforma — mas isso é o mal menor), além de «pequenas» coisas como perpetuar o nome e o seu significado antropológico, metafísico e de memória familiar emergente do mosaico cultural que nos gerou como povo e nação. Mas cedemos ao «belo» e à «moda» de tal forma que um primo meu tem uma afim com o nome de um bolo! Sim, de um bolo. O que vale é que, por ser uma donzela formosa, dá para se brincar com o nome e confessar-se, a Marqui de Sade, faminto de doce sem ofensa. Ao que chegamos!

Assim, chamar Barack Obama de «o Luminoso» é usar o seu nome no seu sentido próprio, onomástico. Já seria um pleonasmo chamá-lo de Barack Obama, «o Luminoso», não seria? O nome é arquetismo; e, não raras vezes, esquecemo-nos disso. E de muitas outras coisas.

Por vezes, por falência de competências gnoseológicas, não se consegue discernir a essência do discurso que nos é apresentado. É fundamental saber as coisas; mas mais do que saber (d)as coisas, é preciso, é necessário saber o porquê das coisas. Aliás, bastaria saber um pouco da História de Portugal e de Espanha — que é também parte da história de Cabo verde — para vermos a variedade de cognomes dos mesmos. Enfim, desculpem lá qualquer coisinha… e, como se cantava na terra quando eu era menino (se a memória não me atraiçoa):

— «Nha Bitinha, kel côzinha…
— Qual´ê côzinha?
— Kel meio t´stomzinha…
— Entom, sê tmâ dostom, sê tra meio-s´tom e kel t´stom e meio bocê fcâ kel.»

O que é que uma forma de dizer que Aquila non capit muscas.

E para não remeter os críticos apressados para Políbio e Tito Lívio – cujas obras poderão não ser de fácil acesso – fica o conselho de consultarem Oliveira Martins (Oliveira Martins, História da República Romana, Guimarães Editores, 7ª. Edição, Lisboa, p.175) e que, certamente, encontrarão uma edição na Biblioteca Nacional. E, para aqueles que vêm nos meus escritos uma dimensão ideológica, putativa ou não, digo-Vos que Cabo Verde ainda não encontrou o seu «Barak» e que se Pedro Pires foi um bom Primeiro Ministro (descontando a dimensão de Estado de Polícia da I República), como a história a seu tempo reconhecerá, tem tido dois mandatos presidenciais que, infelizmente para ele e para a nação, não deixarão saudades. E se Carlos Veiga poderia ter levado o país a um outro patamar de realizações e não o fez, é/será por razões que foram colocadas pela sua própria voz e na primeira pessoa; mas, certamente, foi por mais do que isso.

E se o Governo de José Maria Neves, tendo condições particulares nestes dois mandatos, não tem atentado na dimensão estrutural do país a medida do desejado e ansiado pela nação e lograr uma sociedade mais justa e com menos desigualdade — e isso é inegável e reafirmado pela realidade — tal tem a ver mais com algumas das razões aduzidas por Ulisses Correia e Silva no seu artigo «Viciados na Partidarização», publicado no Expresso das Ilhas, de ontem 27-8-2009, e não por falecer-lhe competências estruturais e funcionais. Todos os governos de Cabo Verde depois da independência fizeram coisas boas, coisas menos boas e coisas más. E — além da «partidarização e do clientelismo» de que Ulisses Correia e Silva fala e de qualquer discurso ideológico — a verdade é que Cabo Verde, depois da I República, não tem vivenciada a praxis de um projecto social sustentado e adequado à nossa realidade mas sim um pragmatismo snob de mera gestão das nossas limitações.

A ambição prática de levar Cabo Verde para o lugar do melhor dos piores (como a euforia e a fobia dos relatórios e elogios magna dixit demonstram sem mais) não chega! Temos de ambicionar chegar onde podemos chegar e transcender a nossa condição; temos de ambicionar chegar onde o povo sonha e ambiciona: a um patamar de desenvolvimento efectivo e não de papel, a um patamar social onde podemos ombrear em qualidade de vida com qualquer país do Mundo. E temos condições para isso; condições para acabar com a pobreza, promover o bem-estar social, económico e cultural à medida da dimensão do país. Menos do que isso é dizer — ainda que de uma forma tácita — que o nosso povo, a nossa terra, os nossos sonhos… valem menos que os de outros quadrantes e locais do Mundo. E isso, não é verdade; não pode ser verdade.

Mas para transcendermos a nossa condição de David geo-demografico e de historicamente de condição, temos de ser ambiciosos, o Estado, os seus órgãos e agentes, e, acima de tudo, os cidadãos que não podem conformar-se com uma vida e um Estado que tem como padrões comparativos o pior dos outros. Mas para alcançar-se os bons, há que assumir-se compromissos políticos de risco, de ambição e grandeza. E para isso não se pode ter medo de perder as eleições que seguem; não se pode governar para as estatísticas, para os números e a comunidade internacional, não: há que governar-se para o povo, mesmo que o povo não percebe que se quer é faze-lo feliz, dar-lhe um nível e qualidade de vida que merece.

E se, como dizia Rabindranath Tagore, «devemos esticar as pernas de acordo com o tamanho do lençol que temos» e José Maria Neves é uma pessoa de boa vontade, tal não chega; tem de atrever-se (ele e qualquer Primeiro Ministro que se venhamos a ter) a ambicionar e a construir um Estado e uma nação que não veja os representantes dos poderosos deste Mundo que aterram nas ilhas da Morabeza como deuses vindo dos céus, como ídolos de um mundo inalcançável, como se fossem Cortez chegando ao Novo Mundo de indígenas inconscientes de que a natureza é naturalmente desigual para nos desafiar a superar o nosso paradigma existencial e não para nos impelir à uma natureza tributária… esperando a aprovação do «mais forte». Darwinismo social encapotado ou subliminar, não! O país está farto disso, o povo está farto: queremos e podemos ser tão bons como os outros; não temos de estar, constantemente, a mostrar ao Mundo — o tal de inglês ver» — que somos uns «africanos especiais», pois pretos somos, seremos e como tal nos verão, sempre! Até mostrarmos que somos o que somos: iguais, capazes, donos do nosso destino. No matter what!

Mas (salvaguardando a dimensão do discurso político, que entendo…) eu até que compreenderia o discurso de «boa governação», se soubesse que o Primeiro Ministro tivesse andado a ler Você Pode ser Quem Deseja de Robert Schuller e/ou, com Kenneth Hagin, a «chamar as coisas que não são como se já fossem» num legítimo exercício Paulino de fé (uma leitura de Hebreus XI.1, na versão do New American Standard version of the Bible, é aconselhável). Afinal – para alguns –, o sonho comanda o Mundo. Um Mundo novo sem pão e segurança, não é mundo e não é nada! Uma cesta de sonhos é menos do que uma côdea de pão e uma gota de água para o faminto e o sedento.

Criticar não é ser-se «bota-abaixo», é mais do que isso! Quem não o vê, é porque não quer ou, pior, não pode. E o lambebotismo nacional — alimentado por uma espécie de lagarta de gabinete —, acrítico, acéfalo e tributário não é, de forma alguma, do interesse do decisor político e da nação: é o cancro silencioso da cultura democrática! O nosso dever, como cidadãos, é, a cada momento, alertar quem exerce o poder para a realidade real — se não o fizermos, quem governa não conseguirá ver além do seu umbigo e dos números. E a vida real das pessoas não são números, não; é mais do que isso: é tudo. A final, há que ter-se presente o seguinte: o governante não precisa que se lhe diga o que está a fazer bem — pois só está a cumprir com o dever emergente do seu mandato e deve verificar se o que manda fazer está ou não a ser cumprido (todos os Primeiros Ministros deveriam ter dois ou três inspectores para verificarem se as decisões do Governo são ou não implementadas a tempo e em tempo útil). Precisa, sim, é de saber o que não faz, o que não bem e o que faz mal; para corrigir, melhorar, inovar e criar soluções que sirvam a Res Publica.

---- Publicação originária no Liberal

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

  • O PRAZER DO PRAZER DA PARTILHA

Depois de muito procurar, e por um inesperado golpe da Fortuna consegui adquirir uma moeda que ansiava: um denarius de prata do Imperador afro-romano Severo Alexandre, de 223/224 d.C. — o último Imperador da dinastia Severa. IMP SEV ALEX ANT AVG (diz a cara da moeda) e AEQVITAS AVG (na coroa). Um momento de prazer, esse de ter nas mãos uma moeda com 1776 anos e pensar nas pessoas que compraram e pagaram escravos, pão, azeite, vinho, o prazer meretriz e tantas outras coisas.

E compartilho isso contigo, leitor de Terra-Longe. E não é pela moeda ter mais de mil e setecentos anos, não: é por ser de Severo Alexandre Antonino, um imperador extraordinário e por aquilo que representa; para mim em particular, depois de ter dado como terminado o meu livro: Os Imperadores Africanos do Império Romano — A Multiculturalidade no Berço da Europa. Agora pergunto a mim mesmo: onde encontrarei um denarius de Clodius Albinus, Didius Julianus, Ophelius Macrinus e Helvius Pertinax (este, não sendo um africano, um imperador que admiro em particular)?

Mas a minha busca por um denarius de ouro de Septimius Severus Afri (de 193 d.C., 201 d.C. ou de 211 d.C. – esta da Aphoteose, Consecratio de Severo) continua. Se alguém puder me ajudar…

Imagem: Severo Alexandre Antonino, filho de Antonino Bassiano (Caracala) e neto de Septimio Severo Afri

  • O MEU POETA
Não aparento aquilo que sou; sou muito mais do que aquilo que aparento — diz-me o meu poeta.

Imagem: Zamia Cunaria Ovulate Strobilus, New York Botanical Garden, New York, USA

domingo, 9 de agosto de 2009

  • EU E O MEU POETA
Ando a tentar comprar uma moeda do verdadeiro Optimus Princeps… um denarius do primeiro quartel do século III d.C.; coisa simples – diz o meu poeta. Alea jacta est! – clamo perante este Rubicão de prazer. Porque o digo? – perguntar-me-á. Síndrome de Thanos, nada mais; creia-me.

Imagem: Luis Royo

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

  • CONTENTMENT
Depois de três anos investigação, leituras e releituras, contraposições de fontes, ars combinatoria e depuração de ideias, e de trabalho nocturno, tinha um projecto a definhar; pelo que decidi consumir o meu tempo disponível nos últimos dois meses a terminá-lo. Missão cumprida – diz o meu poeta. Acho que deveria ir mais além, ser mais arrojado; pormenorizado. Mas aí teria mais um ano a consumir o meu tempo livre, e para isso há outras coisas a fazer. As notas extravagantes ficam para outra altura, para outro momento pois o Mundo pulsa e o deserto, o deserto não pára de crescer.

Os leitores de terra-longe terão notado a minha ausência, mas a causa era necessária. Eremitei em parte, e isso é bom para a alma, para a disciplina interior: não fazer o que se quer e quando se quer mas o que deve ser. Sinto, neste momento particular, aquilo que os anglo-saxónicos (ainda existem?) chamam de Contentment.

Imagem: Salvador Dali, O Nascimento de um Novo Mundo (1942)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

  • MUDAMOS MAS O MUNDO GIRA E NÃO MUDA

1984, depois de ter abandonado a escola em menino, voltei a estudar. A razão, então, era simples: queria ir para a Etiópia ou o Bangladesh ajudar a multidão que morria de fome. Queria ser missionário, mas as circunstâncias da vida por vezes conspiram contra o bem e/ou a vontade de o fazer.

Hoje, de repente, amourado no meu momento de reflexão, perguntei a mim mesmo se não deveria ter ido para missionário… se não deveria ter seguido o caminho proposto pelos missionários combonianos e ter me tornado sacerdote católico. Mas não!, "pensava de forma diferente" – era protestante/evangélico, o quadro doutrinário católico agoniava-me (não no plano social, mas estritamente doutrinário) e não me sentia capaz de um sacrifício contra a natureza que o sacerdócio católico romano exigia e exige, pelo menos sem deixar de ser honesto comigo mesmo. Pensava, então, que haveria outros caminhos… estudei Direito, especializei-me em Direitos Humanos, uma forma sucedânea do sacerdócio, pensava.

Mas ha coisas que não mudam. Há alguns anos, numa entrevista à jornalista Anabela Mota Ribeiro para o DNA (suplemento semanal do jornal português Diário de Notícias), dizia-lhe que «um dia destes deixo tudo e vou para missionário». É uma tentação contínua, que me persegue – especialmente quando vou a Cabo Verde, passo por países com problemas sociais gritantes (evito viajar para essas zonas, pois ferem-me a alma de forma brutal – há anos que adio uma visita de estudo à Mauritánia e ao Sudão). Nestas alturas, como aconteceu quando estive em Luanda (lembras-te, meu bom amigo Pastor Victor Belo?) e no Brasil, sinto-me como que perseguido por Deus, empurrado às origens dos motivos da minha formação formal.

Azucrina-me, não raras vezes, essa coisa estranha que é (re)começar a estudar para uma missão e acabar noutra, substancialmente diferente: a defender criminosos e pessoas que, não raras vezes, são ingratas e que só podem se queixar de si mesmas. Eu não me queixo de nada – talvez de amar menos do que deveria ou de arriscar menos neste plano – que a existência me proporciona, pois tenho nos menos afortunados a minha referência de existência.

Cerca de 25 anos depois, o Mundo continua o mesmo espaço de desigualdades profundas que me moveram a querer certificar os meus conhecimentos e a saber mais de tudo. As mesmas questões me preocupam, agora numa perspectiva ainda mais abrangente e com uma outra percepção, o mesmo sentir me afronta... E me afronta mais ainda pelo facto de me sentir, de certo modo, violentamente contaminado por uma forma de viver que, no fundo, me indigna. Um dia, como dizia a Anabela Mota Ribeiro…

Bem, o melhor é ir escrever um poema...

Imagem: Crucifixo, de Kooning

sexta-feira, 29 de maio de 2009

  • AL PSU, Ó ESTEVES
Tenho dito, não raras vezes, que que isso de não ler os Lusíadas faz mal à muita gente – começam a delirar, e até usam o nome de Deus, resgatado de uma terra de cabras, com visões colhidas de uma caverna. Mas não devem saber isso, pois não leram os Lusíadas – e não sabem as dores que sofreu Joaquim às mãos de Nabucodonozor, nem conhecem a forma das lágrimas de Tito diante do fogo ou o sonho de Neemias, Esther, Daniel e Jeremias nas noites cativas dando nome às estrelas.
.
Bem digo, quase que grito e sou gráfico!, mas não sou escutado. O melhor será dizer: procurai as bacantes! Bem, para ser bem entendido: bebei vinho meu amigo, vinho. Vou fumar! Mas para ti, o melhor será dizer – ainda: come chocolates, come chocolates

segunda-feira, 25 de maio de 2009

  • DESPOJOS DE DOMINGO CANIBAL

É Domingo. O perdão da divida externa dos países pobres, a pena de morte, a Nova Ordem, o corporativismo judicial, o mal como situação não necessária, a pobreza estrutural e a miséria humana – as suas causas são tanto ou mais dolorosas do que elas mesmas – azucrinam-me a alma enquanto escuto Albinoni, Corelli e Bellini no meu momento de reflexão. Melhor é não pensar – diz o poeta. Fumo um ducados (que saudades tenho de um cigarillo negro cohiba ou de um popular sem filtro!), e resolvo ler um pouco: reli um texto, enviado por um amigo, sobre Ugolino e passo os olhos por Emanuel Swedenborg – tem prioridade não técnica nestes dias.

O universo cai aos bocados, podre pelo norte, de ausência de pão a sul, de afectos dementes, com a dor esmolando pelas ruas, a lua e a amante da rosa desertas. Estaciono na poesia – leio The Ship of Death and Other Poems de D.H. Lawrence, e paro em «Snake»:

A snake came to my water-trough
On a hot, hot day, and I in pyijamas for the heat,
To drink there.

[…]
The voice of my education said to me
He must be killed,
For in Siciky, the black, black snack are innocent, the gold are venomous.

[…]
And a voice in me said, If you were a man
You would take a stick and break him now, and finish him off.

Terrível… Espreito a alma de T. S. Eliot (Little Gidding):

[…]
Quick now, here, now, always –
A condition of complete simplicity
(Costing not less than everything.)
And all shall be well
When tonges of flame are in-folded
Into the crowned knot of fire
And the fire and the rose are one.


Não, as rosas ardem, queimam demais na primavera. Como diz Camilo (Shakeaspeare, The Winter´s Tale, IV.3):


I should leave geazing, were I of your flock,
And only live by gazing.


Nada disso, não. Talvez seja de seguir o conselho de Hamlet (Shakeaspeare, Hamlet, II.1): “By indirections find directions out” e, como me diz Wordsworth, haja “A virtue which erradicates and exalts / Objects through widest intercurse of sense”. Mas a verdade, assume a voz de José Gomes Ferreira (Poesia I, XXXIII):

Nasceste por engano nestes céus
lua de sangue
– pintada dos corações de todos os mortos.

O que quero, é o Domingo – a alma do sagrado. Não há vozes sobre os céus, hoje. Miguel brigou, e perdeu o meu poema de figos maduros para as potestades do ar. Estaciono a alma em Ezra Pound (Ezra Pound, De Aegyito) consolado:

Eu, até mesmo eu, que conheço as estradas
Através do céu, e o seu vento no meu corpo.


Eu vi a Senhora da Vida,
Eu, até eu, que voarei com a andorinha
.

Sim, com as andorinhas felizes. Essas que banharam Rosália de Castro de sonhos (Rosália de Castro, Dos Palomas):

¡Felices esas aves que volando
libres en paz por el espacio corren
de purísima atmósfera gozando
!

E o Domingo foi-se com a noite. Lembro-me de Helvius Pertinax – esta memória é o maior dos conselhos. Ugolino não matou a fome: a natureza suplanta todos os afectos – aqui reside a razão maior do mal. Por isso é inextirpável – como diz-nos Emmanuel Kant em A Religião nos Limites da Simples Razão. Estas coisas também matam um Domingo, e muitos outros dias. Deveria ter trocado isto pelos Lusíadas, dar uma braçadas… como diz um peixinho que sabe teclar mas lê pouco. Ai Voltaire! A tua velha… era feliz. Não acrescentava dores às dores, lá isso não fazia ó Coélet.

Imagem: Veneziana de costas virada para o mar…

domingo, 3 de maio de 2009

  • A ORIGEM DAS COISAS…
Domingo... Que contradição! É quando o pecador se sente mais livre.
.
Quererá isso dizer algo mais do que a evidência? Talvez, mas o melhor é tentar descobrir. Comei e bebei, que amanhã poderás estar morto – é um santo conselho, se o se de não ter havido um dado Domingo fosse verdade. Noé bebeu vinho tinto. Deveria ser inverno quando eu, negro, nas minhas raízes, nasci. Não falo a língua dos anjos, não – o Pentecostes não passa por mim nestes dias.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

[…]

«Era um segredo de alma, santo por natureza. Sabia, por razão de ciência, que o seu outro Deus não se importava com essa fraqueza natural entre os homens conscientes da sua condição e da sua natureza. «Deus, de certeza, não se afronta com este amor; afinal, não é Ele mesmo o Amor? Se plantou este sentimento nas raias do meu coração, é porque o apraz fazê-lo... sim, é o que predestinou para mim, é o meu destino amar sem rumo e ser tentado» – pensava quando lhe ocorria poder estar a prevaricar contra alguns arcanos mandamentos, prescrições divinas, dizia, que conhecia de cor. E, entre ouvir Shakeaspeare e despenhar-se de uma montanha azul, resolveu encontrar uma outra solução; o talvez da esperança impossível enquanto amarrava as mãos do Mundo e torturava o futuro com ligas de seda e chocolate. Afinal, aprendera desde menino que o orvalho é dos pardais, a chuva e as lágrimas dos homens.»
----- in Virgílio Brandão, O Morto Que Não Queria Morrer, p.20

Imagem: Toulouse-Lautrec – Donna dai Capelli Rossi Accosciata

sexta-feira, 27 de março de 2009

  • DIA DA FLOR PRIMA

Hoje é dia da mulher cabo-verdiana. Acordo, medito um pouco. Ouço Hana, de Hayley Westenra… Você não Sabe, de Maria Bethânia, e recebo um e-mail a perguntar:

– «Já compraram aquela rosa escarlate para a vossa crioula berdiana?»

A minha berdiana… a minha berdiana é a Rosa do Mundo; não lhe chegam rosas. E não resisto a escrever um poema à mulher cabo-verdiana – o alicerce, o milagre das ilhas. Assim, hoje, escrevi NEGRA MINA.

quarta-feira, 11 de março de 2009

  • POR ONDE ANDAS, ELECTRA?
Está um belo dia em Lisboa! Convida a um momento à beira-mar. É um crime contra a alma não beijar este Sol de braços divinos. I can´t resist temptation – como dizia o poeta. E vou!, sim vou.

Mas assaltou-me, agora – que antinomia! –, uma pergunta:

– Que aconteceu à ELECTRA para estar tão cumpridora? Será um efeito lateral de, por antecipação, estar para aprender a conhecer-se a sim mesma?

Bela luz, esta de Lisboa! Belo Sol, este que banha o Mundo e a hora que se segue. Pereat mundus.

Imagem: Carmen Electra, lagunar…