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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

• AVE ADRIANO DUARTE SILVA

Adriano Duarte Silva foi um dos cidadãos mais ilustres da história de Cabo Verde. Foi, na verdade, as vésperas do 13 de Janeiro e o verdadeiro arquitecto de praticamente tudo o que Cabo Verde tem de estruturalmente de bom. Este juízo não é subbjectivo, é o juízo da história silenciada e enterrada.

Não celebrar um homem como ele é uma ingratidão tão profunda, mas tão funda que se torna inqualificável a falta de consciência histórica do povo cabo-verdiano. O dia do seu nascimento ou da sua morte deveria ser Feriado Nacional, pois não deve nada a Amílcar Cabral (pelo contrário!) e a nenhum dos ditos combatentes da pátria. E se tem um busto no Mindelo, tal se deve não à honras do Estado ou da edilidade da sua terra natal mas sim à boa e grata alma dos cabo-verdianos que o conheceram e se sabiam gratos pela obras que o seu labor legou à nossa terra, ao nosso Cabo Verde. E a nossa terra pode consumir o nosso corpo mas não deve consumir a nossa alma, a nossa memória.

Ave Adriano Duarte Silva!

Imagem: Adriano Duarte Silva em chegada a Lisboa

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

  • AS OBRAS EM CABO VERDE
           «O cais acostável de S. Vicente e o Porto Novo, em Santo Antão, a execução do plano rodoviário, a construção de aeroportos e pistas de aterragem, as obras de hidráulica agrícola, etc., são realizações que representam, sem dúvida nenhuma, um passo em frente — direi mesmo, um grande passo em frente.
          Não basta, porém, materializar obras. É preciso tirar delas resultados.
          […]
          Ora, não há dúvida de que se empregou muito dinheiro em Cabo Verde. Todavia, o que acontece é que, realizadas as obras, ou não se promove a sua reprodução, ou ficam aguardando o necessário complemento para a sua rentabilidade, sendo certo que alguns empreendimentos, lançados com todo o entusiasmo, ou não têm continuidade em ritmo apropriado, ou são abandonados, depois de grandes despesas, tornando-se inúteis.»
          ----- Bento Levy, deputado por Cabo Verde em intervenção no Parlamento do Estado Novo a 18-03-1964 (gosto deste ano!).
---------- in Virgílio Brandão: «Sol, Mar e Vento — Fundamentos do Desenvolvimento. Cabo Verde no Parlamento do Estado Novo II» (edição para breve).

PS: De notar que as realizações a que se refere este mui ilustre cabo-verdiano se devem, em grande parte, ao labor de um outro não menos ilustre mindelense: Adriano Duarte Silva, aquele que o Primeiro Ministro José Maria Neves e o Ministro da Saúde, Basílio Mosso Ramos, mandaram destruir a sua casa em S. Vicente. Lembram-se?

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

  • VOZES DE ATENTAR
Cabo Verde tem a triste sina das pessoas obscuras — Adriano Duarte Silva.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

  • VOZES DESPERTAS E AS NECESSÁRIAS EXPLICAÇÕES DE JOSÉ MARIA NEVES

Vale a pena reagir, vale a pena indignarmo-nos por estas questões? — pergunta Leão Lopes.

Ao que parece, não.

E temos de saber o porquê deste contrasenso: quer-se uma cidadania atenta, activa e responsável; mas mal diga alguma coisa, é oposição (quando não dizem, aos cidadãos da diáspora: venha para a terra, e depois fale...) ou apodada de anti-patriota e quejandos. E se faz alguma coisa, é ignorada, como se fosse mero atavio da democracia.

Segundo Primeiro Ministro José Maria Neves me disse, no Facebook, a questão fora discutida com a sociedade civil... mas, pelo que tem vindo a público, e não é novidade nenuma!, foi só uma parte ínfima da sociedade civil: a dos técnicos que, como também disse, se pronunciaram pela demolição. A maioria da população de S. Vicente estaria, inclusive, a favor da demolição...

Sim: O Primeiro Ministro deve ir à Assembleia Nacional, e explicar-se ao povo: mostrar os pareceres técnicos, dizer o porquê do Governo não ter aceitado as alternativas apresentadas e qua a razão da opção demolição da casa de Adriano Duarte Silva. É assim nas democracias; mais ainda nas democracias exemplares como a cabo-verdiana.
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  • Partilhe esta inquietação. Video disponível no youtube.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

  • A MACARONÉSIA DE JOSÉ MARIA NEVES E A MEMÓRIA COLECTIVA
Li na página do Primeiro Ministro José Maria Neves no Facebook que «Estive nas Canárias para participar na Cimeira dos Presidentes das Regiões Ultra-periféricas da União Europeia, que apoiou a proposta de Cabo Verde de criação da Região da Macaronésia pelos governos de Espanha, Portugal e Cabo Verde, envolvendo os quatro arquipélagos do Atlântico Norte - Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde. A Cimeira Constitutiva deverá realizar-se proximamente em Mindelo - São Vicente»

Uma iniciativa com empecilhos jurídicos consideráveis, mas louvável.

Mas olhe, cá está uma boa oportunidade para se homenagear alguns insignes cabo-verdianos mindelenses, como Adriano Duarte Silva (aquele que o Governo mandou destruir a sua casa, lembram-se? e que pensava, como pensa o Primeiro Ministro José Maria Neves, que Cabo Verde pode ser como as Ilhas Canárias) que defendia a proximidade identitária das ilhas macaronésicas e via no Porto do Mindelo um rival ao Porto de Las Palmas (e era-o, no seu tempo).

O mesmo se diga, v.g., Primeiro Ministro, de Bento Levy. Outro ilustríssimo cabo-verdiano mindelense que, inspirado no exemplo de Las Palmas e de Lanzarote, convenceu o Governo Português (e como se riram dele, por ter estas ideias!) de então a montar o primeiro dessalinizador em cabo Verde (na ilha de S. Vicente). Mais: os projectos de construção do Porto da Praia, de desenvolvimento do Aeroporto do Sal e de utilização de energias renováveis (eólica e solar) para a autonomia energética do arquipélago foram apresentadas ao Governo português do Estado Novo por Bento Levy e Francisco António Martins, no início dos anos sessenta! O devir da história política do país ditou outros rumos de desenvolvimento do país, mas o legado desses ilustres mindelenses ficou! E a razão da necessidade, cedo ou tarde, acaba por afirmar-se na história dos povos. E o Governo de José Maria Neves, um pouco tarde… mas mais vale tarde do que nunca, está a seguir as pegadas desses homens.

Estão esquecidos, mas não deveriam… e por isso me escandalizei, e continuo escandalizado!, com a demolição da casa que foi de Adriano Duarte Silva, do Dr. Fonseca (médico a quem, confesso: devo a vida). Mas não há mal que não se possa resolver, pois não? É uma boa oportunidade para homenagear esses cabo-verdianos do Mindelo. Vamos ver se o Governo tem verve para tanto…

sábado, 30 de outubro de 2010

SESSÃO PLENÁRIA DA ASSEMBLEIA NACIONAL DE OUTUBRO DE 2010

DECLARAÇÃO POLÍTICA

Senhor Presidente da Assembleia Nacional
Senhoras e Senhores Deputados
Senhoras e Senhores Mambros do Governo
Excelências,

A Ilha de São Vicente está de luto.

No dia 18 do passado mês de Setembro o Governo através do seu estado maior do Ministério das Infra-Estruturas, que viajou em peso para Mindelo, tal como foi dito no Aeroporto de São Pedro “viemos assistir de perto a demolição da casa, para que não fique nenhuma pedra sequer para contar a história daquele edificio”, matando de uma forma barbara a casa do Dr. Adriano Duarte Silva, como dizia o outro, de morte matada, mas os Deputados da UCID nesta Casa Parlamentar não podem deixar passar em branco o acto de destruição da casa do ilustre caboverdeano que foi o Dr. Adriano Duarte Silva sem lhe dedicar uma palavra de pesar que devia ser em forma de missa do trigésimo dia, mas que por motivos de agenda não foi possível.

Senhoras e Sernhores Deputados

Aproveitamos para lembrar que na reunião que teve lugar no Centro Cultural do Mindelo para apresentação pública do projecto da Delegacia de Saúde de São Vicente, com a presença do Senhor Ministro de Estado e da Saúde, Dr. Basílio Ramos, perante os argumentos daqueles que diziam que a Casa do Dr. Adriano Duarte Silva não era património histórico porque não estava classificado, o Presidente do Instituto de Investigação e do Património Cultural, Dr. Carlos de Carvalho, na presença de mais de duzentas pessoas, foi peremptório, levantou-se da cadeira e disse em alto e bom som, “aquele espaço, para todos os efeitos é património histórico”.

Senhoras e Senhores Sugeitos Parlamentares

O próprio Ministro da Cultura, Dr. Manuel Veiga, terá telefonado para os dirigentes do Movimento e dito “eu, como Ministro da Cultura só tenho que felicitar-vos por esta iniciativa e vou fazer aquilo que estiver dentro das minhas possibilidades para defender esse património”.

Senhoras e Senhores Deputados

Sendo certo que na nossa opinião o Governo agiu mal nessa materia, não é menos certo que a Câmara Municipal também e desde os anos noventa até ao fatídico dia 18 de Setembro, senão vejamos:

Primeiro por terem deixado ao abandono esse património emblemático da Cidade do Mindelo;

Segundo, porque a Câmara Municipal nos anos noventa por falta de visão política não equacionou as necessidades futuras para o municipio e vendeu o espaço ao lodo do Hospital Velho que naturalmente deveria ter sido reservado para a expansão da referida unidade hospitalar, por conseguinte e também o mais indicado para a edificação da tão desejada Delegacia de Saúde de São Vicente a construir de raiz.

Senhoras e Senhores Deputados

É nossa obrigação não deixar morrer a iniciativa do Movimento para a Salvaguarda do Património Cultural de São Vicente, pois é nossa convicção de que é dessa forma que TODOS devemos defender Cabo Verde na sua vertente mais visivel e mais importante que é a sua cultura.

Com a sua iniciativa o Movimento para a Salvaguarda do Património Cultural de São Vicente, prestou um grande serviço à Nação e para o conhecimento de todos convém ainda informar que querendo exercer com mais afinco a cidadania os seus Dirigentes entraram em contacto com os actuais proprietários do terreno que já referimos e localizado entre as traseiras da sede da OMCV e a entrada principal do Hospital Velho e por incrível que pareça os donos, terão dito “para construir uma importante infra-estrutura como é a Delegacia de Saúde, estamos disponíveis para negociar uma permuta com o Governo” que infelizmente não se interessou...

Admitimos que haja pessoas que ainda não tiveram oportunidade de interiorizar a importância do património histórico na vida dos povos, sendo-lhes portanto indeferente que esse espaço tenha sido demolido, pois a demolição foi não só uma monstruosidade, como também demonstrou uma falta de respeito para com as instituições uma vez ignorando a decisão da Assembleia Municipal que deliberou no sentido da sua preservação.

Senhoras e Senhores Deputados

Aproveitamos para informar que no passado mês de Janeiro deu entrada nesta Casa Parlamentar uma petição do referido movimento no sentido de solicitar uma deliberação que pudesse ajudar a defender a preservação desse património histórico, mas lamentam que uma tal petição que foi feita nos termos da Constituição, até porque para além da assessoria juridica do movimento um dos Dirigentes também já foi Deputado desta Casa Parlamentar, mas diziamos nós lamentam não terem sido dignos de uma resposta por mais locónica que fosse.

Assembleia Nacional, 21 de Outubro de 2010

Elaborado pelo Deputado da UCID: Lídio de Silva

segunda-feira, 25 de outubro de 2010


  • MEMÓRIAS DE CABO VERDE
A Praça Nova do Mindelo.1928. Um ano antes da Sexta-feira negra, e de outras coisas igualmente menos simpáticas.  Nesta praça, então, andavam — por volta dos anos vinte — Augusto Vera-Cruz, Adriano Duarte Silva, José Lopes, Alberto Atílio Leite, Baltasar Lopes da Silva, António Aurélio Gonçalves… e muitos outros ilustres mindelenses. Meio século depois, andava eu a passear nela, sem ver os montes ao fundo.

Hoje, não se vê o Mar, também…
O progresso — dizem.

Imagem: Praça Nova do Mindelo, São Vicente de Cabo Verde (1928).

domingo, 24 de outubro de 2010

  • VOZES E ATENTAR...
Cabo Verde tem a triste sina das pessoas obscuras — Adriano Duarte Silva.

Imagem: Avenida Marginal e Monte da Cara do Infante, Mindelo

domingo, 17 de outubro de 2010

  • A MÁ FÉ, A ILICITUDE DO ESTADO E A DESTRUIÇÃO DA CASA ADRIANA
A demolição da Casa Adriana, além de ser um horrendo atentado à memória e à cultura cabo-verdiana — revela o que já se sabia há muito: os poderes públicos sofrem de um laxismo atávico no que às coisas da cultura se refere —, tem contornos no plano jurídico que não devem passar em claro, que não se devem ignorar e demandam, necessariamente, uma explicação ao povo cabo-verdiano, em particular aos mindelenses e demais habitantes de S. Vicente.

A casa que foi de Adriano Duarte Silva, hoje prédio derrubado, era propriedade da Câmara Municipal ou do Governo? É algo que muitos perguntarão, e quererão saber; legitimamente. Há meses, quando o Movimento de Defesa da Casa Adriana se movimentava para agir judicialmente no sentido de preservar o imóvel, pedi a Certidão de teor da mesma a fim de confirmar a titularidade da propriedade em causa. As razões não são agora chamáveis à colação, mas a verdade é que o documento nunca chegou à minha posse, e penso que também não chegou à da mandatária do Movimento no Mindelo e a de um Deputado da Nação que mostrou interesse na matéria e solicitou, também, o documento registral.

A titularidade formal da Casa Adriana, que se prova pela respectiva inscrição na Conservatória respectiva, parecia ser ou (i) questão controvertida entre as Administrações Central e Local do Estado ou (ii) então se admitia a validade erga omnes de um negócio verbal entre o Município de S. Vicente e o Governo e que não teria, então, sido concretizada por mora no cumprimento por parte da Administração Central. É uma questão que deve ser esclarecida aos cidadãos, pois a questão da titularidade — a identificação do proprietário do imóvel — é uma questão de enorme importância nesta matéria; assim como o esclarecimento de todos os contornos do negócio entre o Município e o Governo sobre a casa que foi de Adriano Duarte Silva (esta última parte deverá ser esclarecida por quem nela participou, e o dossier da mesma existe; existirá, digo…). O que se torna um imperativo moral numa época em que uns e outros se acusam mutuamente de envolvimento em acções obscuras, ilícitas e ilegais em torno de propriedade alheia, nomeadamente da usurpação e venda de propriedade pertencente a outrem. A Casa Adriana, também ela, está neste rol de ilicitudes que precisa de ser deslindado!

O Movimento de Defesa da Casa Adriana queria propor uma Acção Popular com vista a salvaguardar o património arquitectónico, cultural e memorial representado no edifício, mas não era possível propor-se a acção porque, na perspectiva de muitos que não a minha, note-se! “não havia legislação” ordinária que desse cumprimento à Constituição; como continua a não haver, por omissão do poder legislativo, i.e., dos deputados da nação! Estes são, neste termos e de forma mediata, culpados por omissão ao não terem aprovado o instrumento legislativo que regula o Instituto jurídico que a Constituição demanda. Quer se queira quer não, os deputados da nação — todos os que, podendo, nada fizeram para cumprir e fazer cumprir com a Constituição — são responsáveis morais desta desgraça sofrida pelo povo mindelense e por terem caucionado por omissão a acção do Governo.

E tivessem os demais companheiros do Movimento de Defesa da Casa Adriana avançado com a Acção Popular, deixando a questão da interpretação da Constituição para os tribunais e não andassem a fazer juízos ex ante ou de prognose sobre as possibilidades ou não da procedência da Acção Popular (o que se fez porque, parece-me, não se ter vislumbrado devidamente a natureza do instituto em si), e hoje teríamos, nós cidadãos, fundamentos sobejos para propor uma Acção de Responsabilidade Civil por Factos Ilícitos Contra o Estado e a possibilidade de exigir a reconstrução do edifício derribado; ilicitamente demolido por ordem do Governo, como veremos.

Na verdade, em tal situação jurídica processual (mesmo admitindo que o competente Juiz de Direito em S. Vicente entendesse que “a falta de legislação ordinária” impede o exercício de um direito fundamental; o que levaria o processo ao Supremo Tribunal de Justiça e ao STJ/Constitucional em sede de recurso), não creio que, hoje, estivéssemos perante o facto consumado da demolição: o Governo nunca avançaria para a demolição de um edifício sujeito a juízo, e em litígio jurisdicional; em particular por ter consciência de que agia contra o Direito. Ter-se-ia, então, tempo para se encontrar soluções alternativas — nomeadamente pela via negocial, que se tornaria, então, necessária para todas as partes interessadas; isto é, o Governo, o Município e os cidadãos incidentalmente encarnados no Movimento de Defesa da Casa Adriana. Pareceu-me, a data, que tal era uma evidência. Mas não era; assim como outras coisas — v.g., negociar com o Governo — não o eram para muitos… Dizia-me José Lopes, a propósito desta questão, que perdemos [i.e., o Movimento de Defesa da Casa Adriana] um encontro com a história ao não agir no momento devido. E concordo com ele; em parte. Pois o Mestre Lao Tse diz-nos que a sabedoria consiste em agir ou não agir na hora certa e no momento certo (lógica precursora da teoria da causalidade adequada).

Mas o que fazer numa situação em que as circunstâncias conspiram contra os objectivos? O povo, parafraseando Shidhartha Gautama diz que «mais vale só do que mal acompanhado». Mas esta asserção não é vox Dei, não; é uma simplificação excessiva do que diz o Mestre, de forma esclarecedora: «Numa viagem, um homem deve andar com um companheiro que tenha a mente igual ou superior a sua. É melhor viajar sozinho que em companhia de um tolo.» E não foi nem era por mero acaso que alguém chamava aos demais que constituíam o Movimento de Defesa da Casa Adriana de “companheiros”: i.e., via-os como homens bons, bem-intencionados, iguais ou superiores a si mesmo. Companheiros que, segundo Sócrates, nos tornam pessoas melhores ao fim da caminhada; é que de outro modo está-se sempre só na senda necessária — como ensina Shidhartha —, ainda que se tenha uma multidão como companhia. Mas dizia-lhe, prezado leitor, que não era então — há poucos meses — líquido quem era proprietário do imóvel: (i) o Estado Central, i.e., o Governo, ou (ii) o Estado Local, i.e., a Câmara Municipal de S. Vicente. O que é certo é que era e é do Estado! Mas parecia haver algum secretismo em volta do facto, que se compreende agora; pelo menos para quem está habituado a lidar com papéis.

A coisa pública não pode nem deve ser tratada com leveza; e o exemplo da forma como o património do Estado é tratado em Cabo Verde é tudo menos um exemplo de boa governação! Além do conflito do Governo com as Autarquias sobre a titularidade de património do domínio do Estado existem, além desta da Casa Adriana, outras situações que não se pode compreender: O Estado não deve ofertar (como parece ser hábito em Cabo Verde, com as autoridades judiciais a “dormirem na forma”) e/ou destruir património colectivo; pelo contrário: deve preservá-lo, em particular se tiver valor histórico, cultural e afectivo para a comunidade. Neste aspecto o Governo e as Autarquias têm estado mal, muito mal.

Mas, dir-me-á o cidadão que está a ler este texto que o Governo precisa de construir a Delegacia de Saúde do Mindelo, e precisaria ou precisa daquele espaço. É um juízo que faz sentido, mas só em parte… pois o Mundo não é somente parte mas o todo. Compreendo que S. Vicente precise de uma Delegacia de Saúde moderna, funcional e que sirva de forma adequada e digna as necessidades das gentes da Ilha do Monte Cara. É algo cuja construção tarda há muito; é um imperativo social cujo valor e necessidade não estão e não poderão estar em causa. Ninguém questiona isso. É preciso ser-se néscio para não se perceber esta necessidade; e o povo do Mindelo só pode queixar-se da demora na iniciativa da sua construção.

Mas será que o espaço onde está a Casa Adriana é o local mais adequado para tal? Esta é a questão, e tenho as minhas dúvidas de que seja! Mas estas dúvidas são emergentes de um outro aspecto da questão, e é mais ampla: da ideia de Cidade e do modelo de desenvolvimento de S. Vicente, o que fica para momento oportuno. Seja como for, o Estado encontra-se vinculado a determinados procedimentos na formação da sua decisão: as decisões que afectem direitos fundamentais individuais e colectivos não são discricionárias. Mas ainda que se estivesse perante uma decisão discricionária, o que não é o caso!, o Governo — a cabeça da Administração do Estado — teria sempre de fazer a escolha certa, i.e., a escolha mais adequada aos interesses dos cidadãos e do Município!

Ao fazer isso — estando em causa um conflito (i) dos direitos à cultura e à memória histórica e a (ii) edificação de uma estrutura de cuidados de saúde (podemos falar, neste plano, de direito à saúde ou a cuidados de saúde) — o Governo teria de procurar a concordância prática entre eles, tentando realizar ambos os direitos. Não tinha, necessariamente, de haver uma cedência de um destes direitos; até porque não estava nem está em causa uma colisão de direitos mas sim um conflito de direitos que, no âmbito da escolha certa ou da boa decisão, poderia — porque deveria — realizar ambos os direitos. Mas não no mesmo local, pois parece-me, ao contrário do que aventou Corsino Tolentino no programa Voz Global da RTC, que tal não era passível de realizar os fins expectáveis da preservação da Casa Adriana com os de uma Delegacia de Saúde. Não estavam, e nem estão!, em causa “interesses” — como diz Corsino Tolentino —, ainda que interesses legítimos, não: estão em causa direitos fundamentais dos cidadãos e da comunidade no seu todo (é que existe uma diferença de substância entre interesse legítimo e direito subjectivo fundamental; pelo menos para o Direito Administrativo que enforma esta questão no plano adjectivo).

A lógica compreensiva da situação demandava uma solução objectiva: a concordância prática dos direitos em conflito; o que levaria, necessariamente, à preservação da Casa Adriana. A lógica do juízo de Corsino Tolentino seria inatacável na solução (reforma do edifício para nela se instalar a Delegacia de Saúde) se (i) não existisse nenhuma outra alternativa para se construir o equipamento social de Saúde e (ii) o Estado se visse perante o dever urgente de eleger uma solução. Não era nem é o caso: existiam várias alternativas, e a única urgência do Governo é a proximidade das eleições. Aliás, parece que se entrou na época da urgência orgástica de se fazer tudo o que não se fez nos últimos dez anos… A decisão de demolir não podia ser mais errada: no plano da lógica de decisão política enformada pelos direitos fundamentais, i.e., do Direito enquanto expressão da razão e do espírito do bem da comunidade que se deve procurar na concordância prática dos bens jurídicos fundamentais da mesma. Isto é o mais primário da teoria dos direitos fundamentais e da lógica da decisão política; da escolha certa que demandava uma outra decisão.

E o que faz Governo? Ignorou tudo isso, ostensivamente (o Primeiro Ministro José Maria Neves disse-me no Facebook que a questão foi discutida com a sociedade civil, e que técnicos avaliaram a solução; mas que técnicos, e que pareceres? O Governo, que propala a Administração transparente, deve apresentar os Pareceres técnicos que fundamentaram a decisão; estes devem ser sujeitos ao escrutínio público para se compreender a lógica e a racionalidade da decisão governamental); com a agravante, como se verá, de ser uma demolição ilícita e com consequência políticas consideráveis.

Foi proposto ao Governo — não sei se em tempo ou fora de tempo, o que é irrelevante ao caso e perante os valores em causa — a construção da Delegacia de Saúde em outro local: vários locais alternativos. Mas não! O Governo não quis locais alternativos; e mandou demolir um edifício histórico e com história, sem com isso obter uma mais-valia social e qualificada para os mindelenses. (Caberá a si, prezado leitor, chegar à conclusão do porquê do Governo não querer locais alternativos…) As duas coisas poderiam e deveriam existir, para o bem de todos. E o Governo deu esperanças à sociedade cabo-verdiana de que tal seria possível quando o Ministro da Saúde disse que tinha de ser ali, no local da edificação da Casa Adriana, porque “não havia terrenos no Mindelo” (note-se que limitou tal à cidade e não à Ilha! Onde há terrenos para se oferecer à Marcelo Rebelo de Sousa, Isaltino de Morais e sabe-se lá a quem mais… mas não para uma Delegacia de Saúde!).

Apareceram os terrenos, os locais para se construir a Delegacia de Saúde; e a resposta do Ministro e do Governo foi a demolição surpresa. E só poderia se de surpresa! E porquê? Porque a decisão de demolir, além de ser (i) um acto administrativo inconstitucional no plano compreensivo do respeito devido aos direitos fundamentais dos cidadãos, resulta, também, (ii) ilegal e (iii) eivado de irracionalidade política decisória pois o proprietário da casa que foi de Adriano Duarte Silva não é da Administração Central do Estado mas sim do Município de S. Vicente! Mau grado o registo Nº.332/2 da respectiva matriz predial urbana esteja, ainda, em nome da Fazenda Nacional (por “incumprimento da Direcção Geral do Património do Estado”, segundo a Câmara Municipal de S. Vicente).

Mas o plano legal vai mais longe, como veremos. Antes há que anotar que no plano moral e da ética democrática o Governo falha de forma estrondosa ao criar expectativas legítimas nos cidadãos de que a Casa Adriana não seria destruída caso houvesse lugar alternativo para se construir a Delegacia de Saúde. E os cidadãos — nomeadamente o Movimento de Defesa da Casa Adriana, com a minha expressa desconfiança! — acreditaram no Ministro da Saúde, em particular depois de ser enviado ao Governo uma decisão da Assembleia Municipal de S. Vicente a defender a não destruição do edifício. Tudo indicava, já nessa altura, que a má fé governamental nesta questão era consciente e programada.

As expectativas dos cidadãos foram goradas, e a sua confiança igualmente destruída com a Casa Adriana: o Governo demoliu a confiança dos mindelenses na sua Administração e na sua palavra. Como podem os mindelenses confiar num Governo que não sustenta a confiança depositada na lógica das suas decisões, da palavra dada publicamente e que destrói o património alheio como se fosse seu para nele construir infra-estruturas do Estado? — temos, nós cidadãos, de perguntar.

Mas esta questão da tutela da confiança, e da boa fé subjacente se manifesta num outro momento, e com outros contornos: no negócio em que o imóvel que foi de Adriano Duarte Silva passaria da esfera jurídica da Administração Central para a Administração Local, i.e., por troca [permuta] com terrenos urbanos do Município de S. Vicente, onde, nomeadamente, se edificou o actual Tribunal Judicial de S. Vicente. A propriedade é, neste caso, da Câmara Municipal de S. Vicente — ainda que o contrato não tenha sido formalmente celebrado e registado (por incumprimento da Direcção Geral do Património do Estado, reitera-se). Dir-me-á um jurista atento que tal negócio, a existir, por ter natureza formal, é nulo por inexistência deste requisito formal que, ao que tudo indica, inexiste. E é, será, verdade se se verificar a falta de contrato formal. Mas a nulidade formal de um negócio jurídico não quer dizer que não deva ser cumprido se houver compromisso contratual nesse sentido e for cumprido por uma das partes de boa fé, não é?

A boa fé, o exemplo da pacta sunt servanda (os contratos devem ser cumpridos) deve começar no Estado, ou não? E se o Município de S. Vicente cumpriu com a sua parte no negócio, não deve(ria) o Governo cumprir, também, com a sua parte? É legítimo e admissível que o Governo faça uma permuta com a Câmara Municipal de S. Vicente, enquanto executivo do Município, e fique com ambos os imóveis? Sim, com o da Câmara Municipal (onde construiu o Tribunal de S. Vicente) e com o formalmente seu (a casa que foi de Adriano Duarte Silva)… Se fosse um particular a agir deste modo: incumprisse com o contratado, usurpasse imóveis alheios, apossasse deles e fizesse-os seus, seria justamente demandado judicialmente e acusado dos crimes de burla!, destruição de bem alheio, e sabe-se lá do que mais. O Estado, nomeadamente o Governo, a Instituição Governo, deve dar o exemplo aos cidadãos…

O que, neste contexto, torna a demolição da casa que foi de Adriano Duarte Silva um acto ilícito do Governo; o que faz o Estado Central incorrer em Responsabilidade Civil por Acto Ilícito por usurpação de bem imóvel alheio — do Município de S. Vicente — e abuso de poder ao mandar demolir o imóvel e colocar o Município perante o facto consumado. Isso para, posteriormente, invocar a Acessão Industrial Imobiliária ou negociar com a Câmara Municipal uma solução qualquer de circunstância conjuntural propondo ao Município uma indemnização qualquer por destruição de bem alheio, passando a questão à margem da cidadania e dos tribunais competentes. É a lógica do dono da bola ou do dono da faca e do queijo que, convenhamos, não tem nem pode ter lugar num Estado de Direito Democrático. O Município não pode aceitar esta lógica autoritária e abusiva que vai para além do exercício inadmissível de um direito mas consubstancia um verdadeiro abuso do Direito.

Neste plano, o Município tem o direito — e o dever!, do meu ponto de vista — de exigir judicialmente a reconstrução integral da casa que foi de Adriano Duarte Silva. O governo que construa a Delegacia de saúde noutro local! Neste caso, o Município deveria ponderar a afectação do edifício à cultura e actividades cívicas que sirvam como testemunho futuro da resiliência da cidadania perante o abuso do poder e o arbítrio dos governantes. E, porque não?, ponderar a possibilidade de disponibilizar o imóvel reconstruído para a instalação da futura sede do Provedor de Justiça que tanta falta faz ao povo de Cabo Verde em situações de violação de direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Ademais, é tempo de começar a haver instituições fundamentais da República noutras ilhas que não na Capital. A descentralização deve ser um facto e não mera retórica governamental.

O Governo, ao agir como agiu, violou as regras da boa fé negocial; violando princípio básicos como a boa fé e a Justiça: não cumpriu com o contratado (pacta sunt servanda), não o seu ao seu dono (suum cuique tribuere) e prejudicou material e moralmente o Município e os seus munícipes (alterum non laedere). E quem prejudica, deve reparar o mal causado. E a situação em causa tem contornos dolosos: O Governo tinha consciência, não poderia deixar de ter, de que a casa que foi de Adriano Duarte Silva, ao se apossar dela e proceder à sua destruição, não lhe pertencia, que violava um contrato, ofendia um bem jurídico de outrem e prejudicava o Município no plano patrimonial, social e político.

Imagine o cidadão que a casa de que foi de Adriano Duarte Silva era a sua casa e não do Município … Se o Governo faz isso a um Município — e da forma como o fez —, o que não fará ou poderá vir a fazer a um cidadão se não se travar esta forma de agir? Nem as instituições nem os cidadãos devem ficar calados; poderão estes perder comendas, medalhas e outras condecorações para o ego calar-se, mas não deverão a consciência de fazer o que acharem ser o mais justo.

A iniciativa mais adequada está nas mãos dos eleitos à Assembleia Municipal de S. Vicente, na Presidente da Câmara Isaura Gomes, e do Ministério Público; este tem o particular dever de agir e abrir o Inquérito judicial devido para se investigar as responsabilidades devidas e a sua natureza. Aos Senhores deputados da nação, peço quatro coisas:

(i) que tomem a iniciativa de abrir um Inquérito Parlamentar sobre esta questão, pois está em causa, também, a independência dos Municípios perante o Estado Central (e, a final, tomem a decisão de aconselhar a revisão da legislação dos contratos entre os entes públicos, e a transparência dos mesmos);

(ii) que aprovem com urgência a Lei sobre a Acção Popular (cuja inexistência trunca a acção da cidadania activa, e viola a constituição ao afectar, por omissão, o conteúdo essencial de um direito e de uma garantia fundamental) e, caso não tenham tempo para tanto, pois podem ter outras leis “mais importantes” com que curar em fim de Legislatura,

(iii) que aprovem a Lei de Iniciativa Legislativa dos Cidadãos que estes se encarregarão de apresentar na Assembleia Nacional um projecto de Lei de Acção Popular;

(iv) que cheguem a um consenso, e instale-se o Provedor de Justiça, o Defensor do Povo (Ah!, como o povo precisa de que o defenda… e pelos vistos não é somente o povo). O povo agradece! É que vilipendiado, sem quem o defenda, e amarrado numa teia de omissões legislativas para não se poder defender… não dá mais! Isto não é um Estado de Direito pleno, não! Não nos enganemos a nós mesmos. «Quem não luta por si não luta por ninguém» — já dizia Francis Bacon.
--- Prima forma: Liberal on line

sábado, 16 de outubro de 2010

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

  • VOZES DE ATENTAR
O que pretendo é que se não volte de novo ao princípio e se recomecem estudos de que nada de positivo venha a resultar. É preciso ter em vista que o que se pretende são obras, e não estudos, e que estes são um meio, e não um fim — Adriano Duarte Silva.

--- Imagem: Adriano Duarte Silva

domingo, 10 de outubro de 2010

  • VOZES DE ATENTAR
O desprezo das realidades gera quase sempre o fracasso. Constitui tarefa difícil e arriscada pretender transformar de um momento para outro a economia de qualquer país. — Adriano Duarte Silva.

Imagem: Prohibited book — Luis Royo

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

MEMÓRIAS DE UM POVO INGRATO

«Se a Mãe Pátria, em vez de alargar os direitos dos naturais das Colónias, os restringe e anula, como poderá ela esperar que os mesmos lhe correspondam com dedicação e patriotismo, se são tratados como enteados e não como filhos? O exclusivismo racista leva os povos à ruína e à morte!
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Temos que concordar que, para um país que se diz adepto da política de assimilação, esta progressiva diferenciação entre metropolitanos naturais das Colónias não constitui um índice de grande capacidade civilizadora» — Adriano Duarte Silva no Parlamento português durante o Estado Novo.

| A LUTA PELO PROGRESSO DE CABO VERDE: ADRIANO DUARTE SILVA E AMÍLCAR CABRAL

Ouvi na RCV, no programa Directo ao Ponto,  a posição do Dr. Júlio Correia sobre a demolição da casa que foi de Adriano Duarte Silva no Mindelo… e da sua referência à deposição do busto do mesmo depois da Independência e da sua posterior reposição no local: em frente ao Liceu Gil Eanes, estabelecimento de ensino que o mesmo foi um dos promotores. Por maioria de razão, a casa deste defensor das ilhas de Cabo Verde, nomeadamente do seu desenvolvimento social, económico e humano num período particularmente difícil não deveria ser reconstruída, ainda mais neste tempo de aprendizagem da democracia?

É pena que a nossa gente, nomeadamente a política, não tenha a consciência histórica bastante para perceber que a acção de Adriano Duarte Silva como representante de Cabo Verde no Parlamento português do Estado Novo foi, era e é uma luta análoga àquela que Amílcar Cabral e demais companheiros se lançariam rumo à Independência: «Nós enfrentamos o problema não só da libertação mas também do progresso do nosso povo (Amílcar Cabral, Unidade e Luta, VII). E este progresso é, ainda, o grande desafio de Cabo Verde. E poucos cidadãos — para não dizer nenhum…— fizerem tanto, pela sua acção individual, por Cabo Verde como Adriano Duarte Silva.

Adriano Duarte Silva foi o político precursor da ideia de um Cabo Verde desenvolvido, com estruturas bastantes para o povo das ilhas viver dignamente. E no Liceu do Mindelo, pelo qual Adriano Duarte Silva lutou para S. Vicente, estudou Amílcar Cabral; este que se tornou, para muitos, uma espécie de eucalipto da memória dos homens de bem da história de Cabo Verde. O devir social não acontece por geração espontânea: muitos deixaram as sementes para o progresso de Cabo Verde. Mas parece que as obras que fazem em Cabo Verde, sejam elas o que forem, não tem fundações…

A luta de Amílcar Cabral e a de Adriano Duarte Silva eram a mesma luta: a luta pelo progresso de Cabo Verde! O momento histórico e a matriz politica e social dominante os diferencia, assim como a forma de luta: um usou a arma, outro o trivium e a diplomacia. Sobre os resultados da acção de Adriano Duarte Silva se tem hoje os portos do Mindelo e de S. Antão, e uma geração de homens e mulheres que honram a pátria cabo-verdiana, inclusive Amílcar Cabral. Ironia das ironias seria o Ministro que mandou demolir a casa de tão ilustre e resiliente cabo-verdiano tivesse estudado no Liceu Gil Eanes… que tivesse beneficiado do progresso que Adriano Duarte Silva lutou para Cabo Verde. |

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

CONFERÊNCIA DE IMPRENSA EM 21/09/2010
Maurino Delgado

O objectivo desta conferência é reagir contra a demolição da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, lançar o grito de revolta face à destruição do património histórico de São Vicente e pedir a todos os cabo-verdianos dentro e fora do país para promoverem manifestações de protesto contra a destruição do património histórico e em defesa da democracia.

O Movimento para a Salvaguarda da Casa do Dr. Adriano como património Cultural, começa por manifestar a sua profunda indignação pela demolição desta Casa na fatídica manhã de 18/09/2010 por decisão do Governo e da Câmara Municipal de São Vicente.

Lamentavelmente, a prepotência e a irresponsabilidade do Poder sobrepuseram à opinião pública esclarecida.

Quando o Governo ignora a vontade expressa do Senhor Presidente da República e da Assembleia Municipal de São Vicente que a nosso lado se posicionaram em defesa desse património, estamos perante uma situação política grave e preocupante que interpela todas as pessoas que desejam viver em paz e em democracia em Cabo Verde.

Por esta razão, com a experiência da vida e dos anos por factos vividos, queremos pedir a todos os cabo-verdianos, dentro e fora do País para connosco reflectirem sobre esta decisão que foi fortemente contestada pela sociedade civil num processo que se arrastou por mais de um ano.

Fazemos esse apelo porque há momentos especiais que decidem positiva ou negativamente o destino das pessoas ou dos povos.

Vivemos um desses momentos. Infelizmente, nem sempre temos a consciência exacta da natureza dos factos ou a coragem suficiente para agir no momento certo. Estamos num desses momentos em que temos que agir para dar resposta firme a esse acto de tamanha afronta para defender a nossa democracia.

Em 1980, eu, Maurino Delgado, com o meu voto, na qualidade de deputado do PAICV, foi aprovado o tão falado artº4º da Constituição da República que consagrava o PAICV em partido único.

Com este acto político atrofiamos o desenvolvimento intelectual e político do povo de Cabo Verde, o desenvolvimento económico e social destas Ilhas e criamos as condições para que em determinados momentos fossem cometidos os maiores abusos e atrocidades por parte do Poder. ( Deixando uma pequena nota para dizer que o padre Fidalgo também deputado foi o único que pôs em causa a proposta do artº4º, porque nessa altura ele já era uma pessoa politicamente mais avançada).

Os acontecimentos trágicos da reforma agrária em Santo Antão, em que várias pessoas foram barbaramente torturadas, conforme relata o livro de Onésimo da Silveira, a “Tortura em nome do partido Único” é um exemplo disso. Foi um acto propositado do Poder para reprimir e servir de exemplo aos que ousassem exprimir as suas ideias contrárias.

Poderão perguntar por que trazer aqui esse facto? É que temos que conhecer os factos históricos para em cada momento orientarmos a nossa vida.

Estamos a viver um momento desses. As pessoas que de facto dominam o poder não aceitam ser questionadas nas suas decisões e estão a agir autoritariamente.

A nivel do Governo e da Câmara Municipal alguém decidiu que a Casa do Dr. Adriano devia ser demolida para dar lugar a construção da Sede da Delegacia de Saúde de São Vicente. Pretensiosamente, querem apagar parte da nossa história para fazerem a sua numa atitude de arrogância sem precedentes.

Esta decisão foi fortemente contestada pela opinião pública esclarecida através de documentação histórica e depoimentos de pessoas abalizadas. O Senhor Presidente da República também se posicionou a favor da preservação desse espaço. A Assembleia Municipal de São Vicente deliberou a sua preservação. Qual foi a resposta das pessoas que dominam o poder? Demolir esse património sem dar cavaco a ninguém. Este acto é um exemplo acabado da cultura anti-democrática daqueles que dominam o poder.

Trata-se de um acto grave que ultrapassa os limites da boa convivência democrática e do respeito das instituições. Trata-se de um acto repressivo exercido conscientemente, tal como na altura da reforma agrária, que tem por objectivo amedrontar e desencorajar a sociedade civil de exercer a sua cidadania. A democracia foi posta seriamente em causa. Isso envergonha o povo de Cabo Verde. Isso é um mau exemplo para a nossa juventude que precisa de referências e de conhecer os nossos homens ilustres.

Recorrentemente, diz o Senhor Primeiro - Ministro, que em democracia as instituições têm que funcionar.

Contrariamente, as nossas instituições não funcionam na normalidade. Num Estado de Direito de facto e num País de desenvolvimento Médio a sério, seria inimaginável a demolição da Casa do Dr. Adriano.

Aceitamos que muitos não estejam de acordo com o que acabamos de afirmar porque, infelizmente, em Cabo Verde tudo é partidarizado, o que tem prejudicado a discussão das ideias, a democratização e o desenvolvimento do País.

No entanto, admitimos que haja pessoas que ainda não tiveram oportunidade de interiorizar a importância do património histórico na vida dos povos, sendo-lhes portanto indiferente que esse espaço seja utilizado para a construção da Sede da Delegacia de Saúde. Porém, outras há, que sabendo perfeitamente o valor do património histórico, este país não lhes diz nada, não têm orgulho nacional, estão apenas preocupadas com o poder e é por isso que a Casa do Dr. Adriano começou a ser demolida.

É inaceitável que os Governos, tanto a nível do poder Central como do Poder local, estejam a destruir ou a deixar destruir, gratuitamente, o património histórico desta Ilha.

Voltando à questão da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, não vamos entrar em detalhes do processo da salvaguarda da referida Casa porque muito já se falou sobre o assunto e sem margem para dúvidas ficou demonstrado que ela era um património histórico, dos mais emblemáticos desta Ilha e deste País.

Mas, se outros argumentos não houvessem, bastava o facto do Senhor Presidente da República se ter pronunciado a favor da salvaguarda desse património e de ter, no dia 2 do passado mês de Agosto, no acto da condecoração de cidadãos residentes nesta ilha que se distinguiram no domínio da cultura, ter lançado o apelo aos artistas e a todos os cabo-verdianos para não deixarem destruir o património histórico, bastava esse apelo e essa vontade do Senhor Presidente da República, que é o garante da unidade da Nação e do Estado, que vigia e garante o cumprimento da Constituição, para que o Governo e a Câmara Municipal repensassem a sua propositada intenção de destruir esse valioso património cultural.

É muito preocupante o facto do Governo ter ignorado uma deliberação da Assembleia Municipal que recomendou a salvaguarda desse património e a construção da Delegacia de Saúde num outro espaço, através de uma deliberação com votos favoráveis das bancadas da UCID e do MPD e a abstenção da bancada do PAICV, abstenção que nessas circunstâncias equivale a um voto favorável, pois em nenhum momento defendeu o projecto do Governo.

È preocupante o facto do Governo ter ignorado as recomendações de destacadas personalidades da Sociedade Civil e de especialistas que vêm recomendando a necessidade de dar maior atenção às questões de defesa, conservação e reanimação dos nossos testemunhos histórico-culturais.

É preocupante o facto do Governo ter ignorado as disposições da carta de Washington sobre cidades históricas promovida pela Unesco.

É preocupante o facto do Governo fazer tábua raza do seu próprio Programa de Governação aprovado pela Assembleia Nacional.

É preocupante o Governo agir contra os pareceres dos seus próprios serviços.

Lembramos que na reunião no Centro Cultural do Mindelo para a apresentação pública do projecto da Delegacia de Saúde de São Vicente, com a presença do Senhor Ministro da Saúde, Drº Basílio Ramos, perante os argumentos daqueles que diziam que a Casa do Dr. Adriano não era património histórico porque não estava classificado, o Presidente do Instituto de Investigação e do Património Cultural, Dr. Carlos de Carvalho, na presença de mais de duzentas pessoas, foi peremptório: - Levantou-se da cadeira e disse em alto e bom som para toda a gente ouvir, inclusive o Senhor Ministro da Saúde que se encontrava presente: – “Aquele espaço, para todos os efeitos é património histórico”. Uma nota curiosa nesse encontro- o Senhor Ministro não disse uma única palavra e agora se percebe que a decisão de destruir a casa já estava tomada.

O próprio Ministro da Cultura, ao tempo, Dr. Manuel Veiga telefonou para o Movimento e disse: “eu, como Ministro da Cultura só tenho que felicitar-vos por esta iniciativa e vou fazer aquilo que estiver dentro das minhas possibilidades para defender esse património”.

É preocupante que o Governo e a Câmara Municipal de São Vicente ignorem a Constituição da República que no artº 79 da Constituição: “ diz que incumbe especialmente ao Estado - promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, histórico e arquitectónico. O Estatuto dos Municípios, Lei nº 134/IV/ 95, no seu artigo 36º, diz que uma das atribuições do Município é proteger e conservar o património histórico, cultural e artístico de interesse municipal”.

No entanto o Miradouro Craveiro Lopes já foi destruído, o Fortim d’Del Rei, está em perigo, o Clube de Golfe de São Vicente está em perigo, o cinema Éden Park está em perigo, a construção do Ponte de Agua não teve em conta os aspectos históricos daquela praia. Tudo isso vem acontecendo porque a Constituição e demais leis do país não estão a ser respeitadas, o Governo e a Câmara Municipal de São Vicente não têm uma política conjunta de protecção e salvaguardar do património cultural desta Cidade.

No entanto, o Sr. Primeiro-Ministro farta-se de fazer discursos a favor do património histórico, e diz a toda a hora “Vamos desenvolver a indústria da cultura;” “Elegemos o turismo como motor de desenvolvimento do país” e, no entanto, o nosso património cultural que é um elemento importante para a concretização desta política está a ser destruído.

Há uma falta de coerência entre o discurso e a acção governativa.

Continuando: - Desde o mês de Abril deste ano tudo fizemos para que o Senhor Primeiro-Ministro nos concedesse uma audiência. Esteve quatro vezes em São Vicente, nunca teve tempo para receber o Movimento para a Salvaguarda do Património histórico, porque trazia sempre a agenda sobrecarregada, era desculpa, quando o Senhor Primeiro-Ministro teve tempo para se deslocar a São Vicente para assuntos muito menos importantes. Disponibilizamo-nos para deslocar à Cidade da Praia, não recebemos nenhuma resposta. Fomos desrespeitados e enganados. Isso é ofensivo e não fica bem a um Primeiro-Ministro.

Por isso, protestamos e denunciamos a atitude discriminatória do Sr. Primeiro-Ministro porque governar um país é uma grande responsabilidade que começa em saber ouvir toda a gente sem descriminação.

No tocante a Assembleia Nacional: Em princípios do mês de Janeiro deste ano, um grupo de cidadãos deu entrada na Assembleia Nacional de uma petição a favor da salvaguarda da antiga residência da Família Duarte Silva, ameaçada de ser destruída por decisão do Governo com a cumplicidade da Câmara Municipal de São Vicente, pedindo que a questão fosse discutida.

Nunca recebemos qualquer resposta. A petição foi feita nos termos Constitucionais, nomeadamente na parte que diz que todos os cidadãos, individual ou colectivamente, têm o direito de apresentar, por escrito, aos órgãos de soberania ou do poder local e a quaisquer autoridades, petições, queixas, reclamações ou representações para defesa dos seus direitos, da Constituição, das leis ou do interesse geral e bem assim o direito de serem informados em prazo razoável sobre os resultados da respectiva apreciação.

Insistimos junto do Senhor Presidente da Assembleia que o Governo não podia avançar com o projecto enquanto a Assembleia não se pronunciasse sobre a petição. Nunca recebemos qualquer resposta. É sabido que a Assembleia Nacional não dá atenção às petições dos cidadãos. São metidos na gaveta.

Quando quisemos exercer o direito de acção popular junto dos tribunais nos termos constitucionais que diz que é garantido, nos termos da lei o direito de acção popular, designadamente para a defesa do cumprimento do estatuto dos titulares de cargos públicos e para a defesa do património do Estado e demais entidades públicas, no caso concreto da Casa do Dr. Adriano, os juristas nos dizem que existe a norma constitucional, mas não há lei a regulamentar a norma e consequente a norma não tem eficácia.

Falemos dos Deputados nacionais: Num universo de setenta e dois deputados apenas quatro levantaram a sua voz para defender a Casa do Dr. Adriano como património histórico. Destaca-se o Dr. Lídio Silva que tem sido incansável na sua luta. O Engenheiro António Monteiro, o Dr. António Pascoal Santos e o Dr João Medina. É lamentável o desinteresse da nossa Assembleia numa questão tão importante. A Assembleia faz muito barulho mas produz muito pouco. Os deputados na sua generalidade tratam dos assuntos dos partidos políticos na sua luta pelo poder mas omitem os interesses dos cidadãos que os elegeram.

Falemos dos nossos Vereadores: Não se nota a existência deles.

Referindo de novo ao Senhor Presidente da República: Depois de nos ter dado o seu apoio e toda a força nesta luta, muito recentemente veio a S: Vicente e atráves dos Órgãos da Comunicação Social lançou o apelo aos artistas para não deixarem destruir o património cultural de São Vicente mas, infelizmente, estes até então não reagiram.

A Assembleia Municipal, sob a presidência do Dr. João Gomes, deliberou pela preservação desse património. Comunicou a sua deliberação ao Senhor Primeiro Ministro, ao Senhor Ministro de Estado das infra-estruturas, ao Senhor Ministro de Estado da Saúde e nenhum deles se dignou reagir, o que é uma atitude de grosseria e que evidência que a decisão para demolir a Casa já estava tomada e não havia satisfações a dar a ninguém. Demonstra a falta de respeito pela instituição eleita democraticamente pelos munícipes de São Vicente para defender os seus interesses. Isso é um acto de violência contra as regras da democracia e contra os interesses de são Vicente. É urgente tomarmos consciência do rumo errado que as coisas estão a tomar.

Concluíndo: - É mais do que evidente que o nosso sistema democrático está com muitas fraquezas, não se auto-controla, favorece os abusos do Poder. É a democracia que está seriamente em perigo.

Nestas condições é mais do que evidente que o país não pode estar bem governado. E a Sociedade Civil deve agir para evitar males maiores.

A destruição da Casa do Dr. Adriano, ocorre na sequência dessa fragilidade.

As forças políticas bem como a sociedade civil saberão extrair as devidas ilações desse acto e agir em conformidade para corrigir os erros.

E finalmente e em particular, ficam como os maiores responsáveis pela destruição desse património, filhos de São Vicente: a Drª Isaura Gomes que como Presidente da Câmara, para além de ter posto esse espaço à disposição do Governo para a construção da Sede da Delegacia de Saúde, também, no acto oficial de inauguração das jornadas de enfermagem luso-caboverdianas promovidas pelo IESIG (Instituto de Ensino Superior Isidoro da Graça), espicaçava o Governo da seguinte forma: “ Ou o Governo avançava com o projecto ou dava esse espaço ao IESIG para construir o seu centro de enfermagem”. Infelizmente! Faltou-lhe a idoneidade e o orgulho nacional para ter a consciência de que o património cultural da sua Cidade não deve ser destruído para além do dever institucional que ela tem de respeitar a Constituição e o Estatuto dos Municípios sobre esta matéria, na sua qualidade de Presidente da Câmara Municipal de São Vicente.

Quanto ao Ministro das Infra-estruturas e Transportes, engº Manuel Inocêncio - é estranho e incompreensivel que um filho de São Vicente e deputado por esta Ilha com pretensões a outros voos, não tenha o orgulho de preservar a identidade da sua Ilha. |