domingo, 24 de fevereiro de 2008

  • SABEDORIA DA RAPOSA

A raposa para o principezinho: – "Tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas." in O Principezinho, Saint-Exupéry

~ O Monte Kilimanjaro, Tanzánia ~


O RWANDA, AINDA...

Callixte Nzabonimana, antigo Ministro da Juventude do Ruanda – depois de ter sido detido (18.02.08) em Kigoma, Tanzania, foi presente (21.02.08) ao Tribunal Criminal Internacional para o Ruanda em Arusha, próxima do mítico Kilimanjaro.

Nzabonimana é suspeito de ter participado no genocídio que ocorreu no Ruanda e no qual 800.000 tutsis foram massacrados à machadada durante cem dias de terror em 1984.

O antigo Ministro da Juventude é acusado de genocídio – nomeadamente de fazer apologia pública e incitamento ao genocídio, conspiração para o genocídio –, crimes contra a humanidade e de violação das Convenções de Genebra de 1949 e os protocolos adicionais de 1977.

A acusação preliminar diz que o antigo governante conspirou com outros responsáveis do país num plano para exterminar a população civil da etnia tutsi e a eliminação da oposição politica ao governo a que pertencia.

Perante o Tribunal da ONU, Nzabonimana declarou-se inocente de todas as acusações. Inicia-se assim um processo que irá julgar este governante pelos factos de que é acusado – estando muitos outros a monte, confiando as vítimas que um dia a justiça venha a ser feita.

Entretanto, o mandato do Tribunal – conferido pelo Conselho de Segurança da ONU em 1994 – termina no final de 2008 e, assim, a sua jurisdição; caso o mandato não seja renovado. O que poderá implicar o não julgamento de muitas pessoas procuradas – inclusive o ex-Ministro da Justiça, Augustin Bizimana e do bilionário Felicien Kabuga.

Esperemos que o Conselho de Segurança da ONU não se esqueça do genocídio Ruanda – um dos momentos mais horripilantes do século XX – por causa dos custos financeiros do funcionamento do Tribunal. Uma coisa é certa: o mandato do Tribunal já deveria ter sido renovado - não é coisa que, pela sua natureza, deva ser deixado para o last minute...

Há quem insista em dizer que os genocídios não são iguais – que depende de onde acontece, da cor das vítimas, da geografia do local do evento ou de quem escreve a história… E fazem-me lembrar os 20 milhões de congoleses mortos durante a colonização belga e que ninguém (bem, poucos...) se lembra(m)...

Serei tentado a dar razão a esses cépticos esclarecidos se o Conselho de Segurança não renovar o mandato do Tribunal. Cá estaremos par ver e para julgar a história e as instituições no nosso tempo. Mas mais – independentemente do juízo histórico –, as possibilidades da impunidade vingar serão maiores e a barbárie terá então mais uma vitória sobre a razão e os valores da humanidade humana.

Ah, pergunto-me (e é uma questão de angústia sentida): Será que da prisão os acusados têm a possibilidade de apreciar a beleza do Kilimanjaro?

~ James Brown, Say it loud - I'm black and I'm proud ~

2 comentários:

Anónimo disse...

Boa tarde,

Acho que errou sem querer, mas foram 800.000 e não 80.000 tutsis e hutus moderados que foram mortos no genocídio ruandês.

Jeff Hessney

Virgílio Brandão disse...

Jeff,
está a ver a diferença de um «0»?

Tem razão - foi um erro de digitação. Mas ainda que fosse oitenta mil não faria diferença, dir-se-á. Mas não, faz diferença.

E faz diferença porque são muitas vidas perdidas de forma hedionda e igual número de familias marcadas para sempre.

Infelizmente o mundo e os Media, em particular, vão esquecendo esse genocídio.

Abraço fraterno,
Virgilio