domingo, 30 de março de 2008

~ Baleia de bossa algures entre Cabo Verde e os Açores ~

  • SEREMOS MENOS «HUMANOS» QUE AS BALEIAS?

As baleias de bossa têm nas águas de Cabo Verde um dos locais de reprodução e de alimentação previligiadas, além de ser um ponto de referência nas migrações das mesmas.

Estas baleias, segundo estudos realizados por investigadores norte-americanos nos últimos anos, têm uma estrutura neuro-cerebral, ao nível cognitivo, análoga ao ser humano e aos grandes símios.

Compartilham com o homem as mesmas células cerebrais que nos identificam como «humanos» – que nos tornam capazes de sociabilização, de comunicar, de amar e de sofrer.

São seres que, conjuntamente com os golfinhos e os símios, se encontram na mesma linhagem de evolução do homem mas que, por razões ainda desconhecidas, evoluíram num sentido diferente. Uma coisa é certa – estes mamíferos em via de extinção são o que existe no mundo animal de mais próximo do humano.

Para quando um programa de protecção destes animais, assim como das tartarugas, das cagarras e do ecossistema global das ilhas e que tornem Cabo Verde – além da escolha natural da natureza – um país de referência na protecção destas espécies em vias de extinção?

É que património não é somente coisas edificadas; é também o património imaterial da humanidade e estamos a perder, lentamente, a nossa capacidade de conviver com outras espécies num Mundo em que a biodiversidade deveria ser um valor.

A espécie humana teima em comportar-se como um vírus destrutivo. Age como se o Planeta tivesse lugar somente para ele e a sua prole. Mas não é nem deve ser assim. Sempre que destruímos, deixamos destruir ou contribuímos para a destruição de uma espécie estamos a destruir não somente parte da nossa herança mas também o nosso futuro.

Perante as actuais descobertas científicas e para além da questão do seu perigo de extinção, justifica-se que se cace a baleia – sob pretexto científico – para satisfazer o prazer gastronómico da humanidade? A meu ver, não.

A vida – toda a espécie de vida – tem uma dimensão sagrada e deve ser preservada. Somente a necessidade imperiosa é que justifica o sacrifício de doutra vida – nada mais. A final, isso é que nos torna humanos – não é?

Agora, sempre que me lembro das vezes em que comi carne de baleia – era ainda menino –, sinto-me uma espécie de antropófago; um quase selvagem antropocêntrico.

A humanidade é essencialmente inteligência em acção. Não é um mero acontecimento da natureza; é um processo de integração com o mundo que nos rodeia.

Se a baleia sente e sofre como nós sofremos, é justo caçá-la? Bem, o sentido de «humanidade» em nós diz que não. Elas, que parecem ter um nível de neurónios superiores ao homem e anterior a este, não atacam humanos nem outras espécies.

Será caso para dizer que as baleias de bossa são mais «humanos» que que os humanos?

2 comentários:

Sal disse...

Camarada Virgílio
Urge fazer um estudo aturado das populações de cetáceos em Cabo Verde. Existem técnicos em Cabo Verde que se esforçam e acredito que dão o seu melhor, mas esbarram-se com outros valores, como é natural num país onde alguns interesses económicos começam a impor-se à defesa dos direitos da Natureza. Quando levantei a questão àcerca da culpabilidade do submarino americano no maior arrojamento em massa de golfinhos cabeça de melão que ocorreu na Boavista, como é óbvio não tinha certezas mas as coincidências eram muitas como expliquei no artigo, recebi logo a seguir um mail da US Navy a reclamar a sua inocência e a alegar a sua posição primeira na defesa dos interesses da Natureza ( "bull shit" como comentou um activista da Green Peace). Na necrópsia que foi realizada a um único golfinho, dos últimos a arrojar não lhe abriram o crâneo para observarem se existiam hemorragias cerebrais e auditivas, que é um dos sintomas major nas lesões causadas pelos sonares nos cetáceos, e mesmo assim a conclusão imediata foi, perante esta paupérrima amostra sem qualquer valor científico, de que não foi o sonar do submarino culpado!!! Este assunto precisa de ser tratado com a seriedade que queremos ser encarados pelo resto do Mundo e que Cabo verde não se transforme em mais uma República Dominicana.

Virgílio Brandão disse...

Viva, Salvador.

Não podia estar mais de acordo contigo.

Não podemos nem devemos deixar que a lógica dos números e dos interesses a eles subjacente faça tabula raza dos valores.

Se existe dinheiro para tanta coisa - muitas delas sem interesse efectivo ou utilidade social para o país -, porque é que não haverá para a realização da um estudo aturado das populações de cetáceos em Cabo Verde?

Quero crer que sim, que há. Deve ser, de certeza, uma questão de oportunidade.

Mas uma coisa é certa: devemos ser o único PDM que permite situações como a que te referes...

Tem custos não ficar calado, mas tem outros ainda maiores o silêncio comprometido.

Abraço e força aí - os direitos da natureza são, também, Direitos humanos!