terça-feira, 15 de Julho de 2008

  • A TORMENTA DO MEU POETA
Ontem, o meu poeta aproximou-se de mim ao anoitecer e, com os olhos ludibriados pela Fortuna e por Fama, disse-me lamentoso:

– Confessor, ando angustiado...

Angustiado..., o meu poeta! Mas isso não é coisa natural num poeta? – pensei em sossego de escuta. Cônscio de que não poderia dar-lhe nenhuma penitência (até porque já não devo fazer isso), fosse qual fosse a razão, resolvi escutar o meu poeta; como é, aliás, longa consuetudine.

– Que tens, meu poeta? Diz-me o que te apoquenta, pareces ter os olhos e a alma em ruínas. Sim, diz-me o que pastoreias...
– Ah, nada; nada confessor. É a minha alma; inclinou-se e não sei o que fazer com isso. Estava certo de que nunca haveria tempestades, que todos os portos eram de partida; mas vejo que não e a minha alma está, agora, golfando incontroláveis chamas. Mas tu; sim, tu confessor; deves saber o que fazer...
– Se o dizes, meu poeta; se o dizes é porque terás as tuas razões...

[...]

Oh! Consternou-me, o meu poeta...
Entre Lisboa, Londres, Paris, S. Nicolau, Mindelo, o Sul, finisterra... nasceu um sonho madrugador na alma do meu poeta. E que faz, o meu poeta? Faz tudo, menos o que sonha; mas sonha, dia e noite, fazer tudo o que sonha. A alma do meu poeta nasceu no mar, inclina-se – naturalmente, diz – ao mar e sonha morrer com o sorriso dos gemidos dos oceanos como consolo (há dias em que – confessou-me – sonha com o sal da sua vida e acorda, no ventre da noite, para descobrir que tem o aroma da terra verve inundando o seu corpo). Por isso navega no sonho em vez de transportar o Sol para a madrugada, cogito.

Ah, o meu poeta!... Pela primeira vez não entendi o meu poeta. Parecia-me (hoje constatei a mesma coisa) um menino que, em tempos idos, os pais me levaram para baptizar. Disse aos previdentes progenitores: «Oh, deixem-no! É demasiado pequeno e são para saber o que é o pecado.» Assim vejo o meu poeta – demasiado simples para perceber que o seu necessário silêncio não é pecado somente para ele que não entende que o mundo e a sua alma querem tudo no seu berço.

Ah, coitado do meu poeta!... Não percebe o meu poeta, mas encontrou a única coisa invencível na existência; que não lhe caiu um manto negro sobre o coração mas sim que lhe foram retiradas as vestes do seu verbo cimba – um raio de luz saiu das suas entranhas e vicejou o seu ser. E não entende, o meu poeta...

Transitou do silêncio do sonho para o silêncio da morte – quer falar e é recém-nascido; o Mundo da palavra silente entrou, em avanço mandibular, no seu planalto. Ah, sim; que dizer ao meu poeta? Só sei que se não segue o seu sonho (acrescentei-lhe severamente, mesmo sabendo que não me entendia) irei ao seu enterro e sobre a sua sepultura escreverei como epitáfio: «jaz aqui o poeta que fugia do sonho».

O que a tormenta aferrada fez ao meu poeta! Salvai-vos da poesia!, digo – eu que fui contaminado pelo meu poeta e escrevinho umas letras primárias para libertar a alma dos dias e o reboar da noite erma.

Quase estive para dizer ao meu poeta que o que precisava não era de um conselho, não; precisa, sim, é de um coração com olhos. Mas seria injusto com o meu poeta, pois esse é o seu problema, a razão da sua tormenta. Mas, porque devo abrir os olhos ao meu poeta? Sim, para quê ajudar um cego voluntário a ver a dor teleológica da sua condição? Livre arbítrio – dir-me-ão. Ah, não! Este anda bem sem pesares e navega mal à bolina.

Bem, não sei porquê mas contei ao meu poeta uma história Mindelense com a sua idade e mandei-o ouvir Melody Fair. Sinto que; não!, sei que fui injusto com o meu poeta; mas, com o tempo, irá entender. O meu poeta não sabe, mas tornámo-nos irmãos não de sangue e ventre mas de alma; prostrámo-nos perante o mesmo mistério – o Deus visível com o coração.

Mas, então, o que custa ser solidário com o silêncio do meu poeta? Nada como descobrir... Ademais, o meu poeta foi passear e desejou-me o mais belo céu azul à eira das estrelas, deu-me um manto de sonhos e um abraço com toda a sua esperança.

  • Salvador Dali , The happy unicorn

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