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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

  • DE MANDELA A ÓSCAR ROMERO – O HUMANISMO LIBERTÁRIO
A maioria das pessoas com quem falo e Nelson Mandela aparece como tópico lembram-se, sempre, da política. Mandela, deixou o poder voluntariamente, e por isso é um exemplo para os africanos – dizem todos. É verdade. Mas isso, isso não é nem tem nada de extraordinário no plano da política; extraordinário mesmo, a este nível, foi Chandragupta. Mandela só cumpriu com o seu dever, e isso não merece nenhum galardão, pois é o mínimo que se pode exigir a uma pessoa: que cumpra com o seu dever. Mas Nelson Mandela é um ser humano extraordinário, sim. Não por ser um político extraordinário, mas por ser um ser humano… humano.

Dá que pensar, por vezes dói-me até, como conseguimos transformar o cumprimento do dever num mérito, numa excepção digna de galardão e não na regra. Quem faz o seu dever não merece nenhuma outra recompensa para além daquela que emerge do dever cumprido. Existe uma diferença entre o ordinário e o extraordinário, e tal tem vindo a desaparecer na percepção social da humanidade. Isso, na verdade, tem desumanizado o homem, tem-no afastado, por adquirido social prático, da lei natural que lhe é imanente. O extraordinário está em ir para além do dever, para além do que nos impele a natureza, fazer o que o outro não faria – mais: o que o outro não faria por nós!

E impressiona em Nelson Mandela este exemplo: agarrar nas mãos do seu inimigo, perdoar-lhe o mal causado. Compreender o outro, e, compreendendo-o, perdoar-lhe. Isso é humano, verdadeiramente humano. Nelson Mandela, que gosto de ver como um verdadeiro cristão animista, é, neste sentido, mais cristão que João Paulo II e Benedictus XVI que não perdoaram a teologia da libertação (na verdade teologia libertária) de Leonardo Boff, Rubem Alves e outros defensores da teologia cidadã. Desmond Tutu, Ximenos Belo, D. Manuel (Bispo de Setúbal) estão próximos desta teologia libertária, mas não vão tão longe como foram Leonardo Boff e, de certa forma e noutro registo, César Romero.

O perdão é a essência do cristianismo, assim como o diálogo mitigado e balizado pelos princípios. Há um problema de natureza, de paradigma na teologia da libertação e que se confronta com o cristianismo cristocêntrico? Sim, há, mas nada que não seja superável. Óscar Romero dizia, de forma clara e precisa (mas que pode levar a interpretações nocivas), que a «Igreja cristã tinha uma preferência 1 pelos pobres» e ouve, há, muita gente que confunde isso com a teologia da libertação, que em verdade, não é de libertação mas sim libertária quando entendida no plano político — como já vem de Tomás de Aquino e o seu direito à revolta contra a injustiça — pois no estrito plano da teologia, o cristianismo é, em si mesmo e todo ele, pois é a sua essência, uma teologia da libertação, e da libertação do homem total: corpo, alma e espírito.

O problema é a politização do Evangelho — uma tentativa, inclusive, de a minar com o ideário marxista. Este é, ainda que não compreendida, a razão maior das resistências da Igreja à teologia da cidadania popular, à teologia da libertação. São, na verdade, várias faces do humanismo contemporâneo, de um humanismo que, por vezes, desespera, procura e se deixa seduzir pelo discurso-caminho que parece fácil, mas cujo fim, cujo é o que diz Coélet. Salva-nos homens humanos, pessoas com sentido de humanidade comprometida com o outro, como Nelson Mandela.

Mandela, sem grandes teorizações, mostra-nos que o que o homem precisa não é grandes construções teóricas e de títulos académicos — que são, também, necessárias e socialmente úteis — mas de acção em favor daqueles que mais precisam, daqueles que não têm voz. O facto da O facto das Nações Unidas ter criado um Dia de Mandela é da mais elementar justiça, e faz-me crer em dia melhores, numa humanidade melhor.

Imagem: Nelson Mandela e Frederik de Klerk
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[1] Na acção social, deve-se entender.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

  • O PRÉMIO ANDREI SHAKAROV PARA A LIBERDADE DE PENSAMENTO

    O Prémio Shakarov para a Liberdade de Pensamento foi atribuído ao Memorial, ONG russa de que Andrei Shakarov foi membro. Oportuno, este reconhecimento do Parlamento Europeu a uma luta que vem de longe, de muito longe… e que muita gente, usando da sua liberdade de pensamento e de expressão, esquece. Humana conditio. Confesso que, por vezes, tenho vontade de lançar uns tomates e uns ovos bem podres aos senhores no Parlamento Europeu, mas saber desta decisão faz-me pensar, por algum tempo, que são capazes de tomar decisões para além dos interesses dos grupos políticos desse Fórum que prometeu tanto e não passa de uma imensa torre de marfim.
Imagem: Andrei Dimitrievich Sakharov

sábado, 12 de setembro de 2009

Cristãos e Muçulmanos: Juntos para vencer a pobreza

MENSAGEM PARA O FIM DO RAMADÃO
‘Id al‑Fitr’ 1430 H. / 2009 A.D.


Caros Amigos Muçulmanos
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1. Por ocasião da conclusão do mês do Ramadão, desejo apresentar votos de paz e de alegria e, por meio desta Mensagem, propor uma reflexão comum sobre o tema: Cristãos e Muçulmanos: Juntos para vencer a pobreza.
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2. Devemos claramente alegrar‑nos porque, no decorrer dos anos, esta Mensagem do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter‑religioso se tornou não apenas um costume mas um encontro esperado. Em muitos países, tem sido uma ocasião de encontro amistoso entre numerosos Cristãos e Muçulmanos. Frequentemente até corresponde a uma preocupação comum, propícia a partilhas abertas e confiantes. Não é verdade que todos estes elementos constituem sinais de amizade entre nós, pelos quais devemos dar graças a Deus?
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3. Vindo ao tema deste ano, a pessoa humana que experimenta a situação de indigência encontra‑se no centro de preceitos que nos são caros, por títulos diversos. A atenção, a compaixão e a ajuda que todos, irmãos e irmãs na humanidade, podemos oferecer àquele que é pobre, para o repor no seu lugar na sociedade dos homens, é uma prova viva do Amor do Altíssimo, visto que é o homem enquanto tal que Ele nos chama a amar e a ajudar, sem distinção de pertença.
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Todos sabemos que a pobreza humilha e gera sofrimentos intoleráveis. Muitas vezes, estes estão na origem de isolamento, de ira e mesmo de ódio e desejo de vingança. Isto poderia levar a acções de hostilidade com todos os meios disponíveis, procurando também justificá‑los com considerações de índole religiosa: apoderar‑se, em nome de uma pretensa «justiça divina», da riqueza do outro, incluindo da sua paz e segurança. Por isso, rejeitar os fenómenos de extremismo e de violência exige necessariamente a luta contra a pobreza, através da promoção de um desenvolvimento integral, que o Papa Paulo VI definiu como «o novo nome da paz» (Carta Encíclica
Populorum Progressio, 1975, n. 76).
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Na recente Carta Encíclica
Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade, Sua Santidade o Papa Bento XVI, tendo em conta o contexto actual do empenho em favor do desenvolvimento, põe em destaque, entre outras coisas, a necessidade de uma «nova síntese humanista» (n. 21) que, salvaguardando a abertura do homem a Deus, o recoloque no centro e no cume de tudo quanto existe sobre a terra (n. 57). Um autêntico desenvolvimento, portanto, terá que estar ordenado ao «homem todo e a todos os homens» (Populorum Progressio, n. 42).
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4. Na sua
homilia de 1 de Janeiro passado, por ocasião do Dia Mundial da Paz de 2009, o Papa Bento XVI fazia a distinção entre dois tipos de pobreza: uma pobreza a combater e uma pobreza a abraçar.
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A pobreza a combater está ao alcance dos olhos de todos: a fome, a falta de água potável, a escassez de cuidados médicos e de habitação adequada, a carência de sistemas educativos e culturais, o analfabetismo, sem esquecer a existência de novas formas de pobreza «como, por exemplo, nas sociedades ricas e progressivas,… fenómenos de marginalização, de pobreza relacional, moral e espiritual» (
Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2009, n. 2).
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A pobreza que se deve abraçar é a que convida a adoptar um estilo de vida simples e essencial, que evita o desperdício, que respeita o ambiente e todos os bens da Criação.
Esta pobreza é também, pelo menos durante certos períodos do ano, a da frugalidade e do jejum. A pobreza escolhida predispõe para sairmos de nós próprios e dilata o coração.
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5. Como crentes, desejar o entendimento para buscar em conjunto soluções justas e duradouras para o flagelo da pobreza significa também reflectir sobre os graves problemas do nosso tempo e, quando é possível, esforçar‑se em conjunto para encontrar uma resposta. É necessário que a referência aos aspectos da pobreza ligados à globalização das nossas sociedades revista um sentido espiritual e moral, dado que partilhamos a vocação de construir uma só família humana, na qual todos – indivíduos, povos e nações – orientam os seus comportamentos segundo os princípios da fraternidade e responsabilidade.
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6. Um olhar atento sobre o complexo fenómeno da pobreza conduz‑nos fundamentalmente a ver a origem na falta de respeito da dignidade inata da pessoa humana e chama‑nos a uma solidariedade global, por exemplo através da adopção de um «código ético comum» (João Paulo II,
Discurso à Pontifícia Academia das Ciências Sociais, 27 de Abril de 2001, n. 4), cujas normas não teriam apenas um carácter convencional, mas estariam radicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consciência de todo o ser humano (cf. Rm 2, 14‑15).
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7. Parece que em diversas partes do mundo passámos da tolerância ao encontro, a partir de vivências comuns e de preocupações partilhadas. Esta é uma importante etapa que já se alcançou.
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Pondo à disposição de todos a riqueza que brota da oração, do jejum e da caridade de uns e de outros, não é porventura possível que o diálogo mobilize as forças vivas de quantos se encontram a caminho em direcção a Deus? O pobre interpela‑nos, desafia‑nos, mas sobretudo convida‑nos a colaborar numa causa nobre: vencer a sua pobreza!
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Bom e feliz ‘Id al‑Fitr’!
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Cardeal Jean-Louis Tauran Presidente
D. Pier Luigi Celata Secretário
Conselho Pontifício para o Diálogo Inter religioso

English, español, français et outres
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  • Imagem: Cosmos, Jean-Louis Grig

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

VICIADOS NA PARTIDARIZAÇÃO

O Expresso das Ilhas publicou um artigo de opinião de Ulisses Correia e Silva, Presidente da Câmara Municipal da Praia. "Viciados na Partidarização" é um texto a ler com atenção por todos os cabo-verdianos.

«O Estado tem responsabilidades pela orientação da política de educação, da cultura e da comunicação social - veículos de mudanças comportamentais - mas para que as suas opções e acções produzam efeitos na alteração do estado social, é preciso que ele seja autêntico e engajado com essa transformação. Não é o que acontece entre nós. E a responsabilidade é principalmente dos partidos políticos.

«A prática política ou é diferente do discurso político, ou o discurso político não é clarificador e permite que práticas perversas predominem. Há um excessivo peso do político/partido face à sociedade, característica de um país dependente da ajuda externa e da dívida externa, com uma economia distributiva e da não libertação ainda dos resquícios do Partido/Estado. Mas o mais determinante, é que se joga um jogo de interesses que torna o exercício do poder refém da partidarização e do clientelismo» Ulisses Correia e Silva dixit.

Aqui está um artigo da lavra de um político com responsabilidades – no passado e no presente, e de quem se espera que venha a assumir outras no futuro; e tal só dependerá dele mesmo – a ter um discurso que não deve cair em saco roto, que deve levar os cidadãos e os órgãos e agentes do Estado a pensarem se querem ter um Estado social ou um Estado de partidos e dos seus clientes. A opção é tautológica.

Daqui, de terra-longe, um bem-haja ao Ulisses Correia e Silva por esta denúncia, por colocar o dedo numa ferida que anda coberta de seda mas que, antes de gangrenar, é necessário espreme-la e retirar o pus malcheiroso. Que estas ideias sejam norte da sua gestão na capital da nação, pois os praienses e todos os cabo-verdianos precisam de um Estado, central e local, que não seja clientelar.
Que outras vozes, de políticos que sabem do que falam pois são parte «do sistema», venham a terreiro dizer, com a mesma frontalidade e elegância, o que diz Ulisses Correia e Silva. Mas (e há este mas…), palavras sem acções de pouco valem – e o povo, esse que «não é ignorante», espera mais e melhor dos seus representantes (inclusive do Ulisses Correia e Silva — a esperança do povo é mais funda que a Fossa das Marianas).

Imagem: Ulisses Correia e Silva, Presidente da Câmara Municipal da Praia (in Expresso das Ilhas)

sábado, 27 de junho de 2009

  • CIDADE VELHA – ANTES DO SER JÁ ERA E É MAIS
No outro dia, realizou-se em Portugal um concurso – análogo ao que chegou à conclusão que Oliveira Salazar é o português mais impostante da história – sobre as Sete Maravilhas do Portugal colonial e que a Cidade Velha foi eleita uma das ditas maravilhas. Fiquei, confesso, estupefacto. Não somente pelo facto de descortinar um incofessando saudosismo colonialista no dito concurso, mas porque não se pode chamar de “maravilha” a um sítio usado para o crime contra a humanidade que foi e continua a ser o tráfico de seres humanos. Mesmo no plano estético, verdade seja dita: havia lugares bem mais belos e interessantes que a Cidade Velha para serem, com razão, consideradas maravilhas pois de razão estética e não de memória se deveria tratar.

Agora, a questão do reconhecimento pela UNESCO da Cidade Velha como Património Mundial é algo de substancialmente diferente: é um reconhecimento tardio, mas de saudar por todos os cabo-verdianos que nela têm o berço da sua nacionalidade, mas também pelos afro-brasileiros e povos africanos da origem dos negros raptados e hediodamente escravizads e que têm a sua história umbilicalmente ligada à Cidade Velha da Ribeira Grande de Santiago de Cabo Verde.

O que a UNESCO fez foi nada mais do que reconhecer o que já tinha feito com Goré: reconhecer o valor imaterial da memória, mais do que o património edificado pelo colonialista – pois os lugares de esclavagismo, além da sua dureza e aspereza estétiticas, são lugares hediondos, anátemas e provas iure et de iure do maior genocídio e memoricído da história da humanidade: o colonialismo e a escravidão forçada e criminosa a ela associada. Neste aspecto a Cidade Velha é mais, muito mais do que aquilo que a UNESCO veio reconhecer: Património Mundial. Este é pouco, pois a Cidade Velha é mais, muito mais do um espaço patrimonial a ser preservado, é um espaço de geomemória a ser preserva e promovida, tendo sempre presente um discurso de resiliência: nunca mais! Neste aspecto, a memória da Cidade Velha e Goré é património-exemplo da humanidade, em particular das vítimas da maldade humana que souberam vencer o mal e contruir uma nação. Resta-nos libertar-nos do colonialismo mental e falta de ambição de sermos cada vez melhor do que somos, como pessoas e como nação; e isso é coisa que nada nem ninguém pode fazer nada por nós.

Imagens: Cidade Velha

quarta-feira, 3 de junho de 2009

ARMÉNIO VEIRA – PRÉMIO CAMÕES 2OO9

O poeta, depois de ser bombardeado pela comunicação social, amigos, os abutres e bajuladores do costume, e se sentir natural e externamente recompensado, voltou à sua rotina dos dias ilhéus. Testemunhado pela objectiva de Abraão Vicente.

Imagem: Fotografia de Arménio Vieira, por Abraão Vicente

terça-feira, 2 de junho de 2009

  • ARMÉNIO VIERA LEU OS LUSÍADAS NO VERBO

O tempo é o maior julgador e, assim como não se pode esconder a candeia debaixo da mesa, não se consegue esconder o rugir do tigre na noite escura. E o que tem de ser, será… «quando for tempo disso» – diz o poeta. No outro dia o poeta José Luiz Tavares dizia, numa entrevista ao jornal A Nação, que Arménio Vieira era o maior escritor cabo-verdiano vivo. Bem, acaba de ser-lhe atribuído o Prémio Camões – o maior galardão literário da língua portuguesa, uma espécie de Nobel da lusografia. Merecido! Justo! Antes, já era merecido. Torna-o o maior escritor cabo-verdiano vivo? Os técnicos e os seus pares assim dizem...

A última obra que li dele, Mitografias, é um dos melhores livros publicados em língua portuguesa dos últimos anos. Deus tem destas coisas, um poeta quase esquecido na sua terra acaba por ver o seu mérito publicamente reconhecido no exterior. Este reconhecimento servirá para chamar atenção não para a obra de Arménio Vieria, pois os leitores que lêem conhecem-na bem, mas, essencialmente, para a literatura cabo-verdiana. Mas há quem tenha olhos e não veja.

Este Prémio Camões não é um prémio em sentido próprio, é um reconhecimento e uma merecida forma de dizer obrigado a Arménio Vieira pela sua poética que extravaza a dimensão das ilhas atlânticas e a alma das suas gentes. Amanhã todos aplaudirão o poeta, levantarão vozes altisonantes em seu louvor – mas esquecerão o ontem, quando o seu labor precisava de mais que uma não política de e da cultura. Mas o poeta esperou, o poeta sempre espera… Avé Arménio Vieira!

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
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Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
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Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
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Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
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Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
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Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
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Não soa,
porque não respira.
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É menos que embrião
abaixo do ovo,infra-sémen.
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Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
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Porém existe,
por isso espera.
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Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
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Ele será
quando for tempo disso.
Arménio Vieira, in Vozes poéticas da lusofonia, Sintra, 1999

Imagem: René Magritte, Discovery

sábado, 7 de março de 2009

PINTANDO A PINTURA

Esta forma efémera de arte tem em Luis Royo e Seyi Wujian os seus grandes mestres.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

  • O PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA DE CABO VERDE E O RULE OF LAW

Por que será que incomoda a muita gente que o Procurador Geral da República faça o seu trabalho? Se não o fizer, é acusado de nada fazer. Se o faz, é acusado de fazer mais do que devia ou que anda a «fazer fretes». Haja paciência!

Será que as pessoas não percebem que existem coisas que, pela sua gravidade, demandam que o defensor da coisa pública aja e aja de imediato? A comunidade jurídica nacional não entenderia uma omissão do PGR na questão da nomeação do Dr. Raúl Querido Varela e o malus fummus iuris da sua nomeação. Tinha o dever de o fazer, fez o seu dever – e bem, a meu ver.

Não por causa da idade subjectiva do Conselheiro Raúl Querido Varela, mas sim por causa da legalidade que deve ser preservada. Na verdade, se fosse eu que decidisse e não houvesse lei que tal impedisse, manteria o Juiz Conselheiro Varela no STJ. Isso por razões que não são chamadas à colação, agora. Mas a decisão do PGR não tem a ver, não pode ter a ver, com o que os cidadãos desejam, pensam ou não sobre a idade do Magistrado; a sua decisão é/era um imperativo legal.

A lei em causa é matéria a ser revista – clarificada nos termos da reforma judicial, mas com cuidados: juízes vitalícios – não! As razões? Fica para outra altura, o que importa agora é termos consciência do seguinte: a administração da Justiça não é um foro de democracia, mas sim de um Império: o Rule of Law – o Império de Lei. A ela todos, mas todos, se devem vergar. Dá para entender?

Para quem não entende, Júlio Martins, Procurador Geral da República, deu um claro sinal de que a Procuradoria Geral da RepúblicaGeral da República não irá – durante o seu mandato – compactuar com situações de violação da lei e da Constituição, lá isso deu. Que venha a ser consistente neste aspecto – ganha em credibilidade a instituição que representa e ganha a nação no seu todo, pois o que todos queremos é um vigia que vigie. A questão de saber se tem (e tem) ou não razões, é outra coisa – o que deve fazer, sempre que tenha dúvidas em matérias análogas, é colocar a questão a quem decide.

Os críticos do PGR imaginam as consequências de uma omissão sua neste caso? Parece-me que não; que não têm consciência dos efeitos nefastos que tal poderia causar à justiça cabo-verdiana. Mas, enfim… o Procurador não procura dores, cura de uma dor – isto é, de um desvio à legalidade – provocada pela Assembleia Nacional; isto é, por deputados obedientes à lógica partidária. E é uma dor pois coloca os interesses dos partidos e seus «acordos» acima das leis da nação. «Isso, não!» – diz a acção do Procurador Geral da República. E diz bem!

De escuridão, já bastam as noites prendadas da ELECTRA.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

  • A CRISTINA O QUE É DE CRISTINA
A Ministra das Finanças, Cristina Duarte, anunciou a criação de uma instituição bancária com o objectivo de combater a exclusão social que é estrutural em grande parte por causa da exclusão financeira. É uma boa ideia e que se deve aplaudir pois o Estado assume, deste modo (ainda que de forma mediata), o que tem sido uma das lacunas fundamentais do programa social nacional.
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Agora, tal deve ser enquadrado num programa social abrangente de combate a pobreza, nomeadamente a estrutural e geracional. É disto que o país precisa: de boas ideias que, no plano prático, dignifiquem a vida das pessoas e ajudem o desenvolvimento da nação. Faço vénias à iniciativa e fico a espera de mais; de mais porque o país precisa de mais e de melhor.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

  • COISA DE ATENTAR
Humberto Cardoso, deputado da nação na Assembleia Nacional publicou on line o Projecto de Lei de Revisão da Constituição da sua autoria e que merece ser lida e discutida. Não partilho da perspectiva do mesmo, pois penso que, no geral, as soluções que apresenta (salvo um ou outro aspecto) não vêm ao encontro do que são as necessidades do país.

Saúdo a iniciativa, mesmo não concordando com a sua substância. Para ler aqui:
Humberto Cardoso - Projecto de Lei de Revisão da Constituição.
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Li o o Projecto de Lei de Revisão da Constituição do PAICV e peca por alguns dos defeitos deste projecto de Humberto Cardoso. Resta-me saber o que virá do MPD...
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  • Imagem: Boreas, John Williams Waterhouse