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sábado, 6 de fevereiro de 2010

  • DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e subtil recreio...
----- Mario Quintana

Imagem: H.R. Geiger

domingo, 13 de dezembro de 2009

  • COLUMBANDO…

Ah, cá está! Cá está a razão porque se diz que os gatos têm sete vidas…

Imagem: Belo gato, não é?

domingo, 15 de novembro de 2009

OS POLÍCIAS DO LULA DA SILVA E A CPLP

Lula da Silva, Presidente do Brasil, dizia no outro dia que os polícias devem ganhar bem para não terem de receber propinas, i.e., não serem subornados (e isto tem uma dimensão que vai para além do dinheiro). Mas não é só policial, não… ainda que, ao que se diz, mesmo políticos com ordenados milionários se deixam corromper. O que quer dizer que o problema vai para além da questão monetária — pelo que se tem de considerar, para o caso, a normalidade do problema e não todos aspectos da mesma.

Mas concordo com o
Presidente do Brasil. Só não sei porquê é que não fez isso durante o seu consulado presidencial, que, afinal, foram dois mandatos. Descobriu isso agora? Não creio, mas mais vale tarde do que nunca. E, já agora, que não saia da presidência do Palácio presidencial sem fazer o que agora reclama: polícias a receberem o que é devido e dignificante para a profissão. Mas mais e melhor formados, necessariamente.

O que o Presidente Lula diz serve não somente para o Brasil, serve como uma luva à medida para todos os demais países da CPLP, o elefante branco que, até agora, só tem servido os interesses dos políticos e não dos cidadãos. Só assim se combaterá a corrupção e outros comportamentos menos edificantes nas estruturas policiais e se contribuirá para uma melhoria da qualidade de vida dos cidadãos no que concerne à paz social, melhor justiça e segurança.

Pode-se até lutar para a proficiência do sistema judicial, e ter-se boas intenções neste plano e noutros, mas se a Policia não for eficaz e deter tranquilidade pessoal para se dedicar exclusivamente à defesa dos valores da sua função nunca se terá uma justiça adequada e uma sociedade verdadeiramente segura. O que é dizer que nós, os cidadãos, um dia começaremos a ser vigilantes, a nos nomearmos juiz Dredd. O que, de todo, não pode ser o caminho da civilização.

Imagem: Luiz Inácio da Silva, Presidente do Brasil

domingo, 18 de outubro de 2009

  • AO POVO CABO-VERDIANO,1 Eugénio Tavares

“A ti, Lázaro, me dirijo. Falo-te, porém não sei se me ouves; invoco quando deve haver de levantado na tua alma e a incerteza do teu olhar apenas me dá a impressão fria da caligem que envolve a tua inteligência, da miséria em que se empocilga a tua triste existência moral. Fisicamente, eu sei, existes: bem te vejo curvado sob a mó de um labutar esmagador, investindo com quanto há de tempestuoso na adversidade para que não falte o pão na boca dos teus filhos. Moralmente, porém, não oiço a tua voz no concerto das vontades orientadas na disciplina e fortalecidas na união.

Vítima da dissolução do meio em que fadejas, pessoa civil sem valor real; força política sem consciência de direitos; dizer-te vivo é caluniar a tua incapacidade cívica e intelectual.

Tua sombra hesitante, eu a enxergo dentro da escura nulidade a que te reduziu o desmarcado egoísmo dos últimos degenerados da nossa orgia administrativa. O que têm feito, por ti, esses que, com proficuidade, podem exercer benéfica acção moral e política? Quando é que para elevar o teu nível moral ou económico sacrificam, eles, a mínima parcela do seu tempo ou do seu dinheiro? Quando é que se deixaram de abusar da tua ignorância? Quando foi que eles viram, na política, não um meio de fazer frutificar habilidades em proveito próprio, mas uma força de fazer progredir povos?

A tua classe preponderante não é um elemento de acção política; não é uma engrenagem do progresso; é uma das faces mais ridículas do egoísmo. “Cumpre, pois, irmão, o dever iniludível de exercer os teus direitos políticos. “Educa-te; une-te; disciplina-te; se associares o teu trabalho ao trabalho dos outros, de muitos, quando não possa ser de todos; trabalharás muito menos e lucrarás muito mais... Porque a riqueza de um, meu amigo, é, quase sempre conseguida à custa da miséria de muitos...”
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Imagem: Luís Royo

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1 Ao Povo Cabo-verdiano, de Eugénio Tavares. In intervenção de Corsino Fortes (homem de cultura, discreto, sensível, ciente das suas responsabilidades e atento às necessidades dos cabo-verdianos, foi, de todos os Embaixadores de Cabo Verde que passaram por Portugal, honra lhe seja feita, aquele que mais se preocupou, em termos práticos com a Comunidade cabo-verdiana) no Colóquio Internacional Humanismo Latino na Cultura Portuguesa ocorrido na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2002) sob o título de «Eugénio Tavares - Um Construtor do Humanismo Cabo-Verdiano». Fica aqui a hiperligação para o texto, que merece uma leitura atenta neste Dia da Cultura Cabo-verdiana e da celebração do nascimento de Eugénio de Paula Tavares.

sábado, 12 de setembro de 2009

Cristãos e Muçulmanos: Juntos para vencer a pobreza

MENSAGEM PARA O FIM DO RAMADÃO
‘Id al‑Fitr’ 1430 H. / 2009 A.D.


Caros Amigos Muçulmanos
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1. Por ocasião da conclusão do mês do Ramadão, desejo apresentar votos de paz e de alegria e, por meio desta Mensagem, propor uma reflexão comum sobre o tema: Cristãos e Muçulmanos: Juntos para vencer a pobreza.
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2. Devemos claramente alegrar‑nos porque, no decorrer dos anos, esta Mensagem do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter‑religioso se tornou não apenas um costume mas um encontro esperado. Em muitos países, tem sido uma ocasião de encontro amistoso entre numerosos Cristãos e Muçulmanos. Frequentemente até corresponde a uma preocupação comum, propícia a partilhas abertas e confiantes. Não é verdade que todos estes elementos constituem sinais de amizade entre nós, pelos quais devemos dar graças a Deus?
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3. Vindo ao tema deste ano, a pessoa humana que experimenta a situação de indigência encontra‑se no centro de preceitos que nos são caros, por títulos diversos. A atenção, a compaixão e a ajuda que todos, irmãos e irmãs na humanidade, podemos oferecer àquele que é pobre, para o repor no seu lugar na sociedade dos homens, é uma prova viva do Amor do Altíssimo, visto que é o homem enquanto tal que Ele nos chama a amar e a ajudar, sem distinção de pertença.
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Todos sabemos que a pobreza humilha e gera sofrimentos intoleráveis. Muitas vezes, estes estão na origem de isolamento, de ira e mesmo de ódio e desejo de vingança. Isto poderia levar a acções de hostilidade com todos os meios disponíveis, procurando também justificá‑los com considerações de índole religiosa: apoderar‑se, em nome de uma pretensa «justiça divina», da riqueza do outro, incluindo da sua paz e segurança. Por isso, rejeitar os fenómenos de extremismo e de violência exige necessariamente a luta contra a pobreza, através da promoção de um desenvolvimento integral, que o Papa Paulo VI definiu como «o novo nome da paz» (Carta Encíclica
Populorum Progressio, 1975, n. 76).
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Na recente Carta Encíclica
Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade, Sua Santidade o Papa Bento XVI, tendo em conta o contexto actual do empenho em favor do desenvolvimento, põe em destaque, entre outras coisas, a necessidade de uma «nova síntese humanista» (n. 21) que, salvaguardando a abertura do homem a Deus, o recoloque no centro e no cume de tudo quanto existe sobre a terra (n. 57). Um autêntico desenvolvimento, portanto, terá que estar ordenado ao «homem todo e a todos os homens» (Populorum Progressio, n. 42).
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4. Na sua
homilia de 1 de Janeiro passado, por ocasião do Dia Mundial da Paz de 2009, o Papa Bento XVI fazia a distinção entre dois tipos de pobreza: uma pobreza a combater e uma pobreza a abraçar.
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A pobreza a combater está ao alcance dos olhos de todos: a fome, a falta de água potável, a escassez de cuidados médicos e de habitação adequada, a carência de sistemas educativos e culturais, o analfabetismo, sem esquecer a existência de novas formas de pobreza «como, por exemplo, nas sociedades ricas e progressivas,… fenómenos de marginalização, de pobreza relacional, moral e espiritual» (
Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2009, n. 2).
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A pobreza que se deve abraçar é a que convida a adoptar um estilo de vida simples e essencial, que evita o desperdício, que respeita o ambiente e todos os bens da Criação.
Esta pobreza é também, pelo menos durante certos períodos do ano, a da frugalidade e do jejum. A pobreza escolhida predispõe para sairmos de nós próprios e dilata o coração.
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5. Como crentes, desejar o entendimento para buscar em conjunto soluções justas e duradouras para o flagelo da pobreza significa também reflectir sobre os graves problemas do nosso tempo e, quando é possível, esforçar‑se em conjunto para encontrar uma resposta. É necessário que a referência aos aspectos da pobreza ligados à globalização das nossas sociedades revista um sentido espiritual e moral, dado que partilhamos a vocação de construir uma só família humana, na qual todos – indivíduos, povos e nações – orientam os seus comportamentos segundo os princípios da fraternidade e responsabilidade.
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6. Um olhar atento sobre o complexo fenómeno da pobreza conduz‑nos fundamentalmente a ver a origem na falta de respeito da dignidade inata da pessoa humana e chama‑nos a uma solidariedade global, por exemplo através da adopção de um «código ético comum» (João Paulo II,
Discurso à Pontifícia Academia das Ciências Sociais, 27 de Abril de 2001, n. 4), cujas normas não teriam apenas um carácter convencional, mas estariam radicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consciência de todo o ser humano (cf. Rm 2, 14‑15).
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7. Parece que em diversas partes do mundo passámos da tolerância ao encontro, a partir de vivências comuns e de preocupações partilhadas. Esta é uma importante etapa que já se alcançou.
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Pondo à disposição de todos a riqueza que brota da oração, do jejum e da caridade de uns e de outros, não é porventura possível que o diálogo mobilize as forças vivas de quantos se encontram a caminho em direcção a Deus? O pobre interpela‑nos, desafia‑nos, mas sobretudo convida‑nos a colaborar numa causa nobre: vencer a sua pobreza!
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Bom e feliz ‘Id al‑Fitr’!
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Cardeal Jean-Louis Tauran Presidente
D. Pier Luigi Celata Secretário
Conselho Pontifício para o Diálogo Inter religioso

English, español, français et outres
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  • Imagem: Cosmos, Jean-Louis Grig

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

  • VOZES DE ATENTAR...
A caridade é admirável, mas não quando toma a forma de um donativo ao Ku-Klux-Klan, John Hospers
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Imagem: Les femmes, Milo Manara

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

VICIADOS NA PARTIDARIZAÇÃO

O Expresso das Ilhas publicou um artigo de opinião de Ulisses Correia e Silva, Presidente da Câmara Municipal da Praia. "Viciados na Partidarização" é um texto a ler com atenção por todos os cabo-verdianos.

«O Estado tem responsabilidades pela orientação da política de educação, da cultura e da comunicação social - veículos de mudanças comportamentais - mas para que as suas opções e acções produzam efeitos na alteração do estado social, é preciso que ele seja autêntico e engajado com essa transformação. Não é o que acontece entre nós. E a responsabilidade é principalmente dos partidos políticos.

«A prática política ou é diferente do discurso político, ou o discurso político não é clarificador e permite que práticas perversas predominem. Há um excessivo peso do político/partido face à sociedade, característica de um país dependente da ajuda externa e da dívida externa, com uma economia distributiva e da não libertação ainda dos resquícios do Partido/Estado. Mas o mais determinante, é que se joga um jogo de interesses que torna o exercício do poder refém da partidarização e do clientelismo» Ulisses Correia e Silva dixit.

Aqui está um artigo da lavra de um político com responsabilidades – no passado e no presente, e de quem se espera que venha a assumir outras no futuro; e tal só dependerá dele mesmo – a ter um discurso que não deve cair em saco roto, que deve levar os cidadãos e os órgãos e agentes do Estado a pensarem se querem ter um Estado social ou um Estado de partidos e dos seus clientes. A opção é tautológica.

Daqui, de terra-longe, um bem-haja ao Ulisses Correia e Silva por esta denúncia, por colocar o dedo numa ferida que anda coberta de seda mas que, antes de gangrenar, é necessário espreme-la e retirar o pus malcheiroso. Que estas ideias sejam norte da sua gestão na capital da nação, pois os praienses e todos os cabo-verdianos precisam de um Estado, central e local, que não seja clientelar.
Que outras vozes, de políticos que sabem do que falam pois são parte «do sistema», venham a terreiro dizer, com a mesma frontalidade e elegância, o que diz Ulisses Correia e Silva. Mas (e há este mas…), palavras sem acções de pouco valem – e o povo, esse que «não é ignorante», espera mais e melhor dos seus representantes (inclusive do Ulisses Correia e Silva — a esperança do povo é mais funda que a Fossa das Marianas).

Imagem: Ulisses Correia e Silva, Presidente da Câmara Municipal da Praia (in Expresso das Ilhas)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

  • VOZES DE ATENTAR
«As coisas divinas sempre prevalecerão sobre as coisas terrenas; por isso digo e ordeno que templo seja feito pelos cristãos a Cristo, seu Deus; porque não vá ser o caso de este ser um dos deuses desconhecidos, mais honra merece que o honremos que aos vendedores de vinhos.»
Alexandre Severus
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Nota: Alexandre Severus disse isto numa sentença a propósito de uma questão judicial que opunha um grupo de revendedores de vinho e os cristãos de Roma que queriam contruir um templo no mesmo lugar que esses queriam ter um armazém. Como diria Salomão, "beije-me ela com os beijos da sua boca, porque melhor é o seu amor do que o vinho", Salomão, Cântico dos Cânticos, I.2
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Imagem: Homem...

quinta-feira, 12 de março de 2009

  • EXEMPLOS A SEGUIR
"Pés, para que te quero se tenho asas para voar?", Frida Kahlo, depois de perder um dos pés, gangrenado.

Imagem: Frida Kahlo, por volta de 1938-39

quarta-feira, 11 de março de 2009

  • VOZES DE ATENTAR...
"Nós nos transformamos naquilo que praticamos com frequência.
A Excelência, portanto, não é um acto isolado. É um hábito", Aristóteles
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Imagem: Foto de Gregory Colbert

sábado, 31 de janeiro de 2009

  • PALAVRAS DE ATENTAR

«O objetivo da existência é a iluminação. Só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora», Siddhartha

  • Imagem: Walker VII, Igor and Marina

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

  • MOMENTO ZEN

«A tua atitude deve ser como a de um herói sem medo; mas o teu coração deve ser como o de uma criança, cheio de amor», Regras de Soyen Shaku

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

  • NATAL E JOSÉ LUIZ TAVARES

Está aí o Natal. Como é tradição, fazem-se oferendas – como fizeram ao menino Jesus quando nasceu. A ele ofertaram ouro, incenso e mirra; ouro significando a sua realeza, incenso a sua divindade e mirra a dor que sofreria. Assim, uma prenda é, deve ser, mais do que uma coisa – deve ser e ter um simbolismo.

Eu, com se sabe, gosto de ler e acho que o livro é uma das formas de excelência da cultura e que não se esgota na sua forma nem no seu sentido instrumental. No tempo em que se vota neste ou naquele, com mérito ou demérito de proximidade e de amizade, é necessário cultivar a alma, buscar a excelência como o pomo de ouro da alma.

A ter de oferecer um livro a alguém, ofereceria uma das obras de José Luiz Tavares, o poeta cabo-verdiano que, no quadro da produção poética cabo-verdiana, revela uma anima de inspiração e transpiração estéticas incomuns. Os amiúdes ataques anónimos que sofre – de almas pequenas que sonham ser grandes mas nunca serão – é, também, prova da maioridade de uma obra em construção e digna de ser conhecida e reconhecida. Há mais na poética cabo-verdiana que o passado forçadamente eucaliptico – da herança colonial, claridosa e pós claridosa – mais que «os ressurrectos nomes dos mortos», diria o poeta.

E se o Natal é tempo de (re)nascimento e de desnudar a beleza recôndita, nada como ofertar aos outros e si mesmo a poesia de José Luiz Tavares que é, em si mesma, um horizonte novo – esculpido de um logos prenhe de ilhas inconstruídas – da poesia cabo-verdiana e de língua portuguesa. Escrita de verbo mufino, mofina muitas almas rasantes; é certo. Já agora, espero que um dia destes o Ministério da Educação acorde da sua hibernação cultural e coloque a sua obra nos curricula do ensino da língua portuguesa nas escolas cabo-verdianas, pois a sua poética não deve nada aos clássicos. Seria, sim, uma forma de Natal temporão para o ensino do português em Cabo Verde e de reconhecimento do que merece ser reconhecido; pois o país corre o sério e mais que provável risco, como tem acontecido noutros casos, de ter de importar o reconhecimento feito em terra-longe aos filhos da terra.

Ah!, e não nos devemos esquecer que a melhor forma de se homenagear um poeta é comprando e lendo os seus livros. Comprar um livro é coisa pouca se comparada com o prazer, o orgasmo de alma que é ler poesia de excelência e de invulgar logos, como é o caso da poética de José Luiz Tavares. Eu acho que quem gosta de livro de livros e de poesia deve a si mesmo o prendar-se com tão estruturada e ufana poesia. Sim, a poesia de José Luiz Tavares tem, de certo modo e neste momento, como dizia, uma dada e verdadeira dimensão eucaliptica e desafia o futuro da poesia cabo-verdiana.

Será por isso que a sua obra mais recente passou despercebido em Cabo Verde? Talvez, talvez… mas que fazer? Os povos diasporizados são assim mesmo, prenhes de ingratidão; no caso de Cabo Verde grassa o medo da excelência. Mas como esconder uma candeia na noite escura? Como?...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

  • NÓS, OS AFRICANOS

«Para participar da revolução africana não basta escrever uma canção revolucionária; é preciso forjar a revolução junto com o povo. E se nós a forjarmos junto com o povo, as canções surgirão por si mesmas e delas mesmas.

Para realizar uma acção verdadeira, é necessário ser parte viva de África e de seu pensamento; é preciso ser um elemento da energia popular que é totalmente convocada para a libertação, o progresso e a felicidade de África. Fora dessa luta não há lugar para o artista ou para o intelectual que não esteja, ele mesmo, preocupado e totalmente identificado com o povo na grande batalha de África e da humanidade sofredora.» in, Nós, os negros, Stephen Biko, 1970

  • Imagem: Stephen Biko, à data da sua prisão com Nelson Mandela

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A Prostituta e o Gigante, William Blake

  • USURPADORES DE PROPRIEDADE ALHEIA EM CABO VERDE: AQUI d´El REY ©
Se, como disse o Primeiro Ministro José Maria Neves na Assembleia Nacional, vai haver a lugar à construção de mais hoteis em Cabo Verde, será conveniente que o Governo, os órgãos autárquicos e o Ministério Público estejam atentos. E atentos para que não aconteça que esses hotéis não venham a ser construidas em propriedade alheia, como aconteceu no Porto Novo, Santo Antão – em hotel inaugurado com pompa e circunstância pelo Governo e a própria liderança da oposição.

É que, falo com razão e causa, no Porto Novo aconteceu isso mesmo em terrenos da minha família. E, posso garantir, se a situação não for resolvida da forma que penso que venha a ser feita, isto é, com bom senso e cumprindo-se a lei, serão propostos os competentes processos judiciais, quer cível quer penal, a fim de se apurar as responsabilidades devidas. Existem limites para a paciência e a tolerância, mesmo para o mais paciente dos mortais

É que propriedade alheia não pode e muito menos deve ser vendida pelas autarquias a investidores estrangeiros como se fossem coisa sua ou pública. Propriedade alheia não é da Joana, não; é direito fundamental do cidadão titular do título de propriedade. Tornou-se uma evidência que existe alguma leviendade – o adjectivo não é acintoso nem aplicado de ánimo leve – na forma como se vê e se trata a propriedade privada em Cabo Verde. E isso num país que arvora a bandeira do liberalismo...

Saberão algumas pessoas – que fazem gato sapato da coisa alheia – o que é e qual é a função estruturante da propriedade privada no pensamento liberal? – pergunta-me o meu poeta, meio abismado.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Vox populi: Roma e Pavia não se fizeram num dia...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

  • ACORDA A CIDADANIA SILENCIADA

O site africanidade anunciou o que se sabia e era esperado há muito: um cidadão de origem cabo-verdiana será candidato à Câmara Municipal da Amadora. Ao caso, Francisco Pereira.

Em Lisboa, haverá um outro candidato de origem africana. Odivelas, Loures e outros locais improváveis, também… vai-se sabendo, devagar. É uma revolta contra na não inclusão dos afro-descendentes nos quadros e nas listas dos partidos políticos, se ser para colorir.

Aplaudo a candidatura de Francisco Pereira, com a sensação de que não andei, durante anos, a pregar no deserto. E fico à espera das outras candidaturas, necessárias. E não se pense que se está perante qualquer mimetismo, não…

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

  • CURAR A HOMOSEXUALIDADE? ©

Li um artigo «Homossexualismo – Uma Análise Mais Ancorada» da lavra do Economista Manuel Fernandes no jornal cabo-verdiano A Semana (31.10.2008) e que versava sobre a homossexualidade e achei as suas ideias mesolíticas, pois estão ancoradas em duas linhas de pensamento – o trogloditismo e a envangelismo radical (admirei-me até que não tivesse dito, como alguns evangélicos reformadores afirmam, que a homossexualidade é possessão demoníaca).

Ancorará o seu pensamento económico em preconceitos tão básicos? É que a sua análise revela um desconhecimento abissal da psicologia do desenvolvimento. Numa coisa está certo – as origens do comportamento homossexual jazem na infância e, salvo algumas excepções, os homossexuais foram vítimas de abusos sexuais na infância.

Agora, extrapolar esse facto para procurar uma «cura» é, no mínimo um non sense. Como deverá saber o M.I. Economista – pelas leituras que diz ter feito – a pessoa forma-se ao longo do tempo e tem uma idade cronológica e uma idade mental. Entre os 16 e os 21 anos a personalidade da pessoa está formada e isso, definitivamente, determina as suas opções ao longo da vida. Sim, depois de formada como pessoa, a personalidade individual é inalterável.

Como deverá saber o M.I. Economista, para se saber se é ou não doença teria de fazer o diagnóstico da situação do «paciente». Ora, no caso tem é um facto que não constitui em si um diagnóstico (pensará num distúrbio psico-social ou numa “doença da vontade”) e, a partir dele, extrapola para além do admissível.

Ah!, já agora… que prognostico tem para esses «doentes» e qual é a cura? Depois compartilharei uma estória verídica em torno desta realidade e sobre esse tipo de “cura” – nihil novi sob soli, M.I. Economista... Análoga ao que se faz para os toxicodependentes? M.I. Economista Manuel Fernandes, give me a break e vá curar os livros de Adam Smith, Samuelson, Nordaus, Kantorovich, James Buchanan e companhia.

Não se trata de uma doença, M..I. Economista, mas de uma personalidade definida e condicionada para dado comportamento sexual; por isso se fala em crimes – no direito penal sexual – contra o desenvolvimento da personalidade, a autodeterminação sexual (nos crimes sexuais contra menores), pois é disso que se trata. É uma personalidade – e sabe(rá) o M.I. Economista o que isso quer dizer – diferente, diversa da maioria das pessoas, mas uma personalidade. E como tal deve ter a liberdade de fazer o que quer, quando e com quem quer da sua vida sexual.

Sou, por educação, homofóbico; sim. E depois? Sou culpado pela cultura que tenho? Ah, não, não me chame o Prof. Figueiredo Dias nem invoque a «culpa na formaçao da personalidade». Mas isso não quer dizer que deseje que os homossexuais sejam heterossexuais como eu sou; pois não me pedem isso. Ah, mas porque as pessoas têm de ser iguais umas às outras? A diferença é um bem social, não um mal.

Sou frontalmente contra o casamento formal homossexual – por razões que não vêm ao caso e que nada têm a ver com a autodeterminação sexual alheia –, mas não sou contra a adopção de crianças por casais homossexuais pois, ao contrário do que se pensa, o homossexualismo «não pega» como as DST´s e não existe nenhuma razão sustentada para que não possam criar e educar uma criança, pelo contrário.

O homossexual, por causa do estigma social a que está sujeito, é um sofredor de natureza e, por essa razão, a humanidade tem beneficiado do grande engenho de muitos que transformaram a sua dor em beleza. Basta(rá) olhar para a história da literatura mais recente para se ter essa percepção.

Mas o M.I. economista certamente que nunca leu «Leaves of Grass» de Walt Withman, «O Retrato de Dorian Gray» de Óscar Wilde, «Note Book» de Ludwig Wittengstein (um belíssimo diário escrito nas trincheiras durante a I Guerra Mundial – não confundir com a obra filosófica), «Mar de Fertilidade» de Yukio Mishima… nem deverá ter atentado na poesia alexandrina de Konstantinos Cavafis. É que pode pegar… o bom senso e o sentido de humanidade.

Ah, esquecia-me de referir que muitos homossexuais foram «curados» nos fornos de Auschevitz Birkenau. Pois... eu e o país ficamos a saber que o M.I. Economista Manuel Fernandes nunca bateu uma punheta (era mais bonito dizer masturbação, não era?). Está bem, vernaculemos. Ficamos todos a saber que o M.I. Economista Manuel Fernandes nunca se masturbou, casou virgem e que não olha para as mulheres do próximo ou próximas.

É que, de outro modo, precisaria, também, de terapia (penitências, Ave Marias e Padre nossos? – não, pelo discurso não faz nada disso… é mais evangélico tradicionalista) pelo «equívoco» e «anomalia sexual» que é punhetar. Deus! Texto infeliz, M.I. Economista Manuel Fernandes. Infeliz, também, a sua publicação.

O M.I. Economista Manuel Fernandes deve ter seguido há muito o conselho de S. Paulo aos Coríntios «libertinos» (bem mais do que os romanos): «mais vale casar do que abrasar». Pois… Sim, o Tchicai tem o direito de sonhar (até de ser Tchicau), como os economistas puritanos fazem. Felizmente vê uma sociedade mais bela e livre de preconceitos ou pré conceitos – que, como, falava no outro dia com um amigo, são coisas substancialmente diferentes.

E, de repente, lembrei-me de Joerg Haider. Não me perguntem porquê…

  • Imagem: Walt Withman

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

NÃO ACABARÃO NUNCA COM O AMOR

Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.
Vladimir Maiakovski