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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

  • ELA CAMINHA EM FORMOSURA
Ela caminha em formosura, noite que anda
num céu sem nuvens e de estrelas palpitante,
e o que há de bom em treva ou resplendor
se encontra em seu olhar e em seu semblante:
ela amadureceu à luz tão branda
que o Céu denega ao dia em seu fulgor.

Uma sombra de mais, em raio que faltasse,
teriam diminuído a graça indefinível
que em suas tranças cor de corvo ondeia
ou meigamente lhe ilumina a face:
e nesse rosto mostra, qualquer doce ideia,
como é puro seu lar, como é aprazível.

Nessas feições tão cheias de serenidade,
nesses traços tão calmos e eloquentes,
o sorriso que vence e a tez que se enrubesce
dizem apenas de um passado de bondade:
de uma alma cuja paz com todos transparece,
de um coração de amores inocentes.
Lord Byron
.
  • Imagem: Foto de uma bela Mindelense dando as boas vindas à chuva, na Praça Nova do Mindelo. Ah!, quando eu era menino, também eu desnudava a alma à chuva no Mindelo; ainda o faço..., mas em terra-longe...

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

  • Aqui está algo que nunca conseguirei fazer. E não importa, ao caso, a perspectiva em que for vista. Uma liçãozinha de humildade, não é?

segunda-feira, 16 de junho de 2008

«Mamãe respondeu-lhe com duas pedras na mão. Ela ainda não tinha perdido, louvado Deus, o juízo com que veio da barriga da mãe. Agradecia muito ao compadre o seu interesse, mas sabia com certeza que Chiquinho era ainda o mesmo menino bom que ela criou debaixo de hissope e água-benta. Deus sabe da vida de cada criatura.

[...]

– Se Chiquinho for carga pesada, nós, que o aguentámos tamanhinho, poderemos, louvado Deus, susté-lo neste balanço...

[...]

– Mas eu sou compadre, compadre é pai...
– Pai é quem fez e mãe quem pariu! Você sentiu as dores de parição, não, nhô Mano?
Mamãe-Velha tinha destes realismos saborosos.»
in Chiquinho, Baltasar Lopes, Nova Vega, Lisboa, 2006, p. 161.

  • Imagem: La Madonna Litta, Leonardo da vinci

domingo, 13 de abril de 2008

~ Praça Nova, Mindelo, foto de Nuno Pombo Costa © ~

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

~ Gene Kelly, Singing in the rain ~


  • Todos se lembram do homem a cantar na chuva. Mas porque haveria um homem de cantar na chuva? Tudo tem uma razão e por vezes esquecemo-la. Ah, pois é isso mesmo...
    Os japoneses que, segundo Wenceslau de Moraes, ainda não há pouco tempo não tinha no seu léxico a palavra beijo, designavam esta de chupar na boca. Será que é por andar a chupar no dedo que temos aí um estraga prazeres?...

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O MEU PRIMEIRO AMOR

O meu primeiro amor vivia numa rua do Mindelo cujo nome, qual Fénix, esqueço todos os dias – aí, na esquina com a rua da Casa Serradas e por detrás da Rua d´Matijim. Era mais bela que a beleza – pensava nos meus tenros anos mindelenses. Todos os dias corria que nem desalmado para ir comprar peixe p´catchupa n’plurim d´pexe e ficava encostado na esquina à espera de vê-la debruçar-se sobre o terraço da sua casa térrea e lançar-me um sorriso de plumas que baixavam à minha alma formando-se e construiam uma avenida aos meus sonhos.

Era uma criola perolina, florescendo como os girassóis de Van Gogh e que a mãe – com ou sem razão – protegia dos pretinhos d´fralda como eu, a modos de guardadora de um tesouro escondido de piratas sanguinários. Pelas circunstâncias, trocamos poucas palavras – mas para quê falar se o olhar era tudo? Combinamos (será que é como as minhas memórias do Orfeu Negro?...) ver-nos no Domingo, no cinema Eden Park, para ver o filme «Melody» no tradicional vespertino cinema d´menine.

Poupei dinheiro que não tinha (troquei e vendei alguns livros seródios) e aí estava eu – o cheiro domingueiro dos gelados, sucrinha d´coco, barão q´doce d´lete... Ah, a banda tocando no Coreto da Praça Nova, cores em coração de menino e a alma tremendo de prazer eram companhia bastante para um dia feliz, sonhava. Não vi o filme – passei o tempo todo a procurar na escuridão o meu amor de olhar de Lua plena.

Saí apressado, comprei dois gelados e fui à sua procura. Encontrei-a com um sorriso sim na companhia da mãe que olhou para mim como se fosse um leproso em quarentena com dois sininhos, vociferou maldições de verbo não reproduzíveis e arrastou a filha – minha aurora de tudo – deixando-me com os sorvetes a derreter nas mãos… Ela, em olhar de angústia, levava quilómetros de lágrimas – ou sou eu que penso que sim?

Nunca mais consegui vê-la, a não ser ao longe – sempre policiada e com um sorriso que até Deus alimentaria de paixão a alma e redimiria todos os danados. Depois, depois terra-longe tragou-me para o seu ventre; deixando a minha alma em terra pisada pelo meu amor de menino. Voltei, anos depois, já homem – a primeira coisa que fiz no Mindelo foi procurar essa casa térrea, esperando encontrar o meu amor no terraço à espera…

Estava lá, a casa abandonada há muito – «foram para Praia ou para stranger»; disseram-me. Procurei, com diligência de Sherlock, saber mais; mas nada! Tinha, então, acabado de perder o meu primeiro amor – na mesma rua de pedra negra e esquina de paraíso. E nunca soube como se chamava… Sempre que ouço – como agora – «Melody friend», lembro-me. Será que – pergunto de alma exilada há uma eternidade em Lisboa – Lucífer teve olhos de ternura consolando-o quando, injustiçado pelo sonho de Deus, caiu do Céu?
Virgílio Rodrigues Brandão
Publicação originária> JORNAL DE CABO VERDE

sábado, 27 de outubro de 2007

EL SEXO DE LOS ÁNGELES

Angelos, mensageiros divinos – pré-criaturas desta humanidade que carrego -, falta-lhes o que me faz homem um pouco menor do que Deus (deuses=Elohim, Salmos, VIII – New American Standard Version). O mesmo que, também, fez Deus criar Adão quando viu Eva suspensa num jardim de delícias do seu sonho.

Diz-me, Ó poeta: Um ser, qualquer ser, confinado na sua natureza – o que faz? Silêncio. Oh, silêncio que sei esta hora. Obviamente, revolta-se. Ah, doce revolta… O sexo dos anjos na aurora obscura dos tempos; e eu tão longe. Que dia terá sido, Eloha! Partilha, sim, partilha comigo...
Sou, ainda, menino.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

LUA E SONHOS DE MENINO


  • O céu, esta noite, parece um cavaleiro faminto em montada sem trela e assento… Porque será? Se o Mondego estivesse à mão, dar-me-ia uma razão fêmea? Começo a cogitar – mas tenho de escrever este poema que está na minha alma à espera de viver no papel. Penso e descubro o porquê de depois…


  • LUA E SONHOS DE MENINO
    Nas costas da sombra
    de ti, vaga-lume transmuta
    verbo meu, riso. Sim, sim
    são mil putas
    que vendo por almas tuas…

    E sou puro, virgem
    – Deus antes de nós pré-sangrentos.

    Oh, escuta!
    Nas costas da sombra
    de ti – olhar de Lua,
    há uma espera antes
    e adio o mirar da rosa
    rasada de beijos
    quando eu era menino em Fonte Filipe,
    os meus pés amavam a terra
    e seguia-mos, metro a metro de tarde,
    centímetro a centímetro de sonho,
    para aí. Sim, para aí…
    Virgílio Rodrigues Brandão, 26.10.2007
  • mms://radioterralonge.homeftp.net/radio terra longe classica

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

MENINOS DE RUA, ALMAS NA RUA

Esta noite vi na RTP – África uma reportagem sobre os «meninos de rua» em Cabo Verde e adormeci no sofá.... Acordo, de alma cansada. Confesso que fiquei perturbado com tal calamidade – não somente por causa do desespero que se podia ver nas vozes de muitos, mas também no indisfarsável orgulho de outros que, necessariamente, desembocará num ser humano sem respeito pelo valor da vida alheia; como acontece em muitos bairros de Lisboa...

É uma intolerável vergonha nacional. O país não tem problemas sociais que justificam a dimensão deste opróbrio – pobreza sempre houve e numa escala ainda maior do que hoje; basta um exercício de memória colectiva... Acontece que esta vergonha sempre foi escondida; e os problemas não encarados acabam por se tornar maiores do que são ou deveriam ser.

Lembro-me de, em 1998 – aquando do «II Congresso de Quadros da Diáspora» em S. Vicente – o Presidente da Câmara Municipal, Onésimo Silveira, ter mandado prender todos os meninos de rua do Mindelo por causa de um jantar de gala que iria ter lugar no Hotel Porto Grande com a presença dos «quadros» – como se esses não soubessem o que é/era a pobreza – e de membros do Governo, nomeadamente do então Primeiro Ministro, Carlos Veiga que não deveria se afrontado com essa realidade do paraíso.

Os meninos foram escondidos nos calabouços da esquadra do Mindelo durante o tempo do jantar; para ninguém os ver ou não incomodarem nenhuma eminência nacional ou da diáspora pedindo uns escudos para comprar algo para comer... Como o menino que – escapando do zelo imposto à polícia – me pediu dinheiro para comprar comida e depois, no dia seguinte, esperou por mim para convidar-me a ir comer spaghetti na sua casa; o que fiz com prazer.

Sabendo todos a verdade ninguém a conheceu ou quis saber dela. Não aconteceu nada, pensaram muitos; somente se acrescentou rejeição e exclusão à alma dos meninos que foram crescendo – hoje, pergunto-me, que tipo de homens são? Não dará para nos esquecermos quando, um dia, aparecerem à nossa frente com uma faca ou uma pistola a reclamar a nossa vida ou património; mais, as dos nossos filhos. Então, será tarde demais...
  • Aplaco a minha alma escutando «Triangular Situations» de Vasco Martins e «The Ashokan Farewell» de Jay Ungar & Molly Mason.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

MILONGA DE UM HOMEM BOM

Boris Vallejo - Fallen Angel

  • Mulungo, o meu amigo de menino,
    homem alto que nem um pé de cana de açúcar,
    ainda sentiu na negra pele
    o amargo chicote colonizador.

    Aprendeu com o homem branco
    o doce gosto do mosto
    nas noites sem estrelas e sol.

    Descansa hoje eterno
    não nas longínquas planícies
    do quente ventre da Mãe África
    mas no frio da pedra ocidental.

    E a saudade da terra que o gerou
    é ainda maior que o silêncio que o aplana.
    Ouvi dizer que as suas lágrimas secaram
    como a chuva seca.
    Virgílio Rodrigues Brandão
  • DREAMING OF LI BAI, Du Fu

    Separation by death must finally be choked down,
    but separation in life is a long anguish,

    Chiang-nan is a pestilential land;
    no word from you there in exile.

    You have been in my dreams, old friend,
    as if knowing how much I miss you.

    Caught in a net,
    how is it you still have wings?

    I fear you are no longer mortal;
    the distance to here is enormous.

    When your spirit came, the maples were green;
    when it went, the passes were black.

    The setting moon spills light on the rafters;
    for a moment I think it's your face.

    The waters are deep, the waves wide;
    don't let the river gods take you.
    Tradução de Mike O'Connor

Malcolm X (El-Hajj Malik El-Shabbaz), On Revolution - Oxford, 1964