segunda-feira, 1 de setembro de 2008

  • O BALANÇO DE UM AMORDAÇADO

Era a primavera dos sonhos,
sem sentido.

Era a imortalidade na mão,
sem sentido.

Era a redenção colectiva sem Marx,
sem sentido.

Era o retorno dos guerreiros e da flor,
a última gaivota assombrada no Tejo,
sem sentido.

Era o aroma do sorriso do meu novo amor,
sem sentido.

Era o pálido grená
dos pequenos lábios de desejo,
sem sentido.

Era Wilde consumido
e Khalil crucificado na pena,
sem sentido.

Era a última mulher nua vista pelos homens,
e gritava,
sem sentido.

Era o homem feio com coração de menino
olhando-te nos olhos, e sorrias de dor,
sem sentido.

Era Cunegundes sem aventuras, Dulcineia,
Santa Joana e S. Francisco de Assis
no berço a olhar-nos,
sem sentido.

Era o discurso de Mãe
na juventude das descobertas,
sem sentido.

Era o nácar da alma
cinzelado pelos dias,
sem sentido.

Era o pó dos dias de operário
definhando na poesia,
sem sentido.

Era a opressão que sofre os dias do negro
e a noite sem estrelas,
sem sentido.

Era em mim
a luta fratricida de Darwin,
sem sentido.

Era, dizia Mulungo no último suspiro,
uma boa vida…

E ficou à espera
que o eterno se arrependesse.

  • Imagem: Luis Royo, Planet of the apes
  • 2 comentários:

    Rêves à emporter disse...

    E se o sentido é o sem sentido?

    Belo poema.

    Virgílio Brandão disse...

    Carla,

    Sim, e se... cabe-nos descobrir ou não perder tempo com isso. Fica-se/viaja-se entre a liberdade e a livre necessidade?

    Merci,
    dia bom