quarta-feira, 12 de novembro de 2008

  • CURAR A HOMOSEXUALIDADE? ©

Li um artigo «Homossexualismo – Uma Análise Mais Ancorada» da lavra do Economista Manuel Fernandes no jornal cabo-verdiano A Semana (31.10.2008) e que versava sobre a homossexualidade e achei as suas ideias mesolíticas, pois estão ancoradas em duas linhas de pensamento – o trogloditismo e a envangelismo radical (admirei-me até que não tivesse dito, como alguns evangélicos reformadores afirmam, que a homossexualidade é possessão demoníaca).

Ancorará o seu pensamento económico em preconceitos tão básicos? É que a sua análise revela um desconhecimento abissal da psicologia do desenvolvimento. Numa coisa está certo – as origens do comportamento homossexual jazem na infância e, salvo algumas excepções, os homossexuais foram vítimas de abusos sexuais na infância.

Agora, extrapolar esse facto para procurar uma «cura» é, no mínimo um non sense. Como deverá saber o M.I. Economista – pelas leituras que diz ter feito – a pessoa forma-se ao longo do tempo e tem uma idade cronológica e uma idade mental. Entre os 16 e os 21 anos a personalidade da pessoa está formada e isso, definitivamente, determina as suas opções ao longo da vida. Sim, depois de formada como pessoa, a personalidade individual é inalterável.

Como deverá saber o M.I. Economista, para se saber se é ou não doença teria de fazer o diagnóstico da situação do «paciente». Ora, no caso tem é um facto que não constitui em si um diagnóstico (pensará num distúrbio psico-social ou numa “doença da vontade”) e, a partir dele, extrapola para além do admissível.

Ah!, já agora… que prognostico tem para esses «doentes» e qual é a cura? Depois compartilharei uma estória verídica em torno desta realidade e sobre esse tipo de “cura” – nihil novi sob soli, M.I. Economista... Análoga ao que se faz para os toxicodependentes? M.I. Economista Manuel Fernandes, give me a break e vá curar os livros de Adam Smith, Samuelson, Nordaus, Kantorovich, James Buchanan e companhia.

Não se trata de uma doença, M..I. Economista, mas de uma personalidade definida e condicionada para dado comportamento sexual; por isso se fala em crimes – no direito penal sexual – contra o desenvolvimento da personalidade, a autodeterminação sexual (nos crimes sexuais contra menores), pois é disso que se trata. É uma personalidade – e sabe(rá) o M.I. Economista o que isso quer dizer – diferente, diversa da maioria das pessoas, mas uma personalidade. E como tal deve ter a liberdade de fazer o que quer, quando e com quem quer da sua vida sexual.

Sou, por educação, homofóbico; sim. E depois? Sou culpado pela cultura que tenho? Ah, não, não me chame o Prof. Figueiredo Dias nem invoque a «culpa na formaçao da personalidade». Mas isso não quer dizer que deseje que os homossexuais sejam heterossexuais como eu sou; pois não me pedem isso. Ah, mas porque as pessoas têm de ser iguais umas às outras? A diferença é um bem social, não um mal.

Sou frontalmente contra o casamento formal homossexual – por razões que não vêm ao caso e que nada têm a ver com a autodeterminação sexual alheia –, mas não sou contra a adopção de crianças por casais homossexuais pois, ao contrário do que se pensa, o homossexualismo «não pega» como as DST´s e não existe nenhuma razão sustentada para que não possam criar e educar uma criança, pelo contrário.

O homossexual, por causa do estigma social a que está sujeito, é um sofredor de natureza e, por essa razão, a humanidade tem beneficiado do grande engenho de muitos que transformaram a sua dor em beleza. Basta(rá) olhar para a história da literatura mais recente para se ter essa percepção.

Mas o M.I. economista certamente que nunca leu «Leaves of Grass» de Walt Withman, «O Retrato de Dorian Gray» de Óscar Wilde, «Note Book» de Ludwig Wittengstein (um belíssimo diário escrito nas trincheiras durante a I Guerra Mundial – não confundir com a obra filosófica), «Mar de Fertilidade» de Yukio Mishima… nem deverá ter atentado na poesia alexandrina de Konstantinos Cavafis. É que pode pegar… o bom senso e o sentido de humanidade.

Ah, esquecia-me de referir que muitos homossexuais foram «curados» nos fornos de Auschevitz Birkenau. Pois... eu e o país ficamos a saber que o M.I. Economista Manuel Fernandes nunca bateu uma punheta (era mais bonito dizer masturbação, não era?). Está bem, vernaculemos. Ficamos todos a saber que o M.I. Economista Manuel Fernandes nunca se masturbou, casou virgem e que não olha para as mulheres do próximo ou próximas.

É que, de outro modo, precisaria, também, de terapia (penitências, Ave Marias e Padre nossos? – não, pelo discurso não faz nada disso… é mais evangélico tradicionalista) pelo «equívoco» e «anomalia sexual» que é punhetar. Deus! Texto infeliz, M.I. Economista Manuel Fernandes. Infeliz, também, a sua publicação.

O M.I. Economista Manuel Fernandes deve ter seguido há muito o conselho de S. Paulo aos Coríntios «libertinos» (bem mais do que os romanos): «mais vale casar do que abrasar». Pois… Sim, o Tchicai tem o direito de sonhar (até de ser Tchicau), como os economistas puritanos fazem. Felizmente vê uma sociedade mais bela e livre de preconceitos ou pré conceitos – que, como, falava no outro dia com um amigo, são coisas substancialmente diferentes.

E, de repente, lembrei-me de Joerg Haider. Não me perguntem porquê…

  • Imagem: Walt Withman

9 comentários:

João Branco disse...

Estamos a preparar uma carta de protesto ao jornal que publicou essa anormalidade. Aliás, algo não referido no teu texto e que seria merecedor de análise: como pode um jornal de referência publicar um texto nazi destes?

Ah, e não falaste da mais extraordinária teoria que é a das escolas de reabilitação para homosexuais. Para uma dessas aposto que gostarias de ir: já imaginaste? Enfermeiras lindas e esculturais, para nos «reabilitar»?! Ai, ai!

Virgílio Brandão disse...

João, imagino o tipo de reabilitação - com material sucedáneo, naturalmente...

Ah, a questão da cura deixei para uma «estória» verídica sobre estas curas...

Confesso que assim... eu não me importaria de passar por homosexual. Bela «reabilitação»! Eh, eh...

E esse pensamento não é tão «nazi» como pensas, pois conhecerás muita gente aí no Mindelo que assim pensa. Muito mais do que pensas, pois isso é o que pensa a Igreja, a maioria da(s) Igreja(s)...

Abraço fraterno

Joshua disse...

Bolas. De repente fiquei sem fôlego. Não estava à espera que de repente a tua postagem ficasse tão gráfica. Acho que até estou corada...Anyway,tenho que te dizer que não concordo com a maneira como colocas a questão dos abusos sexuais. No fundo estás à procura de uma explicação para um comprtamento tido como desviante. Um homossexual iria certamente considerar esta tua afirmação preconceituosa.

Virgílio Brandão disse...

Oh, Joshua! Sorry por te fazer corar... Não posso ajudar Eh, eh

Olha, não me parece que seja assim como dizes. Não procuro justificar ou esplicar nada; as pessoas são como são e têm a liberdade de o ser.

Agora, quando aparecem trogloditas a dizer que são «doentes» ou coisas análogas há que ser um pouco gráfico nas palavras.

Mas eu não escondo os meus preconceitos; aceitos como um produto da minha cultura e vivo com elas sem medos e procurando entender o diferente na sua diferença e eu na minha. É simples.

Ah, e do que não concordas?

:-)

Joshua disse...

Afirmação que fazes de que as origens do comportamento homossexual jazem na infância de cada um não é consensual nem sequer entre os especialistas. E depois implicitamente afirmas que a grande maioria dos homossexuais forma vítimas de abusos enquanto crianças o que os poderá ter conduzido a esse comportamento e isso também não está provado. Para algumas correntes o comportamento homossexual é inato e não adquirido como tu dizes...De resto estamos de acordo. Eu apesar do esforço que faço sou também um bocadinho homofóbica.

Virgílio Brandão disse...

Joshua,
Entendo-te. Mas, como sabes, nessas coisas não há consensos absolutos; é teoria x, y ou z… e aceitas esta ou aquela que te parecer mais sustentada na razão.

O que te posso dizer – pela experiencia de contacto com pessoas da «comunidade» homossexual, isto é, empiricamente e sem recorrer às teorias – é que a maioria foi vítima de abusos sexuais na infância. Pelo menos com os que aconselhei – noutros tempos … – assim aconteceu.

Se calhar estás a falar – quando te referes ao inato e ao adquirido – sobre a questão da transexualidade, que é coisa e questão diversa da homossexualidade.

O que nos difere, Joshua, é que eu admito frontalmente a minha «cultura homofóbica» e tu tens resistências em aceitar o que és… pois somos, substancialmente, da mesma “massa” cultural homofóbica e intolerante.

Ter consciência disso é o primeiro passo para vermos o «outro» homosexual como ele é e o aceitarmos como parte da diversidade humana.

O que nos une nisso é claramente o pensarmos que todos, no matter what, são livres de viverem como querem, sem falsos pudores e em liberdade.

Hoje mereces um beijo!

Joshua disse...

VB, "O Magnânimo"! :)

Estava mesmo a falar dos homosexuais e não dos trans...
Enfim, as explicações são muitas e cada um escolhe aquela que lhe fizer mais sentido.

Virgílio Brandão disse...

Acho que, como diz o meu poeta, devemos escolher, sempre, a explicação mais humana.

Ariane Morais-Abreu disse...

E também aceitar o masculino e o feminino, o hetero e o homo que constituem a nossa propria diversidade genetica, biologica, sexual, humana, animal.