segunda-feira, 11 de agosto de 2008

  • DISCRIMINAÇÃO LINGUÍSTICA

Na semana passada o Diário de Notícias trazia uma notícia com contornos, no mínimo, surrealistas; mas é só prima facies pois é a realidade nua e crua; e não é novidade, não. Não importa os contornos controvertidos da situação, o que importa é que uma cidadã com língua materna cabo-verdiana se sentiu discriminada por falar essa sua língua no local de trabalho – na Junta de Freguesia de Benfica, às portas da capital de Portugal.

Será possível conceber-se que alguém seja ou possa ser discriminado por falar francês, espanhol, inglês ou sueco no local de trabalho? Não? Então, porque é que o é ou possa sê-lo por falar cabo-verdiano, ou crioulo?

A resposta é simples: o cabo-verdiano é tido em Portugal não como uma língua civilizada mas sim como uma espécie de papiamento de trogloditas de tribos imaginárias dos confins de África, um conjunto de monossílabos guturalmente articulados e que se chama crioulo mas que não tem dignidade bastante para se chamar língua.

É assim, nem mais. O ser humano tem essa tendência de colocar as culpas dos seus males nos outros, nunca assume que tal pode advir das suas acções voluntárias, das suas acções por omissão ou meras omissões. É o que acontece nestas situações de discriminações dos cabo-verdianos diasporizados.

Nesta situação concreta da discriminação linguística (que acontece há anos nos estabelecimentos de ensino portugueses – sendo de conhecimento público e notório) só acontece por que o Estado de Cabo Verde continua – dia após dia, mês após, ano após ano – a procrastinar o estatuto de língua de trabalho oficial da nação cabo-verdiana à língua cabo-verdiana.

Se o cidadão pode se queixar, já o Estado de origem da sua linguagem já não poderá – pelo menos com razão e autoridade moral – melindrar-se publicamente de tal facto; e lá tenho de invocar o profeta, mais uma vez: «de que se queixa o homem? Queixa-se dos seus próprios pecados.»

As omissões do Estado acabam por constituir, sempre, opróbrios sociais aos seus cidadãos. Este é, infelizmente, um desses casos. Quando é que o Estado terá a coragem de dizer: «nunca mais!»? Quando fizer o que tem de fazer, aí saberemos (e não é um «o que tens a fazer, vai e faze-o depressa» que alguns pensam, não…).

  • Imagem: AFRICA, Giovanni Domenico Tiepolo

2 comentários:

Anónimo disse...

Discrimina�o Linguistica. eu sou cabo-verdeana e o meu primo que � o meu colega de trabalho tamb�m �estavamos a falar crioulo no trabalho, e v�m um colega nosso a chamar-nos aten�o ,para n�o falarmos cioulo porque � falta de respeito para aqueles que n�o percebem, eu percebi porque evito falar crioulo se estiver uma pessoas que n�o percebem, mas como n�o era o caso s� estavamos na mesa eu e o meu primo, na nossa mesa porque era no refeit�rio, o meu primo respondeu-lhe que n�o era falta de educa�o porque n�s somos de um pa�s bilingue...

Virgílio Brandão disse...

Anónima das 22:30,
é verdade: falar em língua que outros não entendem – a modo de interjeição – consubstancia desrespeito com os demais, se for uma conversa alargada. Mas já não o é se for uma conversa privada, como parece ter sido o caso que narra.

Atenção com esse «colega» pois é, como se diz em Portugal, um ou uma «cusca». O problema não é falta de educação da Vossa parte, mas de não satisfazerem a sua curiosidade.

bcd