quarta-feira, 6 de maio de 2009

  • A ORELHA DE VAN GOGH E OS CRIOLOS TOY E TiLIS

Que Van Gogh, assim como William Blake, era um louco, poucos duvidarão – da sua genialidade, talvez… em razão de critérios estéticos. Nunca da sua loucura. A razão maior não foi o seu suicídio, ou ter estado internado num estabelicimento para dementes, não. A razão – que as pessoas se lembrarão como marco da sua vida – foi o ter cortado o lobo da sua própria orelha. Mas a verdade pode ter sido substancialmente diferente da que se conhece, dizem Hans Kaufmann e Rita Wildegans, dois especialistas alemãs em história da arte.

Segundo estes, a orelha de Van Gogh foi cortada por Paul Gauguin numa rixa entre os dois artistas, de forma dolosa ou negligente, em 1888. A verdade é que a orelha de Van Gogh foi cortada, e ele omitiu a verdade sobre a situação em que tal ocorreu – Gauguin fez o mesmo. Terão chegado a um acordo para que a verdade não viesse a público, pois eram, acima de tudo, amigos… e Gauguin terá se defendido de um ataque de fúria do atormentado holandês e não desejado o seu mal. É uma tese bem mais plausível e menos macabramente romântica que a da auto-mutilação de Van Gogh que em muito contribuiu para a dimensão mítica do artista.

A história de Van Gogh e Gauguin, lembra-me, mutatis mutandis (por razão de interesse para a maioria dos mortais), a de Toy e TiLis – dois criolos cabo-verdianos a trabalharem e a viverem numa obra em Lisboa, na Avenida Alvares Cabral (ao lado do antigo Jardim Cinema). Num dia de verão de 1984, sabe lá Deus porquê, desentenderam-se durante a noite. A briga foi feia, muito feia – meteu faca e tudo. O TiLis acabou por cortar o lobo e parte da cartilagem da orelha do Toy e, no dia seguinte, exibiu-o na obra, dentro de uma caixa de fósforos, envolto em sal. A custo consegui convencer o TiLis a terminar com a macabra exibição, sem grandes consequências no universo laboral; a não ser a ideia que ficou em alguns que havia um preto canibal na obra. Um triste e célebre incidente em Odivelas (e que teve lugar a poucos metros de onde eu vivia) não ajudou em nada a que se afastasse esta ideia, silenciada mas pensada.

Muitos ficaram convencidos de que o TiLis comeu o bocadinho de orelha do Toy, como anunciara que faria; como um Mindelense antigo diria, para se sentir grande como o Monte Cara. Mas, não! Eu e o pequeno Rogério, o encarregado da obra que olhava para os seus pretos como uma espécie de mentecaptos que precisavam da sua tutela paternal (o que não fazia por mal, sendo verdade que alguns bem que precisavam), resolvemos o problema, e desfizemo-nos do bocado de orelha do Toy. O Sr. Avelino (um homem enorme, bonacheirão, duro... massa bruta que me faz lembrar o Undertaker e que viria a encontrar a morte na estrada) e o Engº. Brito Costa, os Patrões e donos da obra, nunca ficaram a saber a verdade. Para eles, coitados, o Toy teve um acidente de trabalho.

Na altura, o lobo da orelha do Toy era, para mim, bem mais importante que a do Van Gogh. Hoje, continua a ser. E por ondem andarão o Toy e o TiLis – pengunto-me. Por onde andarão os seus passos? Será que cumpriram com o seu destino migrante? Destino que, numa noite namorada de cerveja e com os sonhos descarnados, levou-os a encarnar, sem consciência do facto, Van Gogh e Gauguin?

Imagem: Van Gogh: Autoretrato com a orelha tapada (1889)

5 comentários:

Joshua disse...

Muito engraçada esta tua estória.
:)

Virgílio Brandão disse...

:-)
Engraçado: em frente... mesmo em frente deste edifício, está uma Pizza Hut!

As coisas que me passam pela cabeça! E Sexta-feira é só amanhã! - pensará quem não percebe os meus ditirambos. Domingo sempre foi bem pior - dirá o meu poeta.

Sindrome de Van Gogh.

Joshua disse...

Ditirambos...esta confesso que tive que ir ao google ver o que era.
:)

marisa disse...

ah,ah, ditirambos, faz-me lembrar o rambo,lembro-me de uma partida k eu pegava as pessoas conhecidas k não sabiam o verdadeiro nome do rambo, e eu dizia« o rambo ou o jeam claude van dame, qual é o mais forte» e para quem não sabia k se tratava da mesma pessoa respondia o rambo, ps: coisas de miùdos, eu era na altura, lol

Nita disse...

Brevemente sairá um compêndio sobre estudos feitos por críticos da Arte e, relacionado com a verdacidade do ocorrido em relação a Paul Gauguin e Vincent van Gogh.
Até agora, não se pôde comprovar se Gauguin cortou de facto a orelha de Van Gohg.
Nalgumas visitas normais ou de estudo que tenho feito a esse museu em Amsterdam, em nada se confirma, seja pela leitura seja através do guia do museu que, Gauguin realmente cortou a orelha de Vincent van Gohg.
Quando Van Gohg apareceu à polícia, também, ali, não declarou que a orelha lhe foi cortada pelo seu amigo Paul Gauguin.
Ambos, para além de amigos partilhavam a mesma casa ( A Casa Amarela - (Het Hele Huis) e dedicavam-se à mesma Arte.
Pois, o problema nasceu duma briga, na via pública, motivado por desentendimento em relação às suas pinturas e, sobretudo, em relação a uma prostituta de nome Rachel.
Logo que sir o compêndio penso adquri-lo e dar-te-ei alguma nota sobre isso, Virgílio.

CUIDEM BEM DAS VOSSAS ORELHAS.
Bom fim de semana a todos.