terça-feira, 19 de Maio de 2009

  • A RIQUEZA DE PEDRO PIRES E OS LADRÕES DA REPÚBLICA
Há coisas que, por vezes, nos fazem orgulhosos de pertenceter à uma nação. Coisas pequenas, aparentemente sem importância – mas que fazem todas a diferença. No outro dia lia no Le Figaro que um Magistrado francês resolveu fazer uma investigação às contas bancárias e aos bens de três Presidentes africanos – magestosamente ricos. Disse para mim mesmo: «bom seria que se fizesse isso em todo o Mundo!». E foi então que me senti orgulhoso de ser cabo-verdiano.

Toda a gente sabe, e não o escondo: nas últimas eleições votei em Carlos Veiga para Presidente da República, e em José Maria Neves para Primeiro Ministro. Por uma questão de sistema político e a bem da nação me pareceram as escolhas óbvias e adequadas – até porque o Presidente Pedro Pires fizera um mandato que não deixava saudades: inócuo como Presidente da República. E não raras vezes o tenho criticado – e, perdoem-me a imodéstia, sempre com razão de situação (fosse a decisão criticada viciada ou não) –, mas nunca coloquei em causa a sua honorabilidade e honestidade.

Pedro Pires, quando se fizer a história de Cabo Verde sem paixões exacerbadas, será considerado muito melhor Primeiro Ministro do que Presidente da República – tenho para mim, e tenho-o dito repetidas vezes, que tem desperdiçado este mandato para deixar uma marca profunda sobre o sentido do exercício do poder presidencial. Mas são circunstância da história, e não só – é claro. Poderia ter enriquecido com o dinheiro do povo, com o erário público; mas não o fez, como fizeram a maioria dos lideres africanos dos sistemas autoritários e pró-socialistas e socialiantes emergentes das lutas de libertação e da Revolução de Abril. Os casos de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola, de alguns ex-governantes da terra da morabeza, e até de Portugal, são paradigmáticos.

Pedro Pires, não! Depois de 15 anos como Primeiro Ministro, nem uma casa própria tinha quando deixou o Governo na sequência da emergência da democracia pluripartidária e da II República. Somente neste segundo mandato (depois de mais de vinte anos como Chefe de Governo e de Estado) é que fez a sua casa, tendo recorrido, como qualquer outro cidadão, a um empréstimo bancário para o efeito (estas coisas deveriam ser levados ao conhecimento do povo, pois há coisas boas a serem noticiadas). Que eu saiba, não tem contas bancárias de muitos dígitos, mansões e casas sumptuosas em Cabo Verde ou no exterior – extorquidos ilegitimamente ao povo. Também não andou a comprar fatos de 300 contos no Rosa & Teixeira, em Lisboa, mas num modesto – e nem por isso menos digno – Pronto-a-vestir do Largo do Rato (e, se calhar deveria fazer compras no Rosa & Teixeira, por uma questão estética e de dignificação da imagem presidencial; o que eu acharia mais do que normal, necessário até). Mas há quem o tenha feito (e mais, muito mais), com o erário público – isto é, como dinheiro de cidadãos que chegam a ganhar míseros 10 contos por mês.

Ter um Presidente da República – ou qualquer governante – que não enriqueceu à custa do povo é uma coisa extraordinária! E não somente em África, não. Em Portugal, os ex-Ministros passam de Ministros a Banqueiros (sim, não é bancários, mas banqueiros) ou a gestores das maiores empresas da nação – ser Ministro é "tese de doutoramento" e tirocínio que habilita quem por lá passa a ser gestor pago a peso de ouro. Pedro Pires não seguiu essa senda, manteve as suas mãos limpas, e isso dignifica não somente a sua pessoa mas também o seu povo. Posso até ter razões para criticá-lo por desmandos e inomináveis abusos feitos durante o sistema político autoritário da I República (critícas que se estenderiam a outros políticos de ambas as barricadas partidárias), mas não posso acusá-lo de ter-se locupletado com os bens do povo, da República. Isso, não.

Merece ser louvado? Na verdade, não merecia – pois quem cunpre com o seu dever não merece nenhum louvor. Acontece que, no contexto em que vivemos, o que fez, neste plano, é extraordinário – e tudo o que é extraordinário (no sentido que se dá hoje à palavra) merece ser salientado. «Mas mesmo assim, não votou nele nas últimas eleições. Porquê?» – perguntar-me-á. Em causa não estava a honestidade das pessoas, mas sim o bem da nação e o seu equilíbrio político – o meu voto seguiu aquilo que achei que era o melhor para o país. Aliás, haverá hoje em Cabo Verde quem – tendo consciência política (e não estando politicamente engajado em nenhum partido político) – que não defenda que o melhor para o país é ter um Presidente da República da esfera de influência diferente da maioria parlamentar que sustenta o Governo? Sim, haverá quem não defenda este tipo de equilíbrio para as próximas eleições?

Mas falava da riqueza, e de Pedro Pires. A riqueza de Pedro Pires, é o exemplo que deixa como um líder que não enriqueceu à custa do erário público cabo-verdiano. Um bom exemplo, que merecia ser recompensado – ser ressaltado como exemplo. Quem sabe se, assim, alguns clepocratas deste Mundo não venham a se sentir envergonhados. Mas os Senhores dos Relatórios, dos Observatórios, esses… andam a dormir. Tenho de dizer: obrigado! Obrigado, Presidente Pedro Pires, porque em 23 anos de execício do poder não roubaste o teu povo.

6 comentários:

Amílcar Tavares disse...

Gostei do post Virgílio.

Os cabo-verdianos deviam criar uma cultura de mérito, dando a César o que é de César.

Mas também foi "on his watch" que muitos se besuntaram no mel público. Fica esta pequena nódoa.

Para finalizar, suponho que terás uma escolha difícil entre Carlos Veiga e José Maria Neves, após a repartição de votos nas últimas eleições. Quais serão os teus parâmetros diferenciadores?

Abraço.

Virgílio Brandão disse...

Amílcar, chegaremos lá!

Não se pode, mesmo querendo, «tapar a boca do boi que debulha». Cada um responde por si, no plano das acções individuais, é claro.

Mas, Amilcar, quem foi que disse que a escolha vai ser entre estes dois? O que vier a sair do texto da Comissão da Revisão da Constituição é que irá determinar o quadro eleitoral de 2011.

Só depois deste facto (se se vier a concretizar...) é que saberemos, quem é que irá às Presidenciais e às Legislativas pelo PAICV. Há muitos factores, Amílcar, a serem considerados para as próximas legislativas (Carlos Veiga ainda não é líder do MPD, nem nada nos garante que José Maria Neves chegue lá como líder do PAICV).

Há 3 factores a considerar:

1. A revisão da Constituição no que diz respeito ao calendário eleitoral.

2. A Convenção do MPD, para se decidir a liderança; e as posições de dois grupos (já posicionados, ainda que forma mais latente que patente) que lutarão pela nomeação presidencial do seu mentor.

3. A reacção do PAICV - a seguir a Convenção do MPD, mas mais lá para o fim do ano. Se o José maria Neves mexer no Governo, meu caro, a questão dos parametros diferenciadores nunca se colocará, mesmo que o Veiga venha a ganhar ao Jorge Santos.

Penso que me entendes.
Abraço fraterno

Amílcar Tavares disse...

Tenho fontes que me confirmam a mudança no MpD e pelo ritmo das inaugurações e exposição mediática do PM, parece-me que será esse o cenário para 2011.

Cumprimentos.

HF disse...

Boas VB

Gostei do teu artigo sobre PP, não pelo que dizes, que sabíamos há muito que é verdade, mas pelo facto de se reconhecer este facto, que se tentou manchar em 1991, na campanha legislativa, das primeiras eleições pluripartidárias, que acompanhei-as de perto, como as demais até esta data.

O reconhecimento deve ser feito sempre, mas sempre das virtudes, das qualidades, da ombridade, e sobretudo, da verdade.

Como ele, o actual PR, há mais uns tantos e tantas em Cabo Verde, gracias.

Dia bom

;)

Helena Fontes

P.S. Por isso acredito que nem tudo que luze é oiro..., principalmente na esfera política crioula.

Virgílio Brandão disse...

Amílcar, O Carlos Veiga não avançaria se não tivesse as "espingardas" bem contadas...

Quanto ao resto, veremos.

Agora, o ritmo é mais do que o do Primeiro Ministro. O PAICV já começou a Campanha; o que não me admira. Mas o MPD é que ainda não percebeu isso; na verdade já deveria ter clarificado a questão da liderança há muito. A decisão do Carlos Veiga não é coisa que acontece agora, não... Mas, enfim.

Helena,
a verdade é como o azeite...

A dignidade das pessoas acaba, mesmo quando vituperada, por vir ao de cima no momento certo. Mas coisas há que só a dignidade e a honra interna nos serve.

Sei, os cabo-verdianos sabem quem é quem; mesmo com todo o tipo de propaganda que se possa fazer a favor ou contra as pessoas. Sim, felizmente temos homens bons e mulheres integras - de ambos os lados da barricada.

Salve-nos isso, pois "besuntadores de mel" (como diria o Amílcar) houve, há e haverá em todos os Governos. Infelizmente.

Prefiro falar das virtudes, do que acresce e não defeitos ou falhas (muitas vezes justificadas pelo tempo e lugar). Mas isso é outra outra questão.

Dia bom

PS: A propósito disto li o acórdão sobre a inpugnação da eleição do Conselheiro Varela, e (por estranho que te possa parecer)não me surpreendeu a decisão.

Amílcar Tavares disse...

Falei sobre isso ontem no meu blog. O MpD está a perder tempo e energia, e isso poderá lhes custar caro!