quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

  • DESLUMBRAMENTOS

    Milady, é perigoso contemplá-la,
    Quando passa aromática e normal,
    Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
    Com seus gestos de neve e de metal.

    Sem que isso a desgoste ou desenfade,
    Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
    Eu vejo-a, com real solenidade,
    Ir impondo toilettes complicadas!...

    Em si tudo me atrai como um tesouro:
    O seu ar pensativo e senhoril,
    A sua voz que tem um timbre de ouro
    E o seu nevado e lúcido perfil!

    Ah! Como me estonteia e me fascina...
    E é, na graça distinta do seu porte,
    Como a Moda supérflua e feminina,
    E tão alta e serena como a Morte!...

    Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
    Britânica, e fazendo-me assombrar;
    Grande dama fatal, sempre sozinha,
    E com firmeza e música no andar!

    O seu olhar possui, num jogo ardente,
    Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
    Como um florete, fere agudamente,
    E afaga como o pêlo dum regalo!

    Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
    E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
    O modo diplomático e orgulhoso
    Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

    E enfim prossiga altiva como a Fama,
    Sem sorrisos, dramática, cortante;
    Que eu procuro fundir na minha chama
    Seu ermo coração, como um brilhante.

    Mas cuidado, milady, não se afoite,
    Que hão de acabar os bárbaros reais;
    E os povos humilhados, pela noite,
    Para a vingança aguçam os punhais.

    E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
    Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
    Eu hei-de ver errar, alucinadas,
    E arrastando farrapos – as rainhas!
    ----- Cesário Verde
Imagem: Lola Luv

6 comentários:

Anónimo disse...

AMINATU HAIDAR

Já é tempo de dar visibilidade à luta desta mulher aí em Cabo Verde. Pela dignidade do povo Saraui escolher livremente o seu destino. Por um Sara Ocidental livre.
Divulguem sff.
Abraço
ZCunha

Virgílio Brandão disse...

Cunha, sigo há já alguns anos a luta do povo saraui... mas confesso-te que ainda não percebi o cerne (conjuntural) da questão em torno da greve de fome da Aminatu Haidar.

Uma coisa é certa: em Espanha ela não morrerá de fome. Se fosse da ETA, poderia dizer que dependeria do Juiz... e ficaria preocupado.

Abraço fraterno

Anónimo disse...

Oi VB

A associação da ETA (a ETA dos últimos 20 anos) à luta da F. Polisário é simplesmente infeliz. Os bascos já tiveram por diversas vezes o direito de se exprimirem a respeito, e possuem uma autonomia real que faz inveja a muitas independências. Mas nem é o caso deste assunto. É óbvio que ela não morrerá à fome em Espanha. Ela está em greve de fome se ainda não deste por isso. O cinismo nisto não ajuda. Esta mulher luta por um direito básico: regressar à sua terra e juntar-se à sua família (o que tu eu podemos fazer livremente, assim o permita a nossa vontade e as nossas carteiras). O resto nem me interessa. Na verdade o Sara Ocidental é uma daquelas vergonhas internacionais que nem tu nem eu provavelmente aceitariamos se onde se lê Sara Ocidental se lesse Cabo Verde.
Quanto à ETA o que sei hoje chega-ma. Tive nos idos de setenta a ilusão pela sua causa, e até alguma simpatia (sim são um povo e uma cultura perfeitamente diferenciados do resto de Espanha), até que resolveram converter-se no que são hoje, um bando de terroristas(assim mesmo, sem aspas), extorcionistas e assassinos a sangue frio e sem critério. Tendo perdido no terreno democrático todas as lutas, nomeadamente para o PNB, (cada vez têm menos espaço) resolveram fazer uma pseudo luta armada. Não confundas por favor o Povo Basco com a ETA. Há mais bascos para além dos Etarras. Muitos mais.
Aquele abraço.
ZC

Virgílio Brandão disse...

Cunha,
não fiz qualquer ligação da FP à ETA, man... nem poderia. Considero, sempre considerei, a ETA um grupo criminoso, já não digo, nunca disse, o mesmo da Frente Polisário e da sua luta (a mesma que nos levou a Independência, note-se).

O que quiz dizer é que as autoridades judiciais espanholas não deixarão a Aminatu Haidar morrer durante a greve de fome. É um problema político, mas o poder judicial já apareceu para dizer da sua justiça antes de poder e dever dizer dela...

(Notei, inclusive, um preocupante "conselho" velado para ela não arriscar a vida.)

Lembras-te dos anos oitenta? Dos casos que ocorerram em Espanha e Inglaterra (em particular o caso de Bobby Sands, do IRA) em que se usou a greve de fome para se "livrar" de pessoas indesejáveis e indejadas? Foi uma opção Política e da ordem da polícia judicial do país. Uma vergonha, mas esquecida por muitos...

O destino da Aminatu Haidar dependerá (além da sua vontade) do juíz, e da interpretação que der da lei que impede a sua alimentação forçada ou não... caso venha a perder a consciência no decorrer da greve de fome (O Supremo espanhol, na sua maioria será, hoje, favorável a sua alimentação forçada - intra venosa -, mas muitos juízes de primeira instância não pensam assim).

Foi esse o sentido, Cunha.

Mas tens razão em duas coisas:

(1) não se pode confundir o povo basco com a ETA - nem esta nem a do passado! O nacionalismo basco é, será, cada vez mais, um nacionalismo cultural. E parece-me que basta(rá).
(2) A questão do Sara Ocidental é uma vergonha no plano do Direito internacional Público e do Direito internacional Público dos Direitos Humanos, e para mim chega que o seja, independetemente do nome do povo ou nação que o sofre.

Vejo alguma diferença entre o Tibete e o Sara Ocidental? Sim: as diferenças são consideráveis, e militam todas a favor da causa saraui - e a culpa maior é da ONU que não toma as medidas necessárias para a efectiva autodeterminação e independência do Sara Ocidental.

Gostei de ver essa tua preocupação, pois, na verdade, estamos perante um povo que sofreu o mesmo jugo colonial que sofremos... e sofre, agora, outro. Sabes, és dos poucos cabo-verdianos que conheço que acredita em causas, e que diz isso. A moda, hoje, é outra...

Para terminar:
A luta de Aminatu Haidar é, como dizes, uma luta justa - ainda que tenha algumas reservas sobre alguns dados da questão, pois é política tout cour e não o de uma simples mãe que quer voltar a terra e ver os filhos... o que não retira mérito ou justiça à sua luta, pelo contrário.

Mas olha que, no plano do ddireto de uma cidadão poder voltar a sua pátria - que esta a ser negada à esta mulher - pode vir a ser negado a cidadãos cabo-verdianos se o Memorando de Revisão da Constituição vier a ser aprovado na questão da extradição: prevê-se a privação de nacionalidade a cidadãos por cometerem determinados crimes.

Como vês, Cunha, as lutas justas têm, sempre, ligações que nos escapam a primeira vista. O cinismo que me podes acusar, neste momento, é o de estar a migrar, lentamente, para a ideia de que o homem, além de egóísta, é mau, muito mau. Nem consolação da filosofia, e o colo da poesia me ajudam...

Abraço fraterno

Anónimo disse...

Meu Caro

A falar é que nos entendemos. Achei a tua primeira resposta demasiado "seca", distante, e até indiferente. Confesso que isso me apanhou desprevenido, vindo de quem vinha. Obrigado pelos esclarecimentos. Agora sim falou o VB que eu aprecio. Fraternalmente
ZCunha

Virgílio Brandão disse...

Sim,
falar é a essência da "socialização" - ainda estou para perceber este modismo linguístico... - de tudo. Por vezes fico em silêncio, o necessário para comprender.

O segundo §, sem o "greve de" ter-te-á induzir-te em erro, mas em erro de escrita da minha parte. It happens!

Digo-te, Cunha - e juro por Deus, pelos deuses e tudo o que amo sobre a terra:
No dia em que ficar indiferente ao sofrimento alheio, à desgraça do meu semelhante, seguirei o exemplo de Séneca, de Petrónio, de Catão - o Censor, de Amílcar Barak...

Abraço fraterno