quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

  • 2010 — PANEN ET CIRCENS
Não sou Funes, El memorioso, de Borges – mas não consigo deixar de pensar na História sempre que vejo algumas coisas, como, por exemplo, os discursos de Nicolas Sarkosy e de Berlusconi – do retomar da questão da identidade nacional à hitleriana “a culpa é deles”… i.e., dos judeus, dos imigrantes e so on. Lembram-me o Decreto de expulsão dos judeus promulgado pelos reis católicos Fernando e Isabel de Espanha. Mas também me lembram a tolerância de ponto para a inauguração do Aeroporto Internacional de S. Pedro em S. Vicente, luzes para o Natal em algumas zonas de Santiago e um sem número de acções e promoções do género (um Estádio nacional de futebol, um cinema há de aparecer no Mindelo, dinheiro para a cultura dos festivais e dos subsídios indirectos, as inaugurações frenéticas e outras marcas subliminares) que veremos até às eleições de 2011.
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Acção política previsível que lembra-me, vagamente, a acção de Ciro, Imperador dos persas. Depois de ter-se apoderado de Sardes, cidade capital da Lídia, e ter aprisionado o seu Rei, Creso de seu nome, viu-se perante uma revolta dos lídios. Não querendo destruir cidade tão rica e opulenta, nem estacionar um exército que a vigiasse e controlasse pela força, tomou uma resolução então inédita e extraordinária: mandou construir tabernas, uma imensidão de bordéis e toda a espécie de jogos públicos na cidade. Depois emitiu um Decreto em que obrigava os cidadãos lídios a frequentar esses locais.
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Os lídios (uma espécie de ascendentes de Nação Sabe P'kagá) deram-se tão bem com esta iniciava do Imperador persa que passaram a dedicar o seu tempo a divertir-se e a inventar jogos tais que se tornou desnecessário o uso da força para os controlar. Tornaram-se uma espécie de escravos de orelha furada. Daí que o nome latino para passatempo e jogo é ludi – o instrumento maior do poder para manter o povo alienado de si mesmo e, simultaneamente, contente, senão mesmo feliz. Daí os romanos, conhecedores desta lição política, terem como máxima política o aforismo panen et circens.
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O conselho que Agrippa e Virgílio deram a Octávio Augusto é perceptível – não há cientista político que o não saiba. Mas onde anda o pão? O Governo lá traz a promessa de luz a alguns sítios – a polémica em torno do INPS/ELECTRA, tendo contornos censuráveis, acaba, em termos propagandísticos, por dar um certo fôlego social ao Governo, por agora… – e a esperança para outros é uma arma propagandística terrível. O circo, vem aí! Chegará a seu tempo, certamente. E o pão, onde anda o pão? Tudo se resume ao pão, sempre foi assim. O ano de 2010 será, terá de ser, o ano do pão para quem quiser sobreviver a 2011. Delenda est Circens – é preciso destruir o circo.

Imagem: Chema Madoz

2 comentários:

Tchale Figueira disse...

Belo texto Virgilho. Ciro fez com os Lidios como eles fazem com Mindelo e as outras ilhas...

Assim vamos cantando e rindo tal o hino da mocidade portuguesa de Salazar...

TudO de bom para ti em 2010 e claro: DELENDA EST CIRCENS

Virgílio Brandão disse...

Política, meu Caro Tchalé... política.

Abraço fraterno e um Grande Ano!