quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

  • O EDEN PARK COMO AUDITÓRIO MUNICIPAL DE SÃO VICENTE

    O Eden Park tem preocupado muita gente desde há alguns anos, mas continua tudo na mesma – sem solução para a sua utilidade cultural (o problema não é, nem deverá ser, o facto do mesmo estar devoluto ou não). O facto de estarmos a cerca de um ano das eleições pode ter um efeito positivo na solução do problema. Segue uma
    Petição na internet apelando às entidades públicas para salvar o "património cultural e de memória da cultura nacional". Como mindelense, tenho as minhas dúvidas, hoje, de que o Eden Park seja "memória da cultura Nacional" – sendo que tenho, pessoalmente, belas e belíssimas memórias do local. Agora que é património do povo mindelense, não tenho dúvidas disso!

    Não assinei nem assinarei a Petição, quer por não me rever na forma e no conteúdo, quer porque as petições – mesmo quando são enviadas às entidades competente – têm o tratamento que têm em Cabo Verde. Quantos é que andam na Assembleia Nacional a apodrecer”, não é, ó Nuno Marques? Pois é… As entidades públicas e os cidadãos (promovi, há cerca de dois anos – quando a questão estava, como hoje, com foro de "acontecimento" de uma espécie de sylly season tardia ou de esgotamento temático –, a ideia dos cabo-verdianos na diáspora comprarem o Eden Park, sem feed back) há muito que sabem o que se passa com o Eden Park e não são petições que determinam as acções mas sim o timming político para se tomar as decisões. É preciso agir, sem delongas.

    O Eden Park é património dos mindelenses, e caso não tenha sido declarado Património Municipal, o Município dev(eria) declarar o edifício como Património Municipal e de Interesse Social e Cultural (pedir ao Ministério da Cultura que o declare de interesse cultural e nacional é pedir muito, não é? Se fosse outro Ministério ou outro Ministro da Cultura, seria questão equacionável). O que, em parte, impedirá a sua destruição para fins não culturais e, no plano jurídico, garantiria uma posição de preferência em caso de alienação – desde que não haja, entretanto, obrigações contratuais que devam ser cumpridas.

    Na verdade, o Município deveria adquirir o edifício – o que deveria ter feito há muito, diga-se en passant – e dar-lhe a utilidade devida: voltar a ser uma sala de espectáculos e de cultura digna da cidade do Mindelo. O Eden Park como um Auditório Municipal, e simultaneamente um cinema e centro de Exposições, seria um ganho para os mindelenses e uma vitória política considerável de Isaura Gomes e do seu executivo. O que se deve salvar não são os resquícios do passado, mas sim o futuro cultural de São Vicente – e o Eden Park pode e deve desempenhar um papel fundamental neste plano. É uma decisão que tarda, mas que ainda tem tempo. Os proprietários do edifício deverão ter em consideração o interesse objectivo da cidade, e alienar o edifício ao Município, por venda ou permuta com outros prédios municipais.

    Em caso de falta de liquidez do Município, que se recorra à Banca! O Eden Park, bem gerido, poderá ser auto-sustentável – mas mesmo que o não fosse, a população mindelense tem um handicap cultural que o Município pode e deve resolver. Se a ideia da Presidente da Câmara, Isaura Gomes, de criar uma Orquestra Municipal não estiver esquecida, e não creio que esteja, o Eden Park é, seria, o seu espaço natural – isso para além de servir como um Auditório multifacetado e digno para o Teatro, o Cinema nacional e outras formas de manifestação cultural das nossas gentes. Seria uma boa prenda de dia dos Reis que o Município daria aos mindelenses e uma forma de marcar o início da nova década.

    Não é o edifício em si que é importante, mas o que representa no plano cultural. Assim, não me chocaria de todo, e se calhar será um imperativo, que o Eden Park viesse a ser alargado em altura – respeitando a traça arquitectónica original – para dar lugar a um espaço moderno de lazer e que fosse uma extensão da Praça Nova. As possibilidades são imensas, o limite é a imaginação e a capacidade de inovar numa cidade social e culturalmente adormecida. Vamos ficar à espera, da capacidade de iniciativa e de fazer obra para o futuro.

    A Camara Minicipal de S. Vicente é que não deveria estar à espera do Governo – até porque o Ministro Manuel Veiga já disse que não tem verba inscrita no Orçamento do Estado. Isto é, demarcou-se da questão de fundo. A questão é de S. Vicente e dos seus cidadãos. Assim, que os representantes dos munícipes de S. Vicente façam o que têm de fazer. Res non verba (mais acção e menos palavra – em voz popular).

4 comentários:

JB disse...

Prezado Virgilio

O teu texto é completa e absolutamente contraditório com a frase inicial em que dizes que não assinas a petição porque estás contra a "forma e o conteúdo"da mesma. Estranho já que dizes praticamente as mesmas coisas, utilizando outras palavras. As mesmas coisas. Sem tirar nem por. E muito do que tenho defendido sobre este assunto no Café Margoso vai precisamente na mesma direcção. Estamos em sintonia, meu caro.

Tu pensas que já não sugeri, várias vezes, ao vivo e em directo, à actual Presidente de Cãmara aquilo que escreves neste texto? As respostas são sempre as mesmas: não pode impedir a sua demolição porque este edificio não está classificado (e pergunto: se ESTE não está, qual poderá estar?); e que não pode fazer nada porque se trata de uma propriedade privada.

Quando falas, "é preciso agir", esta petição funciona, fundamentalmente, como veículo de transmissão de testemunhos, como forma de pressão e como forma de os interessados participarem enquanto cidadãos num debate que é do seu interesse.

Aliás, se esta petição serviu, entre outras coisas, para que uma pessoa como o Virgilio tenha escrito um texto válido, coerente e construtivo como este, já terá valido a pena. Mas vai servir para mais. Já tive o contacto de alguns emigrantes que sugerem a criação imediata de uma comissão, com vários representantes, para contactar, de imediato, os donos do imóvel e a cãmara, e fazer a ponte contribuindo para um possível negócio que faça com que este património seja preservado. Se for com a utilização que sugeres, e muito bem, que assim seja, Mindelo agradece, naturalmente,

Abraço fraterno e um bom 2010.

João Branco

Virgílio Brandão disse...

João,
estamos em sintonia, sim, no que diz respeito a necessidade de se ter um espaço cultural digno no Mindelo para a promoção da cultura, assim como o Eden Park é uma referência arquitectónica e cultural da cidade que deve ser preservada.

Não existe contradição entre o texto em si e o facto de não assinar a Petição. Expliquei, em parte, as razões para não fazê-lo. Assim como, como deves ter reparado, não assinei a Petição de apoio ao Procurador Moeda – não por ser solidário com tais acções mas por uma questão de princípio.

São outras razões, que não vêm ao caso e não acrescentam nada de substancial à questão em si – até por saber que caiem, como tu mesmo dizes (as respostas…), em “orelhas moucas”.

Mas não é o Município que deve decidir a qualificação do imóvel, ó João? Enfim… não é o Município que deve decidir a qualificação da utilidade pública e interesse municipal do imóvel? Enfim… As desculpas que referes faz-me lembrar o dito alentejano de que “quem não sabe dançar diz que a sala está torta”.

João, existe uma infinidade de soluções! O Município pode(ria), por exemplo, adquirir o imóvel e, posteriormente, criar uma Sociedade Anónima em que os cidadãos – nas ilhas e na diáspora – poderiam adquirir acções da mesma e assim ter-se uma parceria Público/Privado que desse sustentabilidade económica a um projecto cultural que vá para além do “salvar” o edifício em si. Mas isso não é coisa que possa ou deva ser feito com alarido, por diversas razões facilmente inferíveis.

O Município e o Governo não têm mostrado interesse em resolver a questão Eden Park porque a cultura – pensam alguns – não dá votos. Mas estão enganados, e espero que percebam isso agora. “Sem falta de visão o povo perece”, já dizia o profeta.

Percebo o efeito lobby da Petição… e espero que funcione neste plano.

Mas isto deve levar-nos a pensar no tipo de democracia que temos… uma democracia megalómana em termos geográficos. Imagine que o cidadão mindelense pudesse sujeitar à Assembleia Municipal um projecto de decisão sobre o Eden Park? É nestas coisas que a nossa democracia é frágil, que o processo de revisão da Constituição é um circo serôdio… que a cidadania cabo-verdiana é uma cidadania lateral.

Há muito mais para além do que parece, ó Prezado João Branco. Por vezes penso que precisávamos de uma nova República ou de uma República próxima das pessoas e da realidade, de ter uma municipalidade próxima da estrutura decisória dos cantões suíços.

Abraço fraterno, e que a felicidade te seja amante.

PS: Ah, aí em terra-longe ouço o que se diz por aí… não somente na rádio, mas na “rádio” mindelense… também.

JB disse...

Virgilio, concordo com quase tudo o que escreves. Mau para a discussão, mas neste caso é agradável que haja consensos. De resto, não faço ideia se existem instrumentos LEGAIS e/ou JURÍDICOS para classificar edifícios, seja por municípios seja pelo Governo. A não ser pela Lei Constitucional que, se não estou em erro, consagra o direito á conservação do património histórico, seja ele o construído seja o imaterial.

Abraço e bom 2010

Virgílio Brandão disse...

João,
existe lei, sim. Se não é aplicado, é outra coisa...

Abraço fraterno,
e que a nova década nos traga algo de novo e de bom.