sábado, 12 de Dezembro de 2009

  • DUAS CABEÇAS, DOIS PAÍSES?
A abertura das hostilidades entre José Maria Neves e Carlos Veiga fez-me lembrar Janos Bifrons. O Millenium Challenge Account II é uma boa almofada, mas não há sombra de bananeira, não. Outro mas: não somos o Biafra, não. A natureza das coisas, da situação e a ciência vertida em praxis determinará o que o povo dirá em sentença de urna em 2011. Entretanto, é bom lembrar que enquanto uns vivem por dois ou três – com pessoas a duplicar e triplicar empregos, cargos, funções e respectivas remunerações –, o povo sobrevive no fio da navalha do milagre doméstico.

Duas visões diferentes do país? Ou será que são duas perspectivas diferentes de ver e de analizar a realidade? Talvez seja, ou talvez sejam ambas as coisas. “Em casa de pobre todos ralham e ninguém tem razão” – diz voz antiga, do vulgo é claro. O povo tem outra perspectiva, uma terceira via de ver, diz-me o meu poeta. Quis saber qual, e diz-me:

— O povo vive com um emprego, e faz contas ao salário em tremissis.

Imagem: Janus Bifrons, na cara da primeira moeda circular de cobre a ser emitida em Roma.

4 comentários:

Anónimo disse...

Oi Brandão

És mesmo mauzinho. Tinha logo que ser em tremissis?

O problema que aí invocas não é 'nosso'. É um complexo mui lusitano que herdamos. O Complexo do 'Mas'. As coisas entre nós (Portugueses e Caboverdianos) podem sempre piorar como sabes. Mas melhorar ... quase nunca. Por melhor que se faça, ou que se esteja há sempre um mal fadado 'MAS' a empatar, a puxar para baixo. Principio de realismo? Nem pensar. Dou-te um exemplo, parecido com este caso do MCAII. (guardei o recorte do jornal, mas não sei neste momento aonde o pus) Noticiava há dias o jornal Público em título de 1ª página que Portugal era um dos países com melhor índice de implantação de e-governement (ou qq outra coisa parecida, pouco importa), o que sendo uma boa notícia, e aparentemente noticia suficiente, tinha um complemento que concluia mais ou menos nestes termos, "...mas Espanha está melhor do que nós em..." (não importa em quê). Este exemplo não é a história do copo MEIO CHEIO ou meio vazio (tema do teu Post). É o sintoma de uma doença mais profunda. Um complexo antinarcisismo, vergonha de se olhar, de se ver, (no caso caboverdiano algumas vezes dá-se o oposto, somos quase bons em tudo). Uma incapacidade de ver o que está bem, e o que é bom. E é atávico. Temos de fazer oposição à nossa própria autoestima. Se é bom, não pode ser nosso. Se está bem, o mérito é de outros. Se somos bons, há melhores. Se fizermos bem, outros farão melhor. Não, não é insatisfação (bom seria!). Quem le os jornais de Cabo Verde encontra um país visto por olhos equizofrénicos. O Governo diz que está tudo bem. A oposição diz que vai tudo mal. Os jornais, dizem uma e outra coisa com variantes para todos os gostos. Os países terceiros dizem que somos um exemplo (pela positiva). HELP!!!!!!!!!!!!
zc

Virgílio Brandão disse...

Cunha,
tremissis está bem, não achas? E nem falei nos 20% que nem isso…

Eu não sou pessoas de sofre desses complexos, concordo contigo: nunca estamos satisfeitos. Agora, a realidade e os números, em macro economia dos países sub-desenvolvidos e em desenvolvimento, raramente casam. Temos de ter em consideração o seguinte: o MCA é um paliativo com objectivos determinados – no fim veremos se os objectivos foram ou não alacançados (espero que sejam) - e não o âmbito regular da gestão do país.

Mas (sim), diz-ne: depois dos elogios da Hillary Clinton, como é que a Administração Obama poderia deixar Cabo verde do MCA II?

Mas é verdade: os cabo-verdianos receiam o mérito, têm medo de que o “outro” – seja quem for e no que for – seja melhor ou possa fazer melhor do que ele, e é por isso que todos são os melhores do Mundo. Como alguém disse um dia: “Graças a Deus existem os EUA”, senão diríamos que somos a maior e melhor potência do Mundo.

É assim mesmo – uma questão estrutural de mentalidade de povos com limitações geo-politicos e estratégicos, confinados de todas as formas e que procura justificações externas para o que é ou não é. É algo análogo ao racismo do pobre ao “outro” étnico ou racial – mesmo que seja rico e poderoso.

O «mas» que lês aqui é um aviso: o MCA não é a panaceia nacional, nem será. Pode ser que, no plano político, possa trazer – e trará, certamente – alguns benefícios ao Governo, mas não pode ser vista como aferidor da medida da “boa governação” ou uma recompensa da mesma (que é um discurso perigoso, boomerang até…).

O país deve ser visto de forma mais profunda, e tenho a impressão de que não é isso que acontece em muitas, demasiadas coisas.

Os elogios externos valem o que valem, a auto avalição, também; assim como a crítica de oposição dve e tem de ser sutentada. Mas – e este não me parece ser mesmo imperativo – a verdade é “quem sabe do Convento é quem vai lá dentro”, isto é: o povo é que sabe, as gentes governadas dirão a seu tempo se estão ou não, se se sentem ou não bem governadas.

Por isso, e mais… todos devemos ter consciência da nossa realidade.

Bem, tenho de sair…
Abraço fraterno

Amílcar Tavares disse...

Estou tranquilíssimo sobre a questão do MCA. Há tempos escrevi um artigo sobre o assunto e fui lá ao site deles pesquisar. O Congresso escrutina o programa ao cêntimo e os benchmarks têm que ser cumpridos e não há volta a dar-lhe.

Agora, essa classe política analfabeta nossa tem que perceber que não é isso ajuda muito mas não vai resolver todos os problemas do país.

Virgílio Brandão disse...

Amílcar, as pessoas pensavam que era o dinheiro do MCA que iria resolver os problemas do país – aproximadamente, que o Real Madrid pagou pelo Cristiano Ronaldo – mas já viram que não.

E onde é que gerir fundos públicos, dados e de que se tem de prestar contas, é algo de extraordinário? Construir o país para os desafios do futuro, sim – esta é a tarefa extraordinária a que somos convocados.

O Real Madrid e o Barcelona gastaram este ano com as suas equipas de futebol mais do que os dois programas do MCA… só para se ter uma ideia da dimensão dos valores.

Demasiadas euforias só amesquinha a nossa terra, encurta outros espaços de manobra negocial e não dá a melhor imagem de nós mesmos. Merecemos mais do que estas atitudes. Acho que chamar analfabeta à nossa classe política não é bonito, mas percebo a hipérbole.

Temos de ser ambiciosos. E esta questão lembrou-me um texto do Humberto Cardoso sobre a liderança (Líderes precisam-se), e que merece ser relida:
http://humberto.cardoso.googlepages.com/l%C3%ADderesprecisam-se

Abraço fraterno