terça-feira, 8 de dezembro de 2009

  • A LINGUA CABO-VERDIANA E OS ESTABELECIMENTOS DE ENSINO

    Acabo de ouvir o Ministro da Cultura, Manuel Veiga, na RCV… e tenho de perguntar: — "Será que os cabo-verdianos não percebem que a questão do cabo-verdiano não passa pela revisão da Constituição?" O cabo-verdiano é língua oficial do Estado de Cabo Verde desde de 1992, e se não é usado no ensino — a todos os níveis – e se não é ensinado nas mesmas não por falha constitucional mas sim por inércia governamental. Mas eu percebo as razões fundamentais para se alijar a questão para a Constituição, quer do ponto e vista do Governo quer da Oposição. Mas sobre este ponto, continuarei, por agora, a manter a reserva do silêncio pois não sou nem serei o único a ver e dizer o que toda gente vê e não quer dizer.

    Agora, ao ouvir o
    Ministro Manuel Veiga na RCV – em entrevista que deu esta noite à mesma Rádio resulta que o mesmo nunca parou para fazer uma pergunta que todo o cientista faz, deve fazer, ao seu objecto: — "Qual é a tua natureza?" A resposta seria: – "Eu sou um direito, uma liberdade e uma garantia fundamental dos cabo-verdianos." E é por isso que o Ministro da Cultura não diz de forma clara que o cabo-verdiano não ser objecto de referendo!

    A Constituição de Cabo Verde não permite referendos sobre os direitos fundamentais, nem os cabo-verdianos podem ser impedidos de ensinar em cabo-verdiano ou os alunos de o falar nas aulas, excepto, é claro, de aulas de línguas estrangeiras, nomeadamente o francês ou o inglês. Mais, sendo um direito fundamental, os estudantes podem, sem poder ser sujeitos a quaisquer constrangimentos, responder às questões de um teste ou exame em cabo-verdiano — desde que o escreva de forma correcta. É neste aspecto que o ALUPEC poderia ser útil e revela algumas virtualidades (a forma como se fazem as coisas desvirtuam o valor das acções). Mas o Governo quis dar um passo sobre espinhos sem calçar botas adequadas, e o povo sofre, agora, as consequências de uma acção desacompanha de suporte técnico, científico e sociológico adequados.

    A questão das condições é, em certa medida, uma falácia argumentativa no plano jurídico-sociológico, pois continua-se a ter uma leitura enviesada do sentido do Artº.9º. da CRCV pois a norma não é uma norma programática tout court, ainda que tenha um sentido programático a que o Estado, ao caso o órgão de soberania Governo, não deu a atenção devida até ao momento. A questão é saber se o Governo irá, neste ano que entra, promover a formação de professores – ao nível superior – na língua cabo-verdiana e esclarecer qual é a sua política para a língua cabo-verdiana e a sua necessária valorização. O problema não é a Constituição – quantas normas é que temos na Constituição e que não são respeitadas, o cabo-verdiano inclusive? –, nem a elaboração de estudos e mais estudos que consomem os recursos do Estado para não se ver resultados práticos para o povo. Actis non verba.

    Ah, gostei de ouvir o Ministro Manuel Veiga admitir que existir lobbies a impedir "oficialização" do cabo-verdiano. Fez-me sorrir, pois o que a maioria dos cabo-verdianos pensa é que existe um lobbie a querer o ALUPEC como língua cabo-verdiana. Tentará o Ministro um efeito boomerang? Deu para me provocar um sorriso. E o entrevistador, mais uma vez, esqueceu-se de um Decreto-lei de Março de 2009… Porque será que ninguém vê essa lei alupekana, alupecadora? A Constituição é o problema, dizem. Mas não, a Constituição, a que querem mutilar, não é a solução, mas tem a solução. O que eu sei é que não sou da Lídia; ah, isso não!

4 comentários:

Et disse...

O Ministro tem muito para dizer no domínio da Linguística Cv, mas numa entrevista onde o entrevistador parecia ser parte do lobbie que defende a não-oficialização, sem argumentos... Sabemos que o Alupec é radical, todavia uma ferramenta útil para o que se quer: ensino-aprendizagem da LCv à nova geração.
Agora, pena é que esse jornalista não se preparou para fazer essa entrevista. Jornalista não tem que ser linguísta... enfim para lamentar!

Virgílio Brandão disse...

ET,
tudo o que é radical - no mau sentido - é desumano e destituido de razão.

O ALUPEC não deve ser enterrado por causa dos radicais e tachistas que andam à sua volta, mas os seus mentores têm de perceber que há que repensar o sistema e os procedimentos - em particular estes.

Sobre o jornalismo em CV (e em qualquer parte do Mundo): tudo depende, sempre, do trabalho de casa. E de coragem de perguntar o que deve ser perguntado, é claro...

O jornalista nem percebeu o tom de despedida do discurso do Ministro da Cultura... mas também não foi só ele, pois não?

Abraço fraterno

Et disse...

VB, quis chamar “radical” ao alupec (bases para a nova escrita da LCv) na medida em que corta “bruta e abruptamente” alguns laços sentimentais com a escrita espontânea do passado.
Não me parece que haja tachistas, talvez haja taxistas que andam à procura de uma única linha de orientação para a escrita científica para a LCv. Taxistas que querem escrever a Língua que falam na sua comunidade (Ler - Escrever – Ler).
Bem, mas era de haver tachistas suficientes, seriam esses “ as botas adequadas” e necessárias. Como não as houve em quantidade e em qualidade o resultado é o que se conhece.
Esse Jornalista, acho que não quis perceber na hora ou, se tpc não fez, foi apanhado na curva? Não. Deixou-se apanhar…
(Um)A Novidade de toda entrevista está nesta premonição do ego “… mas eu, eu… eu, eu estou tranquilo, e saio do governo e vou fazer outras coisas, eu sei trabalhar, eu sei fazer muitas coisas. Eu sei fazer até agricultura (…). Então, quer dizer, o governo para mim não é profissão. Nunca foi. (…)”.
Esses 10 anos no Governo, senhor Jornalista, foram 10 longos anos de…
Enfim, mesmo na hora di bai, o senhor MC não quis, ou não soube “mastigar” convenientes as palavras /mensagens antes de as lançar ao povoléu. … teremos um MV agricultor?
VB, como gosto desse “abraço fraterno”. Mas sobretudo fraterno!

Et. (e não ET, faz alguma diferença? Nim.)

Virgílio Brandão disse...

Et,
este é "o bom sentido" de radical... que demanda ciência, ponderação, timing. Senão acontece o que aconteceu a Pertinax: tinha boas ideias, boas intenções... mas fora do timing, e, aplicadas, resultou na sua desgraça.

Tudo o resto, não me importa: cada uma faz o que pode da vida. Desde que não prejudique ninguém ou a res publica… ok, para mim. Tachistas ou taxistas, para mim resulta igual, o problema é, sempre, os procediementos, a transparência. Ah, a transparência...

Há muita gente em Cabo Verde – e pelo Mundo fora, em particular nos países pouco desenvolvidos – que tem medo da competência e por isso faz-se tudo ou quase tudo na surdina. O nosso maior problema não é a corrupção tout cour mas sim o tráfico de infuências: levo-te ao colo hoje, amanhã levas-e a mim, ao meu amigo ou quem eu pedir...

Gostaria de ver o Ministro Manuel Veiga a dar uma de Chandragupta e ir para o interior de Santo Antão ou Santiago, cultivar a terra. Teria a sua graça, lá isso teria…

Sobre o entrevistador… tem, da minha parte, o benefício da confiança devida e não me atrevo a caucionar o que diz, ó Et! Mas é a terceira vez que ouço o Ministro da Cultura, Manuel Veiga, e perguntam sempre a mesma coisa ao homem. Evitam as perguntas incómodas, como as entrevistas belas e assertivas que aperecem nos jornais, e em que o entrevistado negoceia as peguntas e depois escreve as respostas.

Faz toda a diferença, não faz?
Os silêncios são, cada vez mais, preocupantes…

Abraço fraterno, fraterno como a humanidade deveria ser