domingo, 21 de dezembro de 2008

AS CITAÇÕES. DE AGRIPA AO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE CABO VERDE
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As citações são coisas terríveis…

Procurava uma Lei sobre o sistema tributário cabo-verdiano no site da Imprensa Nacional de Cabo Verde (uma iniciativa muito, mas muito aplaudível!) e, por curiosidade insatisfeita, fui verificar se as imprecisões e os erros de citação do Acórdão nº 24/2008 do Supremo Tribunal de Justiça (enquanto Tribunal Constitucional), publicado na I Série do Boletim Oficial da República de Cabo Verde tinham sido expurgados do texto publicado pelo referido Tribunal Supremo. Mas não!, foi publicado assim mesmo… o que, infelizmente, não me surpreendeu.

Voltei à minha leitura, à Filosofia Oculta de Cornélio Agripa. Mas não é que deparei-me com uma citação de Virgílio que me pareceu estranha… mas familiar. Fui em busca da citação e do seu sentido, estranho no contexto e forma de citação. «Meris perdió la voz porque los lobos le vieron primero», cita, de Virgílio (sem nota bibliográfica, como era comum no século XVI), Agripa, Filosofia Oculta, Livro I, Cap. XX. A referência aos lobos disse-me que só poderia ser uma passagem das Bucólicas, de todo. Não me enganei, e lá encontrei a passagem do magnus Virgílio, na Écloga IX, 85-91:

“Os anos tiram tudo; até tiram a memória:
Lembro-me que, sendo ainda mancebo,
A cantar passava os dias inteiros.
Hoje esquecido estou de muitos versos.
Meris não tem a mesma voz que tinha,
Os lobos virão a Meris primeiro.”

De Agripa tenho que esse trata de uma traição da memória ou da tradução; dos Conselheiros, tenho como certo se tratar de uma falta de rigor necessário. Mudam-se os tempos mas não muda a finitude da nossa memória e a sua propensão para o erro e o equívoco. Ficaria bem aos Juízes Conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça uma maior proficiência na elaboração dos acórdãos, nomeadamente no que concerne às obras referenciadas.

Bem, fico por aqui… a minha mãe está a fazer chamuças e eu sou o provador oficial dos temperos, além de que é Natal e azucrinar cabeças alheias é, neste período, pouco simpático. Lá vou eu, qual menino mindelense que lambia as terrinas de fazer bolos de Natal, fazer de Neemias familiar…

2 comentários:

Jonas disse...

O menino da mamã!!!

Virgílio Brandão disse...

É Jonas... tens razão. E sensibilidade feminina, também. :-)

Ah, viste o post de 5 de Dezembro: «De Renoir ao Seixal...?

Belo Natal para ti e para o teu peixinho (será, também, filho da mamã? - pergunto-me).