quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

  • QUANDO O ÓDIO TRIUMFA

Serei eu que estarei a ver mal? Deve ser… a maioria tem sempre razão, não é? Vox populi vox Dei. Mas… a verdade é que eu, não raras vezes, discordo do que de Deus se tem escrito, logo, prima facies, dEle. Mas deixando Deus no seu canto a olhar para nós, a sua crise. O facto é que o Mundo tornou-se tão estranho que as pessoas que criticam o mal e a maldade aplaudem um acto de agressão. A qualidade da vítima não justifica o acto em si. O bem, lentamente, vai morrendo na alma das pessoas, vencido, pela irracionalidade gerada pelo mal que tanto afronta os homens bons. Com ele morre, também, os que amamos.

Imagino, daqui do sobrado da minha alma, George W. Bush a perdoar o homem (seria uma acção muita assertiva politicamente para o Presidente, mas uma má mensagem como factor de prevenção do crime em geral – o que muita gente não entende ou não quer entender) e a recostar-se no seu Rancho texano na companhia da sua querida Barbara e uma garrafa de Jack Daniels (essa madava-lhe eu, pois sei que o agarraria e iria para os prados matar as mágoa, calar o mal da História que o afronta e deixaria o mundo em paz). Os que aplaudem o mal, deveriam, também, envergonhar-se da sua lucidez vestida de ódio subliminar, emoldurado pelo mal, e carpir as mágoas da sua inconsciência.

E, enquanto todos aplaudem o acto odioso, o agente do mesmo irá enfrentar a justiça e sofrer as consequências do seu “heroísmo”, sem palmas... Irá, durante algum tempo, haver algum ruído em volta da questão, ma acabará esquecido por todos os que acham belo o que fez – basta aparecer o “facto novo” da perspectiva dos Media. É a desumanização global da acção, da razão… é sempre assim, quando o ódio e a irracionalidade triunfam e servem de exemplos. Quero é ver o que fará o pai e a mãe, que aplaudem o atirador de sapatos e de beijos de indignidade, quando o seus filhos atirarem sapatos ao professor odioso, ao Ministro tido como incompetente, ao agente do Estado corrupto… Deixamos que sejam semeadas coisas estranhas no nosso ser, e depois ficamos surpresos com a colheita. E perguntamos, então, why, why me?...

Lembro-me, agora, de um poema do Papa João Paulo II, Shores of Silence (13) numas das suas obras (Karol Wojtyla, Poems, Vatican, 1979, p.18):
[…]
«God and the universe dwelt at the heart,
but the universe was losing light,
slowly becoming the song of His Reason,
the lowest planet»

Pois… pode-se semear outras coisas e o triunfo pode não ser do mal. Sim, tenho de concordar com Salomão, «o que estraga a vinha não são as raposas, são as raposinhas». Libelinhas, libelinhas… devem ser escutadas.

  • Imagem: O jornalista Muntadar al-Zaidi atirando o sapato ao Presidente Bush.

2 comentários:

Joshua disse...

Estás demasiado maniqueista.
Penso que a maioria das pessoas não aplaude o gesto do jornalista iraquiano no que tem de agressivo. As pessoas são apenas humanas e a todos nos diverte quando apanhamos o outro numa situção rídicula ou cómica especialmente se esse outro é um homem poderoso.

Virgílio Brandão disse...

Talvez... talvez tenhas alguma razão, mas a questão, de todo, mais profunda que a tradicional «tarte», tomate ou ovo pobre.

O mal grassa pelo Mundo e vai invadindo o intimo das pessoas, silenciosamente. O pior é que não nos apercebemos disso. Dizia Baudelaire que «a maior artinha do Diabo é convencernos de que não existe».

:-)