domingo, 21 de dezembro de 2008

  • O SUICÍDIO COMO (DES)VENTURA E O HOMEM DEUS

Impressiona, mas a segunda causa de morte em Portugal é o suicídio, sendo um ¼ dos mesmos pessoas idosas. Este último facto não me surpreende, se se considerar a forma socialmente desumana como são tratados os que construíram com sangue, suor e lágrimas – invocando Churchill no seu melhor – a sociedade que hoje beneficiamos. Hoje, sem dúvida, o velho adágio popular de que «velhos são os trapos» ganhou o sentido de que os velhos são trapos, pois são, em regra, abandonados à sua sorte pelas suas famílias quando passam a ser um empecilho social. Infelizmente, não me admira este sentido da sociedade portuguesa.

Mas uma coisa devo dizer, porque é justo: o actual Governo português tem feito algum esforço – não sei se dentro da reserva do possível… – para melhorar a vida dos idosos, nomeadamente com o aumento substancial das reformas que, por razões económicas (às vezes só por essa razão), acaba por ancorá-los nas famílias. Os maus tratos silenciosos emergentes da indiferença, o sentido de se ser um fardo para as suas as famílias ajudará, em muito, a um desfecho de vida não sonhada ou desejada mas que, em dada perspectiva, é uma lição de dignidade profunda, um acto de afirmação da vontade de se sentir humano na decisão, de afirmação uma humanidade radical no ocaso da existência…

A vida é preciosa; demasiado, se calhar… a única coisa que se cruza no seu caminho, qual areia na praia, é a vontade. Só se deve viver enquanto se tiver medo da morte, diria Kierkegaard. Enquanto não se tiver a coragem de Séneca ou do Capitão Gancho para procurar a maior aventura? – pergunto eu.

Por vezes contendo comigo mesmo a convencer-me do erro judaico-islámico-cristão de ver a vida como nada mais do que um estádio pré eternidade; isto é, a vida como nada menos do que um esboço carnal do continuum existencial. Mas se assim é, porque o suicídio é visto como um atentado contra a vida, contra a existência? Na verdade, parece-me, existe um contra senso nesta ideia que vem das memórias dos antigos, pois não é verdade que Jesus Cristo, o meu Mestre, cometeu suicídio?

Sim, suicídio; pois quem poderia ou pode matar Deus – se exceptuarmos os devaneios nihilistas – senão o próprio Deus? Mas isso, mesmo considerando o romance que existe no universo – da perspectiva do panteísmo cristão – é uma questão de liberdade, de escolha; análoga, mas diferente em substância de análise, à eutanásia. Se Deus pode escolher morrer, porque o cidadão desgraçado e sofredor não pode? Só porque não é Deus? Chega não ser tudo? Qual é a medida de diferença da vontade de Deus e da vontade do homem? Seria bom escutar Tomás de Aquino, mas deixemo-lo… não quero invocar o direito à rebelião justa…

Poderão dizer-me, até, que Deus é Deus e que o homem é o homem; que são seres existencialmente diferentes. Concordo, em parte. A parte que concordo é a de que a humanidade é substancialmente diferente da divindade não revelada; isso porque o homem, esta humanidade disforme e capaz das coisas mais hediondas, é, segundo o salmista, um pouco menor do que Eloha – o Deus criador… mais: participa da natureza divina, dizia S. Paulo aos cidadãos de Éfeso. Sim, de jure e em substância somos Deus. O nosso destino, parafraseando Paul Billheimer, é o trono da existência. Indo mais longe, à conclusão panteística necessária, direi que o nosso destino é ser Deus em si mesmo, em todas as coisas.

Coisa estranha… e depois, não creio que haja alguma Laura à espera de versos, dúzias de virgens para serem desfloradas por homens no ocaso dos dias ou por crianças da vida; não, não creio que se possa viver os Lusiádas – a do calói e a do poeta – no outro lado da aventura. Nesta perspectiva, escolher viver é mais sábio; ainda que escolher a morte de Séneca seja mais livre, mais divino na acção. Se calhar, Deus até que tem razão… mas o melhor é mesmo viver!, sacrificar a liberdade e a ventura de escolher agir como Deus. Como dizia Terêncio Homo sum: nihil humani a me alienum puto. É mais humano. E o mais humano do humano, está no darwinismo, no conatus essendi de Espinosa.

Por isso Hórus foi levado para o Egipto, fugindo de Set; por isso Maria e José seguiram os mesmos passos, em direcção ao Egipto, para a vida. Assim nasceu o Natal, conto arcano dos deuses dos faraós africanos que, desaguando em Armarna, Akhenaton legou-nos essa epifania prima do Deus único. O nascimento glorioso do Sol, Solstício de inverno, nascimento da vida, Natal...

Afinal, os deuses também morrem na memória e ao homem, esse sobrevivente das eras, resta viver como bom despenseiro do tempo, um bom gestor de talentos. Invocando Séneca: «Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O facto é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos; nem somos dela carentes, mas somos esbanjadores» (Séneca, Sobre a Brevidade da Vida, I.1). “Quero ser homem, viver desventuras mil. Se quiserem que seja Deus, de facto, terão de me levar; com o meu pé, não vou!” – diz-me o meu poeta. Subscrevo as palavras do meu poeta, se bem que dispensava as desventuras e nunca ter de gritar: Ely, Ely

E, hoje, 21 de Dezembro, nos confins dos tempos, nasceu o Natal.

  • Imagem: Alexis Akrithakis, Idéogramme suicidaire (1978)

1 comentário:

Ariane Morais-Abreu disse...

E se postulamos que Deus nao existe e nao pode existir, seria outra a lotaria!! Erraram na contagem e o nascimento do Osiris inspirou o Natal daquele que condiciona mais de 2008 anos da nossa historia egipto-grego-judaico-crista... Que miscelana para "injustificar" a existência humana!! E os maltratos de que sofrem os velhos do mundo actual de autoconsumaçao que veneramos até morte. Em França também a condiçao de velho nao esta melhor e a canicule que fez uma "hecatombe" em agosto 2003 na populaçao dos idosos isolados deixa perplexo quanto ao degrau de civilizaçao de uma sociedade dita moderna, desenvolvida e rica!! Um sinal talvez dos tempos vindouros... Quem pode entao condenar o direito de decidir da sua propria morte?!!